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Full text of "Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa"

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MEMORIAS 

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ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS 

DE LISBOA. 



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HISTORIA 

E 

MEMORIAS 

D A 

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 
DE LISBOA. 

Nisi utile est qtiod facimus , stulta est gloria. 

TOMO V. Parte I. 




LISBOA 

NA TYPOGRAFIA DA MESMA ACADEMIA. 

I 8 I 7. 

Com licença de SUA MAGESTADE. 






Bisa Of 




PRIVILEGIO. 



E> 



/U a RAINHA Faço saber aos que este Alvará virem : 
Que havendo-me representado a Academia das Sciencias 
estabelecida com Permissão Minha na Cidade de Lisboa , 
que comprehendendo entre os objectos , que formão o Pla- 
no da sua Instituição , o de trabalhar na composição de hum 
Diccionario da Lingoa Portugueza , o mais completo que 
se possa produzir ; o de compilar em boa ordem , e com 
depurada escolha os Documentos que podem illustrar a His- 
toria Nacional , para os dar á luz ; o de publicar cm sepa- 
radas Collecçoes as Obras de Litteratura , que ainda não 
forão publicadas ; o de instaurar por meio de novas Edições 
as Obras de Auctores de merecimento , e cujos Exemplares 
forem muito antigos , ou se tiverem feito raros ; o de tra- 
balhar exacta e assiduamente sobre a Historia Litteraria 
destes Reinos; o de publicar as Memorias dos seus Sócios, 
das quaes as que contiverem novos descobrimentos, ou per- 
feições importantes ás Sciencias e boas Artes serão publi- 
cadas com o titulo de Memorias da Academia , ficando as 

* ou- 



outras para servirem de matéria a separadas e distinctas Col- 
lecçócs, nas quacs se dê ao Publico cm Extractos e Traduc- 
ções periodicamente tudo o que nas Obras das outras Aca- 
demias , c nas de Auctores particulares houver mais pró- 
prio , e digno da Instrucçao Nacional ; e finalmente o de 
fazer compor, e publicar hum Mappa Civil e Littcrario, 
que contenha as noticias do nascimento, empregos, e ha- 
bitações das Pessoas principaes , de que se compõem os Es- 
tados destes Reinos, Tribunaes, ou Juntas de Administra- 
ção da Justiça , Arrecadação de Fazenda , e outras particu- 
lares noticias, na conformidade do que se pratica cm ou- 
tras Cortes da Europa : E porque havendo de ser summa- 
mente despendiosas , tantas , e tão numerosas as Fxlições 
das sobreditas Obras , seria fácil que a Academia se arris- 
casse a baldar a importante dcspeza , que determina fazer 
nellas ; se Eu não me dignasse de privilegiar as suas Edi- 
ções, para que se lhe não contrafizessem , nem se lhe reim- 
primissem contra sua vontade , ou mandassem vir de fora 
impressas , em detrimento irreparável da reputação da mes- 
ma Academia , e das consideráveis sommns que nellas de- 
verá gastar : Ao que tudo Tendo consideração , c ao mais 
que Me foi presente em Consulta da Real Meza Censória, 
á qual Commetti o exame desta louvável Empreza ; Que- 
rendo animar a sobredita Academia , para que reduza a ef- 
feito os referidos úteis objectos , que o estão sendo da sua 
applicação : Sou servida Ordenar aos ditos respeitos o se- 
guinte : 

Hei por bem , e Ordeno , que por tempo de dez an- 
nos contados desde a publicação das Edições , sejão privi- 

le- 



siin o% 



legiadas todas as Obras , que a sobredita Academia das Scicn- 
cias fizer imprimir c publicar ; para que nenhuma Pessoa ou 
seja natural , ou existente , e moradora nestes Reinos as pos- 
sa mandar reimprimir , nem introduzir nelles sendo reim- 
pressas em Paizcs Estrangeiros: debaixo das penas de per- 
dimento de todas as Edições que se fizerem , ou introdu- 
zirem em contravenção deste Privilegio , as quaes serão 
apprehendidas a favor da Academia ; e de duzentos mil reis 
de condenação , que se imporá irremissivelmente ao trans- 
gressor , e que será applicada em partes iguaes para o De- 
nunciante , e para o ^ospital Real de S. José. 

Exceptuo porém da generalidade deste Privilegio aquel- 
les casos , cm que as Matérias , que fizerem o objecto daa 
Obras que publicar a Academia , apparcçao tratadas com va- 
riação substancial, e importante; ou pelo melhor methodo, 
novos descobrimentos, e perfeições scientificas se achar, que 
difFerem das que imprimio a Academia : sendo o exame e 
confrontação de humas e outras Obras feito na Real Meza 
Censória , ao tempo que se conceder a Licença para a im- 
pressão das que fazem o objecto desta Excepção : Encar- 
regando muito á mesma Meza o referido exame , e confron- 
tação ; para consequentemente conceder , ou negar a Licen- 
ça nos casos occorrentes e circunstancias acima referidas. 
Nesta Excepção Incluo as Obras particulares de cada hum 
dos Sócios ; porque estas só poderáõ ser privilegiadas , ou 
quando forem impressas á custa da Academia , ou quando 
os seus próprios Auctorcs Me supplicarem o Privilegio pa- 
ra ellas. 

Hei outro sim por bem , e Ordeno , que sejão igual- 

* ii mcn- 



mente privilegiadas pelo referido tempo todas as Ediçóes, 
<^ue a referida Academia fizer de Manuscriptos , que haja 
adquirido : com tanto porém que delias não resulte prejuí- 
zo ás Pessoas , que primeiro os houverem adquirido , ou lhes 
pertenção pelos titulos de Herança , ou de Compra , e te- 
nhâo intenção de os imprimir por sua conta. E para que a 
este respeito haja alguma Regra , que attenda á utilidade 
publica , e á particular : Determino , que a Academia pos« 
sa imprimir os referidos Manuscriptos ; ou logo que mos- 
trar que seus donos não querem imprimi lios ; ou que ha- 
vendo elles declarado quererem dallos^á luz, o não fizerem 
no prefixo termo de cinco annos , que neste caso lhes serão 
íssignados para os imprimirem. 

Hei outro sim por bem , e Ordeno , que na generali- 
dade do Privilegio, que a referida Academia Me suppiíca, 
c lhe Concedo na sobredita conformidade para a reimpres- 
são das Obras ou antigas, ou raras, ou de Auctores existen- 
tes , fiquem salvas as Obras que a Universidade de Coim- 
bra mandar imprimir; ou porque sejâo concernentes aos Es- 
tudos das Faculdades, que se ensinão nella ; ou porque sen- 
do compostas por Professores delia , as mande imprimir a 
mesma Universidade , como hum testemunho publico dos pro- 
gressos , e da reputação litteraria dos referidos Professores : 
E fiquem igualmente salvas a$ outras Obras , que actualmen- 
te estão sendo ou impressas, ou vendidas por algumas Cor- 
porações, e por Famílias particulares, e que nellas tem em 
certo modo constituído ha muitos annos huma boa parte da 
sua subsistência , e património ; e a cujo beneficio Poderei 
privilegiallas , ou prorogar-lhes os Privilégios que tiverem. 

Hei 



r\ 



Hei por bem finalmente, e Ordeno, que na concessão 
do Privilegio , que igualmente Concedo na sobredita con- 
formidade , para a referida Academia publicar o Mappa Ci- 
vil e Litterario na forma acima declarada , fiquem salvos os 
Privilégios seguintes , a saber : o Privilegio concedido aos 
Officiaes da Minha Secretaria de Estado dos Negócios Es- 
trangeiros , e da Guerra para a impressão da Gazeta de Lis* 
boa : o Privilegio perpetuo da Congregação do Oratório pa- 
ra a impressão do Diário Ecclesiastico , vulgarmente cha- 
mado Folhinha : c o Privilegio que Fui servida conceder a 
Félix António Castrioto para o Jornal Encyclopedico : Para 
que em vista dos referidos Privilégios, e das Edições que 
fazem os objectos delles , se haja a Academia de regular 
por tal maneira na composição do referido Mappa Civil e 
Litterario, que de nenhum modo fiquem oflfendidos os mes- 
mos Privilégios , que devem ficar illesos. 

E este Alvará se cumprirá sem duvida , ou embargo 
algum , e tão inteiramente , como nelle se contém. 

E pelo que : Mando á Mcza do Desembargo do Paço , 
Real Meza Censória, Conselhos da Minha Real Fazenda, 
e Ultramar; Meza da Consciência e Ordens, Regedor da 
Casa da Supplicação , Governador da Relação e Casa do 
Porto , Reformador Reitor da Universidade de Coimbra , 
Senado da Camará da Cidade de Lisboa , e a todos os Cor- 
regedores, Provedores, Ouvidores, Juizes, Magistrados, e 
mais Justiças, ás quaes o conhecimento e cumprimento des- 
te Alvará por qualquer modo pertença, ou haja de perten- 
cer ; que o cumprao , guardem , facão cumprir , e guardar 
inviohivelmentc , sem lhe ser posto embargo , impedimen- 
to. 



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to, duvida, ou opposiçao alguma, qualquer que ella seja: 
para que a observância delle seja inteira , c tão litteral , 
como nelle se contem. E Mando outro sim ao Doutor An- 
tónio Freire de Andrade Enscrrabodcs , do Meu Conselho , 
Desembargador do Paço , e ChanccUcr Mór destes Reinos , 
que o faça publicar na Chancellaria , c que por ella passe : 
ordenando que nella fique registado , e que se registe em 
todos os lugares , em que deva ficar registado , e conve- 
niente for á sobredita Academia, para a conservação e guar- 
da dos Privilégios , que neste Alvará lhe Tenho concedido. 
Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda aos vinte e 
dois de Março de mil setecentos oitenta e hum. 



RAINHA-i 



Visconde de Villa nova da Cerveira, 

Ahará pelo qual Fossa Magestade , pelos motivos nelle men- 
cionados , Ha por bem conceder á Academia das Sciencias , esta- 
belecida com a Sua Real Permissão tia Cidade de Lisboa , o Pri- 
T/ltgio por tempo de dez annos \ para poder imprimir privativa- 
mente todas as Obras , de que faz menção : com excepções e modi- 
ficações , que vão nelle expressas ; e com as penas contra os trans- 
gressores do referido Privilegio. Tudo na forma acima declarada. 

Para Vossa Magestade ver. 



Registado nesta Secretaria de Estado dos Negócios do Reino em o 
Liv. VI. das Cartas , Alvarás , e Patentes a fl. 9 j j^. Nossa Senhora da 
Ajuda 7 de Maio de 17ÍÍ1. 

Joaquim J»ii Borralho. 



António Freire (I'AnJraJe EnserraMet Grátis. 

Foi publicado este Alvará na Cliancellaria Mor da Corte e Reino, 
pela qual passou. Lisboa de Maio de 1781. 

D. Scbaiiiáo MaUonaJo. 



Publiqiie-se , e tcfiste-se nos Livros da Chan- 
cellaria Alor do Reino. Lisboa \% de Alaio de 1781. 

António Freire d'Antlrade Enserrahodei. 



Registado na Chancellaria Mor da Cotte e 
Reino no Liv. das Leis a fl. j4 V- Lisboa 19 de 
Maio de 1781. 

António José de Moura. 
João ChryíotUmo de Faria e Sousa de Vaseaneellos de Sá o fez. 



Registado na Chancellaria Mor da Corte e Rei- 
no no Liv. de Officios e MercCs a fl. 68. Lisboa 21 
de Maio de 1781. 

Matheus Rodrigues Vianna. 



íiaa OT 




HISTORIA 

D A 

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 
DE LISBOA 

PARA O ANNO DE l8l<í. 

Discurso recitado na Sessão publica de 34 de Junho de J 8 1 6 

PELO VICE-SECRETARIO 

Francisco de Mello Franco. 



OEnhores. a Academia tinha na sua mão a livre esco- 
lha de qualquer dia do anno para as suas Sessões publi- 
cas ; mas com muita razão escolhco este , qiie hc o de São 
João , Nome do Principe Regente Nosso Senhor. Dois fo- 
rão os motivos , por que se determinou a esta deliberação : 



Toin. V. 



I. 



II Historia nA Academia Real 

i." para render com todos os bons Portuguezcs respeitosa 
vass.illagcm a S. A. R. , 2.° para deste modo mostrar em 
publico seu profundo agradecimento a tantas Graças , que 
da sua Aiigustn Alao tem sempre re zebido. S. A. R. nosso 
amabillissimo Príncipe, scguio constantemente para com a 
Academia as liberaes intenções de sua Soberana Mai , que 
foi sua Augusta Fundadora ; e para ainda mais a honrar , 
concedeo, depoisque faltou o Ex.'"" Duque de Lafões, seu 
primeiro Presidente, que o fosse o Sereníssimo Snr. Infante 
D. Pedro Carlos , seu querido Sobrinho , e Genro de saudosa 
memoria para todos nós : c por sua falta sobre maneira exal- 
tou sua Real Benevolência, dando-lhe por Presidente a seu 
mesmo Filho o Sereníssimo Snr. Infante D. Miguel , que 
Dcos guarde. Quanto não deve a Academia prezar , como 
preza , tão singular Presidência , digna de fazer emulação 
a todas as Corporações litterarías ! 

Accresce hoje a estes hum terceiro motivo , tal he o 
de suavisar, celebrando o dia de seu Nome, a viva sauda- 
de, que a sua fatal e inevitável ausência nos causou, e vai 
causando. Não o temos hoje diante de nossos olhos , co- 
mo por tantas vezes nos honrou neste mesmo lugar com a 
sua Real Presença: não o temos, he verdade, mas scja-nos 
de consolação saber que de lá mesmo do outro hemisfério , 
lá dos seus vastos Estados do novo Reino do Brasil tem 
a sua Academia sempre presente , pois sempre a honra , e 
a protege. Mas figuremos, SenJiores, por hum pouco com 
a nossa imaginação, que tudo pôde , figuremos que S. A. R. 
hoje nos faz o mesmo que já fez; e reverente continuo. 

Sei perfeitamente quão árdua he a empreza de fallar 
em publico , e muito mais , perante hum auditoria compos- 
to de illustres Sábios, a quem não podem escapar as minhas 
mais ligeiras falhas. Não he porém voluntariamente que te- 
nho a honra de occupar hoje a vossa benigna attençao : elei- 
to pela Acadertiía para seu Vice-Secretario , sem embargo 
de reconhecer em mim grande falta dos predicados , que 
exige similhante emprego, e de ser elle pouco compatível 

com 



HML-i oi 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. iir 

com os laboriosos e pezados encargos da minha profissão , 
não quiz rcgeitar , como máo filho , a distincçao , comque 
tanto me honrava : porque huns pensando rectamente toma- 
rião a minha escusa , quando a fizesse , no sentido natural e 
verdadeiro , quero dizer , pelo reconhecimento que tenho 
das minhas tão acanhadas forças ; outros todavia seguindo di- 
recção -contraria , tcrião para si , que talvez no meu coração 
existisse huma humildade farisaica , que serve muitas vezes 
de capa ao mais refinado orgulho. Fugindo por tanto de 
dar hum passo , que podesse ser problemático , acceitei re- 
conhecendo , quão obrigado me devia considerar á benevo- 
lência da Academia. 

Não julguei então , que sobre meus fracos hombros 
viesse a recahir tão grande pezo , que legitimamente per- 
tence a outros de força em todo o sentido mui superior , 
os do nosso digníssimo Secretario o Snr. José Bonifácio de 
Andrada e Silva , que já por vezes em dia similhante at- 
trahio , e á força de sua eloquência dominou toda a vossa 
attenção. Os multiplicados embaraços dos seus empregos , 
que actualmente o afastarão da Capital, fazem com que eu 
inesperadamente suppra as suas vezes. Vós , que por mais 
de huma vez o ouvistes , julgarieis mui facilmente , quão 
longiquo e espaçoso he o horisonte dos seus profundos co- 
nhecimentos em diversidade de matérias , e não menos em 
apurada litteratura. Vós , que tendes de me ouvir agora , não 
ficareis duvidosos da tenuidade de meus talentos , e do quão 
pouco seelevão os voos da minha rasteira eloquência. Será 
hoje a vossa situação a meu respeito parecida com a de hum 
viandante , que tendo andado por caminhos planos e delei- 
tosos , respirando hum ar puro e embalsamado de variado 
perfume das singellas flores campestres, se vê constrangido 
a trilhar outros mal abertos em fragosas e alcantiladas pe- 
nedias áridas , escalvadas , e cobertas de montões de neve : 
porque sendo eu occupado por dever na meditação dos fe- 
nómenos da magnifica Natureza em geral , e com particula- 
ridade dos da complicada organisaçâo do homem , nunca me 

* 1 ii so- 



IV Historia DA Academia Real 

sobrou tempo bastante para cultivar as flores da encantadora 
eloquência , que aliás nada influe nos resultados de filosófi- 
cas observações ; as quaes muito pelo contrario requerem 
exacta reflexão , que hc sempre inseparável do recolhimen- 
to e taciturnidade. 

Do exposto , Senhores , obviamente se deduz huma con- 
clusão , que me será mui favorável , c vem a ser , que sen- 
do obrigado a tomar sobre mim tão avultado peso , e que 
não sendo annexo á minha profissão ser orador , estou no 
caso de merecer toda a vossa indulgência no tosco e rude 
Discurso , que tenho a honra de recitar na vossa respeitá- 
vel presença. Será elle dividido em duas partes: na i." pro- 
curarei mostrar as vantagens extraordinárias , que das Scien- 
cias e Artes resultão a todos os Povos : na 2.* exporei em 
breve o que se tem passado no seio da nossa Academia des- 
de 3j do ultimo Junho até o dia de hoje. 



RIMEIKA rARTE. 



O 



Homem , quando nasce , he sem duvida hum ente di- 
gno de toda a commiseração ; pois vem ao mundo por ef- 
Feito de multiplicadas e pungentes dores , que parecem di- 
lacerar as entranhas em que fora gerado: e a sua primeira 
acção, quando se desencarcera do claustro materno , he dar, 
e repetir supplicantes vagidos , como se com elles quizes- 
se commover a compaixão de quem o ouve. Nasce nú , e 
inerme , bem difierentcmente da generalidade dos outros 
animaes, que vem desde logo vestidos, e com os rudimen- 
tos das armas , que lhes são concedidas pela próvida Na- 
tureza ; a qual cautellosa os dota com as faculdades de po- 
der andar , correr , e procurar os soccorros , que demandão 
suas particulares necessidades : nas o homem na sua infân- 
cia 



ái3u or 



DAsSciEMCrASDeLlSBOA. V 

cia muito ao revéz tem de ser por alguns annos , sob pe- 
na de morte , em tudo c por tudo soccoriido. ^ Será por 
ventura madrasta somente da espécie humana a grande, a 
ineffivel Natureza , mãi caridosa de tudo o que creou ? Não , 
Senhores, quem o proferisse, seria blasfemo. Elia he tam- 
bém nossa mãi , e mãi mui terna : mas os destinos do ho- 
mem são outros e transcendentes ; c por isso devem ser di- 
versos os seus princípios , e meios. 

Esta absoluta dependência , em que nasce, he necessá- 
ria para se realisarem os altos fins, para que fora creado ; 
e entre elles o primeiro , quanto a mim , he fazelo sociá- 
vel : porquanto auxiliado pelos pais , e parentes , atéque 
principia a ter certo uso de razão, o que leva sete e mais 
annos, não pôde deixar de ser sensivel ás aíFeiçocs de ami- 
sade , reconhecimento , e por ultimo de costume. 

He portanto indubitável , que elle he por necessidade 
sociável ; e aindaque estas primeiras sociedades de familia 
ou patriarchaes sejão no seu principio resummidas , devem 
com o andar do tempo tornar-se numerosas. Mas , como 
nasce em perfeita ignorância de todas as cousas , e nutre 
cm seu coração o gérmen das paixões , que com a idade se 
vão desenvolvendo , não deixarão aquella e estas de produ- 
zir reciprocas desavenças , inimisades , e toda a sorte de 
desordens. Então a necessidade , lei suprema não só do mun- 
do fysico , mas também do moral , o obriga a entrar de cer- 
to modo em si , examinando , quanto permitte sua rude bar- 
baria , os meios de evitar os males , que cada hora os affli- 
gcm : e eis-aqui a origem dos primeiros dictames das So- 
ciedades , que são no seu originário estado tradicionaes j 
eis-aqui hum remoto começo de sua civilisação, que he ain- 
da tão informe como o mármore , que vem bruto para as 
mãos do destro e hábil Escultor, que lentamente o vai des- 
bastando , atéque o transforma com seus delicados cinzéis 
em huma bella c elegante estatua, que nenhuma demonstra- 
ção pôde então dar do que fora no seu primeiro ser. Don- 
de claramente se deduz , que a .infância de todas as Nações 

he 






VI HisToniA DA Academia Rkal 

he cheia de rudeza e de superstições ; he , em huma pa- 
lavra , hum perenne manancial de mil barbaridades. 

Vejamos o que forão , segundo Heródoto , os Schytas , 
que sacrifícavão ao seu Dcos Marte a quinta parte dos pri- 
sioneiros, que faz ião , e que aos restantes tiravão os olhos. 
O anniversario do Rei era solemnisado com a morte de cin- 
cocnta de seus Officiaes. Os que habitavao no Ponto Euxi- 
no sustentavão-se da carne dos estrangeiros , que alli apor- 
tavão. As pessoas de maior idade erao immoladas por seus 
próprios parentes , que se banqueteavão com a sua carne. 
Outros similhantes desvarios , segundo os mais antigos His- 
toriadores , tiverão os primeiros Persas , e os Romanos nos 
primitivos tempos da sua Republica. Por conseguinte a ida- 
de de ouro , que dizem haver acompanhado as Nações nos 
seus principios , foi huma deleitosa fabula , que sérvio de 
entretenimento á fecunda imaginação dos Poetas; pois, se 
dermos credito aos annaes de todos os povos antigos, e se 
reflectirmos no que se observa em os nossos dias assim na 
America , como em Africa , sempre a barbaridade foi pre- 
cursora do regular estabelecimento de todos ellcs. 

Houve , he verdade , hum fenómeno politico , huma 
Republica de soldados tidos por virtuosos , único povo po- 
bre por constituição , e pela mesma obrigado a desprezar 
a cultura das faculdades intelectuaes , e a dar-se exclusiva- 
mente aos exercícios do corpo ; bem sabeis que fallo de 
Sparta : mas era huma pequena Republica ; j e quão curta não 
foi comparativamente a sua duração ! E quanto não era a 
sua legislação maculada de paradoxos , e até de crimes au- 
thorlsados ! taes erâo a barbaridade dos senhores para com 
seus escravos ( e havia escravos ! ) ; a dureza dos pais , a ex- 
posição dos filhos , os roubos permittidos , o pudor viola- 
do tanto na educação , como nos casamentos ; e não sabe- 
mos mais , porque as particularidades da sua historia nos 
são mui pouco conhecidas, por terem sido alli desconheci^ 
das as letras. Por consequência esta celebre e admirada Re- 
publica nada prova contra as Sciencias y antes pelo contrario 
he muito em seu abono. Mas , 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. VII 

Mas , Senhores , assimcomo os corpos fysicos regu- 
larmente impcllidos tonião certa carreira , vencendo os ob- 
stáculos , que são da sua competência , atéque lentamente 
se retardão , e vem por fim a parar , para depois com no- 
vo impulso receberem outra acção ou no mesmo , ou em ou- 
tro qualquer sentido ; da mesma sorte as faculdades moraes 
do homem, huma vez que se ponhão em movimento, de- 
vem andar hum certo caminho , marchando sempre do sim- 
ples para o mais composto, e do menos perfeito para o 
mais perfeito , atéque completando o seu circulo , voltem 
ao ponto , donde partirão : mas neste caso ficão sempre , co- 
mo debaixo das cinzas , faiscas scientificas , que só esperão 
tempo opportuno , para delias resurgirem. 

Não só pois as necessidades inherentes á espécie hu- 
mana , mas também a sua natural curiosidade a obrigarão a 
buscar o melhoramento de todas as suas cousas. Viviao os 
homens em choupanas mui toscamente fabricadas , mal de- 
fesas, e de quasi nenhuma commodidade. Não tinhão por 
vestido senão as pclles dos animaes , que matavão , c os pro- 
ductos de alguns vegetaes , que ageitavão ao seu uso. Se 
o homem pois tivesse hum instincto limitado , como os ou- 
tros animaes , cada hum na sua ordem , deveria parar nes- 
tes seus primeiros inventos : mas a Natureza lhe liberalisou 
o sublime dom da perfectibilidade , paraque com incança- 
vel trabalho , e longo tempo passasse por degráos do pouco 
ao muito, e do muito ao seu máximo, que he inderermi- 
navel. 

Seria fastidioso e Intempestivo mostrar agora , o como 
já por necessidades , já por accasos aproveitados, e já pela 
sua innata curiosidade , e indagação dos fenómenos , que 
ião observando , poderão estas primeiras associações de in- 
dividues chegar a tão admirável civilisaçao. j Mas quantos e 
quantos séculos não decorrerão , antesque tanto bem se con- 
seguisse ! Direi somente , que em todos elles o Supremo 
Arbitro do Universo faz apparecer sobre a terra homens , a 
quem concede engenho , e talentos superiores , os quacs ser- 
vem 



VIII Historia da Academia Real 

vem como de faróes , poronde a multidão se governa , e 
evita os escolhos , que a cada passo se encontrão neste 
tempestuoso mar do nosso mundo. Elles são os que obser- 
vando o coração do homem, e reflectindo maduramente nas 
maravilhas da Natureza , huns ensinão , quacs são as leis ac- 
commodadas aos climas , e aos paizcs , cm que vivem ; as 
quacs pela sua filosófica combinação enlação todas as clas- 
ses de cidadãos , indicando a cada hum os seus deveres : 
outros pelas suas meditações , pelos seus cálculos , pelas suas 
repetidas experiências arrancão, por assim dizer, aviva íor- 
ça dos recônditos arcanos da Natureza riquíssimas preciosi- 
dades , com que se esclarece , e se dilata o horisonte dos 
nossos conhecimentos. 

Os annaes das Sciencias, e da Litteratura fazem (vós 
hem o sabeis ) honrosa e agradecida menção dos nomes des- 
tes varões preclaros, que consummírao seus dias na indaga- 
ção das verdades religiosas , moraes , politicas , e fysicas ; 
por eflíeito das quaes tomarão hum polido realce os Povos 
assim antigos , como modernos. No meio da numerosa serie 
de todos elles reluzem agora na minha imaginação , como 
astros brilhantes, Hippocrates judicioso e profundo observa- 
dor da maravilhosa organisaçâo humana em ambos os esta- 
dos de saúde e de moléstia ; cujos escriptos ainda hoje em 
dia são como texto magistral para os mais conspícuos Mé- 
dicos ; e porque soube ler no livro da verídica Natureza , 
suas obras durão, e duraráõ tanto , como a Mestra, que as 
dictára. Sócrates , por antonomásia o virtuoso Grego , que , por 
querer melhorar com seu exemplo e doutrina a moral de 
seus concidadãos , foi por hum Tribunal invejoso e iníquo 
mandado envenenar com virulenta cicuta ; mas intrépido mor- 
reo ensinando a seus amigos é discípulos a immortalídade 
da nossa alma , e os sagrados e recíprocos deveres do ho- 
mem na sociedade ; doutrina , que foi a causa da sua mor- 
te: Platão, seu eloquente discípulo, nobre, grande, e ma- 
gestoso cm algumas das suas obras , foi em Metafysíca e 
em Moral para seus contemporâneos assombro , e para os 

pri- 



DAsSciENCIASDeLiSBOA. IX 

primeiros Padres da Igreja Auctor da maior contemplação; 
e, apczjr de intromctter na sua politica algumas idéjs ab- 
stractas c impraticáveis, não se pôde duvidar dos grandes 
conhecimentos, que havia adquirido neste ramo, se r;.flectir- 
mos na resposta que dêo aos Sicilianos , quando o consul- 
tarão sobre o que devião fazer, isto he, se restabelecer a 
Monarchia absoluta , ou o governo popular ? ao que Platão 
simplesmente respondeu : « Hum Estado nunca he feliz nem 
j> debaixo do jugo do despotismo, nem na licença de hu- 
» ma grande liberdade, O mais sábio partido he obedecer 
" a Reis , que respeitem da sua parte certas leis ; porque 
j> a excessiva liberdade , e a pezada escravidão produzem 
" pouco mais ou menos effeitos similhantes. " Estas pou- 
cas palavras deixão ver claramente , que Platão tinha idéas 
sãs , e profundas nesta difficil Sciencia de governar os ho- 
mens. 

Continua ainda a passar pela minha lembrança a gran- 
de serie de tantos Filósofos Gregos , que todos trabalharão 
incançaveis na cultura das Sciencias , ennobreccndo com seus 
desvelos a gloria da sua Pátria, onde ellas com as bellas 
Artes suas filhas de tal maneira se exaltarão , que sem te- 
meridade se pôde dizer , que a Grécia dcveo tudo ás Scien- 
cias , e que o resto do mundo deveo tudo á Grécia : pois 
por hum eíFcito natural da vicissitude das cousas humanas 
passarão para Roma ; e desta famosa Capital , depois de hum 
eclipse de séculos , sahírao debaixo das cinzas em que es- 
tiverão sepultadas, e se espalharão pela Europa então do- 
minada por tantas Nações barbaras ; e desta parte do Glo- 
bo se forão difFundindo pelas outras , como raios derivados 
de hum astro luminoso , creador , e benéfico. 

^ Mas até onde , sem me sentir , vou dirigindo meus 
pensamentos ? He preciso não abusar da vossa indulgente 
paciência , que tacitamente me manda parar na longa car- 
reira , em que me ia enredando ; e por isso em breve cor- 
rerei pela memoria os tempos que nos são mais visinhos. 

Tow;. V. * 2 Des- 



X Historia da Academia Real 

Desde aquella feliz época da restauração das letras 
^ quantos sábios Filósofos não tem apparecido, e não vão ho- 
je mesmo apparecendo sobre a face da terra , cujos esforços 
unidos tem incrivelmente melhorado a condição dos ho- 
mens? Seria inv.ncnsa a lista, que de seus nomes quizesse 
f.izer em qualquer repartição das Sciencias ; porque se os 
Egypcios , se os Gregos , se os Romanos forão celebres pe- 
los homens celebres , que os sublimarão , a Europa moder- 
na , amdaque em alguns ramos os não tem assas imitado, 
cm outros os tem sobremaneira excedido. Proferirei para 
prova da minha assersão os immortaes nomes de Verulamio , 
de Newton, de Locke , de d'Alembert, de Buffon, do in- 
feliz Lavoisier . . . . e poderia por largo tempo ficar referin- 
do os de outros muitos Escriptores da primeira ordem , a 
quem o mundo hc devedor de innumeravcis descobrimentos 
da maior utilidade para todas as Nações em geral. 

Mas , Senhores , devo lembrar-vos , que nada do que 
sahe das mãos do homem , tem o cunho da perfeição : j tal 
he a sorte humanai ^"Como podemos pois esperar que os 
Filósofos não errem .'' O magestoso Templo das Sciencias 
hc huma obra vastíssima , que nunca será concluída ; mas 
que á força de aturadas diligencias se tem magnificamente 
elevado. Verdade he que o trabalho de cada Sabio de persi 
he de pouca monta em huma empreza tão ampla e tão 
extensa : o trabalho porém de cada Sabio deve de necessi- 
dade entrar nella. ^ Quantos artífices não concorrem , cada 
hum da sua parte, para a construcçâo de qualquer edificio ? 
Hum só nada faria, todos juntos com mcthodo e diligencia 
vem por fim a sahir com o que pertcndem. ^ Que succede-- 
ria , se cada hum delles esmorecendo á vista de suas pou- 
cas forças desistisse do trabalho começado ? Graças pois se- 
jão cordialmente dadas a tantos Varões illustres e veneran- 
dos , que cm rodos os tempos antigos , modernos , e prcsen- 
t:s se empenharão , e empenhão em esclarecer por tantos 
meios o entendimento humano , sacrificando não digo já 

ca- 



ítsa oi 



DAS SciENClAS DB LiSBOA. XI 

cabedaes , e socego , senão até a própria existência ! ,; Que 
elogios não devemos tributar a estes Heroes generosos , 
que tanto trabalharão , e escreverão para os seus contempo- 
râneos , e não menos para os vindouros ? Se por ventura 
não tivessem aproveitado os sublimes talentos, com que os 
(lotara o Supremo Dispensador de todos elles , mui pouco 
nos teriamos affastado da rude condição dos primeiros ho- 
mens. 

Apparecêrão engenhos transcendentes , que profunda- 
mente se derão ás Sciencias mathematicas , que são a cha- 
ve de muitas das outras : e delias procedeo o que com tan- 
ta utilidade se conhece da Mechanica , da Hydraulica , da 
Fysica , da Arte militar , &c. Observarão esses inunensos Glo- 
bos luminosos tão assombrosamente distantes do nosso pe- 
queno Planeta ; calcularão suas respectivas massas , e distan- 
cias ; e isto que no principio pareceria talvez vã curiosida- 
de , veio a ser huma das mais úteis sciencias , convém a sa- 
ber , a Astronomia. He ella quem leva como pela mão os na- 
vegantes atravéz da vastidão dos mares com o soccorro da 
singular propriedade do Iman , que nossos antepassados to- 
marão por frivolo enigma da Natureza : o que serve para 
provar , que ainda o que nos parece fútil , e de nenhum 
préstimo , não deve ser desprezado pelos Filósofos ; porque 
muitas cousas nos pareceráõ hoje assim , que talvez dêm de 
si para o futuro muito interessantes resultados. 

A navegação , considerada por qualquer lado que seja , 
he utilíssima ao género humano ; pois por meio delia he 
que os Povos germanisárão , e vierão a considerar-se quasi 
como huma só familia ; por meio delia se communicão as 
Sciencias , e as Artes ; por meio delia se amacião nossos 
costumes , e se estabelece a indispensável tolerância ; por 
meio delia se supprem nossas reciprocas necessidades ; e sem 
ella finalmente poucos progressos poderíamos ter feito como 
Nações civilisadas. 

Porque o tempo he escasso , direi simplesmente , que 
muitos e muitos abalisados Médicos, Fysicos, Chymicos , 

* 2 ii Ci- 



XII Historia da Academia Real 

Cirurgiões , &c. tem feito grandes descobrimentos nos seus 
respectivos ramos ; e que , ajudando-se todos mutuamente , 
tem levado estas importantes Sciencias a hum notável auge 
de utilidade publica. ^ Qiie benefícios não tem colhido del- 
ias a mais bemfazeja de todas as artes , que conhecemos , 
quero dizer , a Agricultura ; a qual por cffeito de novos in- 
strumentos , c de novos methodos de cultivar a terra a obri- 
ga a pagar com usura o suor de quem a lavra ? j Que com- 
modidades não offcreccm a todas as Nações essas Cidades 
e Vilias regular e saudavelmente edificadas ? O seu commer- 
cio interior , que se não poderia fazer sem estradas , sem 
pontes , sem canaes , &c. ? ^ Que menos se pôde dizer de 
tantas , tão multiplicadas , c difFcrcntissimas Fabricas , as 
quacs todas como á porfia contribuem para satisfazer assim 
as nossas precisões, como as nossas commodidades ? 

Atcqui fallava eu das Artes , a que costumão cha- 
mar mechanicas ou fabris , as quaes são em todas as Socie- 
dades mais ou menos da primeira precisão. Verdade he que 
as denominadas liberaes não são immediatamente necessárias 
para a existência dos Povos ; mas quando elles tem chega- 
do a hum sobido gráo de civilisação , não podem deixar 
de as pôr em pratica , e de as aperfeiçoar , como no-lo-tem 
mostrado a historia antiga e moderna de todas as Nações. 
^ Que homem civilisado e de bom senso deixará de se to- 
car , e de se render mesmo aos encantos da Poesia , da Mu- 
sica , da Pintura , &c. ? j H que são ellas senão a imitação 
das bcllezas da portentosa Natureza ? Direi mais : esta pro- 
pensão nasce com o homem; pois entre os mesmos Bar* 
baros sem excepção alguma se encontrão os rudimentos de 
todas as bellas Artes; porquanto todos tem suas canções, 
que a seu modo entoão ; todos tem seus rudes e informes 
instrumentos , que tal e qual tocão ; todos se adornão , e 
se pintão com certa symetria. A civilisação pois , obra de 
séculos , he quem tudo aperfeiçoa , porque aperfeiçoa o en- 
tendimento humano: e podemos calculala ao certo pelo au- 
ge 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XHI 

ge maior ou menor , em que se acharem as Scicncias , e 
todas as Artes. Nem ha que debater , que os homcní; em 
gera! trabalhão incançaveis para assegurar sua necessária e 
commoda subsistência , mas depois de a conseguirem , pro- 
curão pela maior parte os prazeres moraes , que são muito 
mais próprios de seres dotados de razão, e perfectibilida- 
de, doque os fysicos , communs a todos os animaes. Logo 
as bellas Artes, que julgo congénitas com a nossa espécie, 
são também como de primeira necessidade entre as Nações, 
que tem chegado a certo gráo de maior civilisação. 

Embora tenha havido espíritos melancholicos , e para- 
doxistas , que as hajão considerado como propagadoras do 
luxo; è embora affirmem , que este seja o precipicio dos 
Estados : mas huma grande Nação não pódc occupar a to- 
dos os que a compõem , em agricultar as terras , e em as 
defender como soldados, pois restão muitos, que por falta 
de occupação entregues ao ócio serião o flagello das Socie- 
dades ; as quaes sendo necessariamente compostas de opulen- 
tos , abastados , e pobres , hão mister que daquelles vivao 
estes , para assim se equilibrarem , quanto cabe na boa eco- 
nomia politica , as differentes fortunas ; nem preciso trazer 
á lembrança o delirio dos que tem pertendido a igualdade 
dos bens , a qual deveria assentar sobre a dos talentos , e 
industria ; mas o contrario disto he o que sempre se vio , 
e se vc entre os homens. Por ultimo , Senhores , tudo o que 
nos cerca , tudo o que somos , claramente nos indica , que 
o máximo bem de qualquer Nação he a sua apropriada ci- 
vilisação, que se deve sempre á cultura das nossas faculda- 
des intellectuaes , isto he , ás Sciencias. 

Mas de repente sobe á minha imaginação hum accon- 
tecimento notabilissimo , e único na memoria dos homens , 
que á primeira vista parece desmentir esta minha assersão. 
Do seio da Nação mais culta dentre todas se levantou a 
mais horrenda e furiosa revolução de quantas tem havido , 

da 



XIV Historia da Academia Real 

da qual fomos desgraçadamente testemunhas, e por muitos 
modos victimas. Não forão os Bárbaros do Norte , que fu- 
gindo da aspereza do seu clima , e da esterilidade dos seus 
territórios , vicrão , como nuvens pejadas de raios , buscar 
o Meiodia da Europa, onde encontravao hum ar sereno e 
temperado ; hum terreno pródigo em produzir com pouco 
trabalho , quanto diz respeito não só ás necessidades , mas 
aos commodos da vida humana ; e onde finalmente achavão 
accumuladas todas as riquezas do mundo. Forão sim os Fran- 
cczes , que no centro da Europa civilisada , debaixo da mais 
benigna atmosfera , e no seio de todas as Sciencias , e Ar- 
tes levantarão em furor o sanguinário estandarte da rebel- 
lião , e delirantes levarão ao patíbulo o seu próprio Rei , 
hum Rei bom e clemente : e como hum abysmo conduz a 
outros muitos , no meio da sua confusão e desordens sem 
conto assentarão comsigo que deviao submergir a Europa 
inteira na mais abominável de todas as escravidões. Ap- 
pareceo entre elles hum estrangeiro , hum Corso , que ar- 
dilosamente tomou a si a execução deste horrivel plano. 
Esta Riria vomitada do Averno , forjando mil pérfidos e 
vergonhosos embustes , com que destruio thronos , e der- 
ribou altares , commandando tropas immensas , tinha quasi 
avassallado a Europa inteira. ^ Mas que he feito das suas 
espantosas façanhas militares , das suas immensas conquis- 
tas , do seu grande Império ? Nós o vimos começar , e 
nós ( graças aos Ceos ! ) o vimos acabar. Elle mesmo , 
instrumento de tantos males , e de tão extensas desventu- 
ras , cahio do pináculo da sua grandeza fantástica, e jaz, 
por fortuna , prisioneiro em huma pequena Ilha , guardado 
como hum monstro assolador da espécie humana. ^ E quem , 
Senhores , fez tornar os Francezes ao governo de seu legi- 
timo Rei ? ^ Quem os fez detestar o jugo daquelle Tyran- 
no ? ^ E quem dêo cabo desta hydra de cem cabeças ? Foi , 
todos o sabem , a prodigiosa liga de todos os Soberanos , 
e Povos da Europa. Elles se ligarão j elles se armarão ; el- 
les combaterão j e depois de muitas e repetidas victorias , 

po- 



DAsSciENCiASDE Lisboa. xv 

pozcrão Lui7, XVIII. no Throno de seus Avós , e derao 
por fim a paz ao mundo. 

Sc os Inglezcs , se os Russos , se os Austríacos , se 
os Prussianos, se os Portuguezes ( dilo-hei com ufania) não 
tivessem cultivado as Sciencias , e as Artes, ^ como poderião 
armar tantos c tao numerosos exércitos ? Como poderião ter 
Generaes , que vencessem os Generaes Francezes tão hábeis , 
e tão aguerridos ? Portanto tonho para mim como certo , 
que as mesmas Sciencias e Artes, salvando o mundo de tão 
duro captiveiro, se salvarão a si do perigo immincnte , em 
que estiverão , de serem destruídas em toda a Europa ; o 
que sem a menor duvida succederia , se ellas não tivessem 
ainda atempo confundido e aniquilado o detestável Corso, 
que a ir por diante nos seus iniquos designios, nada menos 
faria doque reduzir os civilisados Povos Europeos a bárba- 
ros armados. 

He tudo assim , segundo o meu juizo ; mas não dissi- 
mularei , que nem sempre os Filósofos atinão com a verda- 
dadc , que buscão ; porque algumas vezes tomão a sombra 
pela realidade : com tudo estes mesmos desvios do princi- 
pal objecto, a que se endcreçao , tem sido de proveito aos 
que vem depois , bem como accontece aos mareantes , que 
evitão cautellosos os baixios , e cachopos , em que outros 
naufragarão: e disto devo concluir, que a indagação da ver- 
dade , ainda quando he desgraçada , não deixa de aprovei- 
tar ; e que só a cega ignorância he que para nada presta. 
Não dissimularei também , que alguns Filósofos presumpço» 
SOS e temerários , querendo traspassar as raias , que o Supre- 
mo Author da Natureza pôz ao entendimento humano, por 
mais sublime que seja , se perdem de todo no implicado 
labyrintho de suas imprudentes investigações ; porque não 
sabem , ou não querem saber , até onde podem chegar , e 
onde devem parar : mas suas indiscretas especulações vem 
a ter a sorte do fumo , que no ar se dissipa e desvanece. 
São estes pseudo-filosofos mui similhantes ás ondas encape- 
la- 



XVI ' Historia da Academia Real 

ladas do mar enfurecido , que vão rebentar com horrível 
bramido sobre as praias c penedos , parecendo que tudo ar- 
rojarão diante de si ; mas cm poucos instantes voltão atraz; 
como envergonhadas da sua inútil fúria ; inútil , porque a 
Providencia , marcando-lhes com seu Omnipotente dedo im- 
pretcriveis limites , lhes disse : Daqui não passareis. 

Mui diffcrcntes são os verdadeiros Sábios , que modes- 
tos , prudentes , e assisados parão , onde devem parar : ge- 
nerosos medirão, e trabalhão não só para a sua vida, mas 
também para a vida total da espécie humana : reverentes 
illustrão com seu profundo saber os Soberanos , e submis- 
sos obedecem ás suas determinações : benignos e indulgen- 
tes tolerão as fraquezas humanas, porque sabem que a dis- 
creta indulgência he o mais seguro meio de estabelecer a 
harmonia nas Sociedades publicas , e particulares : retira- 
dos vivem simples e virtuosamente : incançaveis honrão por 
muitos modos a sua Pátria : trafiquillos acabão finalmente 
com gloria tal , que os séculos posteriores em vez de a es- 
curecer , progressivamente a exaltao , e admirao. Este he 
sem duvida hum diminuto retrato , que de muitos de meus 
respeitáveis ouvintes , sem faltar á verdade , poderia copiar. 

Depois de haver mostrado, Senhores, segundo julgo, 
sufficientemente as grandes vantagens , que das Scienclas e 
Artes resultão a todos os Povos , o que formou a primeira 
parte do meu Discurso , passo agora a dar-vos hum resum- 
mo do que se tem passado dentro deste anno no seio da 
nossa Academia ; o que formará a segunda parte , a qual 
pôde servir também para provar a verdade da primeira. 

Segunda Parte. 

Orque se havia acabado o triennio dos empregados nas 
differentes repartições da nossa Academia, a 23 de Novem- 
bro do anno passado, por escrutínio e á pluralidade devo- 
tos 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XVII 

tos foi reeleito Secretario o Snr. José Bonifácio de Andra- 
da c Silva , c eleito Vicc-Secretario o Srir. Francisco Si- 
mões Margiochi ; mas teve a Academia de sentir a escusa, 
que dêo este benemérito Sócio , allegando as suas occupa- 
ções e embaraços , incompativeis com as obrigações do lu- 
gar. Foi então preciso proceder a nova eleição , e recahio 
ella sobre mim, que julguei necessário acceitar , agradecen- 
do muito á Academia a honrosa lembrança, que de mim ti- 
vera. Forão eleitos para Directores das três Classes , em que 
e.stáo repartidos os trabalhos Académicos os seguintes Se- 
nhores: para a das Sciencias Naturaes o Snr. Sebastião Fran- 
cisc > de Mendo Trigoso : para a das Sciencias exactas o 
Silr. Mattheus Valente do Couto : para a de Litteratura o 
Siír. Francisco Manoel Trigoso d' Aragão Morato. Não po- 
dia a Academia fazer melhor eleição , não só pela intelli- 
gencia nos ramos, de que forão incumbidos, mas também 
pela efficacia e zelo , que assiduamente mostrão pelo pro- 
gresso das Sciencias nesta illustre Corporação. Foi da mes- 
ma sorte mui dignamente eleito Thesoureiro o 111,'"° e Ex.""* 
Snr. Visconde da Lapa , cuja probidade e estudos são ge- 
ralmente conhecidos. Forão também nomeados para Sub- 
stitutos de Efectivos na .Classe de Litteratura os Senhores 
Francisco Ribeiro Dosguimarãcs , e Monsenhor Joaquim José 
Ferreira Gordo : para Sócios livres na Classe das Sciencias 
exactas os Senhores Francisco Villela Barbosa , e Manoel 
Pedro de Mello , de cujos talentos a Academia está assa's 
convencida, epor isso sobremaneira preza a associação de 
tão dignos coUaboradores : para Sócios Correspondentes o 
II!."''' e Rx.'"° Snr. Marquez de Abrantes D.José, o Síir. 
Doutor Joaquim Xavier da Silva , o Snr. Joaquim José Va- 
rella , e o Siír. Manoel José Pires. 

E como as Sciencias ( principalmente as Fysicas ) to- 
dos os dias adiantão novos descobrimentos, que não devem 
ser desconhecidos na Academia , tomou-se também na mes- 
ma occasião assento, que de Outubro de 1816 por diante 
se reservassem cada anno 6oc^ reis para se prover a nos- 
TotH. F. * 3 sa 



XVIII Historia da Academia Real 

Si liibliothcca das obras , que mais dignas e necessárias se 
julgjrcm. 

Devo com toda a ingenuidade e satisfação fazer-vos 
sabedores , que a Instituição Vaccinica , que não he senão 
huiria Comissão da Academia , faz conhecidamente notáveis 
progressos não só na Capitjl , mas cm todas as Províncias, 
onde mais radicalmente se vai estabelecendo : para o que 
muito tem concorrido o nosso previdente e benéfico Go- 
verna , que por todos os modos tem auxiliado este filan- 
trópico Estabelecimento, não só passando as mais judicio- 
sas c apertadas ordens aos C!)orregedores das Comarcas , e 
aos Capitães mores , paraque promovão eficazmente nos 
seus Districtos a Vaccinação ; mas também concedendo á 
Academia huma Loteria , cujo producto fosse applicado á 
sua mais firme e extensa propagação. Eu vos diria miuda- 
mente o que a este respeito se tem passado , se hum Mem- 
bro da mesma Instituição não viesse logo instruir-vos de to- 
das as particularidades : peloque só tenho de dizer vos , que 
este Estabelecimento Vaccinico he para a Academia da maior 
honra e gloria ; porquanto com elle evidentemente mostra 
ao publico , que o seu fim primário he ser util aos seus 
Concidadãos, salvando por hum meio tão simples, tão fá- 
cil , e tão seguro muitos milhares de vidas , que de certo 
serrão sacrificadas pela horrenda moléstia das Bexigas. E ain- 
daque o principal objecto da Academia he a cultura das 
Scicncias, não lhe seja de nota occupar-se da Vaccinação. 
^ Qlic procura cila cm todas as suas emprezas scientificas se- 
não a utilidade publica? j E por que meio poderia ser mais 
util aos i^ortuguezes doque promovendo tão cfficaz e digna- 
mente este salutifcro Estabelecimento, cuja falta não só era 
de incrivel dainno á minguada povoação de Portugal , rnas 
não menos de desdoiro á Nação inteira , que pareceria não 
conhecer , ou desprezar hum Descobrimento , que até en- 
tre (.3 Bárbaros se acha divulgado ? Verdade he que á Aca- 
demia tem accrescido com este objecto maiores cuidados e 
tareias; mas nunca pcrdeo de vista as obrigações essenciaes 

do 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XIX 

do seu Instituto , como passo a mostrar-vos , referindo os 
trabalhos do cada huma das Classes , convém a saber , das 
Sciencias Naturaes , das Exactas , e da de Littcratura , que 
são os troncos , de que se dcrivão vários ramos, 

Sciencias Naturaes. 

Desejando o nosso vigilante Governo , que dos metho- 
dos , que lhe forão propostos para a desinfecção das cartas 
vindas de paragens ou pestifcradas , ou suspeitas , se puzes- 
se em pratica o que fosse mais efficaz e conveniente , or- 
denou que a Academia desse o seu parecer sobre aquelle , 
que julgasse melhor; o que cumprio encarregando este im- 
portante assumpto a huma Cummissao de Sócios , que para 
este exame se elegerão , cujo parecer subio ao Governo , 
que houve por bem coiiformar-t,e com elle. 

O Sfír. Sebastião Francisco de Mendo Trigoso , incan- 
çavel em cooperar para o adiantamento e lustre da nossa 
Corporação , apresentou o extracto da Memoria do Siir. João 
de Macedo da Guerra Forjaz sobre o estado da agricultura 
de Castcllo Branco , do qual se havia encarregada. 

O Sfír. Barão de Eschwege não obstante a distancia , 
em que está da nossa Academia, brindou-a com huma car- 
ta datada de Villa Rica em ly de Fevereiro de 1815-, que 
acompanhava duas Memorias ; das quaes a primeira era in- 
titulada Memoria sobre vários objectos motitanisticos , principal- 
mente sobre a decadência das minas de oiro da Capitania de Mi- 
nas Geraes , e sendo incumbido o Síir. Sebastião Francisco 
de Mendo Trigoso de fazer o seu extracto , mui judiciosa- 
mente o executou : a segunda tem por titulo : Jpontamenios 
que poderão servir de base para huma Administração motitanis- 
tica na Capitania de Minas Geraes. Fácil he de ver a impor- 
tância deste objecto em hum paiz todo cheio de minas não 
só de oiro , mas de todos os metaes ; onde a Aletalkirgia 
scientifica he atéagora pouco conhecida , e onde só reina 
huma prática empírica. 

* 3 ii O 



XX Historia da Academia Real 

O Snr. Doutor José Bonifácio de Andrada e Silva lêo 
huma interessinte Memoria minerograpbica sobre o districto 
tHetallifero entre os Rios Alva ^ e Zêzere ^ porondc viajou. 

O Srir. Alexandre António Vaadelli apresentou huma 
Memoria com o titulo seguinte : Experiências Chymicas feitas 
com duas espécies de Qiiina do Pará. He para sentir, que ten- 
do nós tantas qualidades de Quina cm diffcrentes partes do 
Brasil , algumas das quacs talvez possao competir nas suas 
virtudes com a do Peru , ainda com as de mais Nações nos 
sirvamos desta, que muito bem poderiamos escusar, se as 
virtudes das nossas estivessem comprovadas com experiên- 
cias exactas. Por conseguinte toda a indagação a este respei- 
to pode ser de utilissimos resultados ; mas não basta parar 
nas analyses chymicas , he ainda muito mais preciso , que 
se facão observações seguidas , de que se formem Diários y 
que especifiquem com miudeza o que se houver observado: 
isto porém só pôde ser desempenhado nos grandes Hos- 
pitaes , onde huma copiosa coUecção de Diários fieis , fei- 
tos por differentes Professores, e em differentes lugares , de- 
veria ser escripta em Portuguez com a traducção Franceza 
cm frente , paraque chegasse á noticia de todas as Nações. 
l Quanto não poderiamos lucrar com este trabalho , não só 
com o que deixássemos de despender , mas com o que ar- 
recadássemos dos Estrangeiros ? 

O Snr. Doutor Joaquim Xavier da Silva lêo nas Ses- 
sões Académicas huma Memoria sobre a Hygiene Mi/itar e 
Naval , que trata com muita individuação ; e que deve ser 
de grande utilidade á Pátria, por ser hum assumpto novo 
em linguagem Portugueza. 

Lêo o Srir. Doutor José Pinheiro de Freitas Soares ou- 
tra Memoria sobre a Policia Medica. , que promette á Nação 
similhantes resultados. 

Remetteo-nos o Srir. Doutor Francisco Soares Franco 
huma Memoria sobre a identidade do Systema muscular na Eco- 
nomia animal . na qual mostra o Author não só vasta erudição 
em Anatomia, e Fysiologiaj mas também judiciosa analyse 

das 






DAS SciEKClAS DE LiSBOA. XXI 

das diversas opiniões até hoje publicadas por homens da 
mais distincta reputação, e que tem siJo geralmente segui- 
das: e, quanto a mim, mostrou o que pertenJeo mo trar , 
combatendo victoriosamente as doutrinas, que mais directa- 
mente parecião oppor-se á sua these principal. 

Lêo-se huma Memoria remettida do Pará pelo Siir. 
Doutor Manoel da Arruda , em que descreve hum novo gé- 
nero de arvore, a que dêo o nome àcChaptalia em mcm:>. 
ria de Mr. Chaptal seu Mestre ; a qual he singular e no- 
tável , por se tirar do seu fruto muito óleo , e sebo. Nclla 
expõe o methodo de o conseguir. 

O Ex."'° Snr. Visconde da Lapa fez presente á Acade- 
mia de hum Diccionario clinico composto pelo nosso Sócio 
o Sfír. José Pinto de Azeredo , que faleceo no verdor de 
seus annos , quando havia ainda muito que esperar da sua 
extensa prática nesta Capital ; o que assaz prova o credito 
publico , de que se fizera merecedor. 

A raridade, em que estão as Memorias do Snr. Doutor 
Dala Bella nosso digno Sócio , e meu Mestre de Fysica 
em Coimbra , hoje Lente jubilado , sobre a cultura das Oli- 
veiras , e o melhor fabrico do azeite , obrigou a Academia 
a fazer huma nova edição , que está encarregada ao Snr. Se« 
bastião Francisco de Mendo Trigoso , que se incumbio de 
lhe addicionar Notas illustrativas , segundo os mais recen- 
tes descobrimentos. • 

O Snr. Joaquim Pedro Fragoso da Mota de Siqueira 
lêo huma útil e circunstanciada Memoria sobre as Qiicima- 
das da Aletntéjo , em que vem expendidos muitos objectos 
interessantes de agricultura. 

O Snr. Sebastião Francisco de Mendo Trigoso lêo hu- 
ma curiosa Memoria a respeito de hum verme vivo , existen- 
te no olho de hum cavallo, que o dito Snr. observava quasi 
desde que se dêo fé delle , e quando fez a Memoria, já 
estava de mui notável tamanho. Espera , que se extraia o 
olho, para então fazer a reducção do verme, e dar a sua 

descripção. 

Lêo 



XXII Historia da Academia Real 

Lco o Snr. Manuel José Maria da Costía e Sá humas 
Memorias acerca da Vaccinaçao no Brasil , acompanhadas 
de tre/.c nocumentos , pelos quaes se prova ter-se mui con- 
sideravelmente adiantado por todo aquelle vasto território 
tão profícuo descobrimento , que hc sem duvida húma da- 
diva celeste. 

Poz-sc em forma o Programma extraordinário , que dei- 
xou em seu testamento o nosso Sócio o Snr. Luiz de Si- 
queira Oliva , paraquc a Academia premiasse com 4CO(3Í) rs. 
cm metal , que deixou d sua disposição , a melhor Memoria 
ou de Naciunaes , que a devem escrever em Portuguez,, ou 
de Estrangeiros, que o podem fa/er em alguma das linguas 
jnais conhecidas na Europa. As Memorias , que concorrerem 
a este premio , serão entregues na Secretaria da Academia 
por todo o mcz de Maio de i8i8. O Programma diz as- 
sim : (( Q-ial he o methodo de curar radicalmente as Dysen- 
5> terias chronicas, de qualquer causa que procedao; funda- 
» do em princípios , c confirmado por observações praticas, j» 
Foi huma Dysenteria chronica a moléstia , que na flor d* 
idade levou o Síír. Oliva á sepultura j e por este motivo fi- 
lantropicamente julgou , deixando este incentivo aos Médi- 
cos de todo o mundo, que delle tirasse a humanidade o 
proveito, que elle Testador não havia conseguido: mas jul- 
go que sendo o Programma tão abstracto , e sendo as cau- 
sas daquella enfermidade tão variadaí, e havendo-se final- 
mente escripto muito a respeito delia , ficará a humanida- 
de no mesmo , cm que dantes se achava. Este nosso digno 
Sócio mui hábil cm Chymica , que aprendeo em Paris com 
os mais fiimigerados Professores , não só fez serviços ao 
Estado com os conhecimentos que delia possuia ; mas tam- 
bém lhe não foi menos útil com o seu Periódico , que in- 
titulou Telegrafo Portugiiez : por meio do qual fez impla- 
cável guerra aos pérfidos Invasores de Portugal, pondo pa- 
tentes a todo o mundo suas abomináveis maquinações , e 
esforçando os ânimos daquelles , que menos corajosos po- 
dcrião por timidex desmaiar na haoica emprez.i dí salvar 

a 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XXIIÍ 

a Pátria do tyranno jugo dos Wandalos do nosso desgraça- 
do tempo. 

Pelo que diz respeito aos trabalhos concernentes ás 
Sciencias Naturaes , he quanto se acha nas Actas da Acade- 
mia ; e nenhum se encontra pelo que pertence ás Sciencias 
Exactas. Náo foi assim o anno passado j mas todos sabem , 
que em razão da sua grande difficuldade, e pouca amenida* 
de são comparativamente poucos os que cultii^âo as Mathe- 
maticas : pcloque nesta Classe nem todos os annos podem 
ser igualmente férteis. Portanto passo em ultimo lugar a 
dar-vos conta dos trabalhos da Classe de Litteratura. 

Lerao-se algumas interessantes Memorias do Snr. Vicen- 
te António Esteves deCaivalho sobre os conhecimentos de 
alguns dos nossos Jurisconsultos a respeito do Direito das 
Gentes. 

O Snr. Sebastião Francisco de Mendo Trigoso lêa a 
traducção do segundo livro das Gcorgicas de Virgilio. 

O Síir. Manoel José Maria da Costa e Sá lêo huma 
Memoria , em que faz menção de alguns Escriptos do 111.'"" 
c Ex,""" Srír. Martinho de Mello e Castro , e offereceo hum 
Manuscripto do mesmo Ministro de Estado. 

O Snr. Francisco Nunes Francklin lêo huma erudita In» 
troducção , que deve accompanhar huma Memoria sua acer- 
ca dos Foraes das Terras do Reino. 

O Snr. Francisco Manoel Trigoso d' Aragão Morato 
entregou á Academia huma Obra , que lhe offerccia o Snr. 
Desembargador Luiz Dias Pereira sobre a Historia e Direi- 
to das nossas Cortes, e juntamente todos os Manuscriptos, 
que ficarão ao dito Snr. Desembargador por falecimento do 
Snr. José Isidoro Olivieri , que mui dignamente havia oc- 
cupado o distincto lugar de Reitor do Collegio Real de 
Nobres. O mesmo Snr. Francisco Manoel Trigoso quiz en- 
carrcgar-se de os ver, fazendo a sua redacção. 

O Reverendo Snr. Padre João Faustino offereceo da 

par- 



XXIV Historia d* Academia Real 

parte de hum Anonymo hum Glossário de palavnis , e fra- 
ses afrance/adas , ou estranhas , que se tem introduzido na 
linj^ua l'ortuguc/a. 

O nosso Sócio o Sfír. Doutor António de Ahncida tem 
rcmcttido trcs curiosas c interessantes Memorias Estatisticas 
de Pcníficl. 

O Sfír. Joaquim José Varclla remctteo também huma 
Mcni.iri.1 Estatística acerca da notável Villa de Monte Mor 
o Novo, pelo merecimento da qual julgou a Academia que 
o seu Author fosse admittido em o numero de Sócio Cor- 
respondente. He claro quanto são importantes estes Escri- 
ptos ; assim os houvesse de todo o Reino ! 

OíFereceo o Siir. Manoel José Pires huma Dissertação 
filosófica sobre as linguas , pela qual foi eleito Sócio Cor- 
respondente. 

O Siir. Manoel José Maria da Costa c Sá lêo huma 
Memoria para servir de illustração ao desenho das ruinas 
de huma Estatua de Cybele descuberta em Beja. 

O Collegio Real de Nobres hc possuidor de hum Can- 
cioneiro manuscripto , obra, que parece ser dos primeiros 
tempos da nossa Ãlonarchia. Entendeo a Academia , que fa- 
ria hum significante serviço aos amantes das nossas cousas 
antigas , se delle pudesse tirar huma copia para se dar ao 
prelo : para o que recorreo ao 111.'"° e Ex."'° Snr. Ricardo 
Raymundo Nogueira, Reitor do dito Collegio, o qual com 
a melhor vontade annuio á sua pertcnçao , cncarrcgando-sc 
elle mesmo de obter do Governo a faculdade para lho po- 
der entregar. O Snr. João da Cunha Taborda offereceo-se 
para copiar o mencionado Cancioneiro, o que a Academia 
acccitou agradecida. Ficou com a incumbência de dirigir 
este trabalho o Snr. Joaquim José da Costa de Macedo. 

A Academia , que nunca pôde esquecer a saudosa me- 
moria de seu primeiro Presidente o 111."'° e Ex.'"° Duque de 
Lafões , a quem dcveo tudo o que he , julgou unanimemen- 
te , que era do seu dever mandar fa/er em mármore o seu 
respeitável Busto , que será collocado nesta Sala das nossas 

Ses- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA» XXV 

Sessões publicas. Todos conhecerão , que he huma justa gra- 
tidão , que he huma respeitosa saudade , e não baixa adu- 
lação , que já não pódc ter lugar , quem inspirou d Aca- 
demia estes sentimentos , que tão bem lhe ficão. Esta pe- 
ça , que está quasi finalisada , he dirigida pelo habilissimo 
Snr. Joaquim Ãlachado de Castro, nosso Sócio, já de lon- 
go tempo conhecido por outras de mui alto pcrtc. He ella 
teita á custa dos Sócios Académicos , que de muito bom 
grado querem todos concorrer para tal despcza , que , at- 
tento o numero dos concorrentes, será de certo insignifi- 
cante. 

Não devo deixar no escuro as dadivas , com que no 
decurso deste anno foi brindada a nossa Academia , que mui 
agradecida as recebeo ; e são as seguintes : o Snr. D>:utor 
José Bonifácio de Andrada c Silva entregou duas Obras do 
Snr. João Chrysostomo do Couto; huma he intitulada: Ek' 
mentos de Arithmetica , a outra : Elementos de Álgebra. 

O Snr. Manoel Pedro de Mello entregou da parte do 
Síír. José Joaquim Rivara hum opúsculo intitulado : Resolu- 
ção anulytica de Problemas Geometricost 

OfFereceo o 111."° e Ex.'"" Snr. Principal Sousa por mão 
do nosso Vice-Presidente o 111.*"" e Ex."'" Snr. Marquez de 
Borba huma medalha de oiro de Carlos V. , que se achou 
nas ruinas de huma muralha de Castello Branco. 

O Snr. Francisco Xavier de Almeida Pimenta offere- 
ceo por mão do Snr. José Feliciano de Castilho 36 meda- 
lhas Romanas de prata, que a Academia muito prezou. 

O Snr. João Pedro Ribeiro offereceo huma Obra sua 
intitulada : Memoria para a historia das Confirmações Regias 
neste Reino. O mesmo Snr. fez presente de outro Opúsculo 
intitulado : Erratas na Impressão da Legislação Extravagante. 

Nem de longe se esquecem da Academia os seus Só- 
cios ammtcs das Scicncias. Comprova esta verdade o que 
fez o Snr. Thoir.az António de Villanova Portugal , que , 
sem embargo das suas ponderosas occupações, não se csque- 
ceo de rcmctter do Rio de Janeiro por via do Snr. Ale- 
Tom. V. * 4 xan- 



XXVI Historia da Academia Real 

xandre António das Neves , seu Irmão , hum caixote com 
vários mintiacs , entre os quaes veio huma quantidade de 
Topázios, e Cristaes de rocha brancos c corados. 

Outro tanto fez o Snr. Desembargador Bernardino Tei- 
xeira , que remctteo huma formosa Druza de Quart/o cris- 
talizado. 

O Ex.'"" Snr. Bispo de Elvas presenteou a Academia 
com hum arco , c varias flexas dos índios da Capitania de 
Pernambuco ; e com huma espécie de linho tirado de cer- 
ta casta de palmeira, o qual pela sua rigcza deve ser mui 
próprio para cordas , e amarras. Delle mandou logo o Snr. 
José Bonifácio de Andrada e Silva preparar hum pouco ; e 
nos apresentou huma estriga por fiar, e hum noveílo fiado, 
cujo fio era de extraordinária rigeza. 

Os Senhores Redactores assim do Investigador Portu- 
guês , como do Jornal de Coimbra , continuiío a remettcr-nos 
os seus Periódicos. 

Bem quízera , Senhores , pôr de parte recordações fú- 
nebres ; mas devo por obrigação dizer-vos , que no espaço 
deste anno temos tido a dolorosa perda de alguns Sócios, 
e Correspondentes , que muito nos honravão , e mui úteis 
nos erão. Em primeiro lugar pronunciarei o respeitável no- 
me do nosso Sócio Honorário o Ex.'"" e R.""* Snr. Principal 
D, Francisco Raphael de Castro. Para a geração presente 
nad.i hc preciso dizer das suas singulares virtudes ; porque 
erão tantas e tão seguidas , que ninguém as ignora : mas 
paraquc os viiidouros saibão , que neste nosso infeliz tem- 
po também houve, c ha beneméritos Varões, que a Provi- 
dencia fez apparecer no mundo para modelos de virtud>.'S , 
s(S direi , (pois mais me não cabe) que o Snr. Principal Cas- 
tro foi desde moço exemplar em urbano, grave, e modes- 
to Comportamento , de que nunca desmentio até o fim de 
seus dias. Como homem de letras, foi de extensos conhe- 
cimentos , e de mui apurado gosto ; e como Ecclcsiastico 
de mui alta veneração para todos. Foi Reitor da Universi- 

da- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XXVII 

dade de Coimbra , oilde havia sido educado j e para o seu 
lustre, augmento , e boa ordem desejando faz,er muito mais, 
fez da sua parte quanto pôde. Fui seu súbdito nos primei- 
ros annos do seu Reitorado , e posso de sciencia própria 
affirmar, que a sua intelligencia, zelo, e veneranda integri- 
dade o fazião amado e ao mesmo tempo respeitado de to- 
dos os Académicos ; c he para desejar , que todos os seus 
successores o hajao de tomar por modelo. 

Em segundo lugar nomearei o nosso Sócio livre o Snr. 
Jeronymo Soares Barbosa , Professor emérito de Eloquência 
na Universidade de Coimbra. Gozou sempre de grande re- 
putação em matérias de Litteratura. Foi virtuoso Ecclesias- 
tico, e geralmente respeitado. 

Em terceiro lugar lamentarei a morte do nosso Sócio 
veterano o Snr. Pedro José da Fonceca , dignissimo Profes- 
sor de Rhetorica e Poética , ultimamente no Real Collegio 
de Nobres , em que foi aposentado pelas suas muitas mo- 
lestias , e mui avançada idade j que foi toda ( em quanto 
as forças lho concederão ) empregada no ensino da moci- 
dade , e em compor para sua regular instrucção obras da 
primeira necessidade ; as quaes não refiro , por serem ge- 
ralmente conhecidas. Tive a fortuna de ser seu discipulo ; 
e affirmo , que tendo tido depois tantos Mestres , nunca en- 
contrei hum só , que desempenhasse melhor as obrigações 
das suas respectivas Cadeiras. Era incançavel o seu desvelo 
para o adiantamento dos seus discípulos ; e era , sem se po- 
der exceder, tão admirável a sua digna urbanidade para com 
elles , que todos o amavão , e respcitavão. Faleceo , ou an- 
tes , despcnou-o a Providencia dos tormentos da sua mor- 
bosa existência a 8 do corrente mez : ninguém o tratou , 
que deixasse de prezar o seu caracter , e de reconhecer a sua 
erudição , conservando hoje delle vivas saudades. 

Também tenho que lamentar a perda do nosso Cor- 
respondente da Academia , e da Instituição Vaccinica o Snr. 
Doutor José Francisco de Carvalho , que morreo sem ter 
tocado o meridiano da vida. Pelas Memorias que remetteo , 

* 4 ii as 



XXVtlI HiSTOBIA DA AcABEMIA ReAL 

as qiiaes lhe grangcárao a Carta de Correspondente Aca* 
demico, mostrou a sua grande applicação, o seu bom sen- 
so, e até certa candura, que por si interessava. Não o co- 
nheci, mas foi o que passou por mim ao ler as suas Me- 
morias , e Cartas.' 

Lamentarei por fim a falta do nosso Correspondente 
o Snr. Vicente António Esteves de Carvalho, que utilmen- 
te trabalhou para a Academia. 

Vicrão a concurso duas Memorias : hunia a respeito 
da Descripçao da Villa de Buarcos , a outra a respeito da 
Villa da Covilhã. Ambas não merecerão a approvação da 
Academia. 

Mereceo porém ser coroada, e terá o premio, confor- 
me o Programma , huma Memoria a respeito da cultura das 
batatas , que remetteo o Snr. José de Sousa e Freitas , a 
qual vinha acompanhada das Attestaçóes exigidas. 

Foi também apresentada huma Tragedia intitulada : Os 
dois Irmãos inimigos ; mas como não viesse no tempo assigna- 
do para o concurso , deve ser entregue ao Author. A Me^ 
.mor/a sobre as Quantidades negativas deve do mesmo modo 
6er entregue ao Author, por pertencer ao anno de 1817. 
Apparecem hoje impressas as Obras seguintes : a segunda 
Parte do IV. Tomo das Memorias da Academia. ■=: Elementos 
de Geometria pelo Snr. Francisco Viiiela Barbosa. = Segunda 
edição do Ensaio Económico do Ex.'"" Snr. Bispo d' Elvas. Fi- 
cão no prelo o Tom. IV. de Inéditos de Historia Porttégueza, 
=: Reimpressão do Descobrimento da Frvlida. 

Tenho concluído , Senhores , o meu Discurso ; e mui- 
to receio , que vos tenha parecido longo e penoso ; pois 
conheço, que por curto que seja qualquer caminho, se he 
árido c montanhoso , sempre enfada , e parece comprido. 
O que porém posso aíBrmar-vos , he,que despendi em o fa- 
zer o melhor do meu cabedal, não por motivo algum van- 
glorioso , mas sim porque tive sempre diante dus olhos o 

aca- 



oíij Gt 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. XXIX 

acatamento devido ao respeitável Auditório , perante quem 
devia recita-lo. Huma cousa tenho para mim como cei ta , e 
he , que com fortes razões ( embora fossem cilas bem ou 
mal expressadas) assaz mostrei, que a brutal ignorância he 
o mais horrível flagello da espécie humana ; e que sem a 
cultura das nossas faculdades intellcctuacs , isto he , das Scien- 
cias c das Artes suas filhas , as Nações nunca se libertão do 
misero estado de barbaridade , ou quasi barbaridade. 

^E onde he que se cultivao as Sciencias , e as Artes ? 
^ He por ventura nas Universidades ? Náo , Senhores ; porque 
nellas somente se ensinão seus Elementos. He sim nas Cor- 
porações de homens feitos e doutos ( a que se tem dado 
o nome de Academias ) onde ellas se arreigao , se fortifi- 
cáo , e dão finalmente frutos sazonados e abundantes. Por 
esta evidente e experimentada razão todos os Soberanos da 
Europa culta sempre efficazmente protegerão as suas Aca- 
demias , como astros brilhantes , que tem de alumiar o res- 
tante de seus Vassallos : eis-aqui o principal motivo , que 
leva o magnânimo Coração do nosso suspirado Príncipe a 
honrar-nos com tanta benevolência. ,; E pôde alguém dizer 
com verdade , que a nossa Academia não procura efficazmen- 
te desempenhar o primário fim do seu Instituto, que he o 
de ser útil aos Portuguczes? ^-Nestes mesmos trabalhos, que 
vos referi, praticados no curto espaço de hum anno, não 
mostra ella , quanto se desvela em promover o Bem publi- 
co ? d E qual he a sua recompensa ? He a mais honrosa , e 
a maior possivel : he este mesmo Bem publico. Não afro- 
xemos portanto , Senhores , na laboriosa carreira litteraria , 
que espontaneamente temos seguido ; marchemos intrépidos ; 
e não consintamos vigilantes , que a Ignorância proteifor- 
me deshonrc a nossa chara e benemérita Nação , fazendo-a 
desgraçada. Sejamos gratos ao Príncipe , que nos protege ; 
úteis á Pátria , que nos sustenta ; e dignos dos louvores de 
todos oíi homens sensatos. 

/ 

Disse. 

CON- 



XXX Historia da Academia Real 

CONTA 

DOS TRABALHOS VACCINICOS 

Liilíi na Sessão Pública da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa aos 2^ de Junho de 18 16. 

PELO DOUTOR 
Justiniano de Mello Franco. 



Hl 



.E neste fausto dia , Senhores , que a Instituição Vac- 
cinica creadd pela Academia Real das Sciencias de Lisboa 
vos tem dado sempre conta dos seus philantropicos traba- 
lhos desde o seu estabelecimento em Junho de 18 12. Já 
por três vezes , e neste mesmo lugar a historia annual des- 
te benéfico Instituto merecco a vossa attençâo ; era poréra 
narrada com mais arte , e engenho do que deveis esperar 
de mim, que pouco costumado a fallar em publico, e mui- 
to menos perante huma Assembléa tão sabia e respeitável, 
bem reconheço quanto esta empreza he árdua , e superior 
ás minhas forças ; e quanto devo ficar atra/, dos meus sá- 
bios Collcgas , que nos annos antecedentes tão dignamente 
occupárão este lugar. 

Não he portanto com pomposas frases , nem com ras- 
gos de eloquência , que espero atvrahir a vossa attenção , 
não sendo dellcs capaz a minha mal aparada penna ; mas 
como estou certo das minhas ténues forças , appello unica- 
mente para a veracidade, importância do objecto, e vosso 
reconhecido patriotismo. Confiado portanto em motivos tão 
sólidos espero , que attendais á interessante narração , que 

vou 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. XXXI 

VOU fazer-vos ; e que useis da vossa indulgência com os 
poucos , c limitados talentos do Orador. 

Não , Senhores , de certo me não negareis a vossa at- 
tenção , tendo eu de relatar-vos a continuação dos traba- 
lhos , e progressos da Instituição Vaccinica , cujo zelo , e 
actividade tem este anno arrancado das garras da morte 
muitas victimas , que pelo contagio assolador das Bexigas 
naturaes lhe serião sacrificadas ; as quaes , já votadas á sua 
devastadora fouce , forão pela simples , e innocente Vacci- 
nação resgatadas com tanta utilidade do Estado. Devo fa- 
zer-vos conhecer , se a tanto as minhas forças chegarem , o 
zeloso patriotismo, que tem mostrado neste philantropico 
Serviço, não só os Empregados desta Instituição , mas tam- 
bém a maior parte dos seus Correspondentes nas Provín- 
cias ; c não omittirei os trabalhos , e até sacrificios , a que 
esta Real Academia se tem sujeitado promovendo , e au- 
xiliando tão efficazmente este incomparável preservativo , 
cuja propagação em Portugal parece lhe estava reservada , 
para mais augmentar a sua gloria. Cumpre-me por ulti- 
mo fazer-vos o esboço das providencias , que o nosso sábio 
Governo , que tanto se esmera em promover o bem publi- 
co , a este respeito nos liberalisou , paraque com mais es- 
tabilidade , se propague o beneficio da Vaccina , a qual 
com progressivos passos se vai estabelecendo ; e com pra- 
zer vos annuncio , que já esta dadiva preciosa da Providen- 
cia SC var generalisando em diversas Capitanias do Brasil ; 
como também , que em alguns lugares de Portugal não ha 
já para vaccinar , senão os recem-nascidos ; o que por ou- 
tras palavras quer dizer , achão-se extinctas nestes lugares 
as hediondas Bexigas naturaes. 

Desejara neste momento possuir o dom de pathetica 
eloquência, para dignamente tecer os devidos elogios a tão 
patrióticos feitos, excitando nos vossos corações o mesmo, 
que no meu sinto , huma sincera gratidão , que he devida 
ao Excelso Pjuncipe, que nos rege, e á sabia Corporação, 
que por EUc protegida não cessa de espalhar por toda a 

par- 



iXTi 



XXXII Historia da Academia Real 
parte as suas benéficas luzes. Graças pois sejão dadas ao nos- 
so Paternal PpiNcirE : graças ao patriótico zelo dos que gra- 
tuita , c voluntariamente se occupão neste interessante ser- 
viço : graças finalmente á dócil, e natural obediência, que 
os bravos e fieis Portuguezes consagrarão sempre aos seus 
Soberanos. 

Diminuir os males , que opprimcm a Humanidade , sal- 
var a bem da Pátria vidas preciosas , extinguir hum conta- 
gio , que com razão tem alguns reputado mais devastador, 
que a mesma peste ; c conseguir por fim estes inestimá- 
veis bens por tão fácil, e suave meio, qual he o da vac- 
cinação , são de certo objectos , que ofFercccm hum vasto 
assumpto , com que vos poderia entreter por largo tempo ; 
mas cUe me faltaria para vos informar do que se tem pas- 
sado , que he a minha principal incumbência. 

Passo portanto a narrar-vos em resumo fiel o que tem 
acontecido a respeito da vaccinaçao em Portugal , desde a 
ultima Sessão publica até ao dia de hoje ; e de passagem, 
direi o que delia sabemos no Brasil , segundo tem chegado 
ao conhecimento da Instituição. 

Constará o meu Discurso de duas partes : na primeira 
exporei os progressos , que tem feito a vaccinação durante 
este anno passado, e o estado em que presentemente se 
acha : nem deixarei no escuro os nomes dos que mais se 
tem distinguido neste serviço. Na segunda tratarei de algu- 
mas obsci^vações , que forem mais dignas de notar-se senão 
por novas , ao menos por corroborarem as já observadas. 

Parte Primeira. 

Quando passo pela memoria as efficazcs providencias , 
que nos differentes paizes da Europa forão empregadas pa- 
ra estabelecer o grande descobrimento do imniortat Jcnnerj 
e quando me recordo das grandes, e diversas diíficuldades, 
que desde o seu principio se lhe tem opposto, sou de opi- 
nião , que he seguramente em Portugal , onde a Vaccina tem 

fei- 



UAS SciíiNCIAS DE LiSBOA. XXXllI 

Fiito mais rápidos progressos, e achado menos opposiçãò. 
Todos sabem , que em Inglaterra Sociedades philantropicas 
estabelecerão desde logo Instituições , onde se vaccinava gra- 
tuitamente •-, e não se descuidarão de lhes assignar pensões 
safficientes para gratificar os Empregados , e fazer as mais 
despezas que convinhao. Nem alli se negarão assim o Cle- 
ro , como outras pessoas de representação, á empreza de 
exhortar os povos , paraque quizessem utilizar-se de tão 
grande beneficio : mas não obstante todas estas tão bem com- 
binadas providencias, sempre alli houve, e ainda hoje ha 
incrédulos pertinazes, que desprezão esteeincaz,e benéfico 
preservativo. Destes me não admiro , pois semelhantes aos 
cegos , não atinão com o verdadeiro caminho ; admiro-me 
sim àe que haja Facultativos , que declamando contra a Vac- 
cina , sem terem a menor consideração pelas mui repetidas , 
e verídicas observações dos seus Collegas , parece que mer- 
cantilmente desejao , que lavrem epidemias de Bexigas : mas 
j que horror para a humanidade 1 Estes querem , que tama- 
nho mal persista , e aquellas Instituições forcejão por ex- 
tingui-lo. Em França , em Allemanha , na Suécia &c. gene- 
íalisou-se , he verdade , a vaccinação ; mas foi necessário 
obrigar os Povos directa , ou indirectamente ^ a que rece- 
bessem este beneficio , que a sua ignorância líao sabia ava- 
liar. Houve naquelles illuminados paizes obstáculos sobre 
obstáculos para a propagação da Vaccina ; ^ e como pode- 
ria ella deixar de os encontrar mais ou menos em Portugal ? 
Alas graças á docilidade dos Portuguezes , todos elles se tem 
quasi plenamente vencido j pois até os seus mesmos opposi- 
Tores vão cedendo á força da evidencia ; e he hum força- 
do silencio o ultimo abrigo a que recorrem. 

Para provar que em Portugal a Vaícina fez rápidos 
progressos , bastará lembrar-vos , que muita gente buscou 
aproveitar- se deste descobrimento, assimque teve delle no- 
ticia ; e que houve logo Facultativos , que o puzerão era 
prática. O Sfír. António de Almeida, Medico em Penafiel j 
benemérito Correspondente desta Real Academia , e da In- 
Totfi. r. * g sti- 



XXXIV Historia da Academia Reai> 
stituição Vaccinica , assim o confirma nos seus Ar.naes Vac- 
cinkos , que vão ser publicados. Passado algum tempo o 
nosso Augusto Príncipe , capacitado da inlaiivcl virtude 
deste preservativo , cheio de confiança nos Médicos , que 
tinha a seu lado , e conservando ainda fresca a fatal feri- 
da , que as Bexigas natuaes acabaviío de abrir cm seu cora- 
ção com a morte de seu Filho primogénito , tomou a reso- 
lução de mandar vaccinar os demais Serenissimos Infantes, 
para os livrar de outro semelhante golpe. Não foi , nem 
era preciso mais para se perder em grande parte a descon- 
fiança , que muitos tinhao arCvSpcito de hum descobrimento 
tão moderno. 

Deste modo progredia entre nós a Vaccinaçao , sem 
haver huma lei coactiva, que a isso obrigasse, nem hum 
Instituto publico para este fim. De* certo não tardaria mui- 
to a organisação de taes estabelecimentos , se a desastrosa 
invasão dos oppressores da humanidade nao viesse pertur- 
bar o nosso socego , obrigando a Familia Real a abando- 
nar-lhes seu Reino, e a ret"ugiar-se nos seus vastos, e se- 
guros Domínios Ultramarinos. Portugal então opprimido, e 
afflicto perdeo de vista tudo o que não foi sacudir o férreo 
jugo, que perfidamente lhe havião posto: e eis-aqui a cau- 
sa do eclipse da Vaccina por alguns annos. Por estes tris- 
tes acontecimentos ficou como esquecida, e como suffocada 
entre nós esta tão útil prática da Vaccinação. Logo porém 
que a expulsão dos pérfidos conquistadores nos promettia 
mais serenos dias ; e que o valor dos nossos invictos Guer- 
reiros nos seguravão huma paz mais permanente, esta Real 
Academia creou no seu seio a Instituição Vaccinica , a qual 
unicamente com persuasão , c exemplo tem adquirido mui- 
tos Correspondentes , cujo numero já sobe a mais de cem ; 
os quaes cuidadosamente tem espalhado este maravilhoso 
antídoto por quasi todo o Reino. Com grande prazer vos 
annuncio , que ao zelo destes beneméritos Vassallos deve o 
Estado este anno 17:611 pessoas que tiverao verdadeira vac- 
cina. Tiverão-na duvidosa 3:000; c neste numero devem en- 
trar 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. XXXV 

trar os que depois de servidos, não voltao para serem ob- 
servados : mas , segundo hum calculo mais aproximado , 
destes metade tem vaccina verdadeira ; e eis-aqui i8:iii in- 
dividuos salvos da cruel moléstia variolosa j e nesta conta 
nao entra o grande numero de pessoas , que particularmen- 
te se vaccinão ; das quaes a Instituição só pôde fazer idéa 
pelo grande numero de lammas com virus vaccinico , que 
frequentemente se lhe pede , sem poder averiguar o resul- 
tado. 

Para melhor mostrar os progressos , que tem feito a 
Vaccinação , em Portugal , cumpre-me dizer em breve o nu- 
mero dos vaccinados nos annos antecedentes. 

No anno de 1813 tiverão Vaccina verdadeira - - 3:323 
Em 18 14 do mesmo modo Vaccina verdadeira - 8.727 
Em 1815- igualmente Vaccina verdadeira - - - 12:305" 
Em i8i<j , anno de que dou conta, tiverão-na tam- 
bém verdadeira - - - - - - - - - -i8:£ii 

He o total .----------- 42:266 

Tem portanto augmentado annualmente o numero de 
vaccinados em Portugal , e neste anno ha o excesso de 
f :8o6 comparativamente com o anno passado ; sendo a som- 
ma total dos vaccinados nos quatro sobreditos annos na 
Instituição Vaccinica , ou mediante as suas diligencias nas 
Provindas , 42:266 , sem que nesta conta seja comprehen- 
dido algum , dos muitos , que se vaccinão , de que a Insti- 
tuição não tem noticia. 

Não he só em Portugal , que a Vaccinação tem feito 
progressos. O Síir. Manoel José Maria da Costa e Sá , Cor- 
respondente da Academia , remettco á Instituição huma mui 
interessante Memoria sua sobre a pratica da vaccinação no 
Brasil , a qual era acompanhada de vários documentos , que 
attcstão os grandes progressos , que eila tem feito naquel- 
les vastos paizes , onde as Bexigas naturaes fazem maiores 

* 5 ii es- 



XXXVI Historia ha Academia Keai. 
estragos , que na Europa. Consta destes documentos , que 
examinei, c que pertencem aos annos de 1803 até i^oó , 
terem sido vaccinados 1 3:070 indivíduos : e só na Capitania 
de S. Paulo se vaccinárao 11:640 segundo hum mappa fi- 
dedigno , por baixo do qual se lê a seguinte advertência : 
=: Alòm dos mencionados nas relações , são incalculáveis as 
pessoas , que de todas as idades se tem vaccinado particu- 
larmente , tanto nesta Cidade , como em todas as Villas des- 
ta Capitania. =; Em 6 de Fevereiro de 1806 escreve o Fy- 
sico Mór da Capitania de S. Paulo ao Governador, e Ca- 
pitão General da mesma o Ex."'"^Snr. António José da Fran- 
ça e Horta , que finalmente se achava a Vaccina notavelmen- 
te estabelecida naquella Capitania. Por huma cana datailu 
da Bahia a 2 de Junho de iSoj do Síir. Barboia ao Sfir. 
Theodoro Ferreira de Aguiar , consta que se promovia a 
Vaccinação , não só vaccinando na residência do Governa- 
dor, sendo já o numero dos vaccinados 1:300, mas também 
lemettendo vaccina para Pernambuco , e Maranhão. Condue 
a carta dizendo : — As Bexigas fizerão huma pausa notável , 
e apenas apparece huma , ou outra victima da incredulida- 
de , e ignorância. He de esperar , que em poucos annos nos 
vejamos livres deste horrível flagello da Humanidade. 

Não devo passar avante sem vos dizer , que hc ao 
Ex."" Sfir. Conde d' Anadia , cujas luzes , e virtudes tão co- 
nhecidas erão , e tão úteis forão ao Estado , que o Brasil 
he devedor deste grande beneficio de que está gozando. 
Este circunspecto Ministro de Estado , logoque começou 
a reger a Repartição da Marinha , tomou sobre maneira a 
peito o estabelecimento da Vaccina no Ultramar ; e com 
repetidos Avisos , e instancias conseguio o desejado fim. 
Lamentemos portanto a sua perda, e seja por nós sempre 
venerada sua saudosa memoria. 

Sem embargo de serem estes progressos assaz conside- 
ráveis , ainda parecerão diminutos aos bons desejos desta 
Real Academia j que levada deste patriótico zelo pedio a 
S. A. R. que lhe concedesse huma loteria , cujo producto 

fos- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. JCXXVU 

tosse applicado ás dcspezas da Vaccinação ; c a esta peti- 
ção o mesmo Augusto Senhor houve por bem annuir man- 
dando passar hum Aviso cm data de 12 de Junho de 181 jj 
expedido pela Secretaria de Estado dos Negócios do Rei- 
no , paraque a Academia pudesse fazer huma loteria do ca- 
pital de 50 contos de reis, ficando de beneficio 12 porcen- 
to; os quaes a mesma Academia dirigisse, e administrasse 
segundo o Plano , que ella devia fazer para ser approvado 
por S. A. R. 

Para este fim a Academia nomeou huma Commissão 
cotnposta dos beneméritos Sócios os Sjnhores Francisco Ma- 
noel Trigozo de Aragão Morato , Alexandre António das 
Neves , Francisco de Mello Franco , c Bernardino António 
Gomes , incumbindo-lhes o projecto do Plano ta:ito para 
a execução da loteria , como para a administraçuj do pro- 
ducto delia. O trabalho destes dignos Sócios merecco a 
approvação da Academia , a qual o sujeitou ao superior Be- 
neplácito de S. A. R. , que foi servido permittir a execu- 
ção do dito Plano. Seria mui extenso , e fastidioso , se aqui 
pertendesse fazer-vos miudamente a exposição das providen- 
cias, e dos meios que contem o dito Plano para a propa- 
gação da Vaccina. Exporei unicamente em summa , o que 
me parece mais digno de merecer a vossa attenção. Vendo 
ã Commissão , que era impraticável estabelecer logo de re- 
pente a Vaccina por todo o Reino, assentou principiar pe- 
las dez Commarcas seguintes: Santarém, Castello Branco, 
Trancozo, Braga, Vianna, Villa Real, Évora, Beja, Ta- 
vira , e Guimarães ; estabelecendo em cada huma destas Ci- 
dades e Villas principaes huma como Instituição sujeita á 
de Lisboa ; a qual he composta de dois Facultativos , onde 
for possível , Medico , e Cirurgião , assimcomo também do 
respectivo Parocho , que deve assistir nos dias de Vaccina- 
ção , nos quaes vencem todos suas decentes gratificações. Ao 
Corregedor he incumbida a direcção destes Institutos , as- 
simcomo espalhar a vaccina por toda a Commarca, até mes- 
mo fazc-la chegar aos lugares mais distantes, por meio de 

Vac- 



xxxviii Historia ua Academia Rj-al 

Vaccinadores ambulantes, que deve nomear; e para paga- 
mento dos quaes o Plano arbitrou huma quantia competen- 
te. Todas as dcspezas sao feitas pelo Corregedor , o qual 
no fim de cada trimestre deve dar conta á Instituição. Ou- 
tra somma arbitra o mencionado Plano para prémios dos 
Correspondentes , que mais se distinguirem no serviço vac- 
cinico , c de que logo vos darei conta. Nao posso por ora 
dizer muito a respeito dos progressos deste novo Plano , 
por haver mui pouco tempo , que está em execução ; mas 
posso affimar , que em Évora , Villa Real , e Castello Bran- 
co se tem dado já principio a este útil trabalho ; e he de 
esperar, que tenha feliz resultado, pelo desvelo, e activi- 
dade com que estes Corregedores , e facultativos procurao 
dar cumprimento ás Ordens de S. A. R. 

Devendo agora dar-vos noticia dos Correspondentes , 
que maiores , e mais continuados serviços tem feito , para 
não abusar da vossa indulgência fazendo huma narração no- 
minal de todos elles , só direi , que a Instituição tem re- 
conhecido cm todos as mais louváveis intenções , e que se 
alguns não tem apresentado maior numero de vaccinados he 
por se não haverem proporcionado as circum.stancias , ou por 
terem achado mais resistência nos Povos. Entre clles porém 
ha alguns de quem não poderia deixar de fallar, sem in- 
correr no crime de ingratidão a seus tão desvelados servi- 
ços. Os seus nomes já vos são conhecido'? , pois ha muito 
que occupão o mais distincto lugar nos Fastos da Institui- 
ção. 

Em primeiro lugar devo com particularidade fazer men- 
ção do Sfír. Doutor José Feliciano de Castilho , Membro 
desta Instituição , o qual com o maior zelo , sagacidade , 
e constância tem sabido destramente vencer em Coimbra , 
sua residência , os obstáculos , que o Povo com a sua na- 
tural incredulidade , e indolência lhe oppunha. Este bene- 
mérito Membro da Instituição recorreo ao Corregedor da 
Commarca o Snr. José Maria Forjaz, , em quem achou ex- 
traordinário interesse pelo bem da Humanidade, efficaz ze- 
lo 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XXXIX 

lo pela felicidade do Estado, e fiel exacçao no cumprimca- 
to das Ordens do Soberano. Deste modo se effcituou o bem 
combinado Plano proposto pelo nosso Consócio , do qual 
tem resultado os melhores effcitos não só cm Coimbra, mas 
em toda a Commarca ; e assim tendo sido assaz grande o 
numero dos seus vaccinados no anno passado , foi muito 
maior depois da sua chegada a Coimbra em Outubro pró- 
ximo pretérito. Desde logo recorreo aos Capitães Mores, 
paraque com a sua authoridade mandassem a vaccinar por 
companhias aquelics dos seus súbditos , que ainda não ti- 
vessem tido Bexigas : e por este fiicil meio conseguio fazer 
geral a vaccinaçao ; tanto assim que desde Junho de 1815" 
até Junho ultimo trimestre de 1816 chegou o numero de 
vaccinados na Commarca de Coimbra a 5:931. 

O bom êxito dos trabalhos deste benemérito Membro 
excitarão i Academia a lembrança de pedir ao nosso Go- 
verno , que se expedissem ordens aos Capitães Mores para 
auxiliarem , e promoverem a vaccinaçao ; o que foi immedia- 
tamente concedido , e posto em execuçã». 

Não àevo também esquecer o nome da III.™» Senhora 
D. Maria Isabel Wanzellcr , e da Senhora D. Angela Ta- 
magnini. Est.is virtuosas Senhoras tem tomado , desde o priri- 
cipio da Instituição , o maior interesse por este ramo de be- 
neficência publica , e vão com exemplar zelo c(mtinuand<? 
os seus trabalhos vaccinicos , e offerecendo á Instituição mui 
importantes serviços. 

Teria muitos nomes que referir-vos , se não temesse 
cançar a vossa attenção , e se vos não devesse nomear os 
que forão premiados pelos serviços deste anno ; pela qual nar- 
ração vereis os que merecerão mais pa^^ticularmcnte ^ ap- 
provação da Instituição. 

Os Senhores premiados forao os seguintes : 
José Ignacio Pereira Derramado, Medico cm Portel. 
José Fradesso Bello , Cirurgião Mór em Elvas. 
Francisco Xavier de Almeida Pimenta , Medico no Sardoal. 
José Ignacio da Silva , Cirurgião em Estremoz. 

Joãa 



XL Historia da Academia Real 

João António Rodrigues de Oliveira , Cirurgião em Lame- 
go- 
António de Almeida , Medico em Penafiel. 
António José de Almeida , Medico cm Mafra. 
José Joaquim Michoti , Cirurgião na Villa do R^odondo. 
José Duarte Sallustiano Arnaud , Medico no Porto. 
José Nunes Chaves, Medico cm Villa Nova de Portimão. 
Francisco Maria Roldão , Cirurgião em Villa do Cano. 
João António dos Santos Cordeiro , Cirurgião em Monforte. 
Fr. Simão de Jesus Maria , Vigário da Freguezia de Paço 

de Sousa. 
José Francisco de Carvalho, Medico em Lagos. 

Não posso deixar do vos communicar , que ha pouco 
perdeo a Instituição pela lamentável morte deste digno Cor- 
respondente que por ultimo nomeei, hum grande, e zelo o 
collaborador ainda na flor dos seus annos : Lagos deixou de 
ter hum hábil Medico , e a sua Viuva , e filhos tem de cho- 
rar a falta de hum bom Pai de famílias. Elle até os últi- 
mos dias da sua vida , já gravemente doente , promoveo a 
Vaccinação , quanto cabia nas suas débeis forças ; e aos seus 
trabalhos se deve ainda este anno hum avultado numero de 
vaccinados. Trabalhou , e foi útil á Pátria até acabar : e 
porque as letras pouco fundem , e morreo ainda moço , a 
sua familia ficou quasi ao desamparo. Foi por isso, que a 
Instituição tendo em lembrança os seus serviços , e saben- 
do a desgraça da Viuva , lhe remetteo em numerário o va- 
lor do premio , que lhe estava determinado em livros. 

A 111.'"» Senhora D. Maria Isabel Wanzellcr também 
foi contemplada no numero dos premiados. 

Foi nomeado Correspondente , e obteve o competente 
Diploma o 111.'"° e Ex.'"" Srlr. Carlos Frederico Lecor, Te- 
nente General , Commandante da Divisão de Voluntários 
Reaes do Príncipe, Este hábil General fez vaccinar muitos 
dos seus Soldados nos últimos dias da sua partida , e deo 
as ordens necessárias , paraque a vaccinação continuasse du - 

ran- 



DAS SciEKCIAS DE LlSEOA. XL< 

rante a viagem. Forão conferidos Diplomas em razão de re- 
conhecidos serviços vaccinicos aos Senhores 
Francisco Zefyrino Mendes , Cirurgião em Estremoz. 
Joaquim Gomi-S Barrozo, Cirurgião em Santa Lcocadia de 

Pedra furada. 
José Maria Pereira de Sousa, Cirurgião Mór do Regimen- 
to de Cavallaria N. 8 em Niza. 
Francisco Maria Roldão , Cirurgião em a Villa do Cano. 



ARTE Segunda. 



. Poucas são no decurso deste anno dignas de atrenção 
as observações medicas a respeito da Vaccina , porque co- 
das tem sido constantemente observadas , e muito conheci- 
das. Aqucllas mesmas , em que se encontra alguma novida- 
de , serião fastidiosas, se agora as referisse. Tenho portan- 
to mui pouco que dizer vos nesta segunda parte do meu 
Discurso , c hmito-me ao seguinte. Não houve caso algum 
desastroso na vaccinação por todo o Reino : nem vaccina- 
do algum veio a ter Bexigas naturaes , ainda expondo-se a 
todas as occasioes de as ter. Não consta alem disto , que a 
Vaccina fosse para algum de mais incommodo , doquc o de 
hum simples defluxo, ainda mesmo cm pessoas adultas, que 
por via de regra mais se rcscntem de seus cíFeitos , os quacs, 
quando muito , são de leve padecimento; e muitas vezes os 
que se tomão por consequências , ou symptom.is do virus 
vaccinico não são mais doquc aíFccções morbosas , que 
ou casualmente coincidem , ou são de.-pertadas pela revo- 
lução, que elle causa no organismo animal, o que julgo fi- 
car provado pelas numerosas observações de mui dignos Cor- 
respondentes nossos =3 Que a vaccina tem sarado varias mo- 
léstias , principalmente cutâneas até então renitentes = Tem 
sido também por ellcs observado , que a vaccina corre os 
seus costumados periodos , ainda quando o vaccinado pade- 
ce alguma moléstia. O Siir. Doutor José Feliciano de Cas- 
tilho hc hum dos que referem ter observado vaccina boa , 
Tom. V. * 6 e 



xcii Historia da Academia Real 

e regular sem embargo dos indivíduos padecerem Aftas , 
Febres intermittentes, Escarlatina no quarto dia , e também 
na convalescença, Furúnculos causados por sarna, Inflamma- 
ções na face , Diarrheas , Tosses , Crusta láctea , Sarampo 
na convalescença, e outro, que apparcceo no dia immedia- 
to depois da vaccinaçao , Ascites , Rheumatismo , e diver- 
sas erupções cutâneas. Segundo me parece serve tudo isto 
de huma prova evidente , de que a pratica da vaccinaçao não 
tem o menor risco, e hc tão seguro preservativo das Bexi- 
gas como ellas mesmas. Praza aos Geos , que todos se ca- 
pacitem desta verdade , e venhão de bom grado recebi.r a 
grande dadiva, que a Providencia quiz fazer á Humanida- 
de , em cuja propagação tanto se esmera esta Real Acade- 
mia , que tantos auxilies tem obtido do nosso philantropi- 
co Governo. 

Disse. 



PRO- 






XLIH 

PROGRAMMA 

D A 

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 
DE LISBOA, 

ANNIÍNCIADO NA SESSÃO PUBLICA DE 24 DE JUNHO DE 1816. 

Para o anno de 1818. 
NAS SCIENCIAS NATURAES. 



E: 



\M FYSICA. A Monographia das videiras cultivadas em 
alguma das Comarcas do Reino mais abundantes em vitiho: a 
qual comprehcnda não só as suas variedades , synonimia , c os 
destrictos onde principalmente estão em uso ; mas também as 
qualidades de terrenos que lhes são mais próprios , e a do vi' 
nho que produzem. * 

EM ECONOMIA RURAL, E DOMESTICA. Ojie parti- 
do se pôde tirar em Portugal da sementeira das couves para 
sustento do Gado ? Qttdes são as espécies , ou variedades mais 
próprias para este fim ? Qiial o melhor methodo da sua cultu- 
ra em grande ? comprovado tudo com experiências , em que este- 
jão exactamente marcadas as despesas e productos. 

EM MEDICINA. Qttaes são as causas fysicas , moraes , ou 
dietéticas , que tem feito , ha annos , notavelmente frequentes nes- 
ta Capital as Apoplexias \ quaes são os signaes precursores des- 
ta enfermidade ; quaes os modos de a evitar ; e quaes os meios , 
e methodo de a curar. Este methodo deve ser apoiado em algu- 
mas Observações do Autor da Memoria. 

* 6 ii As- 



c^ 



XMV Historia da Academia Real 

Assumpto de premio extraordinário. , 

A àescripção e modelo de hum Aparelho deslilatorio , o 
qual , tendo-se em vista os priucipios de Eduard Adam , seja 
com tudo de tal sorte simplificado , que pelo seu módico preço 
possa servir para as operações em pequeno. 

N. B. Alem do premio ordinário pagará a Academia as 
despesas que se tiverem feito com o modelo do Lamhique , 
que merecer o premio. 

Assumptos fixos para todos os annos. 

I. A Descripfão Fysica de alguma Comarca , ou Território 
considerável do Reino , ou Doniinios Ultramarinos , que comprehen- 
àa a Historia da Natureza do Pniz descripto. 

II. A Descripfão Económica de alguma Comarca , ou Terri- 
tório considerável do Rei'!o , feita conforme o Plano adoptado pe- 
la Academia para a visita da Comarca de Setúbal , e que se pu- 
blicou no Tom. III. das suas Memorias Económicas. 

III. A Topografia Medica de huma grande Povoação (Ci- 
dade , oti Villa notável ) de Portugal : segundo o Plano indicado 
na Histoire & Mémoires de la Societé Royale de Medici- 
ne. Prefac. p. XIF. Toíiu I. 

Para o anno de 1818. 

NAS SCIENCIAS EXACTAS. 

EM ANALYSE, Dar a demonstração das Formulas propostas 
por Wronski para a Resolução girai das Equações. 

EM ASTRONOMIA. Huma Traducção do Tratado de Pedro 
Nunes , de Crepusculis , com as IllustraçÕes que merece a Obra 
e o Autor delia. 

EM 



6VS^ "1 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XLT 

EM MECÂNICA. Dar a constrúcção de hum moinho , de pou- 
co custo , que possa pelo tnenos fornecer a farinha sttjjicientc ás 
necessidades de buma familia : sendo o pêndulo o motor principal. 

Para o anno de i8i8. 

NA LITTERATURA PORTUGUEZA. 

EM LINGOJ PORTUGUEZA Qualidades , Estilo , e Lingoa- 
gem dos três Historiadores Fernão Lopes , Gomes Eanncs , e 
Ruy de Pina. 

O Juízo Critico da Obra de Duarte Nunes de Leáo , 
intitulada Origem da Lingoa Portugueza , na parte em que 
trata dos Vocábulos Portuguezes que se tirarão d^ outras lingoas ; 
(om o exame especial do Cap. 2 2 em que o Autor suppÕe , que 
os Portuguezes , tendo tomado muitos vocábulos dos Povos mais 
remotos , tirdrão mui poucos dos Castelhanos. 

EM HISTORIA PORTUGUEZA. Ensaios Históricos sobre a 
Cidade de Lisboa e setis arredores , que contetihão a noticia dos 
factos memoráveis , que occorrerão em alguns sitios ou lugares 
Saqudle território ; e que por estes factos facão conhecer , quan- 
to seja possivel , as antigas Leis , costumes , e caracter da Na- 
ção. 

Qiie autoridade teve entre nós o Código dos J^isigodos des- 
de o principio da Monarcbia j quando cessou essa autoridade , e 
por que causas ? 

Huma Historia dos Monumentos sepulcraes de Lisboa , is- 
to he , htt/na CoUccção de quantos se achao nesta Capital ; com 
a exposição dos factos de quei podem servir de prova ou de il- 
lustração. 

Assumptos fixos para todos os annos. 

EM POESIA, E THEATRO NACIONAL. Huma Tragedia 
Portugueza. 

Huma Comedia de caracter em verso , ou em prosa. 

As- 



513-a Oi 



XLvi Historia da Academia Real 

Assumpto de premio dobrado sem limitação de tempo. 
Huma Grammatica Filosófica da Litigoa Portugneza. 



Os Prémios ordinários consistem cm huma medalha de 
ouro do peso de 5'0(|)ooo réis , ou este valor : e to>;las as 
Pessoas podem concorrer a elles , á excepção dos Sócios Ho- 
norários , e EíFectivos da Academia. Abaixo destes prémios 
principaes , propõe a Academia também a honra do Acces- 
sit , que consiste em huma Medalha de prata; e ainda abai- 
xo desta , a menção honorifica da Memoria que só disso se 
fizer digna ; a qual menção será feita nas Actas e Historia. 

As condições geraes para todos os Assumptos propos- 
tos são : Que as Memorias , que vierem a concurso , sejao 
escritas em Portuguez , sendo os seus Autores naturacs des- 
tes Reinos ; e em Latim , ou em qualquer das Lingoas da 
Europa mais. geralmente conhecidas, sendo os Autores Es- 
trangeiros : Que sejão entregues na Secretaria da Academia 
por todo o mez de Maio do anno em que houverem de 
ser julgadas : Qiie os nomes dos Autores venhão em carta 
fechada, a qual traga a mesma divisa que a Memoria, pa- 
ra se abrir somente no caso em que a Memoria seja pre- 
miada : E finalmente que as Memoria premiadas não possão 
ser impressas , senão por ordem , ou com licença expressa 
da Academia ; condição que igualmente se estende a todas 
as Memorias , que não obtendo Premio , merecem comnulo 
a honra do Accessit. Porem nem esta distincçâo , nem a ad- 
judicação do Premio , nem me^mo a publicação determina- 
da , ou permittida pela Acqjjemia , deverão jamais rcputar- 
se como argumento decisivo , de que esta Sociedade appro- 
va absolutamente quanto se contiver nas Memorias , a que 
conceder qualquer destes signaes de approvação ; porém 
somente como huma prova , de que no seu conceito desem- 
penharão , senão inteiramente , ao menos a parte mais im- 
portante dos Assumptos propostos. 

LIS- 



OAS SciENCIAS DE LlSBOA, XLVH 

LISTA DOS SÓCIOS 

JDa Academia Real das Sc tendas em Junho de 1817. 



PROTECTOR 
ELREI NOSSO SENHOR. 

PRESIDENTE 
O Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel. 

Vice-Presidente 

Fernando Maria José de Sousa Coutinho Castello-BrancO 
e Menezes , Marquez de Borba. 



Sócios Honorários. 

S. A. R. O Principe de Gallcs , Regente do 
Reino unido da Grã-Bietanha. 

S. A. R. o Duque de Sussex. 

António de Araújo de Azevedo , Conde da Bai*- 

ea, ----------- no Rio de Janeiro. 

Arthur Wellosley, Marquez de Wellington, Du- 
que da Vicroria, ----.__. em França. 

Carlos Stuard -.----__.- em Paris. 

D. Domingos de Sousa Coutinho , Conde do 

Funchal ,----------_ em Rema, 

D. Duarte Manoel, Marquez de Tancos, - em Lisboa. 

Fernando Maria José de Sousa Coutinho Cas- 

tel- 



íi-rm* <T1 



XLVIII HiSTOKIA DA AcADEMIA ReAL 

tello Branco e Menezes , Marquez de Borba , 

Vice Presidente , --------- em Lisboa. 

Fernando Telles da Silva e Menezes , Marquez 

de I-'enalva ,---------- em Lisboa. 

Francisco de Mello da Cunha de Mcndoça e 

Menezes , Marquez de Olhão , - - - - em Lisboa. 

D. Fr. Joaquim de Santa Clara , Arcebispo de 

Évora ,.----------- em Évora. 

D. José António de Menezes e Sousa ( Princi- 
pal Sousa) --._------ em Lisboa. 

D. José Maria de Mello , Bispo Inquisidor Geral , em Lisboa. 

Luiz António Furtado de Castro do Rio e Mcn- 
doça , Conde de Barbacena ,----- em Lisboa. 

D. Miguel Pereira Forjnz ------ em Lisboa. 

D. Pedro José Joaquim Vito de Menezes , Mar- 
quez de Marialva, ----_.-- em Partz. 

D. l?cdro de Sousa Holstein, Conde de Palmella , em Londres. 



Sócios Estrangeiros. 

António Lourenço de Jussieu ------ em Par{z. 

Frederico Bouterwck -------- emCottinga. 

Jaime Edv^ard Smith ------ --t/w Londres. 

José Banks -.-.-..--.-em Londres. 
José Francisco dcjacquim (Barão dej-icquim) emVianna 

d^/íusíria. 
D. Manoel Abella -..----.- ~ em Madrid. 

Renato Justo de Hauy ------- em Parts. 

Ricardo António de Salisbury - ' - - - em Londres. 



Sócios Veteranos. 

Adrião dos Santos --------- ew Lisboa. 

Agostinho José da Costa de Macedo - - - e-m Lisboa. 

An- 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. xhx 

António Ribeiro dos Santos ------ em Lisboa. 

João António Dalla-Bclla ------- em Padit.i. 

Joaquim Pedro Fragoso ------ - em Lisboa. 

José Martins da Cunha Pessoa - - - - - em Lisboa. 

JManoel Luiz Alvares de Carvalho - - no Rio de Janeiro. 



Sócios Effectivos. 
Na Classe de Sciencias Naturaes. 

Alexandre António das Neves, Guarda Mór dos 

Estabelecimentos da Academia , - - - - em Lisboa. 

Bernardino António Gomes -_-_-- em viagem. 

Constantino Botelho de Lacerda Lobo - - - em Coimbra. 

José Bonifácio de Andrada e Silva, Secretario 

da Academia ,---------- era Lisboa. 

José Corrêa da Serra .-.-_-- em Filadélfia. 

José Pinheiro de Freitas Soares ----- em Lisboa. 

Sebastião Francisco de Mendo Trigozo , Vice- 

Sccretario da Academia , ------ em Lisboa. 



Na Classe de Sciencias Exactas. 

Anastasio Joaquim Rodrigues - - - - - em viagem. 
Francisco de Borja Garção Stocklcr - - no Rio de Janeiro. 
Francisco de Paula Travassos - - - - - em Lisboa. 
João Faustino , da Congregação do Oratório , - em Lisbou. 
José Maria Dantas Pereira - - - - no Rio de Janeiro. 
José Monteiro da Rocha - - - - a S. José de Ribamar. 
Mattheus Valente do Couto , Director da Classe , em Lisboa. 



Tom. r. I * 7 Na 



jL, Historia DA Academia Rkal 

Na Classe de Litterarura Portugueza. 

António Caetano do Amaral ------ em Lisboa, 

António das Neves, da Congregação do Oratório , em Lisboa. 
Francisco Manoel Trigozo de ÀragSo Morato , 

Director da Classe , ------- e;« Lisboa. 

João Pedro Ribeiro - - - - - - - - em Lisboa. 

Joaquim de Santo Agostinho de Brito França 

Galvão -_--_---___ f;« Lnstosa, 
Joaquim José da Costa de Macedo , Thesou- 

reiro da Academia, -------- ew Lisboa. 

Manoel de Almeida e Vasconccllos , Visconde 

da Lapa ,-----------?»» Lisboa. 

Thomaz António de Villanova Portugal - no Rio de Janeiro. 



Sócios Livres. 

Alexandre António Vandelli ------ em Lisboa. 

António de Almeida --_--_--<>»« Penafiel. 

António de Araújo Travassos ----- ew Lisboa, 

Cypriano Ribeiro Freire ------- em Lisboa. 

Félix de AvcUar Brotcro ------- na Ajuda. 

Francisco José de Almeida _..--- gni Lishon. 

Fr. Francisco de S. Luiz ------- em Coimbra. 

Francisco de Mello Franco ------ em viagem. 

Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque - em Lisboa. 

Francisco Ribeiro Dosguimarães , Substituto de 

EíFcctivo, ----------- em Lisboa. 

Francisco Simões Margiochi - '- - - - - em Lisboa. 

Francisco Soares Franco ------- em Coimbra, 

Francisco Villela Barbosa ------- em Lisboa. 

João António Salter de Mendoça . ~ - - em Lisboa. 

João Diogo de Barros , Visconde de Santa- 
rém , _---__--_--- fw/ Lisboa. 

João 



51311 OT 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. li 

João Evangelista Torriani - - _ - . -em Lisboa. 

D. João de Magalhães c Avellar , Bispo do 

Porto, ------------ no Porto. 

João Silvério de Lima ------- - em Santarém, 

Joaquim José Ferreira Gordo ( Monsenhor Fer- 
reira ) Substituto de Effectivo, - - - - em Lisboa. 

Joaquim Pedro Gomes de Oliveira - - - -em Santarém. 

José António de Sá --------em Lisboa. 

José Corrêa Picanço' ------ no Rio de Janeiro. 

D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Couti- 
nho , Bispo de Elvas ,------- e/« Lisboa. 

José Maria Soares --------- e;« Lisboa. 

D. José Maria de Sousa Botelho . - - - em Pariz. 

Justiniano de Mello Franco - - ~ - - - em viagem. 

Luiz Máximo Alfredo Pinto de Sousa , Viscon- 
de de Balsemão , -------- e»; Lisboa. 

Manoel Ferreira da Camera Bctancourt - no Rio de Janeiro. 

Manoel Pedro de Mello ------- tw; Coimbra. 

Marino Miguel Franzini ------- <?w Lisboa. 

Pedro José de Figueiredo - ~ ----- em Lisboa. 

Pedro de Mello Breyncr ----- no Rio de Janeiro. 

Ricardo Raymundo Nogueira . - - - - em Lisboa. 

Timotheo Lecussan Verdier ------ em Pariz. 



Coi-respottdentes. 

D. Fr. Alexandre da Sagrada Familia, Bispo de 

Angra , ._.--.------ em Angra. 

Balthasar da Silva Lisboa - - em a T^tlla dos llheos no Brasil. 
Bento Affonso Cabral Godinho ----- em Évora. 

Fr. Bento de Santa Gertrudes Magna , no Mosteiro deS. Bento da 

Saúde , no Porto. 
Caetano Arnaud --------- ew Chacim. 

Diogo de Toledo Lara Ordones - - m Rio de Janeiro. 
Egydio Patrício do Couto -.,--- em Lisboa, 

* 7 ii Fe- 



LH Historia da Academia Reai. 

Félix José Marques -------- em Lisboa. 

Francisco Alexandre Lobo ------ e;w Coimhra. 

Francisco Corrêa da Silva c Sequeira - - - em Londres. 
Francisco Elias Rodrigues da Silveira - - - em Lisboa. 
Francisco Nunes Francklim ------ em Lisboa, 

Francisco de Oliveira Barbosa - . - _ - em S. Paulo. 
Francisco Vieira Goulart - - - - - vo Rio de Jiiticlro. 

Francisco Xavier de Almeida Pimenta - - - tio Sardoal. 
D. Francisco Xavier Cahanes ----- f»/ Madrid. 

Francisco Xavier do Rego Aranha - - - - «o Alcmtéjo. 

Guilherme Eschwege , Barão de Eschwege , no Rio de Janeiro. 
Guilherme MuUcr ---------em L':ndres. 

Jacobo Guilherme de Hemso ------ em Tangere. 

Ignacio António da Fonseca Benevides - - em Lisboa. 
João António Monteiro ------- em Freyberg. 

João, Bell --__--_-__- em Liiboa.' 
João Croft ----------- f>« Lon.ires. 

João Laureano Nunes Leger ------ em Lisboa. 

João de Macedo Pereira da Guerra Forjaz - em Castello Branco. 
João Manoel de Campos e Mesquita - - - em Aveiro. 
João da Silva Feijó -------- no Ceará. 

João Theodoro Koster -------em Londres. 

Joaquim de Amorim e Castro - - - no Rio de Janeiro. 
Joaquim de Santa Anna Carvalho - - - -em Setúbal. 

D. Joaquim José António Lcbo da Silveira - - em Berlim. 
Joaquim José Varella - - - - ~ em Monte m r o novo. 

Fr. Joaquim Rodrigues .-_-_.- em Lisboa. 
Fr, Joaquim de Santa Rosa de Viterbo , no Convento da Fraga , 

em Viseu. 
Joaquim Xavier da Silva ------- em Lisboa. 

José Accursio das Neves ----•-«« Lisboa. 

Fr. José de Almeida Drak --■•--- em Lisboa. 
Fr. José de Santo António Moura - - - em Lisboa. 
José Avelino de Castro ------- no Porto. 

José Calheiros de Magalhães e Andrade - - em Braga. 
Fr. José da Costa e Azevedo - - - - em Pernambuco, 

Jo- 



mna ot 



UAS SciENCIAS DE LiSBOA. Llll 

José Egidio Alvares de Almeida - - m Rio de Janeiro. 

José Feliciano de Castilho ------ ^ím Coimbra. 

José Jacinto de Sousa ----.-_- no Porto. 

José Ignacio da Costa -----.. cm Lisboa. 

José Ignacio Paes Pinto de Sousa e Vasconcellos - no Porto. 

D. José do Loreto ------. --em Londres. 

José Manoel Ribeiro Vieira de Castro - - no Porto. 
José Manoel de Sequeira ------- no Cuiabá. 

D.José Maria da Piedade Lencastre e Silveira , 

Marquez de Abrantes y ------- em Lisboa. 

José Portelli - em Lisboa. 

José de Sá Bctancourt -._--__ na Bahia. 
José Theresio Michelotti ------ em Lisboa. 

D. José Valério , Bispo de Portalegre , - - em Portalegre. 

Fr. Lourenço do Desterro Coutinho - - - em Coimbra. 

Lucas Tavares -.--...--- cm Lisboa. 

Luiz António de Oliveira Mendes ... na Bahia. 

Luiz Dias Pereira ------ ^ .. em Lisboa. 

Luiz Henriques , Barão de Block - - - - em Dresda. 

Luiz Leonardo de Vasconcellos Almeida e Se- 
queira (Monsenhor Sequeira) - - _ - em Bemfica. 

Manoel Jacinto Nogueira da Gama - - no Rio de 'Janeiro. 

Manoel José Maria da Costa e Sá - - - - em Lisboa. 

Manoel José Mourão de Carvalho Monteiro - - vn Mealhada. 

Manoel José Pires -------- c;w Lisboa. 

Manoel Pereira da Graça - - -na Ilha da Madeira. 

D. Miguel António de Mello - - - - - em Lisboa. 

Fr. Patrício da Silva -------- <?»; Coimbra. 

Paulo José Maria Ciera ------- em Lisboa. 

Pedro Celestino Soares ------- em Lisboa. 

Pedro Gcaninni ---------- í/« Bolonha. 

D. Thaddeo Manoel Delgado _ - - - cm He panha. 

Thomé Rodrigues Sobral ------ em Coimbra, 

Vicente Gomes de Oliveira - - - - no Rio de Janeiro. 

Vicente José Ferreira Cardoso - - na Ilha de S. Miguel. 

Wcncesláo Anselmo Soares ------ em Lisboa. 

RE- 



siatt OT 



LIV 



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ISTO R 1 A DA 



C A D E M I A 



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£ A L 



RELAÇÃO 

Dos Membros , e Correspovdeiiícs da Institui ç ih Faccinica 
da Acadetiita Real das Sciencias. 



Membros da IwsTiTuiqXo Vaccinica. 



Bernardino António Gomes . . 
Francisco Elias Rodrigues da Silveira 
Francisco de Mello Franco . . . 
Francisco Soares Franco .... 
Ignacio António da Fonseca Benevides 
Joaquim Xavier da Silva .... 
José Feliciano de Castilho . . . 

José Maria Soares 

José Pinheiro de Freitas Soares . . 
Justiniano de Mello Franco • . . 
Wencesláo Anselmo Soares . . . 



em viagem. 

em Lisboa. 

em viagem. 
em Coimbra. 

em Lisboa. 

em Lisboa, 
em Coimbra. 

em Lisboa. 

em Lisboa. 

em viagem. 

em Lisboa. 



Correspondentes da Instituição Vaccinica. 



D. Angela Tamagnini de Abreu 
António de Almeida , Medico 
António Anastasio de Sousa, Medico 
António Joaquim de Carvalho, Aledico . em 
António José de Almeida , Medico . 
António José Giraldo de Oliveira, Cirurgião 
António Manoel Pedreira de Brito , Cirurgião 



. em Lisboa. 
. em Penafiel. 
. em Pombal. 
Ponte de Lima. 
. em Mafra. 
em Tavira. 
. em Villa nova 
da Cerveira, 



An- 



DAS SciENCIAS DeLiSBOA. l.V 

António Pereira Xavier , Medico tio Crato. 

Carlos Frederico Lecor, Tenente General . no Ria de Juiuiro. 
Domingos José da Fonseca , Cirurgião Mor do 

Biralhâo de Caçadores N. 4 em Pcunm^cor, 

Fernando António Cardoso , Cirurgião . . cm Peniche. 
Francisco Manoel de Albuquerque , Medico . e»i Pinhel. 

Francisco JNIaria Roldão , Cirurgião no Cano, 

Francisco Xavier de Almeida Pimenta , Medico . no Sardual. 
Francisco Zcfyrino Mendes, Cirurgião . . em Estremoz. 
João António de Carvalho Chaves , Medico . . vo Redondo. 
João António Rodrigues de Oliveira , Cirur' 

giâo em Lamego. 

João António dos Santos Cordeiro , Cirurgião . em Monforte. 
João Gervásio de Carvalho, Medico . . . no Cartaxo. 
Joaquim Alvares de Araújo, Medico. . . . e7n Thomar. 
Joaquim António de Oliveira , Cirurgião . . na GolUgu. 

Joaquim Baptista , Atedico em Vouzella. 

Joaquim Gomes Barroso , Cirurgião . . em Santa Leocadia 

de Pedra furada. 
José António Barbosa da Silva , Cirurgião . . em Santo Tjrso. 
José Duarte Salustiano Arnaud , Medico . . . .no Porto. 

José Fradesso Bello , Cirurgião em Elvas. 

José Gomes Cabral , Cirurgião na Guarda. 

José Guerreiro da Silva , Juiz Ordinário . . em Pllla novn 

de mil fontes. 
José Ignacio Pereira Derramado , Medico . . em Portel. 
José Ignacio da Silva , Cirurgião ... em Estremoz. 

José Joacjuim Alixote , Cirurgião no Redondo. 

José Luiz Pinto da Cunha , Cirurgião . em Fianna do Miuho. 

José Maria Bustamance , Medico em Alvito. 

José M'.ria Pereira de Scusa, Cirurgião Mor do 

Regimento de Cavallaria N. 8 em Niza.. 

José Nunes Chaves, Medico . em Villa nova de Portimão. 
José dos Santos Dias , Medico . . . em Montalegre. 
Luiz Cypriano Coelho de Magalhães , Medico . em Aveiro. 
Luiz Gonzaga da Silva , Medico . . '. em Santarém 

Luiz 






LVi Historia da Academia Real 

Luiz Soares Barbosa , Medico em Leiria. 

Manoel Coelho do Nascimento , Cirurgião . . em Coitares. 
Manoel Lopes de Carvalho , Cirurgião . . . em Bellas. 
Manoel José Malheiro da Costa Lima . em S. Vicente de Penso. 
Manoel José Mourão de Carvalho Azevedo 

Monteiro , Medico na Mealhada. 

Manoel Vicente , Cirurgião na Guarda. 

D. Maria Isabel Wanzeller no Porto. 

Nicoláo de Sousa Gallião , Cirurgião . . em Lanhczes. 
Pedro António da Silva , Cirurgião . na Marinha Grande. 
Pedro António Teixeira de Pinho , Cirurgião . em Ovar. 



# 



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MEMORIAS 

D A 

ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS 

DE LISBOA. 



MEMORIA 

Sobre a identidade do Systema muscular na Economia animal. 
Por Francisco Soares Franco. 



Ex qtiibus conseqititur , tanti hoc motus principium momen- 
ti esse , tit non a Physiologis modo , sed vel maxime a Patho- 
logis attendi tnereatur, 

Gaub. Pathol. 



PREFAÇÃO. 

JL Odes os Anatómicos até ao tempo àcBichat tinhao con- 
siderado os músculos como formando hum todo no Systema 
geral ; e postoque differentes entre si em quanto ás fór- 
Tovi. V. A mas 



1 Memorias da Academia Real 

mas, natureza de seus estímulos próprios, e outras circum- 
stancias accidentaes , erão inteiramente semelhantes na sua or- 
ganisação , suas propriedades , seus fenómenos e usos. Aquel- 
le Sábio no excellente Tratado de Anatomia Geral ^ que hon- 
rará sempre a sua memoria , afastou-sc da opinião commum, 
estabelecendo , que ha dois systemas de músculos , hum pró- 
prio da vida animal , outro da orgânica , e inteiramente di- 
versos nas suas formas , sua organisaçao , seus usos e pro- 
priedades. 

A Escola Franceza respeitando com justiça o grande 
nome de Bichat , scguio a mesma doutrina , que vemos de- 
fendida não só por Biiissou ^ c Roux j continuadores da sua 
Anatomia Dcscriptiva , pelos Redactores da Bibliotheca Medi' 
ca , mas nré por Mr. Richerand nos seus Elementos de Phy- 
siologia j publicados em 1814. 

Sc se tratalTc unicamente de huma simples classificação , 
ou , por outras palavras , se tentássemos somente determinar 
Se os músculos deviao formar em hum Tratado geral de 
Anatomia hum ou dois systemas ? talvez a questão não mere- 
cesse ser objecto de novo c particular exame: mas trata-se 
especialmente de determinar Se os músculos de liuma e ou- 
tra vida tem organisaçao semelhante , ou diôerente ? se os 
fenómenos dos seus movimentos, c os seus usos suo idênti- 
cos, ou diversos? em fim se tem huma propriedade idênti- 
ca, a que possamos chamar com os Hallerianos irritahilida' 
de ; ou se os músculos voluntários suo dotados de huma for- 
ça particular , a qual denominemos com Bichat , contractili- 
dade animal sensível ; e os involuntários de outra força di- 
versa , a que chamemos contractilidade orgânica sensível ? Es- 
tes objectos, principalmente o ultimo, são da mais alta im- 
portância para as Sciencias anatómica , e physiologica. 

Antes de entrarmos no exame daquelles diversos obje- 
ctos , diremos algumas palavras sobre o que entendemos por 
systema cm Anatomia , e acerca de algumas differenças en- 
tre as duas vidas orgânica, e animal. A palavra systema tem 
acccpçúes muito diffcrcntes conforme as Sciencias. Em Ana- 

to> 



*i3ta oi 



DAsSciENCIASDELrSBOA. 5 

tomia significa hum tecido organisado (íj) mui semclliantô 
nas diversas partes da sua extensão, e o qual , reunido a ou* 
tros tecidos, fórma os diversos órgãos animaes. São cm con* 
sequencia os tecidos ou systemas huns elementos organisa- 
dos de que se compõem os corpos animaes (e o mesmo se 
pode applicar aos vcgetacs). 

Bichat vendo que alguns destes systemas cntravâo na 
composição da maior parte dos nossos órgãos , quando ou- 
tros erão limitados a hum pequeno numero delles , chamou 
os primeiros systemas geradores. Assim o tecido cellular , 
que entra na composição da maior parte dos nossos órgãos ; 
assim os vasculares, que lhes levão os principios e trazem, os 
resíduos da sua nutrição ; assim o nervoso , sede exclusiva da 
sensibilidade, são systemas geradores. Pelo contrario o sys- 
tema dermoideo he limitado á superfície externa do corpo, 
e o mucoso á interna ; e os ossos , as cartilagens , e as mem- 
branas serosas occupao partes muito circumscriptas da nossa 
maquina. 

A palavra systema nas outras Sciencias significa hum to- 
do, em que as diversas partes se referem a hum centro ou 
ponto de reunião commum ; por esta razão dizemos , em Phy- 
sica , systema planetário , porque todos os planetas tem o Sol 
por centro commum dos seus movimentos. Em Anatomia os 
systemas geradores formão também hum ponto de reunião 
commum : desta sorte os nervos tem hum centro commum 
no cérebro e medulla espinal ; as artérias e veias hum no co- 
ração ; e o tecido cellular forma hum todo continuo , em 
que estão mergulhados os nossos órgãos, desde a cabeça até 
á planta dos pés. 

Nos outros systemas não existe esta continuidade, á ex- 
cepção do dermoideo , c cpidcrmoideo ; c então a palavra 
systema lhes compete na verdade bem pouco ; mas conser- 
vamos este nome para explicar a somma , ou totalidade dos 
mesmos tecidos , que tendo huma estructura e propriedades 

A ii se- 

(/») Ou tambcm o Tratado sobre estes tecidos. 



4 Memorias da Academia Real 

semelhantes , existem cm partes muito diversas da economia 
animal. Deste modo a pleura nao tem continuidade alguma 
com as outras membranas serosas , nem a albuginea com os 
outros orgâos fibrosos ; mas como tem entre si muita se- 
melhança de estructura e de propriedades , formamos dos 
primeiros o systema seroso, e de todos os órgãos fibrosos 
brancos o systema fibroso. 

Acabamos de dÍ7.er , que as diversas partes do mesmo 
tecido, ou systema tinhão huma estructura semelhante, e 
propriedades análogas ; e quando Bichat desce ao exame par- 
ticular de cada hum dclles, admitte a mesma doutrina; mas 
no Tom. 1. da Anatomia Geral, pag. 92 das considerações 
geraes , se explica pelo contrario do modo seguinte : « Vis- 
to que cada tecido organisado tem huma disposição unifor- 
me por toda a parte ; visto que qualquer que seja a sua si- 
tuação , tem a mesma estructura , as mesmas propriedades , 
&c. " Estas duas proposições são summamcntc inexactas ; se 
fossem verdadeiras , seria neceflario crear quasi tantos sys- 
temas , como as diversas partes do corpo ; porque ainda ad- 
mittindo com Bkhat o excessivo numero de systcmas , que 
traz na sua Anatomia Geral , qualquer delles não tem em 
todas as suas partes nem a mesma estructura , nem as mes- 
mas propriedades. Quem não vê as grandes diffcrenças que 
apresentão as membranas mucosas nas suas diversas partes? 
A membrana fungosa do estômago , cheia de villosidades 
vasculares pendentes , a do duodeno coberta de válvulas 
conniventes , não tem grandíssima diflFerença da membrana 
mucosa da bexiga , ou da pituitária , principalmente daquel- 
la porção que reveste os seios ? As glândulas são dotadas 
de parenchymas evidentemente diversos entre si ; e o syste- 
ma glanduloso não parece ser mais do que huma totalida- 
de de corpos bastantemente diversos , e só reunidos por al- 
guns caracteres vagos e genéricos , debaixo de hum ponto 
de vista commum. 

Nos mesmos systemas geradores , que parece devião ter 
mais uniformidade , se nota a mesma discrepância. O sys- 

te- 



siair oí 



DAsSciENClASDsLlSBOA. > 5: 

tema nervoso por exemplo offerece muitas difFerenças de cs- 
tructura: o nervo óptico, segundo i?^// , apezar da sua gros- 
sura , não he composto de filetes , como os outros nervos , 
mas consta de hum tubo só , em cujo interior ha muitas cel- 
lulas communicantes , onde estagna a medulla. Os nervos oU 
factorios e os auditivos tem grande difFercnça na disposição 
e cstrucrura das suas ultimas extremidades , e parece cjue 
assim era necessário para poderem corresponder huns á exci* 
ração das partículas odoriícras , outros á dos raios sonoros. 

O tecido cellular he igualmente diverso nas diversas 
partes ; em humas exhala serosidade , em outras gordura ; 
em humas he lacho , e composto de laminas evidentes; em 
outras , como á roda das artérias , e das membranas muco- 
sas he filamentoso, e muito denso, &c. Finalmente as ar- 
térias tem diversa estructura nos grandes troncos , ou nos 
minimos ; os primeiros não tem irritabilidade alguma , e os 
segundos a tem , ou pelo menos huma contractihdade activa 
muito próxima daquella força ; de mais as suas túnicas são 
proporcionalmente mais crassas do que nos troncos ; final- 
mente os vasos capillares , continuação das artérias , varião 
muito entre si , e nelles se passão muitos dos grandes fe- 
nómenos da economia, em razão mesmo da sua diversidade 
de estructura , e de propriedades. 

Logo he imaginaria , e contraria aos factos anatómicos 
a rigorosa uniformidade de estructura , e a identidade de 
propriedades em qualquer systema; basta que a sua estructu- 
ra , tomada em geral , seja semelhante , e que as suas pro- 
priedades não sejão dilFerentes em quanto á essência. Assim 
os nervos são em toda a parte compostos de nevrilema e 
substancia medullar , aindaque esta padeça diversas modifi- 
cações nas diversas partes : igualmente as artérias são com- 
postas das mesmas túnicas nas diversas regiões do corpo , 
postoquc a sua densidade e propriedades vão progressiva- 
mente variando. 

Nós temos particularmente insistido nesta doutrina , 
porque havemos de ter occasiâo de a applicar ao systema 

inus- 



siEii 01 



6 Memorias da AcademiaReal 

muscular ; c na verdade oíFercccndo elle muita semelhança 
na organisação c propriedades das suas diversas partes , e mais 
talvez do que qualquer outro, não apresenta essa rigorosa 
uniformidade , que hc impossível encontrar senão em hum 
muito pequeno numero de órgãos idênticos. Se esta verda- 
de he provada , admittindo todos os systemas de Bichai , 
muito mais evidente se tornará , limitando-os como devemos 
fazer, a hum menor numero. 

Com tudo , anatomicamente fallando , não os podemos 
reduzir aos quatro elementos, de que falia Richeranã ^ celltt- 
loso, nervoso, muscular, e epidermoideo: estes podem rcputar- 
se como elementos mais remotos da organisação ; mas tra- 
tando dos systemas , que entrão im medi ata mente na forma- 
ção dos nossos órgãos , hc necessário , e essencial separar os 
ossos das cartilagens , estas do tecido fibroso , e mais ainda 
do celluloso , &c. Entre aquelles dois extremos ha hum meio , 
que me parece ser o que se deve seguir : desta maneira os 
dois systemas musculares formão somente hum , como mos- 
traremos nesta Memoria ; o mesmo pensamos a respeito dos 
systemas seroso e synovial, que não devem igualmente for- 
mar mais do que hum só ; do mesmo modo podem rcdu- 
zir-se a hum o epidermoioeo , e o pilloso , &c. 

Como pordm não pert^ndemos fallar de todos estes ob- 
jectos , basta termos fixado de algum modo as nossas idéas 
sobre o que se deve entender por systcma em Anatomia i 
e passemos a dizer algumas palavras acerca da distincção 
das duas vidas orgânica , e animal , paraque postos estes 
preliminares necessários , desçamos á particular discussão , que 
nos propuzemos. 

Ariitoteles e outros antigos tinhão já notado adiffcrcn- 
ça entre a vida , ou alma vegetativa , e racional ; com tu- 
do esta idea nunca foi applicada ás Sciencias Anatómica , 
e Physiologica : devemos a Crimeau esta applicação , a qual 
porém foi muito mais completamente desenvolvida por Bi- 
chai no Tratado sobre a vida, e a morte. Este Sábio chamou 
a huma , vida orgânica , porque a reputou commum a am- 
bos 



DAS SciENCrAs DE Lisboa. ^ 

bos os Reinos organisados animal , e vegetal ; a outra , ani- 
mal , peia julgar privativa dos animacs; e suppôz, cjuc se 
fosse possível revestir hum vegetal dos aparelhos da vida 
exterior , teríamos formado hum animal. 

Porém esta ídéa não he exacta ; porque todos os ór- 
gãos da digestão , e da respiração não se encontrão no ve- 
getal (íz) e nao pertencem também á vida exterior; e des- 
te modo na supposíção de Bichat ^ teríamos hum animal sem 
digestão , e talvez sem respiração ; por este motivo Mr. 
Biiisson chamou a estas duas funcçóes preparatórias. Mas pa- 
rece completamente supérfluo multiplicar nomenclaturas e 
distincçoes ; basta mudar o nome de vida orgânica no de 
vida assímilarriz, como fez Richerand^ e considerar de mais, 
que cila he nos animaes mais complicada do que nos ve- 
getaes , e que estes , aíndaque fossem revestidos dos apa- 
relhos da vida relativa , não se tornarião em animaes sem 
a addição , pelo menos , de hum tubo digestivo , caracter 
que parece ser o uiaís decisivo para distinguir o Reino ani- 
mal do vegetal. 

Além desta consideração ha outras duas mais impor- 
tantes ainda neste ponto da diflferença das duas .vidas , prin- 
cipalmente a respeito da discussão, em que vamos a entrar, 
e são as seguintes : i.^ Aíndaque as duas vidas se possão 
considerar isoladas e independentes , examínando-as abstra- 
ctamente , e attendendo só ás suas funcçóes e fins , com tu- 
do não se achão assim isoladas nas maquinas animaes. O es- 
tômago , os intestinos , e o coração pcrrurbão e alterao em 
infinitas circunstancias as funcçóes animaes 5 e vice versa as 
paixões , as sympathias , certos medicamentos logo depois 

de 

(/j) A respeito dos órgãos da digestão não ha duvida alguma: porém 
acerca da funtção di respiração , isto he , de huma fiincçáo pela <|u.il o 
ente org.misado decomponha huma parte do ar atmosk'rico , e absorva o 
oxigeneo, he problemático depois das experiências de i:7//j: mas de qual- 
quer modo he huma verd.idc irrefragívcl , que os animaes viciáo , e os 
vcgetaes purificáo a atmosfera ; e que a palavra respiração só pôde ser 
applicada aos últimos em hum sentido mais lato. Os mesmos órgãos náu 
tem entre si analogia alguma. 



filSLH or 



8 MemoriasdaAcademiaRkal 

de introduzidos no estômago , &c. desordenão igualmente 
de mil modos as íuncçòcs da vida assimilatriz. E fallando 
de hum modo mais anatómico , as artérias e veias , que per- 
tencem ao systema circulatório , animao huma e outra vi- 
da, que se achão por consequência dependentes da mesma 
sorte da influencia do coração. Igualmente he necessária a 
influencia dos nervos para a formação dos movimentos rá- 
pidos da irritabilidade , ou estas tenhao lugar cm huma , 
ou em outra vida , como provaremos amplamente no decur- 
so desta Memoria. 

A segunda consideração hc de algum modo consequên- 
cia da prmicira ; e he que na economia animal ha órgãos , 
que estão debaixo da influencia das duas vidas : deste mo- 
do a pharinge , e a extremidade inferior do recto , que es- 
tão cm grande parte debaixo da influencia da vontade , per- 
tencem á vida assimilatriz pelo seu fim : o diafragma , e 
a bexiga estão em parte sujeitos ao império da vontade, e 
em parte obedecem a estimulos involuntários. Costuma di- 
y.er-se que taes órgãos ficão nos limites das duas vidas ; mo- 
do vago , e inexacto de fallar , e que nada quer dizer j o 
que se vê hc que não ha completa isolaçao das duas vidas , 
nem relativamente á influencia reciproca e decisiva , que exer- 
cem huma sobre a outra , nem a certos orgíos , que na rea- 
lidade não pertencem exclusivamente a nenhuma delias , por- 
que estão debaixo da influencia de ambas. 

Passemos agora a examinar miudamente os diversos mo- 
tivos , por que Bichat separou os músculos da vida animal 
dos da assimilatriz ; e esta discussão nos levará ao mesmo 
tempo a determinar o ponto mais importante desta Memo- 
ria , a saber : Se a irritabilidade he huma força única , ou 
se devemos separa-la da contractilidade animal sensivel (na 
frase de Bichat ) . 



CA- 



DAS bCIENClAS ti E L<ISBOA. 



CAPITULO I. 

A forma exterior dos músculos não constitue huma diferett' 
ça essencial entre elles. 



A 



Primeira diffcrcnça notável entre os dois systemas , 
segundo Bíchat , hc a das formas : as fibras dos músculos ani- 
maes são , na sua opinião, rectas, c as dos orgânicos, cur^ 
vas , formando cavidades mais ou menos irregulares , e por 
isso os Anatómicos antecedentes lhes chamavao músculos 
ocos ; não se apegão a ossos , nem tem fibras tendinosas. 
Demais os orgânicos nem nascem , nem se terminão em ór- 
gãos fibrosos , como os animaes , e a este caracter dá Bi- 
chai muito peso : em fim as fibras dos primeiros nao estão 
sobrepostas ás outras , formando camadas densas , mas geral- 
mente se alargão debaixo da forma membranosa. 

Hum exame circumstanciado moftrará, que estas diffc- 
renças ou não existem , ou são tão accidentaes , que não 
devem causar separação alguma importante. Em primeiro lu- 
gar a differença de formas existe mais ou menos em todos 
os systemas, e particularmente no fibroso , e no glanduloso. 
Ha por exemplo alguma comparação na figura entre a dii- 
ramatcr e o tendão de Achilles , ou o ligamento triangu- 
lar do fémur ? Tem o figado alguma semelhança de for- 
ma com o testículo , ou com a glândula lacrymal ? Logo 
também não haveria inconveniente algum cm classar no mes- 
mo systema os músculos , postoque a sua forma exterior 
fosse diversa ; mas examinemos particularmente esta diíFc- 
rença. 

Só a maior parte dos músculos animaes he que tem 
as fibras rectas; e ainda assim existe entre ellcs a diffcrcn- 
ça de serem huns compridos, outros largos, outros curtos j 
mas ha outros cujas fibras são curvas ; tacs são o orbicu- 
lar dos lábios , e o esphincter do anus ; ainda mais , a pha- 
Tom. F. B A 



IO Memorias da Academia Real 

ringe he composta de fibras curvas , constituindo hum sac- 
cò , como nos músculos orgânicos , e ella he hum musculo 
voluntário. Em fim não se pódc dizer que a bexiga seja 
hum musculo orgânico ; cila está sujeita até certo ponto ao 
império da vontade ( assimcomo a extremidade do intesti- 
no recto ) c por isso os Anatómicos lhe chamao musculo 
mixto. 

O mesmo se deve dizer a respeito do diafragma , 
que estando até certo ponto debaixo da influencia da von- 
tade , he também movido involuntariamente , como no somno , 
e na apoplexia : entretanto a bexiga tem huma forma oca , 
o diafragma plana ; tão pouco influem as formas na natu- 
reza dos músculos ! S;1o accidentaes , nada concorrem para 
a essência destes órgãos , e a sua variedade depende dos 
fins , para que a natureza os destina. 

A segunda diffcrença , que consiste em não se apega- 
rem os músculos orgânicos a ossos , nem terem fibras ten- 
dinosas , he igualmente pouco solida ; porque a identida- 
de , ou diversidade de dois tecidos deve determinar-se por 
clles em si mesmos , e não pelas partes estranhas a que se 
apcgão : demais , o musculo orbicular dos lábios , e o lin- 
gual não tem apego algum a ossos, nem fibras tendinosas; 
pelo contrario os retinaculos das válvulas tricuspidas , e mi- 
traes do coração são claramente de natureza tendinosa : Bi- 
chat lha negou talvez com o fim de notar mais esta diíFe- 
rença entre as suas duas classes de músculos ; mas a sua 
grande resistência no cadáver , a forma fibrosa , a côr es- 
branquiçada , a falta de irritabilidade, c o seu uso, que hc 
de prender e regular o movimento das mesmas válvulas , são 
provas convincentes de serem pequenos tendões. O não se 
resolverem sem muita difficuldade em gelatina , he huma 
razão frívola, e prova somente que a Natureza os fez mais 
duros para supprir desse modo a sua delicadeza ; c além disso 
os mesmos fenómenos oflPerecem na ebullição os ligamentos 
amarellos das vértebras , c nem por isso Bichat lhes negou 
ò seu competente lugar no systema fibroso. 

A 



çta^s oi 



UAS SciENCIAS DE L I S B O A. II 

A mesma resposta se pôde dar á terceira difícrençi no- 
tada por Bichat ; he bem indiíFcrcnte que o musculo se pren- 
da ou não a tendões; tudo depende do fim , para que cllc 
he destinado; se serve para mover hum osso, deve ter luim 
corpo resistente , intermédio , que lhe sirva como de cor- 
da , e que suppra a sua molleza no apego ao mesmo osso. 
Mns SC hc hum musculo ôco , cujo movimento se fjça cm 
todas as fibras do centro para a circumferencia , c que ope- 
re sobre hum liquido ainda mais molle que o próprio mus- 
culo , he evidente que os tendões lhes scriao mais do que 
inúteis ; por esta razão os não tem a lingua na sua parte 
que apparece na bocca , nem o orbicular dos lábios , nem 
oesphinctcr do anus. Quanto mais não devemos fazer tanta 
differcnça , como Bichat inculca , entre o tecido fibroso , e 
o celluloso condensado. A túnica que os Anatómicos chamão 
muito impropriamente nervosa, e a que se apcgão as fibras 
da túnica muscular dos intestinos são mui pouco diversas 
das fibrosas ; a sua natureza chemica parece a mesma , pois 
se resolvem igualmente em gelatina , e o seu elemento ana- 
tómico, como pensou Haller , e julga modernamente Riche- 
rand , he certamente o mesmo tecido cellular pouco modi- 
ficado. Em todos os casos he cousa de bem pouco ou ne- 
nhum momento , que as fibras musculares se apeguem a fi- 
bras tendinosas , ou ccllulares densas : vê-se que as aponc- 
vroses de invólucro passão insensivelmente , c se mudáo cm 
tecido cellular. 

Em fim examinemos a ultima differença notada por Bi- 
chat entre os músculos animaes , e orgânicos; e he achircm- 
se as fibras dos primeiros sobrepostas humas ás outras , em 
quanto as dos segundos se cntrelação e encruzão , e gerjl- 
içcnte se alargão em forma membranosa. Esta differença hc 
sujeita a excepções, e muito incompleta; acha-se maior ana- 
logia entre a disposição das fibras musculares do coração, e 
as da lingoa , do que entre as do primeiro musculo , e as 
dos intestinos : as fibras do coração são muito numerosas j 
vermelhas , condensadas , e cncruzão-se fortemente hum.i3 

B li com 



12 Memorias da Academia Real 

com outras. He exactamente o que succede na lingoa , mus- 
culo eminentemente voluntário , e no qual he igualmente 
impossivcl desenlear o cncruzamento das fibras musculares. 
Pelo contrario nos intestinos estas fibras são poucas , es- 
branquiçadas, e o seu pequeno encruzamcnto apenas se pô- 
de notar nas suas extremidades , que se implantão na túnica 
nervosa , e não pelas suas superficics. 

Em consequência do que temos dito he evidente, que 
as differenças entre os músculos orgânicos , c animaes , ti- 
radas das íórmas exteriores , sendo já de sua natureza acci- 
dentaes , e insigificantcs , não existem pela maior parte, e 
são sujeitas a tantas excepções , que não podem servir de 
caracter a clasisficaçao alguma. 



CAPITULO II. 

A estructura dos musculos he a mesma em geral em ambas 
as vidas , assim como o sen uso. 

Assemos i segunda ordem de differenças , que são tira- 
das da organisação respectiva de cada huma destas classes 
de musculos ; differenças que se na verdade existissem da- 
rião grande peso á opinião de Bichat , porque a diversidade 
ou a identidade de estructura trazem comsigo a diversidade 
ou identidade de propriedades. Porém neste artigo ainda as 
suas razoes são menos plausiveis do que as examinadas no 
Capitulo antecedente. 

Bichat considera a organisação dos musculos , assim 
como a dos outros sytemas , debaixo de dois pontos de vi^- 
ta ; a saber : o seu tecido próprio , e os tecidos communs 
que cntrão na sua composição : sigamos esta mesma ordem. 

O tecido próprio dos musculos orgânicos não diffcre 
deste mesmo tecido nos voluntários. Em primeiro lugar , os 
tecidos musculares do coração , do canal intestinal , e o da 

be- 






DAsScrENCIASDELlSEOA. IJ 

bexiga, que são (mesmo impropriamenrc fatiando) os iirii- 
cos músculos orgânicos , que Bichat numera , diíFcrem mui- 
to mais entre si do que dos músculos voluntários na sua 
cstructura apparcnte. Quem não vc que o coração tem mui- 
to maior semelhança com a iingoa na cor, tenuidade , pou- 
quissima quantidade de tecido cellular, encru/.amcnto e gran- 
de quantidade de suas fibras do que com a túnica muscuhir 
dos intestinos ? A túnica muscular da bexiga hc igualmen- 
te muito differcntc da dos intestinos , e do coração; as suas 
fibras pela còr , pouco entrelaçamento que tem entre si , e 
pelos fascículos que formão , assemelhão-se muito mais aos 
músculos voluntários do tronco, do que áquclles dois órgãos 
involuntários. Temos pois os três músculos orgânicos de 
Bichat mais diíFerentes entre si nesta apparencia exterior 
de organisação , do que dos mesmos músculos voluntários. 

Se porém destas pequenas diíFerenças subirmos ao exame 
da própria organisação muscular, acharemos, que he idêntica 
em todos os músculos : o mesmo Bichat o confessa na yíiia^ 
tomia geral Tom. III. pag. 344. toda a fibra muscular apre- 
senta os mesmos plienoaienos , tratada pelos diversos meios 
de analyse ; a fibrina que constitue o seu elemento funda- 
mental , e que a distingue de todos os outros tecidos ani- 
maes , forma cffectivamente a base da fibra muscular em to- 
da a parte. 

A Natureza dando huma organisação commum a todos 
os músculos , dispóe-nos para se contnihircm na presença 
dos diversos estímulos; como porém os estímulos naturaes, 
que hão de excitar estes músculos , são diversos entre si y 
a mesma Natureza lhes dêo huma modificação particular , 
que os torna aptos para receberem mais cfficaz e propria- 
mente a excitação de certo c determinado estimulo, fican- 
do comtudo sujeitos á influencia de todos os outros, posto 
que de hum modo menos próprio , e menos durador ; he o 
que se conclue de todos os factos. 

Os músculos voluntários são muito mais própria e for- 
temente contrahidos pelo estimulo da vontade do que por 

quaes- 



siia OT 



14 Memorias da Academia Real 

quacsqucr outros ; com tudo , se lhos applicarmos , scjao me- 
thanicos, chimicos, ou galvânicos, clles se contraliem tam- 
bém , postoquc de hum modo menos forte c regular. E se 
cortarmos o cérebro , a medulla espinal , ou o nervo , ou 
ligarmos este, apezar de interrompermos e tornarmos nulla 
a acção cerebral , o musculo continua a contrahir-se , huma 
vez que se appliquc o estimulo por baixo do corte , ou da 
ligadura do nervo. Logo a chamada contractilidade animal , 
e que tão impropriamente se quer distinguir da irritabilida- 
de , não desce do cérebro, espinal medulla, e nervos pa- 
ra os músculos ; mas sim de qualquer ponto do systema ner- 
voso , donde não haja corte , ou ligadura , que interrompa 
a sua influencia sobre os músculos. 

O cérebro he hum órgão , que tem faculdades particu- 
lares c privativas , e está posto em huma das extremidades 
do systema nervoso; elle não concorre para a sua nutrição, 
organisação , ou propriedades ; a medulla he segregada em 
todos os pontos da nevrilema pelo systema capillar sanguí- 
neo , que a atravessa ; e huma evidente prova desta ver- 
dade são os acephalos verdadeiros , nos quaes achamos os 
nervos , e músculos complctam.ente formados ; logo do cé- 
rebro não vem também a força de contracção para os mús- 
culos voluntários , mas somente o estimulo (a) que hc o 
mais natural para aqucUa peculiaridade de organisação que 
a Natureza lhes dêo. 

O mesmo se diz a respeito do coração : o estimulo na- 
tural deste musculo he o sangue , como provou amplamen- 
te Haller \ excitado por elle , as suas contracções são mais 
fortes e regulares ; e com todos os outros estímulos sim se 
contrahe, mas de hum modo i ríe guiar , precipitado e fra- 



(íi) Nos Capitules V. e VII. havemos de provar que o concurso <Ja 
potencia nervosa he absolutamente necessário para a formação das contrac- 
ções em todos os músculos voluntários e involuntnios : aqui não faiia- 
nos deste objecto, tratamos somente dos cstimulos , e daquclla modifica- 
ção na estruciura dos músculos que os torna mais aptos para receberem 
antes a impressão de huns do que a de outros. 



dasScienciasdeLisp, OA. if 

CO] da mesma maneira o ar, e os alimentos, que fazem as 
contracções regulares do estômago c intestinos , aíFcctao 
de hum modo irregular, e mesmo funesto o órgão princi- 
pal da circulação ; e vfcc versa o sangue derramado no es- 
tômago e intestinos dcsafla prcternaturalmente os movimen- 
tos da sua túnica muscular. 

Concluamos de tudo isto , que a organisação muscular 
hc a mesma em toda a parte ; mas modificada em cada hum 
dos órgãos, conforme os estimulos naturaes, que a naturc- 
'/a lhes destina. Nos mesmos músculos voluntários se notão 
estas modificações ; por exemplo , os intercostaes não se 
achão paralyticos nos hemiplegios, quando todos os outros 
do mesmo lado estão em total inacção. 

Tendo considerado o tecido próprio dos músculos, pas- 
semos a examinar os seus tecidos communs , isto he , o cel- 
lular , os vasculares , e o nervoso. O tecido cellular he me- 
nos abundante nos músculos orgânicos do que nos volun- 
tários , segundo Bkbat : porém esta proposição não he ver- 
dadeira em toda a sua extensão ; a maior parte dos múscu- 
los voluntários tem aquclle tecido em grande abundância , 
e por isso são sujeitos a infiltrações serosas , cumules de 
gordura , &c. ; mas exceptuao-se , por exemplo , a lingoa , 
e o articular dos lábios , que tem menos tecido cellular 
do que a túnica muscular da bexiga. Esta maior ou me- 
nor quantidade de tecido cellular he meramente accidental , 
e se o encontramos mais abundante nos músculos que se 
prendem a ossos , he para que os seus fasciculos isolados 
possão contrahir-se separadamente , e nada influe sobre a or- 
ganisação e propriedades da fibra muscular. 

Em quanto aos vasos tanto sanguineos , como lymfa- 
ticos, não se nota diíFerença alguma; se parece atravessa- 
rem mais vasos destes a túnica muscular do estômago e in- 
testinos , muitos dclles são transeuntes, e vão distribuir-se 
na túnica interna , ou mucosa , onde são abundantissimos. 

A respeito dos nervos a diflferença a favor dos mús- 
culos voluntários parece mais considerável j e chegarão até 

ai- 



i6 jNIemorias DA Academia Reax, 

alguns Anatómicos Alemães a sustentar, que o coração não 
tinha nervos , distribuindose unicamente pelo seu systema 
vascular os que parece pcrdercm-sc neste órgão. Tratemos 
deste ponto anatómico mais circunstanciadamente. Para ver- 
mos que os nervos do coração não são tão poucos como 
aqucUcs Escriptorcs, e mesmo Bichai , quizerão dizer, bas- 
ta lançar os olhos sobre as bcllas estampas de Scarpa dos 
nervos cardiacos : alli se vê tiraicm cUes a- sua origem do 
ganglio cervical superior , do médio , e do inferior ; do par 
vago , do nervo recurrente , e dos plenos pulmonares j for- 
mão-sc assim os dois plexos cardiacos , pertencentes ás duas 
faces plana , e convexa do coração ; c delles partem gran- 
de numero de filetes , que se distribuem não só aos vasos car- 
diacos , mas á própria fibra muscular. 

Por outro motivo he até certo ponto illusoria a diffe- 
rença entre os nervos do coração e intestinos , e os dos mús- 
culos voluntários ; os destes , tendo de fazer longos cami- 
nhos , reunem-se em cordões , que constão de muitos filetes 
unidos por tecido cellular j cada filete he além disso com- 
posto de huma membrana , que Reil chamou nevrilcma , e 
dcmeduUa, c só nesta reside essencialmente a potencia ner- 
vosa ; por conseguinte vai menos desta substancia para os 
músculos voluntários do que á primeira vista se suppóe. Pe- 
lo contrario os nervos , que partem dos ganglios compos- 
tos , como tem passado por esses pontos de reunião , sahein 
já separados em filetes ténues com muito pouco tecido cel- 
lulor , e com a nevrilema tão fina , que até se pode duvi- 
dar da sua existência : logo a proporção de substancia me- 
dullar he maior no coração , c cm geral nos músculos invo- 
luntários , do que parece á primeira inspecção. 

Apezar de tudo isto, concedemos que os nervos, que 
se distribuem ao coração, são proporcionalmente menos do 
que aquelles que entrão em hum musculo voluntário da 
mesma grandeza ; e passamos a dar a razão desta diffcren- 
ça , que não nos consta tenha sido explicada por Escriptor 
algum dos que tratarão deste objecto: porque Haller , c 8i~ 

cbatt 



dasScienciasdeLisiíoa. 17 

f/j.jí , que dcfonJcráo a isolaçao c indcpcndcncia da iriira- 
bilidade da potencia nervosa , cahírão no dctcito opposto , 
pois ncin explicarão , nem poderão comprchendcr qual era 
o serviço , ou o uso dos nervos nos órgãos involuntários. 

Os nervos entrão essencialmente na composição de to- 
dos os músculos , assimcomo os vasos sanguíneos , c nã') 
conhecemos hum só onde faltem. Sc os nervos se cortao , 
ou as artérias , pouco tempo depois cessa inteiramente a 
contracção muscular. Este facto era completamente conhe- 
cido a respeito dos músculos voluntários , portím acerca do 
coração esteve longo tempo cm controvérsia ; modernamen- 
te as experiências de Le Gallois sobre a influencia da espi- 
nal mcdulla na regularidade e força dos movimentos do co- 
ração , c as de Nystcri sobre a contracção do mesmo órgão, 
pela influencia galvânica , armando-o de huma extremidade , 
e os nervos da outra , dissiparão inteiramente as duvidas , 
que poderia haver a este respeito , c confirmarão este im- 
portante pomo de doutrina. Os movimentos fracos, irregu- 
lares , c pouco duradores , que se conservao não só no co-' 
ração , mas nos músculos voluntários , depois do corte dos 
nervos, são devidos a duas causas ; i."* conservar-se ainda por 
algum tempo a potencia nervosa depois do dito corte ; z,^ ser 
a base ou o rudimento da irritabilidade insito á fibra mus- 
cular , como provaremos no Cap. VII. , postoque para a 
regularidade e foiça das contracções seja necessário , além 
desse rudimento ou principio de irritabilidade , o concurso 
da potencia nervosa , c do sangue arterioso. 

He igualmente outra verdade provada pelos factos, que , 
irritado o musculo' successivamente , cessa de responder ás 
excitações ; o mesmo faz o nervo; mas.se deixarmos descan- 
Çar hum ou outro , tornão a reparar-se , c a ser sensíveis 
aos mesmos , e ainda aos ni.ns fracos estímulos : igualmen- 
te se o sangue deixa de ser arterioso , o musculo não exe- 
cuta os movimentos de contracção com aqucUa ordem e re- 
gularidade que d'antcs ; c passado algum tempo , cessa to- 
da a qualidade de movimentos. Vê-se pois, que o exercida 
To!>i. F, C da 



7 



i8 Memorias da Academia Real 

da irritabilidade consiste cm huma acção chcmico-animal 
e que a fibra muscular soffrc então huma alteração tal, que 
exige tempo , e huma nova nutrição para se por em esta- 
do de se contrahir de novo ; que os nervos dão alguma 
cousa, seja hum fluido ethereo, ou o que for, que igual- 
mente se consome, e que precisa de tempo para se formar 
de novo. Vemos também a necessidade do sangue arterio- 
so ; mas pelos factos conhecidos não podemos determinar 
se este sangue he necessário , porque dê também algum prin- 
cipio no acro mesmo da contracção , ou se serve somente 
para xiutrir e reparar a fibra muscular : com tudo esta segun- 
da opinião parece a mais provável , porque segundo as ex- 
periências de Lc Galois y a integridade das artérias he essen- 
cial para a conservação da potencia nervosa ; e por analo- 
gia também o systema arterioso será necessário para a con- 
servação da fibra muscular. 

Aindaque nós não saibamos o que he esta acção che- 
mico-animal, em que consiste a irritabilidade, com tudo he 
hum grande passo a certeza que temos da dependência em 
que está a fibra muscular da potencia nervosa , e do san- 
gue arterioso para se fazer aquella funcção cm todos os mús- 
culos , assimcomo da propriedade que tem de se repararem es- 
tas forças quando tem sido esgotadas pelo demasiado exercicio. 

Porém os nervos tem outro uso muito notável nos mús- 
culos voluntários, e he servirem-Ihes de estimulo natural; 
he evidente , que no estado de saúde são os únicos agen- 
tes encarregados deste serviço ; e he por outra parte tam- 
bém certo , que são ihdispensaveis para a integridade do 
musculo , e servem no próprio exercicio da irritabilidade. 
O primeiro uso he supprido no coração pelo sangue , no 
ventrículo e intestinos pelos alimentos , e na bexiga pela 
ourina. O modo de obrar de todos estes estimules he en- 
volvido em extrema dlificuldade ; mas não he mais obscu- 
ra a maneira de obrar do estimulo nervoso , do que a do 
sangue ou de qualquer outro; e não dizemos senão o que 
os factos nos patcntcão claramente. 

Ago- 




t5AsSciENCiAS DE Lisboa. r^ 

Agora torna-se evidente a razão , por que os músculos 
involuntários tem realmente menos nervos do que os volun- 
tários ; he porque ellcs lhes servem somente de dar a inte- 
gridade c de concorrerem para a formação das contracções ; 
sendo os seus estimulos filhos dos líquidos , que correm ha- 
bitualmente por dentro das suas cavidades. 

Consideremos agora os músculos relativamente aos seus 
usos ; Bichat julga , que attendendo a estes , facilmente os 
podemos distinguir em duas classes, vistoquc nuns servem 
na vida assimilatriz , e outros na vida animal. Na verdade 
não se pòdc dar huma prova mais forte da sua prcoccupa- 
ção pela isolaçao das duas vidas. Pelo mesmo argumento 
podíamos separar em dous systemas o celkilar ; porque hu- 
ma parte delle entra na composição dos órgãos assimilatri» 
zes , o outra na dos animaes. 

Poderíamos igualmente dizer, que as artérias tão uni- 
das entre si , e tão dependentes humas das outras até á 
aorta , sua origem commum , formaváo dois systemas ; vis- 
toque o cérebro c os nervos tem as suas artérias , assimco- 
rno os órgãos assimilatrizes tem também as suas; e tal pro- 
posição seria hum absurdo em Anatomia; porque a caróti- 
da interna , por exemplo , que se distribue no cérebro , ri- 
ra a sua origem da carótida primitiva, que dá também nas- 
cimento á externa , a qual se distribue nas parotidas , e em 
muitos órgãos tanto assimilatrizes, como animaes. O mes- 
mo que temos dito dos systemas cellular , e arterioso , se ap- 
plica ao absorvente , o qual , sendo único , tira indifferen- 
temente a sua origem de ambas as vidas. Que differcnça 
se nota ,/por exemplo , entre os lymfaticos do coração e os 
do deltóides? 

He clara a applicação da doutrina antecedente ao sys- 
tema muscular : a natureza , dando ás suas fibras huma es- 
tructura semelhante, sujeitou-os ás mesmas leis, e deo-lhcs 
fenómenos semelhantes nas suas contracções e usos ; espa- 
Ihou-os igualmente por ambas ab vidas , paraque pudessem 
servir aos seus diversos fins, conforme alguma variedade ac- 

C ii ci- 



20 Memorias DA Academia Real 

cidcntal ou de formas, ou de partes visinhas a que os prcn- 
deo. 

Os fenómenos e circumstancias principaes da contrac- 
ção de todos os músculos siio os seguintes ; i.° a contracção 
he sempre desafiada por algum estimulo; 2.° ha estimulos 
naturaes e próprios para os diversos músculos , c só quan- 
do elles se applicao he que as contracções são regulares , for- 
tes , e duradouras ; também se contrahem na presença de to- 
dos os outros , que por isso podemos chamar artificiacs ; 
mas então as contracções são fracas, irregulares, muito rá- 
pidas, e brevememntc cessão; 3.° com todos os estimulos 
artificiaes he a contracção seguida da relaxação , e também 
com os naturaes na maior parte dos casos : mas ha circum- 
stancias em que estes últimos dcterininao huma contracção 
continua na totalidade do musculo ; são disto exemplo a 
contracção da bexiga , que continua até expellir quasi toda 
a ourina , o tetanos , &c. ; 4.° no tempo da contracção di- 
minuem os músculos em comprimento , e augmentão em 
grossura; f." endurecem no mesmo tempo; 6.° não se fa- 
zem pallidos , mas promovem a circulação do sangue veno- 
so ; 7.° as contracções varião notavelmente conforme a sua 
força , estado do animal , vivo , ou morto recentemente , c 
outras condições que se podem consultar nas Obras Elemen- 
tares ; 8.° na contracção formâo-se rugas transversas mais 
ou menos visíveis; 9.° no tempo da relaxação o musculo 
volta ao seu estado anterior, faz-se mais comprido, menos 
grosso , amollecc , perde as rugas transversas , &c. 

Se os músculos pois tem huma estructura ser^ielhnnte, 
e executão em toda a parte os mesmos fenómenos , nao de- 
vem formar mais do que hum único systema. Os seus usos 
geraes , como são huma consequência immediata dos fenó- 
menos mencionodos , são igualmente os mesmos , c redu- 
zem-se (a) á contracção, e relaxação; os usos particulares 

que 

1^ íj ) Mnif c'cn coujcurs en se reíSírinnt , qtiih ehranlcnt., cLvcn: ou 
ítbahscnty attirent ou npousscnt cts Aiffenns foids. Hauchecornc Atuit. Fbil. 
Tom. I. 



il-X^ 01 



DAsSciEiJCiA.sDs Lisboa. ai 

que SC dcrlviío deste geral variao infinitamente , confonrc 
os fins , para que a natureza os destina ; os que se ap:'guo 
aos ossos servem para os mover huns soíire outros, ciando 
assim origem á multiplicidade de movimentos de locomo- 
ção, que se notiío na nossa maquina; os que se implantao 
no bulbo do olho, dirigem-no, c dao-lhc diversas posições 
conforme os objectos que queremos ver; os da laryngc ser- 
vem para imprimir diversos sons na voz, comprimindo ou 
dilatando a abertura da glotis ; o esfinctcr do anus, fcchan- 
do-o , Íã7. que os excrementos possíío ser expellidus a ho- 
ras regulares ; pelo contrario a túnica muscular da bexiga e 
intestinos expellem pela sua contracção os líquidos excrc- 
mcnticios, que devem sahir do corpo; os ventrículos e au- 
ricu!a«; do coração , impcUinJo o sangue pelos seus movi- 
mentos alternados , fazem a circulação ; e o diafragma pe- 
lo contrario , contrahindo-se , augmenta a cavidade thoraci- 
ca , e causa assim de hum modo muito particular a respira- 
ção. Os usos pois dos músculos tomados em particular são 
variadíssimos, e diversificâo segundo hum grande numero de 
circumstancias, que hc inútil especificar; mas o meio, de que 
a natureza se serve para encher todos clles , he hum úni- 
co em ambas as vidas : contracção , c relaxação ; e os fenó- 
menos destas contracções , e relaxações são igualmente os 
mesmos ; portanto os músculos não formão mais do que hum 
único systcma na economia animal. 

Parece que seria aqui o lugar de entrar no exame da 
questão , se a irritabilidade e sensibilidade são huma c mes- 
ma cousa ; Bíchat quando suppÕe a contractilidadc animal 
sensível dependente essencialmente dos nervos, julga, que 
elles não são os estímulos naturaes da fibra muscular ani- 
mal , mas realmente os orgã(j)s essenciaes da contracção ; e 
pelo contrario , quando chama irritabilidade á contractilida- ^ 
de sensível dos músculos orgânicos, julga-a huma íorça ín- 
sita, e independente dos nervos; segue por tanto a affirma- 
tiva no primeiro caso, c a negativa no segundo; distincção 
jia verdade, que tem tanto de novidade, como de inveio- 

si- 



gia^ O' 



az Memorias da Academia Real 

similhança ; mas so trataremos deste objecto quando ti\'er- 
nios analysado as razões , por que aquelle Rscriptor quer dis- 
tinguir as duas contractilidadcs sensiveis huma da outra. 



CAPITULO III. 

Não (levemos considerar a chamada contractilidaâe animal no cé- 
rebro c nos nervos ; mas só nos músculos , que náo sào pas- 
sivos , como Julga Bicha t. 



O. 



'S motivos , por que Bichat faz depender a contracção 
muscular voluntária só do cérebro e nervos, sao os seguin- 
tes : 

1° <í A acçáo muscular augmenta cm energia, quando a 
do cérebro he mais activa ; huma quantidade maior de san- 
gue dirigido para a cabeça.; o ópio , ou o vinho tomados 
moderadamente , são prova desta verdade : o terror , pelo 
contrario , diminuindo a acção do coração, e conseguintemen- 
te a impulsão do sangue para o cérebro , c os narcóticos 
cm excesso , abatem a energia daquellc órgão , e na mes- 
ma proporção a acção muscular voluntária. » Este argumen- 
to só prova , que do cérebro vem o estimulo natural para 
os músculos voluntários ; e sendo a acção destes na razão 
composta da sua aptidão para receber o estimulo, e da gran- 
deza delle , deve ella crescer ou diminuir , conforme for 
maior ou menor qualquer daquelles dois elementos. Da mes- 
ma sorte hum alimento estimulante desafia contracções pc- 
ristalticas no estômago e intestinos mais activas do que 
outro insipido, c da mesm maneira o sangue mais abundnn- 
' te augmenta não só a velocidade , mas a força das puisa- 
sõcs ; c nem os alimentos , nem o sangue constituem a ir- 
ritabilidade. 

2.° íí Succede o mesmo nas moléstias; tudo o que com- 
prime ou extingue a energia cerebral, produz o torpor, a 

pa- 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. 23 

paralysia , ou a apoplexia; pelo contrario as causas irritan- 
tes, como esquirolas, ósseas, &c. produy.em as convulsões: 
os mjniacos a pczar de terem muitas vezes o habito do cor- 
po débil , e os músculos delgados , aprcscnrão forças enor- 
mes. >J Estes factos são verdadeiros em geral ; mas a sua ex- 
plicação he a mcsina que dêmos no paragrafo antecedente ; 
assimcomo a das diíFcrcntcs experiências tentadas por Bi- 
chai e outros, feitas com injecções nas carótidas de diver- 
sos animaes , ou com irritações praticadas immediatamente 
no cérebro. 

Porém a'quelles factos devia Bichat accrescentar outros 
de natureza diversa , e igualmente importantes para se co- 
nhecer cabalmente qual he a influencia do cérebro nos mús- 
culos voluntários ; raes são os seguintes : os homens que 
aJcanção pelo excrcicio , alimentos lautos , &c. a robus- 
tez , e o temperamento athletico , conhecido pela grossura 
dos músculos , suas formas proeminentes , e côr vermelha , 
offerecem contracções musculares muito mais fortes, do que 
os de habito opposto , semque haja augmento algum de 
energia, ou de estimulo no cérebro. Vice versa, os que se 
tem extenuado por dieta , fadigas , ou moléstias , particu- 
larmente os hydropicos , e que se conhecem pela forma ar- 
redondada , molleza, e pallidez dos músculos, affrouxão ex- 
cessivamente na força e duração das suas contracções , sem 
que appareça a menor diminuição na energia do cérebro. 
Vê-se pois , que são precisos dois elementos para se estabe- 
lecer a contracção muscular , a boa disposição e nutrição 
das suas fibras , e o estimulo que lhe vem do cérebro ; até 
he fácil distinguir , qual destes dois elementos predomina ; 
se a força das contracções procede da boa nutrição da fibra , 
a vontade as pode repetir por muito tempo sem cansaço , 
e sem incómmodo ; se porém ella he filha de huma irrita- 
ção excitada no cérebro, como cólera, vinho, &c. , a sua 
duração hc curta , e os seus esforços são seguidos de pro- 
porcionado abatimcto e prostração. 

Considera depois Bichat a contractiiidade animal nos 

ner- 









24 Memof. IAS DA Academia Real 

nervos, c reputa a mediilla cspii,ial como hum nervo geral, 
de que os outros são simplesmente ciivisõcs ; os fenómenos 
que resultão da ligadura , corte , compressão , ou irritação 
da espinal mcdulla , ou dos nervos , suo os mesmos : nos 
primeiros três casos iia suspensão de movimentos , no ulii- 
mo formão-se convulsões nos músculos subjacentes. As lesões 
da cspina quanto mais altas , mais perigosas são , pois se 
cxtcndem a hum maior numero de músculos; he por esta ra- 
aão que aíFcctando-sc somente a sua porção kunbar (a) , só 
cabem em paralysia, ou convulsão os músculos da bacia, e 
extremidades inferiurcs. 

Prescindindo actualmente (porque não pertence aa nos- 
so objecto ) da consideração muito inexacta de ser a espi- 
nal medulla hum grande nervo de que todos os outros se- 
jão ramificações , o que já Soemering , e ultimamente Galí 
refutarão completamente , esta maneira de considerar a con- 
tractilidade animal, he a mesma do paragrafo antecedente, 
c «"cm por tanto igual refutação. Antes achamos nestas ex- 
periências huma prova fortíssima , de que pelos nervos só 
vem o estimulo para os músculos voluntários ; porque ain- 
da existindo o cérebro , se irritamos a mcdulla espinal , ou 
qualquer nervo , entrão clles em contracções só por baixo 
do ponto irritado; logo dos nervos só vem a irritação; e 
quando no estado ordinário a vontade opera no cérebro, c 
excita a contracção, he evidente que a sua operação he a 
mesma que a dos outros estímulos ; isto he o que irrita , 
ou põe em acção a potencia nervosa. 

Pelo mesmo motivo nos animaes que não tem cérebro , 
a irritação voluntária parte de outro ponto do seu systema 
nervoso; e Igualmente nos animaes, que exccutão grandes 
movimentos, c tem o cérebro muito pequeno, como nos 
peixes , não ha proporção alguma entre esta visccra , e os mus- 

cu- 

(í7) As cxpcricncias ile Le Galliiis de^^menteni esta asscrçáo Ac Bicbat , 
con:o sf dirá no Cip. VI. ; in.is sempre he verJadc , c]ue só se .nffcctáo 
os rnusciilos ; que Hcáo porbaixo do íorte ou ifritação dos nervos , ou 
da espinal nicdulia. 



DAS SciENClAS DE LiSEOA. Ij* 

culos; e a iv.záo hc porque delia parte somente a cstimu" 
lo , o qual pòdc nascer de qualquer pequeno ponto ; pdo 
contrario tem grande medulla espinal , e nervos grossos pa- 
ra se poderem distribuir por hum systema muscular tão acti- 
vo. A conclusão geral , que devemos tirar do que temos 
dito , lie que nas contracções ordinárias o estimulo proce- 
de do cérebro, onde opera a vontade; e nas artificiacs, ou 
pathologicas o estimulo procede do ponto em que o appli- 
camos , não intervindo nestes casos' o cérebro , o que não 
poderia acontecer , se delle procedesse a força de contrac- 
ção animal , segundo a opinião de Bicbat. 

Continua depois o mesmo Escriptor a considerar aquclla 
sua força nos músculos , e hc fácil de ver pelo que temos 
dito ate agora quaes serão os seus resultados: não reconhe- 
ce nos músculos voluntários senão a necessidade da sua inte- 
gridade para poderem receber a excitação do cérebro ; e por 
isso hc preciso que não estejão pizados , confundidos , in- 
flamraados , que tenháo sangue arterioso , &c. ; mas estas con- 
dições são , segundo elle , unicamente necessárias paraque 
o instrumento musculo esteja apto para receber a força de 
contracção , que lhe vem dos nervos , e não porque elle te- 
nha em si principio algum activo para a dita contracção ; 
o que se confirma pelas próprias expressões do Author a pag. 
290 do Tom. III. da Anat. Ger. u Na permanência de con- 
j> tractilidade animal depois da morte , os músculos são ab- 
5' solutamente passivos; obedecem, assim como no tempo 
»> da vida , á impulsão que recebem dos nervos ; he o que 
í» a distingue da permanência da irritabilidade , propriedade 
»' pela qual depois da morte , assim como no tempo da vi- 
5> da , o musculo tem em si mesmo o principio que o faz 
í' mover. » De maneira que no seu modo de pensar hum 
principio , que existe no cérebro , c desce pela espinal me- 
dulla , e nervos , posto em movimento pela vontade , sym- 
pathias, ou qualquer causa irritante, hc a causa única acti- 
va da contractilidade animal sensível , sendo a fibra muscu- 
lar voluntária inteiramente passiva , ou hum simples instru- 
Tom. V. D meu- 



aá Memorias da Academia Real 

mento apto para aqucllc principio poder desenvolver se , e 
produzir a contracção : absolutamente o contrario se pensa 
dos músculos involuntários. Conclusão errónea , cm que ve- 
mos dar a fenómenos idênticos , causas inteiramente oppos- 
tas , e substituir á uniformidade da Natureza as distincções 
da abstracção. 

Nós pela nossa parte temos mostrado , e mais ampla- 
mente o faremos nos dois Capitulos seguintes, que a fibra 
muscular he tão activa no coração, e intestinos, como nos 
músculos voluntários ; que o principio nerveo he tão neces- 
sário em liuns como cm outros ; e que a única diíFercnça , 
que ha entre elles, he que em huns o estimulo lhes advém 
de algum liquido , que banha a sua superfície interna , e em 
outros lhes lic dado pulos mesmos nervos , que recebem a 
irritação do cérebro , ou de qualquer ponto do systema ner- 
voso , que se irrite ; c que cm consequência a força he a 
mesma em todos os músculos , como pensou Hciller , sendo 
a distincção , introduzida por Bkhat ^ devida ao espirito de 
systemas, que quiz attribuir forças independente e diver- 
sas ás duas diversas vidas. 



CAPITULO IV. 

O Cérebro infiue de hum modo directo e decisivo sobre o co- 
ração , e os outros órgãos involuntários. 



P. 



Ara provar mais amplamente a diíFerença das duas con- 
tractilidades , Bichat desenvolve a pag. 35'6 do Tomo já ci- 
tado as razões , por que julga a irritabilidade orgânica inde- 
pendente dos nervos j e diz em primeiro lugar , que o cé- 
rebro para exercer a sua influencia nos músculos deve ser 
excitado pela vontade , pelos irritantes , ou pelas sympatliias ; 
€ cm segundo aJBrma , que nenhuma destas três causas , quan- 
do íflFcctão o cérebro, fazem contrahir os músculos orgâni- 
cos. 

Em 






dasScienciasceLisboa. 27 

Em quanto á primeira causa , ou vontade , touos con- 
cordamos , que não tem influencia directa no coração , estô- 
mago c intestinos ; e postoque julgamos que a tem na be- 
xiga , e no recto mais decisiva do que pensa Bichat , com 
tudo esta discussão pouco nos esclareceria ; e portant ) pas- 
semos ao exame das outras duas causas , sabendo entretan- 
to que a vontade não pôde operar sobre os músculos in- 
voluntários , e tendo os orgânicos os seus estimulos natu- 
raes , próprios da sua organisaçao , c das funcções , a que 
são destinados , a sua influencia não só seria desnecessária 
aos últimos, mas até funesta, porque iria contrariar a ac- 
ção dos seus verdadeiros excitantes. 

Bichat diz , que se irritarmos o cérebro com qualquer 
excitante , os músculos animaes entrao em convulsão , mas 
que os orgânicos conservão o seu movimento natural ; que 
o mesmo succede irritando , ou lacerando os nervos da vi- 
da orgânica , que nelles se distribuem ; porque nem preci- 
pltão , nem affrouxão as suas contracções : destes diversos 
agentes fixemos a nossa attençâo sobre dois dos mais po« 
derosos , o ópio , e o galvanismo. 

A respeito do primeiro se explica aquelle Escriptor do 
modo seguinte : « O ópio que entorpece toda a vida ani- 
» mal, porque opera particularmente sobre o cérebro, que 
>> he o seu centro , e que paralysa todos os músculos vo- 
>» luntarios , deixa intactos os outros nas suas contracções. » 
He bem estranho que Bichat tivesse a respeito do ópio se- 
melhante opinião , porque , apezar das contestações que ha 
em Medicina sobre o seu modo de obrar , ninguém duvida 
que elle produz effeitos summamente evidentes- no systema 
sanguineo, assimcomo no nervoso. 

IVhitt nos Ensaios de Edimburgo tinha já publicado, que 
applicando o ópio sobre o coração das rãs , as suas pulsa- 
ções diminuiâo ou cessavao inteiramente ; o mesmo provou 
Wirtenson. Vede ^ourn. de Med. Tom. LXXXVIII ; e mo- 
dernamente as experiências de Wilson tivcrão o mesmo re- 
sultado , principalmente enjeitando o ópio na superfície in- 

D ii ter- 



7,Z Memorias da Academia Real 

terna daqucllc órgão. Sc das experiências passamos ás ob- 
servações , vemos todos os dias , que o opi.i , tomado cm 
maior quantidade , produz diminuição na pulsaçJio dns ar- 
térias. Altson já o tinha provado antigamente; c mais par- 
ticularmente o podemos concluir de trcs casos de cnvcna- 
mento do ópio referidos por AUbert nos seus Elementos de 
Therapetitica Tom. II. pag. jpp e seguintes ; cm todos trcs 
apparcceo juntamente com os symptomas nervosos o pulso 
raro , c pequeno. Os seus cíFeitos no canal intestinal são 
evidentemente torpentcs , e daqui a sua utilidade nas diar- 
rhcas ; e cm dose mais considerável diminuc , e até extin- 
gue as foiças digestivas do estômago. He pois evidente , que 
o ópio cm maior dose entorpece o principio sensitivo , se- 
ja no cérebro , nos músculos voluntários , no canal alimen- 
tar , ou no coração. 

Tomado em pequena quantidade os seus elFcitos visí- 
veis são de excitação. Não he do nosso objecto entrar na 
explicação deste fenómeno , por ser inteiramente alheia da 
presente questão: o que nos cumpre mostrar he que a men- 
cionada excitação se nota igualmente no systema sanguineo , 
e no nervoso. As experiências mais circumstanciadas , que 
conhecemos sobre os effeitos do ópio, tomado inteiramen- 
te nas pulsações das artérias , são as de Critmpe na obra in- 
titulada Àn Iitqiiiry into the Nature and Properiies of Opium, 
Destas escolheremos as duas seguintes : 

Experiência 7." A' huma hora depois do meio dia se dca 
a hum rapaz robusto , cujo pulso natural dava só 44 pan- 
cadas cm hum minuto , hum grão de ópio diluído em hu- 
ma pouca d'agoa quente ; as variações do pulso foiao as se- 
guintes : 



Em minutos 
Pulsações 



10 



44 



ly 20 



44 44 



í5 



50 



50 



52 



70 80 



46 44 



90 



■V- 



ICO 



42 



no 



4C 



44 



Experiência 8.* O Auctor , cujo pulso batia 70 vezes cm 
hum minuto , tomou perto da huma hora da taidc dois grãos 



:'.J'^''J- 



DAsSciENCiAs DE Lisboa, 29 

e meio d'opio dissolvidos em huma onça d'agoa , c tcv;- 23 
seguintes mudanças no pulso. 

Em minutos 5'lio[i5'J2o]25'J3o'55'!4o[45'Kok5-l<>o'75' 
Pulsações 74|7474|7Íi|80|7 2^7C|64jÓ4^6ój7o.7o,70 

Prescindimos r.qui dos eíFoitos de somnolencia c tor- 
por, que nesta segunda experiência se manifestarão no sys- 
tcma nervoso , por ser o ópio cm dose considerável ; só no- 
taremos , que nao só se augmentou a velocidade , mas a for- 
ça das pulsações , as quacs depois por hum abatimento con- 
secutivo descem abaixo do seu rythmo natural , at<íque as 
cousas se restabelecem no antigo estado. Se o augmcnto de 
acç.lo no systema sanguinco hc produzido directamente , co- 
mo querem os Brawnianos , e o mesmo Crumpe , ou de hum 
modo indirecto , relaxando o systema capillar , e deixando 
nclle estagnar o sangue, como explicou ír/r/íwxo» lug. cit. , 
e ultimamente Barbier nos seus Ensaios de Pharmaclogia , he 
o que não examinaremos , por não pertencer á presente ques- 
tão. 

O ópio produz igualmente no cérebro e systema ner- 
voso huma excitação visivel ; delia nasce a alegria, o au- 
gmento de coragem , e a erecção venérea nos Povos e in- 
dividuos costumados ao seu uso moderado : Barbier pcrtcn- 
de também explicar estes fenómenos pela sua acção sedati- 
va, diminuindo a irritação, e o poder sensitivo, e não pe- 
lo seu estimulo directo; porém o ser de hum ou outro mo- 
do hc indiiFcrente para o nosso fim ; basia-nos , que a .«^ua 
acção seja a mesma nos músculos voluntários , e involuntá- 
rios , talvez porque affectando os nerv^os , e sendo o con- 
curso destes essencial para a irritabilidade , venha a obrar 
sobre esta de hum modo secundário. 

Hc verdade , que os effcitos torpcntes sao mais manifc.í- 
tos no cérebro c nervos doque no coração ; mas isto só 
constituc huma diffcrença em mais , ou em menos , c não 
na essência j trcs são as circumstancias , que principalmeiUc 

coa- 



50 Memorias da Academia Real 



3 



concorrem para a produzir: i." obrar o ópio directamente 
sobre os nervos e o cérebro , e só remotamente no cora- 
ção por intermédio dcllc ; 2.' sendo o ópio absorvido para 
operar directamente no systema sanguinco, perde parte da 
sua actividade pela mistura com os suecos gástricos , e com 
o sangue ; 3.* este accumulado no systema capillar torna-se 
huma causa irritante para o coração , que conscguintcmcnte 
salic brevemente de algum estado de torpor em que tives- 
se cabido. A primeira destas causas hc tão poderosa , que 
o estômago e intestinos , apezar de serem órgãos involun- 
tários , rcscntem-se muito mais da acção estupefaciente do 
ópio, do que o coração, por elle obrar directamente nas 
suas superfícies internas. 

O galvanismo he o meio mais decisivo de excitar os 
órgãos irritáveis ; mas se fazia ou não contrahir os múscu- 
los involuntários , pondo-os cm communicação por meio do 
arco excitador , com o cérebro , espinal meduUa , ou ner- 
vos , tinha sido objecto de longa duvida até aos tempos de 
Nysteu. Bkhat tinha seguido , como he claro , a opinião ne- 
gativa ; porém elle não conhecia a pilha de Volta , este po- 
deroso meio de galvanisar , nem provavelmente as experiên- 
cias de Fowler , que tinha já observado antes delle , e sem 
o uso da pilha , a excitação do coração pelo galvanismo. 
Nysteti , como dizíamos , fez as suas experiências com tanta 
exactidão, diante de pessoas tão respeitáveis, e designando 
tão satisfatoriamente as causas , por que os seus antecessores 
falharão nesta tentativa , que nós julgamos a questão intei- 
ramente decidida por ellas. Vio contrahir-se o coração, es- 
tômago, e intestinos com a mesma promptidão com que se 
contrahião os músculos voluntários. Vede as suas Recherches 
de Physiologie y &c. de pag. 15)3 por diante. 

Porém se dos estimules fysicos passamos aos moraes , 
abre-se-nos hum campo immenso de irritações cercbraes com- 
municadas aos órgãos involuntários ; fallo das paixões , cu- 
jas profundas impressões são capazes de abalar o coração , 
o systema cipillar, estômago, intestinos, órgãos secretorios , 

&c. 



dasScienciasdeLisboa. 31 

&c. Nem Halkr , nem os seus discípulos poderão jamais 
responder a esta prova directa da influencia do cérebro so- 
bre os órgãos involuntários. Bichai julgou cortar a diiíicul- 
dadc , pondo a sede primitiva das paixões nos orgãus da 
vida orgânica; idca insustentável, e que foi excellentemcn- 
tc refutada por Buissou. Certamente huma pessoa , que vê , 
e conhece hum perigo eminente , sente logo vacillar seus 
membros, palpitar, e enfraquecer o coração, e a paliidez 
da morte derramar-se na sua face : outro pelo contrario , a 
quem se diz huma injuria grave, entra em cólera, a ener- 
gia do seu cérebro augmenta , os músculos voluntários do- 
brão de força, o coração bate mais fortemente, e tudo mos- 
tra que a reacção communicada pela intclligencia , se der- 
ramou immediatamente por todas as partes da economia vi- 
vente ; o mesmo podemos dizer dos cfFcitps de huma no- 
ticia triste, que tira, ou aflProuxa as forças digestivas; da 
vergonha , que cora immediatamente as faces , e assim de 
todas as mais paixões , que produzem os seus cíFeitos , tan- 
to na vida animal , como na orgânica. He inútil discutir 
se huma disposição particular do systema nervoso , do san- 
guinco , ou de alguns órgãos internos torna os homens mais 
dispostos para humas ou outras paixões ; basta termos pro- 
vado , que a sua sede primitiva hc na alma, e no cérebro, 
c logo depois nas differentes partes da Economia. 

Consideremos agora a outra causa, que irritando o cé- 
rebro , excita os órgãos involuntários , e são as sympathias , 
sobre as quaes se explica Bichat de hum modo summamcn- 
te inexacto ; as suas expressões a pag. 357 do Tom. IIÍ. 
são as seguintes : <« Muitas vezes nas dores de cabeça ha vo- 
» mitos espasmódicos ; o coração precipita a sua acção nas 
í» inflammaçõcs cerebraes , &c. ; mas estes fenómenos são s) m- 
>í pathicos, que tem lugar nos músculos orgânicos como era 
>' todos os outros systcmas ; podem apparecer ou não appa- 
>' recer ; observão-se mil irregularidades na sua formação. 
j» Pelo contrario a contracção dos músculos da vida animal 
» pelas affecções do cérebro, hc hum fenómeno cónsunre, 

3> iii- 






31 MtMoRiAs DA Academia Real 

» invariável, que nada perturba, nem impede a sua dcsen- 
» volução , porque o meio de communicaçao lie sempre o 
>» mesmo entre o orgao aíFcctado, e o que se move. >> 

O Auctor começa a fallar no principio do paragrafo 
de sympatliias , e no fim delle , quando trata dos músculos 
voluntários , servc-sc do termo ajfecçSes do cérebro , o que 
he muito mais geral do que sympatliia , a qual lie simples- 
mente a mudança que padece qualquer órgão pela aíFecção 
de outro distante ; devendo excluir-se deste género de fe- 
nómenos as chamadas sympatliias univcrsacs por Whitt , as 
syncrgias , as progressões das moléstias , que vao atacando 
diversos systcmas , como inflamações , communicações cel- 
lulosas , &c. 

Voltando porem ao nosso propósito, as sympatliias dos 
músculos voluntários não são constantes e invariáveis , an- 
tes pelo contrario as encontramos tão inconstantes e variá- 
veis , como as de todos os outros órgãos. Assim as mulhe- 
res pejadas sentem, ou deixao de sentir, dores de dentes, 
e convulsões nos músculos voluntários , ou vómitos e pal- 
pitações nos involuntários. Os vermes produzem muitas ve- 
zes comichão no nariz, ou convulsões; e com igual iacili- 
dade tosses-, palpitações , e febres. Seria inútil repetir os 
multiplicados exemplos , que ha na variedade de sympathias 
em todos os systemas. Bichat julga responder ainda á difli- 
culdade de outro modo , dizendo que os fenómenos sympa- 
thicos tanto apparecem nos músculos orgânicos , como nos 
outros systemas ; e sem duvida assim he : mas que se se- 
gue dahi ? somente que o cérebro , e o systema nervoso 
em geral influem na digestão , nas secreções , no systema 
capiííar , &c. ; e postoque Bichat negasse esta influencia , 
arrastado pelo mesmo espirito de systema da isolação e in- 
dependência das duas vidas ; não ha Medico algum de in- 
strucção , que não saiba o contrario ; lea-se entre outros o 
judicioso Tissot no seu Tratado das Moléstias dos nervos. Li- 
mitando-nos porém ás sympathias dcs músculos orgânicos , 
he evidente que o cérebro he o centro donde partem estas 

ir- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. 3J 

irradiações sympatnicas. Quai ouna conimunicaçao senão a 
do sensório, pôde haver entre o5> rins, por exemplo, e o 
estômago , paraque as pedras formadas nos prim^-iros da- 
quelles órgãos excitem o vomito no segundo ? De que mo- 
do nas syncopcs acordamos outra vez os movimentos do 
coração , chcgcndo hum pouco de amoniaco ao nariz ? De 
que modo qualquer liquido espirituoso , ou hum pouco de 
ethcr diluido , apenas se bebe , anima as nossas torças , e 
e desenvolve o pulso? As numerosas sympathias do estô- 
mago com as diversas partes do corpo não podem explicar- 
sc senão pela irradiação do cérebro nessas partes. Não tra- 
tamos agora de todas as sympathias, objecto muito vasto, 
e que não pertence ao presente objecto ; basta termos pro- 
vado , que as sympathias dos músculos orgânicos , c parti- 
cularmente do coração, não podião ter lugar, senão por in- 
termédio do cérebro ; c que em consequência as irritações 
excitadas nesta viscera se communicão áqucllas por meio dos 
nervos. 

Bíchat examina depois os fenómenos em huma ordem 
inversa, isto he , os effeicos que produzem as aíFecções dos 
músculos orgânicos no cérebro , e observa-se , diz elle , a 
mesma independência ; as suas palavras são as seguintes : 
" Considerai a maior parte dos vómitos , os movimentas 
j> irregulares dos intestinos, que tem lugar nas diarrhcas, 
" principalmente os que formão os volvulos , &c. ; vede o 
» coração na agitação das febres , nas palpitações irregula- 
>' res de que frequentemente he a sede , &c. em todas es- 
í> tas perturbações dos músculos orgânicos , vós quasi nun- 
" ca achareis signaes de lesões no órgão cerebral ; este está 
j» cm socego , quando tudo se vé desordenado na vida or- 
>» ganica. " Observa-se tudo, pelo contrario ; as febres mais 
simples produzem frequentemente perturbação nas idéas , e 
ás vezes hum verdadeiro delirio ; os moléstias deesiomago, 
como dyspcpsias , e as dos intestinos , principalmente se 
são acompanhadas de lentidão da circulação abdominal , fa- 
zem tão profunda alteração no sensório commum , que cons- 
Toiíi. V. E * ti- 



34 Memorias da Academia Real 

tituem a maior parte das vezes a hypochoiidria , moléstia 
caractcrisada pela nova e particular ordem de idéas , e de 
sentimentos que a acompanhão. Basta huma mi digestão pa« 
ra nos fazer passar a noite em sonhos, ou causar vigilias; 
as cólicas são frequentemente acompanhadas de convulsões 
nos músculos voluntários , e as cardialgias de sincopes ; que 
não podem nascer senão da debilidade do cérebro, esgota- 
do pela violência da dor, debilidade que se commuoica im- 
inediatamente ao coração. Tão conhecida he , e tão geial 
a influencia das visceras gástricas, c do coração no cérebro, 
que causa na verdade admiração , que Bichat propuzesse se- 
melhante doutrina. As lesões dos músculos voluntários , co- 
mo inflammações , e mesmo gangrenas , e as dos órgãos dos 
sentidos he que affectão muito raramente o cérebro, apezar 
da correspondência directa que ha entre estes órgãos. 



CAPITULO V. 

O concurso da potencia nervosa he absolutamente necessário pa* 
ra as contracções dos músculos invuluntarios. 

Assemos actualmente a considerar a questão pelo seu 
lado mais importante , que consiste em determinar , se a 
potencia nervosa he ou não absolut.imcnte necessária para 
a formação das contracções dos músculos involuntários; por- 
que se o for, he claro que não são independentes delia; e 
se o não for , aindaque huma ou outra vez o cérebro pos- 
sa influir nellas , he também certo, que podemos com pou- 
co inconveniente considerar a causu deitas contracções , ou 
a irritabilidade, como isolada da dita potencia, c por con- 
sequência como diversa da causa que excita as contracções 
dos músculos voluntários , a qual he , sem duvida alguma , 
dependente delia. 

Os Médicos tem era todos os tempos tentado grande 

nu- 



dasScienciasdeLisboa. 3J 

numero de experiências a este respeito , c Bichat se expli- 
ca do modo seguinte, fallando delias: «O coração conti- 
» mia ainda a bater , os intestinos e o estômago se mo- 
j> vem algum temp ) depois de se tirarem a massa cerebral, 
" c a mcdulla espinal. Quem não sabe , que a circulação 
>' se faz muito bem nos fetos acéfalos ; que depois da pan- 
" cada, com que se atordoa e mata hum animal , e se põe 
" immovcl todo o seu systema muscular voluntário, o co- 
■>■> ração ainda se agita longo tempo , a bexiga cxpelle a ou- 
»> rina , o recto os excrementos, &c. , e o mesmo cstoma- 
>» go vomita ás vezes os alimentos?" E hum pouco mais 
abaixo continua : « He verdade que o corte dos dois ner- 
j> vos vagos he mortal j mas somente no fim de alguns dias , 
" e duvido que seja pelo coração que comece a morte nes- 
" ta circumstancia. Os principaes fenómenos deste corte 
'» mostrão grande embaraço no pulmão , grande difficulda- 
" de da respiração , e a circulação não parece perturbada 
'j senão consecutivamente. 

» Como os mencionados nervos vagos se distribuem 
" ao estômago, a mesma experiência serve para determinar 
'> a influencia cerebral sobre esta víscera ; a secção pois de 
j' hum só he ordinariamente nuUa sobre ella ; o de ambos 
»» lhe causa immediatamente huma notável perturbação; mas 
" esta perturbação he differente absolutamente da que se 
" segue ao corte do nervo de hum musculo voluntário , o 
» qual se torna subitamente immovel quando o estômago 
" pelo contrario , não communicando já com o centro pe- 
»» los nervoi vagos, parece adquirir momentaneamente hum 
'» augmcnto de força ; contrahe-se , e daqui os vómitos es- 
» pasmodicos, que se observão quasi sempre durante os dois 
» ou três dias, que o animal sobrevive á experiência, vo- 
>' mitos que observei constantemente nos cães , e que já 
" Ha/ler, e Crnikshank tinhão indicado. Parece pois em con- 
>' sequencia disto, que aindaque o cérebro tenha huma in- 
" fluência real no estômago , esta influencia he de nature- 
jj za absolutamente diversa da que exerce nos músculos vo- 

E ii » lun- 



3^ Memorias da Academia Real 

»» luntarios. Advirto comtudo , que a irritação de hum dos 
^> nervos vagos, ou de ambos faz contrahir immediatamen- 
»» te o estômago , como succede em hum musculo volunta- 
>» rio , cujo nervo se irrita. »» 

[ Estes argumentos erao justamente os mesmos , por que 
o celebre Haller tinha pensado , que os movimentos do co- 
ração erão independentes da potencia nervosa ; mas as ob- 
servações áoSoemering, e de Gall , e sobre tudo as experiên- 
cias de Le Gallois destroem completamente aquella doutri- 
na. 

A medulla espinal não se pódc considerar como hum 
nervo grosso, que tire a sua origem do cérebro, porque não 
tem proporção alguma com esta ultima viscera ; assim nos 
peixes , os quaes exccutão grandes movimentos , o cérebro 
hc muito pequeno , e a medulla espinal muito grossa ; no 
homem pelo contrario , o cérebro he muito considerável , 
e a medulla espinal proporcionalmente pequena ; nos acé- 
falos reaes , isto he , naquelles cujo cérebro nunca existio , 
tem apparecido a medulla espinal muito bem formada; vê- 
se pois , que ella não he huma continuação do cérebro , e 
que não tira desta viscera nem a sua existência , nem a sua 
força. Bastava a consideração de que a substancia cinzenta 
entra na sua composição para se concluir, que a sua orga- 
nisação he inteiramente semelhante á do cérebro , e capaz 
de produzir em si mesma a potencia nervosa. Mas tanto 
Haller (a) como Bichat derivarão esta ultima força só do 
cérebro , e por isso concluirão , que era desnecessária para 
as contracções do coração ; vistoque estas continuavão nos 
acéfalos , nos animaes em que se oíFendia o cérebro , e em 
qu& até se cortava o principio da medulla espinal. 

Marrber no Tom. II. pag. iio dos Commentarios ás 
Instituições de Boerbave tinha já mostrado , que as offcnsas 
da medulla espinal erão quasi sempre mortaes subitamente; 

que 

(rt) Haller admítte , que a medulla espinal também pôde produzir A- 
guns espíritos ammaes (potencia nervosa); mas dahi nada concluio con- 
tra a indepcndentia da irritabilidade , seu systetna fundamental. 






DAS SciENCIAS DE LlSCOA. 37 

que op cortes dopar vago, e do grande sympathíco, senão 
suspendiáo constantemente os movimentos do coração , tra 
porf]:ie este continuava a receber a infiuencia nervosa do 
ganglio cervical inferior , e por con5ec]uencia dos últimos 
pares cervicaes , e primeiro e segundo dorsal ; e que posto 
que o coração continuasse os seus movimentos depois des- 
tas experiências, isso era pouco durador, e elles vinhão a 
acabar mais ou menos promptamente conforme as circumstan- 
cias. 

Estava reservado a Mr. Le Gallois provar por experiên- 
cias directas e decisivas as inducçôes àe Gall ., e de outros, 
e os raciocinios de Marrher. Delias nos consta que o ani- 
mal decapitado morre da mesma maneira , e com pouca dif- 
ferença no mesmo tempo , que o asfigiado ; mas que des- 
truindo-se toda a espinal meduUa , ou mesmo algumas de 
suas porções , e particularmente a cervical , o animal morre 
instantaneamente , porque o coração perde os seus movimen- 
tos , e fica incapaz de promover a circulação. Este ultimo 
resultado foi muito judiciosamente tirado do aplanamento 
e vacuidade das carótidas , e da falta de hemorrhagia , cor- 
tando-se algum membro ao animal. 

Os Hallerianos , e Bichat tinhão sido illudidos com os 
movimentos do coração ; porque este musculo arrancado do 
peito , e por consequência separado ao menos de nova in- 
fluencia nervosa , continuava as suas systoles e dyastoles ; 
mas não se tinha notado antes de Le Gallois ^ ao menos ex- 
pçrimentalmente , que aquclles movimentos crão irregulares, 
débeis , e incapazes de continuar a circulação ; e hum fe- 
nómeno desta ultima qualidade observa-se cm todos os mús- 
culos ; os quaes arrancados do animal , e estimulados conti- 
nuão por mais ou menos tempo a produzir movimentos de 
contracção e relaxação , mas débeis e irregulares. Somente 
o coração parece ser hum pouco mais vivaz que os outros ; 
postoque em algumas experiências os intestinos, e o mes- 
mo diafragma conservarão pelo mesmo tem,po a faculdade 
de se contrahirem. Em quanto ás experiências referidas por 

Bi- 



gixa 01 



38 Memorias da Academia Real 

Bichai , relativas á secção dos nervos vagos , cstavao ain-^a 
muito incompletos no tempo deste Escriptor ; e semque 
examinemos agora qual he a causa da morte , que tem cons- 
tantemente luga,r nos animaes a quem se faz o dito corte, 
postoque cm intervallos variáveis , e que depende da sua 
influencia na respiração, segundo as experiências de D/inias ^ 
Dtipttytren f e Le Ga/lois , limitemo-nos somente a considerar 
com Blchat a influencia do dito corte no estômago. 

Haller c outros Escriptores asseverarão , que os alimen- 
tos se corrompião dentro do ventrículo ; tão poderosa era 
a influencia do córtc dos ditos nervos nesta viscera ! Le Cal- 
lois não observou este efícito , mas vio que a acção do es- 
tômago ficava tão completamente nulla , que os animaes mor- 
rerião de inanição , a não serem mais promptos os eíFeitos 
da asfigia. Desta maneira cortados os nervos vagos, o estô- 
mago fica paralytico , e irritado entra em contracção , exacta- 
mente do mesmo modo , que succede aos músculos voluntá- 
rios. Os vómitos , ou náuseas que sobrevem ao dito corte , 
c que Bichai reputa como eíFeitos de acção augmentada, e ca- 
pazes de constituir huma diíFerença do que succede aos outros 
músculos , quando os seus nervos são cortados , são verdadei- 
ros , e forão vistos por todos os Observadores , e particular- 
mente por Cruihhatick ; mas não são effeitos de acção augmen- 
tada , nem constituem differença do que succede aos outros 
músculos , e cessão immediataniente para não voltarem mais. 
Da mesma maneira nas sincopes , em que a influencia nervosa 
sobre o estômago he igualmente nulla , ou muito pequena , 
sobrevem também náuseas e vómitos , devidos á irritação que 
produzem os alimentos ou outros liquidos , que constante- 
mente se achão na cavidade daquella viscera. Os mesmos mús- 
culos voluntários, aindaque fiquem paralyticos pela secção 
dos seus nervos , entrão em contracções irregulares, logoque 
se lhes applica algum estimulo. Qi-ianto mais, o estômago 
não tira somente os seus nervos do par vago j vem alguns 
dos ganglios semilunares ; e esses que ficao são bastantes 
para concorrerem para essas pouco duradoras contracções. 

Te- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOAt 3^ 

Temos pois provado, que o coração, estom.igo , e in- 
testinos precisão, assim como todos os outros músculos, da 
potencia nervosa para a execução dos seus movimentos ; e 
além disso da presença de hum estimulo, o qual varia se- 
gundo os diversos fins , para que elics são destinados. 

Resta-nos porém averiguar dois objectos : i.° porque 
razão não estão alguns músculos sujeitos ao império da von- 
tade , quando os outros são por ella movidos com summa 
facilidade. 2." Se a sensibilidade , e a irritabilidade são hu- 
ma c a mesma cousa ; ou se a potencia nervosa he alguma 
condição essencial para a formação dos movimentos muscu- 
lares , como já temos dito , ou somente hum estimulo da 
irritabilidade. 



CAPITULO VI. 

Exame da causa por que alguns músculos não são sujeitos ao 
império da vontade. 



A 



Primeira questão acima proposta pode dizer-se , que 
não está completamente decidida no estado actual dos nos- 
sos conhecimentos. Deixando as antigas, e já refutadas opi- 
niões , desçamos ás mais modernas. OíFerece-se em primei- 
ro lugar a de John ^ tone , que suppôz que os ganglios inter- 
rompião o fluxo da vontade , e por isso os órgãos involun- 
tários rcccbião delles os seus nervos, em quanto os dos vo- 
luntários não atravessavão ganglios. Esta opinião não tem 
deixado de alcançar algum favor daquelles mesmos Escripto- 
res , que a não seguirão , como de Tissot no Tratado de 
Moléstias dos nervos. Porckascka se inclina igualmente a 
cila, quando julga que os ganglios são suíHcientemente aper- 
tados para impedirem o influxo da vontade, o qual he pou- 
co forte , mas não tanto que suspendão a influencia impe- 
tuosa das paixões. 

O uso dos ganglios, apezar dos trabalhos de Scaipa y 

es- 



si-:M "• 



40 Memorias da Academia Real 

está- aini'a envolvido tm muira escuridade; a sua organisação 
nío he bem conhecida , nem parece provável que sirváo 
unicamente de separar, o t<U!hir a reunir os diversos filetes 
nervosos. Enrretanro he quasi certo , que clles não podem 
ter o uso, que lhes assignou 'Jobiistone \ porque ha alguns 
músculos voluntários, que tirão os seus nervos de ganglios ; 
e por outra parte os gangiios cspinaes, postoque mais pe- 
quenos , parece terem a mesma estructura , e comtudo per- 
tencem essencialmente aos orgiíos voluntários. No systcma 
capillar da f.'.cc , que tanta influencia recebe dos nervos, não 
nascem estes de gangiios ; pariicuiarmvnte não os tem o ner- 
vo duro : o mesmo ganglio sFcno-maxillar he ás ve7.es hum 
simples plexo, ou huma pequena intumescência; c clle dis- 
tribue indiffercntcmente os seus nervos a músculos volun- 
tários, e aos vasos sanguíneos da face. Parece pois, que o 
uso dos gangiios não he o que lhes assignou Johnstone , e 
que não são a causa da involuntariedadc de certos músculos. 

Bichai , como temos visto em todo o decurso desta Me- 
moria , seguindo as pizadas de Haller ^ ji-ilgou inteiramente 
independentes os músculos orgânicos da potencia nervosa ; 
e consequentemente da vontade , que he simplesmente huma 
funcção daquella potencia. Esta opinião he a que temos re- 
futado ate ao presente ; e portanto resta-nos averiguar o 
porque , influindo a potencia nervosa nos nuisclik\s orgâni- 
cos , não influe nciles a vontade. 

Os Gommissarios , que fizerão ao Instituto N;.cionai 
de França o Relatório relativo ás Memorias de Mr. Li: Gal- 
loir , pensão que os órgãos, que estão debaixo da influencia 
de toda a potencia nervosa não , ficão submettidos ao impé- 
rio da vontade. Vede Exper. sttr k princ. de la Fte de xVIr. 
Le Callois pag. 316. Mas esta opiniã;) nos parece igualmen- 
te pouco provável. Em primeiro lugar, o estômago, que he 
órgão involuntário , recebe quasi todos os seus nervos do 
par vago , o qua! nasce de hum pequeno espaço da medulla 
oblongada , e não de toda a medulla espinal , como o gran-? 
de sympathico. 

s." 



DAS bciENCiAS DE Lisboa. 41 

7,° O diafragma , e a bexiga são músculos , muito 
principalmente o primeiro , sujeitos ao império da vonta- 
de •, comtudo quando o estimulo da ourina se torna mais 
activo, faz-se invuluntariamence a sua expulsão; assim como 
nas apoplexias se faz a contracção do diafragma indepen- 
dentemente da vontade. Parece pois , que o serem ou não 
involuntários os movimentos depende de alguma particular 
relação, que tem os músculos com os seus estimulos. 

3.° As experiências de Mr. Le Gallois , de que nos pa- 
rece, que'os Commissarios tirarão aquclla conclusão, são re- 
lativos somente ao coração , c não poderião gcneralisar-se 
aos outros músculos orgânicos ; mas para aquclle mesmo nós 
os julgamos pouco concludentes. Mr. Le Ga/lois , destruin- 
do a porção cervical , dorsal , ou kimbar da medulla espi- 
nal , vio igualmente suspendida a circulação , com alguma 
pequena differcnça de tempo , relativa , á idade dos coelhos , 
em que praticava estas destruições parciaes , como se pôde 
ver nas taboas , que comprehcndem o resultado das ditas 
experiências : estas o admirarão ao principio , c com raião j 
porque tirando os nervos cardíacos a sua origem da porção 
cervical , e principio da dorsal, só a destruição destas de- 
via faz.er cessar os movimentos do coração , e não a da por- 
ção lumbar ; mas a sua constância o fe/ persuadir , que o 
coração tirava com eíFeito a sua potencia nervosa de toda a 
espinal medulla. 

Comtudo, em primeiro lugar desejávamos, que estas 
experiências fossem mais repetidas, e variadas para lhe dar- 
mos inteiro credito: Bicbat tinha dito que introdu/indo-se 
hum estilcte pela parte inferior da espinal medulla , hião 
cessando os movimentos dos músculos inferiores , e só se 
extinguião os dos superiores á proporção , que o estilete 
subia para a sua porção dorsal , e cervical ; e a idéa geral , 
que se tira dos outros observadores he que a potencia ner- 
vosa desce do cérebro , medulla espinal , e nervos para o 
movimento dos músculos, e não sobe jamais. Cruiksbnnck nas 
experiências , que lèo á Sociedade Real de Londres sobre 
Tom. r. F a 



41 Memorias da Academia Real 

a regeneração dos nervos , cortou os intcrcostaes , e pares va- 
gos cie ambos os lados, e a medulla espinal na parre in- 
ferior da sua porção cervical, c os movimentos do diafragma 
continuarão , porque os nervos frcnicos tirão a sua origem 
da mesma medulla espinal por cima do corte. Custa-nos 
pois muito a crer , que o coração vá tirar o principio dos 
seus movimentos abaixo dos pontos , donde tirão origem 
os nervos cardiucos ; ou por outras palavras , que a poten- 
cia nervosa , resida cila em hum fluido etherco , ou qual- 
quer outra substancia , suba das partes inferiores do grande 
sympathico para as superiores. 

Qiianro mais , inda admittindo toda a veracidade das 
experiências de Mr. Le Gallois , podemos dar delias huma 
explicação mais conforme ás Leis conhecidas do systema 
nervoso. Cortando-se o grande sympathico , sobrevem gra- 
ves moléstias aos olhos ; estes fenómenos já antigamente 
observados por Peíit forão confirmados nas experiências de 
Cruiksbanck ha pouco referidas , e he claro , que não podem 
ser senão sympathicos. Aquelle Escriptor concluio delias 
que o filete (ou filetes) nervoso, que fica entre o sexto parj 
e o ganglio cervical superior, ao longo do canal carótide, 
não tirava a sua origem do sexto par, mas do ganglio, e 
hia com o dito par terminar no olho. Porém esta opinião 
he pouco provável , sendo mais de crer , que aquelle filete 
tire a sua origem do sexto par ; visto que todos os outros 
filetes do grande sympathico a tirão da medulla espinal , 
porque dcstruida esta, perde elle, e os órgãos que deile 
dependem , toda a sua vitalidade. Porém sup pondo mesmo 
que aquclla opinião fosse verdadeira, o dito filete , acom- 
panhando o sexto par, iria perder-sc no abductor do olho, 
e por conseguinte a ophtalmia , a cegueira , e os outros fe- 
nómenos observados serião sempre sympathicos. O mesmo 
julgamos , que aconteceo das experiências de Gallois ; des- 
truindo-se profundamente a porção kimbar da medulla , e 
cessando em consequência as funcções da porção correspon- 
dente do grande intercostal , devem-sc sympathicamente ex- 

ci- 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. 45 

citar grandes desordens na porção superior da raeduUa , e 
na correspondente do grande intercosral , e consequentemen- 
te nos seus nervos cardiacos , e nascer daqui a cessação 
das contracções do comção. Ao menos esta explicação he 
mais conforme ás leis conhecidas do systema nervoso , do 
que a supposição de tirarem os nervos cardiacos a sua ener- 
gia também daquclla porção do grande intcrcostal , que fi- 
ca para baixo dos seus pontos de origem. 

Não tendo pois admittido a opinião de Johnstone , nem 
a de Ha/ ler , e Bichat , que julgavao os músculos involun- 
tários inteiramente independentes dos nervos , nem a dos co- 
missários sobre a obra de Gallois , que pensavão que os di- 
tos músculos gozavão daquella propriedade , por tirarem os 
seus nervos de toda a mcdiiUa espinal , quando os perten- 
centes aos voluntários nascião de hum único ponto : passe* 
mos a dizer o que nos parece mais provável a este respei- 
to. Julgamos , que os nervos inda que tcnhâo huma estru- 
ctura cm geral semilhantc , padecem alguma mudança de or- 
ganisação nas suas extremidades sensientes , segundo os ór- 
gãos a que se distribuem. O nervo óptico he muito difFeren- 
te dos outros , mesmo no tronco ; porque apczar de ser tão 
grosso, os seus canaes nevrilematicos communicão huns com 
os outros, e não são isolados como nos outros nervos; a 
sua expansão na retina he inteiramente particular ; toma a 
forma de huma membrana , muda de côr , de branco para 
cinzento , e he sustentado em huma rede vascular tenuissi- 
ma : he claro, que esta mudança de organisação he necessá- 
ria para se pintarem as imagens visuacs, e serem transmit- 
tidas á alma as idéas que lhe são relativas. A luz ferindo 
as extremidades do nervo auditivo , ou de qualquer outro não 
he capaz de produzir fenómenos scmilhantes, por não terem 
aquella particular modificação de estructura ; e por isso os 
Médicos, que disserão, que os nervos erão idênticos, e só 
variava a estructura dos órgãos, cahírão em hum erro notá- 
vel. O que principalmente varia he a organisação das extre» 
midades nervosas. 

F ii O 



44 Memorias da Academia Real 

O mesmo dizemos a respeito dos nervos olfactorio , e 
ramo lingoal do j.° par; ambos se distribuem cm duas mem- 
branas mucosas; entretanto só o primeiro communica as sen- 
sações do cheiro , e o segundo as do sabor ; e a razão he 
poique terminâo de hum modo muito diíFerentc ; as ramifi- 
cações do olfactorio caminhão muito próximas ao osso , e 
vem perder-se na superfície livre de hum modo pouco vi- 
sível ; em quanto os ramúsculos do lingoal vão constituir a 
essência das papillas , corpos muito visíveis e elevados aci- 
ma da superfície da lingoa. 

No sentido do tacto apparecem difFerenças mui notá- 
veis ; por exemplo na faringe , e laringe ; a membrana mu- 
cosa , que forra estes dois órgãos , he idêntica ; entretan- 
to a agoa, e os alimentos passão pela primeira sem causar 
o menor estimulo; mas se alguma pequena porção cahe para 
a laringe , os nervos da membrana se irritao violentamente , 
e causâo huma tosse activa até se expellir o corpo estranho, 
que para lá tinha penetrado. A grande diflferença da sensi- 
bilidade animal nas diversas partes das superfícies internas 
tem sido sempre reconhecida pelos Médicos ; por exemplo , 
sempre se observou , e com alguma admiração , que a dis- 
solução de tártaro emético era innocente na lingoa , e no 
estômago excitava vómitos ; que o ar e os alimentos , que 
tão sem incommodo são recebidos no canal alimentar, cau- 
sâo a morte ou grandes desordens injectados no systema 
sanguíneo ; e pelo contrario o sangue que tão socegadamen- 
te corre por elle , causa vómitos ou diarrheas sendo derra- 
mado no estômago e intestinos. Vê-se pois que a Natureza 
dêo 3 todos os diversos órgãos differente sensibilidade, se- 
gundo os fins para que se destinão ; ora como esta sensibili- 
dade animal reside unicamente nos nervos , he evidente , que 
as suas differenças arguem certamente huma diversidade de 
estructura nas extremidades sensicntes dos mesmos nervos. 
Inda mais se confirma esta doutrina com. o que vemos 
a respeito 'da sensibilidade dos músculos voluntários ; elles 
recebem huma grande quantidade de nervos , igual , ou 

maior 



St:^-t oõ 



DAsSciF. kciasdeLiseoa. 4y 

maior que o mesmo volume de cútis , principalmente os 
que tem muito exercício , como os do olho ; entretanto a 
cútis goza de huma sensibilidade exquisita, em quanto os 
músculos a tem tío obtusa , que o seu corte he pouco do- 
loroso , como diariamente se vê nas operações cirúrgicas , 
excepto quando o ferro passa por algum ramo nervoso con- 
siderável , antes de se ramificar nas fibrillas musculares ; 
achamos pois huns nervos mais próprios para o sentimen- 
to , e outros para o movimento , segundo as modificações 
que recebem as suas ultimas extremidades , quando se expan- 
dem e terminao nos órgãos , apezar de serem communs os 
troncos , e nelles não podermos ainda divisar diflferença al- 
guma. 

He obvia a applicaçao desta doutrina á questão pre- 
sente ; os nervos quando terminao no coração , ou na túni- 
ca muscular dos intestinos , ou nos músculos voluntários , 
ou na bexiga , terminao de hum modo diflferente ; por este 
motivo o sangue , que se acha em relação com aquella par- 
ticular espécie de sensibilidade , hc o estimulo natural do 
primeiro, que não se resenre do da vontade, nem dos ou* 
tros ; e se artificialmente lhos applicamos , os seus movi- 
mentos são irregulares e pouco duradores. O mesmo dize- 
mos a respeito dos nervos , e estímulos dos intestinos. Em 
consequência julgamos que a verdadeira causa da involun- 
tariedade de certos órgãos depende de alguma modificação 
de sensibilidade das extremidades nervosas , que entrão na 
composição dos mesmos órgãos. 

E parece tão verdadeira esta opinião , que os mesmos 
ramos nervosos , que vão distribuir-se a certas partes , já 
mostrão sua tal ou qual diversidade de estructura compara- 
dos entre si ] não que esta dilFerença possa constituir huma 
classe á parte destes nervos , como pensou Bichat , nem que 
ella seja a mesma e commum para os diversos músculos in- 
voluntários ; mas varia conforme estes mesmos órgãos , e 
vê-se, que debaixo de huma estructura geral e commum a 
todos os nervos , a Natureza a modi£ca , c adapta nos divcrr 

SOS 



íiiair o o 



4^ M E A! OBiAs DA Academia Real 

SOS órgãos , de modo que possao corresponder a ccrtcs e 
determinados estímulos. 

AsKim os nervos cardíacos tem huma origem e distri- 
buição inteiramente differentes não só das dos músculos vo- 
luntários , mas também dos intestinaes , e dos pelvianos ; 
são mais mollcs , tcnues, e levemente avermelhados: os dos 
intestinos distingucm-se de todos os outros do corpo hu- 
mano pela sua forma e distribuição. liUes nascem quasi to- 
dos dos ganglios impropriamente chamados semilunares, ou 
plexo solar, que he rigorosamente hum grupo de ganglios, 
muito bem dcscripto por Falther \ daqui partem quasi to- 
dos os plexos das vísceras abdominaes, com a singularidade 
de acompanharem as suas artérias em forma de rede , isto 
he , com filetes tão entrelaçados , que quasi lhes formão 
huma túnica. Os nervos das vísceras pelvianas nascem pela 
maior parte do plexo hypogastrico j são compridos, e quasi 
sem entrelaçamento, avermelhados, e tão ténues, que pa- 
rece não terem nevrilema ; não seguem tão regularmente o 
caminho das artérias , como os intestinaes , e abdominaes. 
Se a estas considerações juntarmos o que dissemos da diver- 
sidade dos nervos dos sentidos , poderemos concluir , que 
não he só nas ultimas extremidades , que os nervos pade- 
cem alguma modificação de estructura , conforme os diversos 
órgãos a que se distribuem ; mas que muitos delles vão dan- 
do já nos seus troncos e ramos mostras desta modificação. 
Desta mudança de estructura nas extremidades nervo- 
sas he que depende não só a involuntariedade de certos mús- 
culos , mas também a sua relação especifica com certos es- 
tímulos. Esta ultima consideração he da maior importância } 
porque os estímulos não tocão em parte alguma as fibras 
musculares ; as cavidades do coração estão forradas por hu- 
ma membrana commum , a qual he que he tocada pelo san- 
gue ; igualmente a túnica muscular do canal intestinal , e 
da bexiga estão forradas por membranas particulares , c fi- 
ção remotas dos seus estimules n.ituraes. Logo não só he 
preciso , que as extremidjkdes sensientes sejão diversamente 

mo- 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 47 

modificadas para receberem o vario estimulo dos diversos 
agentes , mas só ellas he que trnnsmittcm ás fibras muscu- 
lares este mesmo estimulo : assim não hc i^ó nos músculos 
animaes que a vontade (ou outra causa irritante applicada 
ao cérebro) opera por intermédio dos nervos; em todos os 
outros ha a necessidade deste intermédio ; o que confirma 
de mais tm mais , que he essencial o concurso da potencia 
nervosa para a formação dos fenómenos nuiscularcs , e que 
a vontade he simplesmente hum estimulo nervoso , e a in- 
voluntaricdade huma relação especifica com outro género 
de estimulos. 



CAPITULO VII. 

Jl irritabilidade perfeita ou muscular não he itima força 
Ínsita e independente dos nervos. 



A 



Conclusão do Capitulo antecedente nos conduz ao 
exame da segunda questão, que nos propúnhamos discutir; 
a saber : se a potencia nervosa , ou a sensibilidade e a irri- 
tabilidade são huma e a mesma cousa , ou se a primeira he 
somente hum estimulo natural da segunda , como pensou 
Haller , e modernamente Nysten a pag. 377 das suas Re- 
cherchcr de Physiologie &c. 

Nòs suppomos que a primeira parte da questão não 
está bem estabelecida, ou bem definida ; o que talvez tenha 
dado lugar a disputas eternas sobre palavras ; visto ser evi- 
dente, que a sensibilidade, isto he , a propriedade que tem 
os nervos de receber as impressões dos objectos , e de os 
tr:!nsmittir ao sensório commum he diversa da propriedade 
que tem os músculos de se contrahirem na presença dos 
estimulos Portanto julgo que a questão deve ser proposta 
nos termos seguintes: Se a potencia nervosa he ou não con- 
dição essencial para o cxercicio da irritabilidade ; de modo 

que 



4? ^Iemorias da Academia Rkal 

que cessando aquella , esta cesse igualmente ; e dada ella 
( suppondo a existência de hum orgao próprio chamado mus- 
culo ) tenha higar o dito excrcicio. Antes de darmos a so- 
lução deste objecto hc necessário definir mais exactamen- 
te a pahwra irritabilidade. 

Tomada ella em hum sentido mais amplo, applica-sc 
aos movimentos hum pouco mais enérgicos de ambos os 
Reinos orgânicos; neste sentido dizemos que são irritáveis 
os movimentos das folhas da Mimosa pudica L. da Diotiaea 
$)ui.uipula L. dos filetes da Droserea rotundifolia L. &c. Di- 
zemos , que a fibrina do sangue tem alguma irritabilidade 
porque se contrahe com os cstimulos , e mesmo com o gal- 
vanismo ; e até cm alguns órgãos do corpo, como cútis, 
duetos excretorios , &c. vemos em certas occasiócs movi- 
mentos mais enérgicos do que os que poderiamos esperar 
da simples força tónica. Ora , se chamarmos a estes movi- 
mentos irritáveis , he evidente que a potencia nervosa não 
pódc ser necessária para a sua formação , porque certamen- 
te não ha nervos alguns na fibrina , nem no Reino vege- 
tal : a sua causa pois reside nas fibras, e he independente- 
mente daquelia potencia. 

Porem as maquinas orgânicas á proporção que se aper- 
feiçoão , ou por outras palavras, que se aproximao niiiis 
do homem , tornão-se mais complicadas. Os músculos ani- 
maes apresentão fenómenos muito mais enérgicos , e que 
seguem mesmo outras Leis ; em todos ellcs entra huma 
grande quantidade de nervos , que sem duvida não lhes são 
inúteis. Quizera pois que se chamasse á causa dos primei- 
ros fenómenos o rudimento , ou o primeiro gráo da irrita- 
bilidade , a qual reside nas fibras , e he independente dos 
nervos ; e que reservássemos o nome de irritabilidade per- 
feita só para os fenómenos musculares, nos quaes julgamos ' 
absolutamente essencial o concurso da potencia nervosa. 

i.° Porque ligado ou destruído o nervo, immediatamen- 
te o musculo fica paralytico ; e alndaque depois se irrite 
com os cstimulos artificiaes , os seus movimentos são mui- 
to 



dasScienciasdeLisboa. 49 

to mais fracos e inegulaitii , e brevomcnrc acabao , loniro 
tempo aiucsque elle perca a sua organisação. Idcnticanicn- 
tc o mesmo observou Le Gal/ois com os movimentos do co- 
ração ■ destruída a medulla espinal , cessão immcdiaramen- 
te os seus movimentos capazes de sustentar a circulação , 
apezar de continuar a appiicaçao do sangue , seu estimulo 
natural ; e algum tempo depois se torna igualmente insen- 
sível a todos os cstinuilos ; prova certa de que pelos nervos 
vai alguma cousa, seja o que for, que concorre essencial- 
mente para o excrcicio da irritabilidade. Esta funcção da 
potencia nervosa he commum a todos os músculos, e os vo- 
luntários estão além disso sujeitos ao império da vontade, 
que he rigorosamente huma particular espécie de estimulo, 
que no estado natural se applica ao cérebro , mas com gran- 
des intervallos ; quando a outra potencia , seja o que for , 
he applicada continua e perpetuamente, porque em qual- 
quer occasião que se destrua , ou corte a medulla espinal , 
ou os nervos , logo os músculos perdem a sua acção. 

2.° Applicando o ópio seja aos nervos, ou aos músculos, 
cessa igualmente a irritabilidade. 

3.° He absolutamente indifferente para determinar a ac- 
ção muscular, que sejão irritados os nervos, ou os múscu- 
los; antes nos primeiros momentos a irritação dos nervos 
produz hum cíFoito mais activo , e ate mais durador. 

4.° Os indivíduos mais sensíveis são igualmente os mais 
irritáveis ; cm gerai a potencia ncrvcsa , e a irritabilidade 
caminhão a par-, mas o estado do sangue arterioso (outra 
condição essencial para o exercício da irritabilidade ) , a nu- 
triíjão da fibra muscular , e a qualidade , ou quantidade dos 
estímulos naturacs altérão muito a irritabilidade, e affectão 
menos a sensibilidade dos nervos ; porque , como já disse- 
mos, sensibilidade e irritabilidade não são huma e a mesma 
cousa; mas somente a potencia nervosa he huma condição es- 
sencial para o exercício da irritabilidade dos músculos. Nysíen 
segue a opinião de Hal/er , que a contractilidade he huma 
propricd;!de inhcrente á fibra mu=;cular, de que os nervos são 

Toi>; r. G sim- 



50 Memorias da Academia Real 

simpltsniente os estimiilos natiiracs , e funda-se nas seguin- 
tes n/óes. 

I." t( A energia das contracções , que se observa depois das 
febres adynamicas ; a perm;incncia da contractilidadc nos 
niusculos para!ysad;)S pela apoplexia ; a identidade dos ni«- 
vimeiítos destes músculos, tratados pelo galvanismo, com 
os dos músculos sãos. i." A difterença das contracções mus- 
culares , quando a sensibilidade da porção livre do nervo 
exiítc ainda daquellas, que tem lugar, quando a dita sen- 
sibilidade está extincta ; a mesma ordem da cxtincçao da 
sensibilidade do nervo nos diversos pontos da sua extensão; 
3." em fim a sensibilidade da fibrina do sangue ao galva- 
nismo , provada pelas experiências de AlMrs. Totirdes , e Cif' 
caud. Todos estes factos concorrem para provar , que a con- 
tr ctilidade hc huma propriedade inherentc à fibra muscu- 
lar , c inteiramente independente da influencia nervosa. " 

Nós julgamos , que aquelles factos provao somente o 
que já dissemos , e he que existe em diversas partes dos 
vcgetaes , c animaes, e mais particularmente na fibra mus- 
cular destes hum rudimento, ou principio de irritabilidade, 
cujas contracções são muito diflferentes daquellcs movimen- 
tos rápidos e regulares , que aprescntao os músculos , quan- 
do estão inteiros , e acompanhados da potencia nervosa , 
contracções , que inda semelhao mais á força tónica áe. Sthal y 
ou contractilidadc orgânica de Bicbat , do que á verdadeira 
irritabilidade ; ou ainda mais exactamente , parece ficarem 
medias entre estas duas forças ; porque a natureza não se 
sujeita ás classificações e divisões dos homens. Creou gran- 
de numero de órgãos , dotados unicamente de huma contrac- 
ção lenta e quasi insensível ; a outros porém modificou a 
organisação de modo que já os vemos animados de huma 
actividade mais notável- e nisto mesmo ha variedade não só 
respectivamente ao gráo desta actividade , mas á sua relação 
CDU diversos estimuios; emfim outros, e estes são os mús- 
culos , forão dotados de huma orgaIli^ação mais complica- 
da , e dos movimentos m-iis notáveis c enérgicos , que se 

ob- 






DAS SciENCIAS DE LiSBOA. 5^ t 

obserTao na economia animal. Hum dos meios cssenciaes , 
que a natureza empregou para dar a grande energia a estes 
movimentos hc a reunião da potencia nervosa com a fibra 
muscular {a) . 

Examinemos presentemente os primeiros dois fundamen- 
tos de Nysíen; porque a respeito do 3.° já dissemos a nos- 
sa opinião. 

Mr. Nysten parte de hum principio , que nos parece 
muito improvável , c he que a potencia nervosa está mui- 
to diminuída nas paralysias , c nas febres adynamicas; e con- 
sequentemente que se a irritabilidade dos músculos não fos- 
se independente delia , appareceria igualmente muito dimi- 
nuída , e não seria igual nas experiências galvânicas á dos 
músculos sãos. Mas aquellc principio, como dissemos, nos 
parece errado ; e na verdade nas apoplexias , e paralysias 
de compressão (e o são a maior parte delias ) o que ha uni- 
camente he a interupçâo da acção do cérebro nos nervos j 
porque tirada a dita compressão por sangrias , ou outros 
meios , immediatamente se restabelece a saúde \ por conse- 
quência a estructura , e a potencia dos nervos tinhão fica- 
do illesas. Nas mesmas paralysias antigas , e que tentamos 
curar por meio da electricidade , observamos muitas vezes 
movimentos convulsivos nos músculos dos membros paraly- 
ticos , quando fazemos o arco entre os nervos da meduUa 
espinal , ou entre os membros superiores e inferiores ; pro- 
va certa de que a potencia nervosa não estava diminuida 
nem extincta nos membros paralyticos , mas unicamente in- 
terrompida a sua communicação com o cérebro. Emfim hu- 

G ii ma 

(<j) For não se ter teito a devida atunçáo a esr.is idcas , e por que- 
rerem os Physiologicos sujeitar a riiturcza ás suas divisões , e classifi- 
cações , he que tem havido tantas e intermináveis disputas , se ió os 
muscules são irritáveis ? se as extremidades arteriosas (dizemos extremi- 
dades , porque poucii duvida soffrc , que os troncos , e r.in-os das artérias 
náo tem propriedade alguma vital notável ) os duetos secretotios , e ex- 
crctorios , e os vasos lymphaticos tem ou náo irritabilidade ; Exactamen- 
te como os músculos náo a tem certamente ; mas os seus movimentos 
sáo muito mais enérgicos do que os das outr.:s partes da economia , co- 
mo tecido cetlular , tetidóes , &c. 



ji Memorias DA Academia Real 

ma prova sem replica se tira lio estado de sensibilidade do 
mesmo membro paralyrico ; com elFeito he muiro frequen- 
te , que esta se conserve intacta , e comtudo os nervos , 
que SC distribuem na pelle , pertencem aos mesmos ramos, 
que os dos músculos voluntários ; logo esta falta de movi- 
mento não nasce da extincção da forij-a dos nervos , mas da 
sua interupção com o império da vontade, em razão de al- 
guma moléstia que comprime o cérebro , ou cm geral a 
origem dos mesmos nervos. 

Nas febres adynamicas ha na verdade grande prostra- 
ção de forças ; mas apparecem no decurso destas moléstias 
fenómenos muito variados no systema nervoso , c muitos 
delles attestâo claramente , que a dita prostração he unica- 
mente temporária, e que as forças radicaes dos nervos con- 
tinuão a subsistir , c podem facilmente ser postas em mo- 
vimento, proporcionando-se para isso circumstancias favorá- 
veis. Por exemplo , se no decurso destas febres sobrevem 
o delirio furioso , custa muito a dois ou três homens for- 
tes o segurarem hum doente destes , ás vezes fraco e de- 
licado : logo a força nervosa estava simplesmente adormeci- 
da , e podia ficilmente ser posta em acção pela applicação 
dos estimulos. He evidente , que se hum doente destes vies- 
se a morrer , os seus nervos e músculos havião de respon- 
der á excitação galvânica como os sãos. Nas mesmas lebres 
ataxicas, em que ainda a potencia nervosa parece mais en- 
fraquecida , do que nas adynamicas sobrevem frequentemen- 
te convulsões, e aíFecçóes tetânicas, que attestâo hum gran- 
de gráo de irritação , para vencer a qual somos obrigados 
a recorrer aos opiados e outras potencias sedativas : mas 
qualquer que seja a explicação que sede destes fenómenos, 
e do modo de obrar do ópio, e dos banhos frios, que os 
costumão dissipar, he sempre igual a conclusão, que tira- 
mos ; e he que os nervos nas febres adynamicas estão em 
estado de responder á excitação de vários c-timulos, e muito 
mais á do galvanico, que he o mais poderoso que conhece- 
mos. 

O 



DAS SciKNciAS DE Lisboa. yi 

O segundo aigiimciuo he ainda mais hypothetico ; he 
verdade que o ncivo deixa de ser sensível aos estimules 
algum tempo antes que o mesmo musculo; mas parece cer- 
ro , que as fibrillas dos nervos , que se perdem nas mus- 
culares conscrvão por mais tempo ( visto estarem cobertcis 
e defendidas do ar ) a sua força doque os ramos de que 
nascem. O mesmo Nysten o confessa ; porque depoisque o 
nervo deixa de ser sensível aos estimules em qualquer pon- 
to , ainda o he em outro mais inferior , e assim succcssi- 
vamentc até á cntr.:da do nervo no musculo. Ora ha huma 
condição essencial e conhecida para o nervo corresponder i 
excitação galvânica , e he a humidade ; de modo que estan- 
do secco o nervo não transmittc a sua irritação; por outra 
parte he claro, que muito mais depressa secará o ramo ner- 
voso nú e isolado de todas as partes , doque as fibrillas 
nervosas agasalhadas dentro do musculo , que he hum ór- 
gão mollc e húmido. 

Demais , parece ser hum facto anatómico , que os ner- 
vos augmentâo de volume na sua extremidade periférica 
(Soemeririg Tom. IV.), isto he , naquella que termina nos 
órgãos ; a sua extremidade central , ou aquella por onde 
nascem do cérebro e espinal meduUa , he excessivamente 
menor que a outra ; basta que consideremos somente aquel- 
la porção de nervos , que termina na larga superfície da 
pelle , e nas membranas mucosas , nas quaes em qualquer 
ponto que se toque ha sempre hum nervo sensiente. Não 
discutiremos aqui, se esta extremidade periférica he recebi- 
da em huma expansão pulposa análoga á substancia cinzen- 
ta do cérebro, c medulla espinal, como pertende Grt//; por- 
que além deste objecto estar envolvido em grande obscuri- 
dade , não he do nosso fim tratar do systema nervoso , se- 
não de passagem , e naquillo em que elle está ligado com 
o muscular. Mas he certo , que nada se pode concluir de 
acabar primeiro a sensibilidade aos estímulos no ramo , ou 
tronco nervoso , doque nas fibrillas musculares , visto ter- 
mos provado , que a sensibilidade ncrvea dura mais tempo 

nas 



y4 AIemOrias PA Academia Real 

nas fibrillas escondidas nos músculos doi]Ue no nervo iso' 
lado ; visco além disso ser muito provável , que a somma 
destas fibrillas excede o ramo de que nasceiu , e ser-nos em. 
fim dcsconhcido o modo , por que ellas teiminao nos órgãos. 
A maneira por que os músculos deixão de corresponder aos 
estímulos he lenta e não repentina ; c por este motivo , 
quando já o musculo não se contrahc em totalidade , inda 
entrão cm contracção porções consideráveis delle ; e ulti- 
mamente observamos apenas hum movimento como de tre- 
mura , muito limitado e irregular, e que tem lugar só em 
hum pequeno numero de fibras. Este ultimo he devido uni- 
camente ao primeiro gráo de irritabilidade , he independen- 
te da potencia nervosa , c tem a sua sede nas fibras ; por- 
que tendo nós já provado, que elle existia independente dos 
nervos em alguns órgãos vegetaes , na fibrina do sangue , 
e mesmo em algumas partes viventes dos animaes , com mais 
forte razão o devemos admittir na fibra muscular, que tem 
huma organisação mais apta para estes movimentos , e por- 
que nella he que se notão no mais alto gráo de energia ç 
extensão. 

Emquanto pois as contracções são da totalidade do 
musculo , devcm-se á influencia nervosa , e ella só he que 
podia transmittir a huma massa , ás vezes muito conside- 
rável , a impressão feita pelo estimulo em hum 'inico pon- 
to. Cessando os movimentos de totalidade , e continuando 
os parciaes , mas em fascículos extensos , he claro que a 
potencia nervosa vai morrendo parcialmente dentro do mus- 
culo ; cessando emfim estes , e continuando somente a tre- 
mura das fibras musculares em porções pouco extensas , he 
signal que tem morrido toda a potencia nervosa , e que es- 
te movimenio he devido unicamente á propriedade , que tem 
a fibra , de se contrahir independentemente daquella poten- 
cia. 

Mas ou se adopte ou não esta nossa maneira de ex- 
plicar o modo , por que os músculos cessão de corresponder 
aos diversos cstimulos , julgamos ter provado pelos factos 

CO- 



DAS SCFENCIAS DE L I S B O A. jfj 

conhecidos até ao presente, que os músculos na economia 
animal, seja no estado fysiologico , ou no pathologico, pre- 
cisão da sua integridade para executarem os grandes movi- 
mentos , a que são destinados pela natureza , e que para es- 
ta integridade entra como condição a mais essencial a po- 
tencia nervosa. 



D, 



CAPITULO VilL 

Conclusão. 



E tudo o que temos exposto na presente Memoria, po- 
demos tirar os seguintes resultados : 

i.° A differença de formas, que se nota nos músculos, 
he puramente accidental ; tem lugar já entre os diversos 
músculos da vida animal comparados entre si , já entre os 
da orgânica; não affectão nem a organisaçao, nem as pro- 
priedades e esscncia destes órgãos. 

2.° A estructura dos músculos he a mesma em todos el- 
les , ou a consideremos no seu tecido próprio, ou nos com- 
muns que entrão na sua composição. Algumas pequenas dif- 
fcrenças , que nella enconcramns , não são relativas ás duas 
classes , que Bichat estabeleceo , de músculos , mas sim á 
qualidade diversa dos seus estimules próprios; e por essa 
ra/ao a túnica muscular dos intestinos diversifica tanto ou 
mais do coração, que he involuntário, como ella , como dos 
músculos voluntários. Ape/ar porem dessas pequenas mo- 
dificações, o modo por que servem nos usos , a que são des- 
tinados, he hum único, que he o da contracção e relaxa- 
ção; c os fenómenos c leis dessa contracção c relaxação são 
absolutamente idênticos ; de maneira que não podem formar 
mais do que huma classe de órgãos. 

3.° A potencia nervosa entra essencialmente na integri- 
d<!de do órgão , que chamamos musculo , pois he absoluta- 
mente necessária para a formação das suas contracções , e 

tam- 



íiaa 01 



y6 Mea\oria<; da Academia Real 

tambcm o hc a npplicnção de hum estimulo ; c dadas estas 
circimistancias , rcsiiltao em todos os miisciilos fenómenos 
jdentiv.os j logo hunia só fors;a , a que se chama irritabili- 
dade , preside a clles , e he inteiramente imaginaria a dis- 
tincção , c crcação/ dos novo:; termos contractilidade atihnal 
sensível ^ e coiitracdlidade orgânica sensível. 

A diversidade , que se nota , he nos estímulos ; a vonta- 
de opt-ra como tal no sensório commum , porque produz 
exactamente o mesmo effcito nos músculos voluntários que 
outra qualquer irrita^iío sympathica , morbosa , ou artificial, 
que appliqucmos ao cérebro ou aos nervos ; a iinica diíFe- 
rença he, que as contracções excitadas pela vontade são mui- 
to mais regulares , e duradoras doque as dos outros estí- 
mulos ; e até nisto mesmo ha huma perfeita identidade en- 
tre os músculos voluntários, e os que o não são; porque só 
o sangue estimula regularmente o coração , c os alimentos 
o estômago e intestinos, &c. Se estes estímulos se trocão, 
ou se lhes substituem outros, segue-se igualmente fraque- 
za e irregularidade das contracções. 

Logo do cérebro vem para os músculos animaes o es- 
timulo , e não a força de contracção, como pensou Bichat\ 
c he muito notável, que os Auctt-rcs tcnhao constantemente 
confundido a potencia com a irritação nervosa : humas ve- 
zes parece, que os distmguem claramente, c que tem alcan- 
çado esta verdade; porém continuando a sua leitura, encon- 
tra-se huma tal inexactidão de expressões, que argue outr.» 
igual nas idcas , e a confusão daquelles dois objectos dis- 
tinctos. A potencia nervosa existe sempre cmquanto ha a 
integridade do seu systema ; opera de hum modo constan- 
te e perpetuo sobre os músculos ; os estímulos pelo con- 
trario são applicados com intervallos dependentes de varias 
causas ; os da vontade procedem inteiramente da intelligen- 
cia ; os dos líquidos da sua existência ou não existência 
na'; cavidades musculares ; e os accidentaes dependem de hu- 
nia infinidade de circumstancias, que he inútil referir. 

Podemos diz,er, que aquella verdade, que os Metafy- 

si- 



DAS SciENCIAS DE L I S B O A. 5-7 

sicos tem consagrado desde os tempos de Locke , isto hc , 
que ns sensações propriamente ditas nasciáo sempre das im- 
pressões , ou irritações feitas nos sentidos , he applicavel em 
toda a extensão aos músculos , cujas contracções nascem sem- 
pre de algum estimulo ; verdade íysiologica , que Haller es- 
tabeleceo de hum modo irrefragavcl , mas não conhccco a 
necessidade da potencia nervosa para a integridade do mus- 
culo, c por isso talvez não distinguisse cabalmente o esti* 
mulo dos nervos, principalmente quando opera a vontade, 
da sua força. Em Bichat , em Tissoi , e outros se achão igual- 
mente varias passagens com a mesma confusão. Comtudo 
são cousas muito distinctas, mas existem, c são esscnciaes 
ambas em todos os músculos. 

4.° Além desta irritabilidade perfeita, ou muscular ha 
huma força menos activa , que produz fenómenos menos 
enérgicos, mas muito análogos, em varias partes dos vegc- 
taes , e animaes ; reside e he inherente ás fibras : nós lhe 
chamamos rudimento ou principio de irritabilidade ; porque 
parece ser no fundo a mesma força muscular amplamente 
derramada por ambos os Reinos orgânicos ; mas que pela 
maior complicação , e acccssorios , que recebe no musculo , 
principalmente o da potencia nervosa , se torna muito mais 
activa e variada. 

5.° Não julgamos com Johtiston , que a existência dos 
ganglios seja a causa da involuntariedade de certos múscu- 
los ; nem que esta nasça de ser a sua irritabilidade indepen- 
dente dos nervos , como pensarão Haller , e Bichat ; ou por- 
que ellcs tirem a sua potencia nervosa de toda a medulla 
espinal , como ajuizão os Médicos , que fizcrão o Rela- 
tório da Obra de Le Gallois ; mas sim da diversa modifica- 
ção das extremidades dos nervos , que terminão nos múscu- 
los, não entrando em discussão alguma abstracta e conjectu- 
ral ; mas só pela consideração tirada dos factos de que a 
superfície interna destes músculos he dotada de diversa sen- 
sibilidade ; c como esta he huma propriedade exclusiva dos 

Tom. F. H ner- 



ç8 Memorias da Academia Real 

nervo? , concluimos dahi que estes devem padecer alguma 
modificação nas suas exncmidades scnsicntcs. 

Tcnniiiaremos o nosso presente trabalho , tornando a 
advertir, que admittimos com Bichat , que os músculos vo- 
luntários , visto estarem debaixo do império d* alma , são 
muito mais dependentes do centro , doqiie os outros ; que 
os sentidos externos , o cérebro , os nervos , e os múscu- 
los voluntários formão huma serie de órgãos postos debaixo 
da influencia da Potencia íntclligente , ao menos no maior 
numero de casos, e constituem o que se chama vida rela- 
tiva, ou animal. Se aquelle Escriptor tivesse parado aqui, 
nada teriamos que accrescentar ; mas qunndo cstabelecco , 
que os músculos voluntários tinhao huma organisação e usos 
inteiramente difFerentes daquelles dos involuntários («); que 
a chr.mada contractilidade animal sensivel era absolutamente 
diffcrente da irrictabi! idade ; que esta era independente da 
potencia nervosa ; que o cérebro , e os nervos não tinhão 
por meio algum influencia nella , propoz asserções, que nos 
parecem erradas , e que farião retrogradar muito não só os 
nossos conhecimentos fysiologicos , mas os pathologicos; 
Não he possível fazer alguma explicação plausivel da pro« 
ducção dos symptomas de certas moléstias , particularmen- 
te das febres , sem reconhecer a grande influencia do sys- 
thema nervoso nos órgãos da circulação , e da digestão. 
Mas nem por isso pareça , que pertendemos diminuir 

o 



(ji) São rigorosamente só dois, o coraçjo e ,i ninlca muscuiar do ca- 
nal alimentar; porque a da bexiga tsta em pane sujeita á vonnde. Até 
por este lado era inútil dividir os músculos em dius classes ; porque as 
classificações são methodos artificiaes de que nos servimos par.» dispor 
muitos objectos, segundo as suas affinid:ides, ctn ra! ordem que a me- 
moria os comprehenda facilmente ; ora dois objectos comprehendcm-se 
muito bem sem classificações. Quanto ni.iis o coração, e a túnica mus- 
cular dos intestinos divetsificáo muito entre si pela cor, giossura , e dis- 
posição de suas fibras , pelos seus esiimuloi naturncs , Stc. e apenas tem 
alguma alfinidade pela citcumstancia de serem jpvoluntarios ; circum^tan- 
cia , que nada tem de anatómica , pois pertence unicamente aos múscu- 
los vivos. 



úlHif ()( 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. y^ 

O merecimento daqucllc sábio ; elle mesmo hc que nos po7, 
na estrada de podermos fazer esta analyse de parte das suas 
opiniões. O mesmo aconteceo ao famoso Hyppocrates Inglcz y 
que reconhecendo o grave prejuízo de tratamento estimu- 
lante c sudorifcro nas bexigas , e outras moléstias exanthe- 
maticas , estabeleceo huma verdade pratica de grande utili- 
dade j mas depois propoz hum tratamento refrigerante in- 
teiramente opposto ao antigo , e que também foi seguido 
de graves inconvenientes. A posteridade , dando ás cousas o 
seu devido valor, tomou o meio entre aqueiles dois extre- 
mos , e tratou de similhantes moléstias mais methodica c 
felizmente : mas deve-sc áquelle Medico observador o ter 
ensinado o caminho aos outros para sahirem do antigo per- 
nicioso trilho. Igualmente a distincção das duas vidas, que 
se deve particularmente a Bichat , reduzida áquelle valor em 
que deve ficar , he huma origem fecunda de clareza , e de 
conhecimentos anatómicos e tysiologicost 



H ii ME- 



6o Memorias da Academia Real 



MEMORIA 

Sobre bum Verme vivo dentro do olho de hum cavallo , lida 
em a Sessão publica de 2^ de Junho de 1816. 



Por SebastiXo Francisco de Mendo Trigozo. 



A 



Grande divisão dos Animaes sem vértebras he sem 
duvida a que oflFerece mais embaraços para o seu estudo , 
e por isso mesmo a mais atrazada da Zoologia : a difficul- 
dade da conservação de muitos delles depois de mortos , as 
poucas occasióes que ha para observar alguns em quanto 
vivos , os differentes lugares e modos porque existem , a 
immensa variedade da sua organização , em fim as poucas 
observações que os Antigos nos transmittírão sobre elles; 
tudo concorre para que (apezar dos innumeraveis trabalhos 
deste ultimo Século ) sejão ainda muito imperfeitos os co- 
nhecimentos que se tem podido adquirir a seu respeito. 

E com tudo já se deixa entrever que este estudo de- 
verá ser interessante , e até capaz de conduzir aos maiores 
descobrimentos. Os animaes de vértebras, principiando pelo 
homem o mais perfeito dos l'.ntes organizados , vão descen- 
do por gradações , já mais já menos sensiveis, até aos Pei- 
xes ; os quacs , se bem que dotados de huma estructura 
muito mais simples , mostrão ainda hum esqueleto , hum 
coração, sangue, e órgãos próprios para a respiração. En- 
tão como se a Natureza repugnasse a dar hum salto repen- 
tino destes animaes para os invertebrados , já o esqueleto 
de alguns Peixes em vez de ósseo lic meramente cartilagi- 
noso : vem depois os Moluscos que de todo o não tem , 
mas cuja estructura hc a pezar disso"»bastante complicada ; 
e simplificando-se cada vez mais a organização , vai final- 

men- 



DAS SciEKCIAS DE LiSBOA. 6j 

mente findar esta serie cm os Polypos, Entes extraordinários, 
e que apenas , deixcm-mc assim dizer , contem em si os 
primeiros rudimentos da animalidade. 

O homem cheio de assombro , e não se podendo im- 
pedir de hum certo orgulho por formar o anel mais nobre 
desta immensa cadea , corre com os olhos , e com a ima- 
ginação todos os outros de que ella he formada , e mede 
a enorme distancia , que vai desde o primeiro até ao ulti- 
mo em que parece acabar ; e quando já a simples vista nâo 
seria bastante para fazer-lhe conhecer nenhum outro animal 
vivo , he então que armado do microscópio se lhe descor- 
tina huoi mundo sem limites , e totalmente novo ; a agoa 
mais limpa e pura , a infusão mais bem filtrada , estando em 
circunstancias favoráveis , descobre dentro de pouco tempo 
milhões de pequenas moléculas animadas, humas ainda in- 
formes , outras já desenvolvidas , e com variadas figuras ; 
as quaes nascem , vivem , propagão-se , e morrem as mais 
das vezes dentro do mesmo dia. O observador vê , para as- 
sim dizer, hum fluido todo ellevivo, he senhor de augmen- 
tar ou de diminuir a força da sua vitalidade , de dar ou de 
tirar a existência a hum sem numero de Entes , que de ou- 
tra maneira nunca terião apparccido no Universo. Estas ideas 
fazem-lhe esquecer que também elle pertence ao mesmo 
Reino animal , e até quereria hombrear com o Creador , se 
a reflexão , fazendo-lhe notar o tempo que esteve sem co- 
nhecer objectos que tinha debaixo dos olhos , e quanto ain- 
da ignora a respeito dos mesmos Entes a que pôde dar 
a vida , não lhe mostrasse palpavelmente a fraqueza dos seus 
meios , e a pequena esfera do seu entendimento. 

Deve pois confessar-se que se a sciencia da Zoologia 
em geral engrandece a nossa alma , e traz comsigo uti- 
lidades bem palpáveis e manifestas, quando trata dos ani- 
macs com vértebras ; ella não he menos interessante nem 
deleitosa, quando se aplica aos animaes invertebrados, que 
alargão tanto os limites dos nossos conhecimentos , e nos a- 
prezentão tantas novas maneiras de existir e de se propagar , 

e 



6i AIemorias da Academia Real 

e huina tao pasmosa variedade em todas as funcções vi- 
tacs : mas ha alem disso outro motivo, pelo qual devem ser 
igualmente conhecidos e estudados , e he que huns minis- 
trâo muitas vantagens e proveitos ao homem civilizado , em 
quanto outros occasionão immcnsos males e incommodos , 
não só ao mesmo homem , mas aos outros animacs, 

He a respeito destes inimigos , isto he , dos Vermes 
chamados Intcstinacs que terei de entreter-vos por alguns 
momentos : tudo nelles he extraordinário , e mais ainda a 
sua geração dentro dos corpos dos animaes , em que habi- 
tão aos milhares. Não somente os Intestinos, mas todas as 
partes moles do corpo , ainda as mais occultas, estão expos- 
tas ao seu accesso : ha poròm algumas em que nuo pare- 
cem existir senão por hum accaso ou anomalia da Nature- 
za , e quando apparecem destes fenómenos raros , tem os 
Naturalistas cuidado de os consignar na Historia da Scien- 
cia , para que á proporção que as observações se multipli- 
cão , se verefiquem melhor os factos , até chegar o momen- 
to de se formar huma theoria , que nos explique o que por 
ora parece incomprchensivel. He debaixo deste ponto de 
vista que vou fazer a descripçâo de hum destes accasos, 
que ainda todos poderão verificar , e que pela sua singula- 
ridade merece occupar a vossa attcnção. 



E. 



íM o mez de Setembro de iSiç veio do Deposito de 
Évora para esta Capital e foi distribuído ao Regimento de 
Cavallaria N. 4 , que aqui se acha de guarnição , hum Ca- 
yallo , baio de 4 para y annos de idade. Pelos fins de Janei- 
ro , principios de Fevereiro do presente anno estando-o lim- 
pando o Soldado, a quem pertencia, reparou que na menina 
do olho esquerdo havia huma como pequena palha ou cabei- 
lo , que se esforçou por tirar ; vendo porém que lhe não era 
possível , por estar pela parte de dentro da Córnea transpa- 
rente , e que alem disso tinha hum movimento pmprio c 
muito vivo, veio no conhecimento de que era hum Verme , 

o 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. 63 

o qual com cffcito alli se alojava , sem que parecesse in- 
commodar o Cavallo em cousa alguma. Admirado deste 
acontecimento, dco parte delle , e correndo a noticia len- 
tamente , só pude examinar o animal em o primeiro de Abril. 
Neste tempo já o Verme tinha crescido muito , parecia pouco 
mais ou menos ter pollegada e meia de comprimento c mais 
de huma linha de grossura ; a sua cor era branca amarellada , 
:i figura cylindrica , com huma das extremidades adelgaçada e 
a outra mais g;ossa á maneira de cabeça. Nem á simples vista, 
nem com huma lente de que me servi , lhe pude descobrir 
pellos , articulações, ou orifícios alguns por todo o corpo: 
estava, como já disse, alojado entre a Córnea e aUvea, 
e nadava no humor aquoso com extraordinária agilidade e 
rapidêi ; já cstendendo-se , já encolhendo-se j humas vezes 
enrolando o seu corpo em espiral y outras dando laçadas 
ncllc , em fim não estando parado hum só instante. 

O que ha denotarei he^que a pezar de hum tal hos- 
pede , era o Cavãllo pouco sensivel aos incommodos que 
á primeira vista parece que elle deveria causar-lhe ; e não 
somente se não conhecia inflamação ou dilatação alguma 
no olho , mas até o humor aquoso conservava toda a sua 
diafaneidade ; he certo que havia tempos tinha apparecido 
huma iicvoa , que principiando na parte inferior da Córnea, 
se estendeo ato ao meio delia, mas na época acima mencio- 
nada já cstav.i desfeita cm grande parte pela aplicação dos 
rcmcdios usuaes ; alem disso esta névoa pareceo-me antes 
produzida pelo entupimento dos pequenos vasos linfáticos 
da mesma Córnea do que pela condensação ou degenera- 
ção do humor aquoso ; pois alem de que a parte superior 
delle estava pura , via-se que os raios lurrlinosos não podião 
penetrar a porção da membrana nubilada , como succederil 
se a névoa estivesse somente no humor. 

Esta névoa porém não se tinha dissipado de todo, ad 
menos inferiormente , e restava ainda huma porção bastan- 
te para encobrir o Verme de quando em quando : ao me- 
nos he certo , que algumas vezes ellé dcsapparccia total- 

men- 



^4 Memokias da Academia Real 

mente , ainda que por pouco tempo ; outras vezes hunia das 
suas extremidades ficava escondida cm baixo em quanto com 
a outra corria sobre todo o Íris, atravessando aPupilla; em 
fim havia muitas outras occasiòes em que se apresentava to- 
talmente á vista, enroscando-sc por diversos modos, pois o 
seu tamanho não lhe dava lugar para se poder estender na- 
qucila cavidade. 

O habito de alguns mezes , adquirido quasi impercepti- 
velmente, he talvez o que impede o Cavallo de cspantar- 
sc quando o Verme atravessa a Pupilla , e o que pcrmitte 
que elle esteja quieto , e de todo o tempo para se exami- 
nar. Em o dia referido o vi eu mais de hum quarto de ho- 
ra , sem que mostrasse signal algum de impaciência ou de 
medo. Devo porém advertir que , segundo me affirmou o Sol- 
dado que o trazia , não acontece assim quando elle vai 
marchando , pois ás vezes se espanta , volta sobre as per- 
nas e foge precipitadamente : talvez que isto tenha lugar 
quando a figura do objecto externo , que repentinamente 
se lhe pinta na Retina, sendo cortada pela sombra do Ver- 
me ao ponto em que este atravessa a Pupilla , vem a tor- 
nar huma apparencia medonha , fazendo ver ao animal hum 
precipício ou outra cousa simelhantc •, digo que me persua- 
do ser esta a causa daquelles medos , porque a originarem-se 
elles por estimulo do Verme , tanto o deveria sentir parado 
como andando, o que com tudo não acontece. Em fim de- 
ve ainda notar-se que o Cavallo he castrado , e que como 
esta operação costuma sempre produzir huma sensível dimi- 
nuição na vista, talvez que somente a isto e não ao Verme 
sejão devidos aquelles mesmos espantos. 

Poucos dias depois de ter feito e repetido estas obser- 
vações , foi o Cavallo tomar verde para Sacavém , e como 
a distancia me não permittia examinallo a niiude , roguei 
que me dessem parte de qualquer alteração que expciimen- 
tasse no olho ; porém até hoje 14 de Maio , dia em que 
isto escrevo, não tem havido outra, senão a deter cresci- 
do e engrossado o Verme consideravelmente , e de ter em 

con- 



dasScienciasdeLisboa. ÍJ* 

consequência disso inchado hum pouco o olho , e augmen- 
tado-sc a névoa ; a pe/ar do que ainda o Cavallo vê da- 
quclle lado , c não parece experimentar incommodo consi- 
derável. 

Esperar-se-hia sem duvida que depois de ter fallado 
neste Verme, desse huma descripçiío circunstanciada delle , 
para ao menos se vir no conhecimento , se he da classe da- 
quellcs que costumao habitar dentro dos Intestinos do Ca- 
vallo , ou de outra diíFerente ; mas tudo quanto por ora po- 
deria dizer a este respeito ^ não passaria de huma simples 
conjectura , visto que o movimento continuo em que está , 
e o não ser possível nem voltar o seu corpo , nem ver bem 
AS suas extremidades , faz com que todas às observações se- 
jão suspeitas. Alem disso tenho a mais bem fundada es- 
perança de o poder examinar á minha vontade quando es- 
tiver fora do olho , pois o Coronel daquelle Regimento as- 
sentou de o fazer vasar, quando se reputasse esta operação 
mais conveniente; e ella o será no ponto, em que o Ver- 
me tendo engrossado mais , e rompido em consequência as 
membranas que dividem as camcras do olho , os humores 
se confundirem , e o Cavallo vier a ficar cego delle : he 
claro que neste caso he tanto mais necessária a operação , 
que por hum lado se tira o tormento , que o animal deve 
experimentar , e pelo outro tem já o Verme adquirido bas- 
tante crescimento para ser mais bem descripto e examina- 
do {(i) , 

Se este fenómeno não he singular , deve confessar-se 
que he bastantcnicnte raro apparecerpm outros idênticos: as 
7o>ii. V. I mi- 

(/i) A ultimo-A-ez que vi este Verme foi no fim de Julho; pareceo-me 
então hum pouto mais corpolento e os seus movimentos menos rápidos; 
em cju.into no mais conservava se tudo no mesmo estado. Hindo depoi<; 
para o c.-.mpo , alli me mandarão dizer em Outubro , cjue elle tinha mor- 
rido dentro do mesmo olho , pois que se via huma d.is suas extremida- 
des immovel na parte superior da névoa em que acima fallei , e o res- 
t.mte encoberto com ella; assim se conservou por algum tempo , até que 
dcsipparcceo de todo , porque tem crescido mais a névoa que talvez en- 
cobre o seu cadáver. O que ha de mais nocivel hc que o Cavallo ain- 
da vê alguma cousa deste olho. 



66 AIemorias da Academia Real 

minhas avcrigunçõas nao me poderão descobrir mais do que 
trcs , mencionados cm diversos Auctores , e ainda hum delles 
náo parece ser totahnente conforme com este que descrevi. 

Bonet no seu Septtlchretum eira huma observação de 
Spiegcl , cm que elie achara o humor vitrio do olho de 
hum Cavallo totalmente corrupto , por causa de hum Verme 
que alli se introduzira , chamado por Gcsnero Fitiilus aqua- 
ticus : como Bonet não accrescenta cousa alguma , parece 
que o Verme (o qual pela desci ipção c figura de Gcsnero 
lie o mesmo a que os Naturalistas modernos dão o nome 
de Gorditis ) não passara do humor vitrio , onde morrera. 
A obra em que Spiegel falia nesta observação he-me total- 
mente desconhecida , por isso não posso accrcscentar nada 
ás palavras do citado Bonet (a) . 

O segundo facto , muito mais circunstanciado do que 
este , he cxtrahido das Transacções da Sociedade Filosófica 
Americana de Philadelfia , onde no Tom. II. se achão duas 
Memorias de Mrs Hopkinson c Morgan que o referem {h)» 
Se- 

(/j) Fitrcum octili hitmorem iion in''amniari tantum seii etiam putrescere 
argumento eu anno 1622 ab Adriano Spigelio repenus in vitrco humore ocu- 
li eqiiini vermic/ilHS , qui C. Gesnero vitultis aquaticus appellacur. 1. Rodiut 
Cem. I. Observai. LXXXIII. 

(A) Eis-.iqui o modo por que Mr. Hopkinson descreve este aconteci- 
B mento : « O vcráo pass.ido correo a noticia de se ter visto hum Ca- 
» vallo com huma cobra viva em hum dos seus olhos: ao principio des- 
» prezei esta noticia ; confirmando a porém muitos dos meus amidos que 
1) a tinhio presenciado, tive a curiosidade de a examinir, ievando hum 
» dclles cm minha companhia. O Cavallo habitava em Ardi-.Streets , e 
D pertencia ,1 hum negro livre. Examinei o olho com toda a attençáo 
» de que era capaz, náo estando disposto a acreditar a opinião commum, 
Ji antes esperando descobrir huma impostura ou prcoccupaçáo dovuIf;o: 
» assim fiquei muito admirado de ver realmente hum Verme vivo den- 
Ji tro do globo do olho: este Verme era de ccit esbtanquçada , de gros- 
11 sura e apparencía de hum pedaço de birlo delgado de Uzer renda, pi- 
)i receo-me ter de 2Í a J poUcgadas de comprimento: o que náopos- 
1 so affirmar mui exactamente por não apparecet nunca o seu corpo to- 
M talmente descoberto , mas 3Ó aquella parte que se podia ver através» 
» sada no íris , que esrava grandemente dilatado. O animal estava em 
» hum continuo movimento vermicular muito vivo , rccolhcndo-sc de quan- 
» do cm quando na parte mais profunda do olho , e t.izcndo-sc totalmcn- 
« te invisível , outras vezes chegando-se fora au pc do íris , e mostran- 



i>i "»»* C\ T. 



DAS SciENClAS DK LiSBOA. ()^ 

'^ Segundo este ultimo a Gazeta de Pensylvania de 23 
de Maio de 1782 foi a primeira que publicou a noticia 
de hum Cavallo, que então apparccia com huma Serpente 
viva dentro de hum oího , e isto deo motivo a concorrer 
grande numero de pessoas para O' observarem ; quando Mor- 
gui o vio, estava já a moléstia muito adiantada; a suppos- 
t-i Serpente , que como era de esperar , não passava de hum 
Verme , tinha tomado bastante corpolcncia , as men^ibranas 
internas do olho estavao destruidas , este extraordinariamen- 
te entumescido , por isso o Cavallo o tinha sempre fecha- 
do , e só algumas palmadas na anca o incitaváo a levantar 
a Pálpebra , durante dois ou três segundos ; assim os obser- 
vadores não poderão bem descrever o Verme , mas , pelo que 
dizem , conhece-sc que o caso he inteiramente similhante 
ao que agora se observa. Em quanto ao mais , os desejos 
daquelles Naturalistas não ficarão satisfeitos, e o possuidor 
do Cavallo , que era hum Negro livre , recusou-se a vendello 
para se examinar competentemente ; pois o preço que tira- 

I ii va 



» do-se plena e distinctamente , ao menos huma porção delle tamanha , 
D quanto era o campo do mesmo íris. Não pude distinguir a sua cabe- 
11 ça , por^^ue nunca acabou de a mostrar perfeitamente em quanto o 
X examinava ; e na verdade o seu movimento era tão rápido e constan- 
» te, que não se poJia esperar huma averiguação muito circunstanciada. 
)i O olho do Cavallo estava muitissimo inflamado , inchado , e fora do 
n seu lugar , c assim mesmo os músculos contíguos ao globo do olho , 
u o que parecia causar-lhe grande dor , de maneira que com muita dif- 
n ficuldade se podia conservar aberto por poucos segundos , e eu era 
)i obrigado a espreitar o momento favorável para ver disrinctamente o 
» seu atormentador. Creio que o Cavallo estava totalmente cego daquel- 
í le lado , pois me paieceo que os humores do olho esiaváo confundl- 
1 dos , e que o Verme occupj.va toJo o g obo , que ainda assim não tem 
» suííicicnte diâmetro para elle se estender ao comprido. Os humores do 
» olho principião já a fazer-se opacos e semelhantes a huma gclea , e 
> assim ficarão totalmente ao depjis segundo fui informado. 

)) Como este caso tem circunstancias fóri do commum , e vai inten- 
í der com muitas doutrinas philosoíicas , pôde lamentar-se que o Caval- 
» lo não s • tivesse comprado, e o seu olho dissecado para se fazer 
í hum melhor exime , livre de todo o engano. Tenho a convicção de 
a que havia dentro do globo do olho do Cavallo hum animal vivo com 
B njm movimento próprio. » 



Ó8 Memokias da Academia Real 

va de o mostrar ao Publico era maior do que a paga que 
se lhe offcrccia. 

O terceiro facto que ainda parece ser mais idêntico 
com o que actualmente presenciamos , he tirado de huma 
obra Hcspanhola intitulada Institucimies de Albeitaria . . . 
dispuestas por el Bachiller Francisco Garcia Cabero . . . Ma- 
drid 17 SS I vol. 4.° No fim desta obra vem huma consul- 
ta do M. Domingos Royo , em que refere que huma MuUa 
de 6 annos , do Provincial dos Franciscanos de Aragão , se 
achava com hum animal ( a que elle chama huma cobri- 
nha ) dentro do olho esquerdo , que cila era da grossura 
de hum cabello , do tamanho pouco mais ou menos de pol- 
legada e meia , e com os movimentos tão vivos que nem 
na agoa podião ser mais visiveis. Confessa o dito Royo que 
este caso era para elle totalmente novo , mas que lhe tinhão 
segurado que também succedera já em França {a) . 

Bem conhecida pois e pcsta fora de toda a duvida a 
verdade de similhantes factos , o ponto que naturalmente 
chama a nossa attenção he o modo por que o Verme se 
pôde gerar , ou introduzir dentro do olho do Cavallo ; ques- 
tão esta que por hum lado se acha ligada cora a da ge- 
ração dos Moluscos intestinaes em geral , e pelo outro cora 
a da extructura do olho, c alterações occasioaaes , que elia 
tenha experimentado. Em quanto a esta segunda parte, por 
isso mesmo que espero , como já disse , adquirir conheci- 
mentos mais exactos , quando se dissecar o dito olho , fica- 
rá reservada para então , tanto mais que o outro artigo da 
geração dos Molucos Intestinaes pôde tratar-se independen- 
temente, e abrir o caminho para o que depois se houver 
de discorrer sobre aquelle fenómeno. 

A geração dos Vermes em geral foi era' todo o tem- 

P^ 

(4) Nem aqueila consulta , nem a resposta dão outra alguma clare- 
za a respeito deste Verme ; o Cabero iiáo pode mesmo persuadir-sc que 
haja hum animal vivo dentro do olho. O objecto que ambos os auto- 
res tem em vista he examinar se será ou não possível romper a Córnea 
e extrahir o Verme sem que o olho fique cego , do que nada duvida 
o mesmo Cabero. 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. 6y 

po matéria de mui grandes disputas. Aristóteles , e muitos 
Antigos que o seguirão; vendo no ar, ajudado do calor, hum 
principio de vida e de animalisaçao , admittírão a geração 
espontânea como tendo lugar em Animaes desta natureza ; 
cm quanto outros a negarão pertinasmentc e até a ridijcu- 
lisárão, não só entre os mesmos Antigos, mas sobre tudo 
entre os Modernos. Os argumentos dos dois partidos erao 
com tudo mais especiosos do que concludentes; a experiên- 
cia he a que devia decidir , e estava ella muito longe de 
ter ainda fallado por hum modo capaz de tirar todas as 
difficuldades- 

Os Quadrúpedes , as Aves , os Peixes , em fim todos 
os animaes de Vértebras , e alguns dos Invertebrados tem 
órgãos próprios para a geração , e propagao-se pelo concur- 
so dos sexos, ou elles estcjão em animaes diíFcrentcs , ou 
em o mesmo individuo. Este facto exactamente averiguado 
fez tirar a conclusão precipitada de que sendo esta a mar»- 
cha regular da Natureza naquelles animaes, deveria ser tam- 
bém a mesma em todos os outros : como se ainda aquelles 
que tem huma estructura totalmente diversa , estivessem a 
pezar disso sugeitos ás mesmas leis ; como se não fosse 
possivel haver mui variados modos para multiplicar a es- 
pécie ; e como finalmente se as classes de animaes , que 
ainda restavão para observar , não comprehendessem mais 
individues que aquellas que já erão conhecidas. O funda- 
mento daquelle systcma era hum argumento de analogia , 
mas esta só pódc servir de prova , quando não ha lugar 
para a observação, e ainda então he necessário que as cir- 
cunstancias scjão muito parecidas, quando não idênticas. 

O descobrimento dos Animaes infusorios , e huma ave- 
riguação mais exacta sobre alguns Pólipos veio fazer conhe- 
cer modernamente que elles se propagâo por modos muito 
extraordinários , e de que d'antes não havia a menor sus- 
peita : as Infusões de muitas substancias , e até a agoa dis- 
tillada guardada em vasos fechados , dão origem a huma quan- 
tidade de animaculos a que não hc fácil descobrir os pro- 



yo Memorias DA Academia Real 

genitores em systema algum , que não seja o da geração es- 
pontânea. Desde este tempo fez-se huma revolução comple- 
ta nesta parte da Zoologia , a classe dos Vermes foi escu- 
dada com o maior ardor ; e a doutrina da geração espon- 
taaea cessou de ser olhada com ludibrio, logo que o ce- 
lebre BufFon com seductora eloquência a apoiou em toda u 
sua plenitude. 

Muitos Naturalistas seguirão este grande Génio ; mas 
devo confessar que na minha opinião talvez transposcrao a 
meta , attribuindo ao accaso ou ás molccuUas orgânicas a 
formação dos Moluscos Intcstinaes ; segundo os sentimen- 
tos do Plinio Francez , a porção não digerida do leite he 
a que lhe dá origem quasi á nascença do Animal , c se ou- 
tros Vermes se desenvolvem durante o seu crescimento , he 
ainda a huma superabundância de matéria orgânica e á sua 
demora em algumas partes do animal que elle attribuc esta 
geração: desenvolvem-se , ou cristalizão pela mesma manei- 
ra , que cristalizão os animaeulos microscópicos pela quie- 
tação do vehiculo aquoso. 

Se pois por hum lado , segundo o estado actual dos 
nossos conhecimentos , não se pôde regeitar de todo a ge- 
ração espontânea ; ^ não parece pelo contrario que se lhe 
dá huma extensão demasiada attribuindo-se-lhe a origem d js 
Moluscos Intestinaes ? assim me persuado. Mas neste caso 
^ qual será o ponto , quaes serão os animaes em que essa 
geração espontânea cessa de ter lugar ? he o que por ora 
se não pode determinar de huma maneira decisiva; sem que 
deixe de haver algumas considerações , que parecem indi- 
callo com bastante probabilidade. 

Acima dissemos , que desde o homem o mais perfeito 
dos Entes orgânicos até ao ultimo Verme havia huma gra- 
dação mais ou menos sensível de faculdades , que principian- 
do naquelle em o maxiniitm , se hião pouco a pouco amor- 
tecendo ou aniquilando , até se desvanecerem quasi todas 
nos Polypos e animaes infusorios. Ora basta somente o ra- 
ciocinio para fazer ver que estas faculdades estão na ra/.ao 

di- 



dasScienciasdeLisboa* 71 

directa da organização dos animaes : a esrructura dos Qua- 
drúpedes he JummaiTiente complicada , a dos Vermes extre- 
mamente simples , a^^sini as faculdades dos segundos não 
poderão ter comparação cm numero com as dos primeiros. 
Outro facto que he igualmente certo , he que á proporção 
que estas faculdades diminuem na sua quantidade , augmen- 
tão cm intensidade : o homem cego e surdo adquire e aper- 
feiçoa o sentido do tacto até hum gráo maravilhoso ; e o 
que acontece em hum mesmo individuo , acontece também 
cm individuos de natureza diíFercntc ; por tanto os Vermes 
dotados de mui poucas faculdades , gozao em toda a exten- 
são daquellas que possuem. 

Não he isto huma hypotese fundada em meras con- 
jecturas , são factos que a experiência confirma todos os 
dias, c por mil maneiras difTerentes : mostra ella que se os 
Qiiadrupedes tem a faculdade de regenerar as carnes de 
pequenas feridas , os Vermes podem regenerar membros in- 
teiros , e he opinião de grandes Fysicos que os Caracoe? 
cortando-se-lhes a cabeça , ou ao menos huma parte delia , 
ainda vivem , c adquirem outra nova {a) . Se os Quadrú- 
pedes tem a faculdade de se multiplicar por meio dos ovos, 
os Vermes tem huma infinidade de outras maneiras ; pois co- 
mo em muitos a simplicidade da sua organisação não lhes 
pcrmitte ter órgãos próprios para aquelle fim, perpetuão-se 
huns , como os Polypos de agoa doce , por bolbinhos , á 
maneira de muitas Plantas ; outros como os Zoofitos , por 
gomos c rebentos , com que se ramificão e tomão a appa- 
rcncia de pequenos arbustos ; outros ainda cortando-se ao 

se 

(<j) Spall.inzani foi o primeiro que publicou esta experiência : tendo 
depoii sido repetida por diversos naturalistas com difFerentes resultados, 
tentou novamente Bonnet confirmalla , publicando no "jornal de Fysica 
nnno de 1777 as suas observações a este respeito ; mas assim mesmo 
alguns Sábios fícàráo em duvida , por náo poderem nunca conseguir a 
reneragcçáo das cabeças dos Caracoes amputados : hoje cm dia ainda es- 
te ponto he conrreverso ; o que parece mais provável he , que quando 
somente se cortar» os cornos , e a parte anterior da cabeça , tem lugar 
a regeneração ; pelo contrario se o cérebro , ou o primeiro gangliáo que 
faz as suas vezes , hc amputado , morte infalivelmente o animal. 



7» Memorias da Academia Real 

meio , ficão formando dois animacs differentcs ; outros final- 
mente como os Vermes infusorios somente se propagão pe- 
la scisão longitudinal c espontinca dos seus corpos , cjue 
chegando a hum certo crescimento se fendem ao compri- 
do, ger,indo-sc hum ou muitos animaes de cada huma das 
suas ametudcs. 

Esta ultima ordem de Moluscos he aquella , cujo pri- 
meiro nascimento parece bem provável ser devido a huma 
geração espontânea , porque não tendo órgãos sexuacs , não 
se propagando pelos ovos , c não preexistindo as mais das 
vezes outros animaes para lhes darem o ser ; apparecem 
de repente mais ou menos formados ou cristalisados segun- 
do as circunstancias : alem disso as Infusões de differentcs 
matérias que se tem tentado derao existência a animaes 
differentes ; e novas Infusões , ou ainda as mesmas diversa- 
mente combinadas , darão origem a outros que ainda não 
existem , e que serão totalmente novos , por isso que são 
filhos de circunstancias totalmente novas. 

Feio contrario em os Moluscos Intestinaes reconhece- 
rão grande numero de observadores órgãos próprios para 
a geração , c ainda que alguns se podem reputar Andrógi- 
nos, outros ha, em que os dois sexos estão em indivíduos 
distinctos , e em que os seus ovos parecem distinguir-se 
perfeitamente. Ora , segundo a marcha regular da ISature- 
za , assim como por ovos he que se propagão, assim tam- 
bém de ovos he que devcráõ nascer : ao menos he certo 
que somente se poderia adoptar a opinião contraria , quan- 
do não houvesse outro algum meio para explicar a sua ap- 
parição dentro dos corpos dos animaes. 

O grande Linneo , que por hum lado sentia a força 
deste raciocínio , e pelo outro lhe parecia temerária a hy- 
potese de gerações inteiras de animaes assistindo dentro de 
outros, e propagando alli de pais a filhos, suppo/ que os 
Moluscos Intestinaes tinhão sido primeiro introduzidos de 
fora pelos alimentos e respiração; e que assim todos elles 
tinhão outros semelhantes de que provinhão, ou na terra , 

ou 



dasScienciasdeLisboa. 73 

ou nas agoas. Kstc systema bem commodo para explicar 
muitos fenómenos, que agora parecem incomprehcnsiveis, 
e que modernamente foi seguido em parte por Brera , c al- 
guns outros , hc tutalivientc destituido de provas. Os Molus- 
cos internos são tão differentcs dos externos, que Natura- 
listas celebres fizerão dellcs huma ordem separada ; e está 
não só bem i-vcriguado, que não existem íóra dos corpos, 
mas que ar<5 morrem apenas são daili tirados, tanto lhes he 
necessária c essencial aquella habitação ! 

Parece pois que se os Moluscos Intestinaes não são de- 
vidos a 'huma geração fortuita , nem tão pouco introduzi- 
dos de fora dentro dos corpos dos Animacs , com toda a 
razão deverão reputar-se innatos a elles ; pois não resta ne- 
nhuma outra maneira de explicar a sua existência. Alem dis- 
so he evidente que ellcs pedem ser innatos por huma de 
duas maneir;:s ; ou estando já o seu embrião contido dentro 
do gérmen do animal no momento da fecundação deste ul- 
timo , ou scndo-lhe transmittido durante o crescimento e 
nutrição do feto dentro no ventre materno. São estas as 
duas hyporcses que nos restão para examinar, e íallo-hemos 
com a maior brevidade que nos for possível. 

Muitos Fysicos modernos , seguindo os celebres Haller 
eEoniiet, pensarão que os embriões dos animaes preexistião 
originariamente á sua fecundação , c que esta servia como 
de hum estimulo, sem o qual nunca se poderião desenvol- 
ver , nem ter vida : assim os embriões de todos os corpos 
organizados de huma mesma espécie serião contidos huns 
dentro dos outros desde a primeira cri.jção , e se desenvol- 
vcrião succesíivamente até ao fim dos Séculos. Este syste- 
ma essencialmente mctafysico , e que exige huma tenuida- 
de tal nos embriões, que espanta a nossa imaginação, ain- 
da se torna muito mais complicado, quando suppomos ou- 
tras series de differentes espécies de animaes contidas den- 
tro desta primeira , e seguindo a mesma incomprehensivel 
marcha no seu successivo desenvolvimento. Faltão até as 
expressões para apresentar estas idéas em toda a sua luz •, 
Tom. V. K por 



74 Memorias ua Acauemia Real 

por isso será melhor vermos , se os Vermes se podem in- 
troduzir dentro do feto, sem se recorrer ao brilhante sonho 
da preexistência. 

Os ovos dos Vermes são de huma pcquenhez extraor- 
dinária , e na maior parte he tal o seu volume, que se pre- 
cisa de hum microscópio de muito grande força para serem 
perceptíveis : assim mesmo segundo Bloch os corpos que 
então se vem , são verdadeiros ovários , ou massas de pe- 
queníssimos ovos, unidos huns aos outros. São taes, conti- 
nua o mesmo Autor , que tocados com a ponta de hum al- 
finete , o que fica pegado a elle , ainda que não excedesse 
a grossura do mais pequeno átomo de poeira , apparece ao 
microscópio hum ajuntamento incrível de pequenos globos. 
Cada hum delles contém pois o embrião de hum Verme o 
qual pela sua tenuidade pôde ser transportado por todo o 
corpo do animal , visto que por todo elle ha ramificações 
de vasos , com capacidade bastante , ainda nos mais delica- 
dos , para os conter em si , e transmittillos de hum para 
outro lugar. 

Além disso , ainda que o assento principal destes Mo- 
luscos seja nos Intestinos , como elles se desenvolvem em 
muitas outras paites do corpo, e tem em grão eminente a 
faculdade de se reproduzir ; fica manifesto que os seus ovos 
devem ser , muitas vezes cm grande numero , removidos do 
lugar , em que estavão nos mesmos corpos , pelo movimen- 
to dos fluidos : obrigados assim a entrar dentro de canaes 
differentes dos que occu pavão , são arrastados pela circula- 
ção aos diversos pontos , a que ella se estende , para alli se 
desenv.)lverem achando circunstancias apropriadas , ou para 
se aniquilarem huma vez que as não encontrem. 

Se estes princípios são exactos , como me persuado , 
não será muito difficultoso comprchcnder a maneira porque 
os Vermes passão das mais para os filhos ; e como os seus 
ovos correndo hum tão grande espaço chcgão a salvamento 
40 domicilio , que lhes estava destinado , e onde se desen- 
volvem , e multiplicão. Com effeito não somente Linneo , 

Blu- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. y^ 

Blumenbach , Bloch , e muitos ouiros encontrarão Vermes 
nos Intestinos de alguns animacs logo depois do seu nasci- 
mento ; mas além dis^o Rousseus , Harthman e Brindei acha- 
rão grandes quantidades delles em fetos antes de nascidos, 
e que por conseguinte só lhe podião ser transmittidos pe- 
ia Placenta , juntamente com a substancia , que servia para 
Oj alimentar. Em fim esta mesma Placenta , o Útero , a Va- 
' gina , e até o Cordão Umbilical tem servido algumas ve- 
zes de morada a estes Vermes já desenvolvidos. 

Não se pense porém que esta seja a única maneira 
porque os Vermes se introduzem nos animaes ; a lactação 
pôde ser outra origem dclles em a primeira idade. Se os 
seus ovos circulão nos vasos sanguíneos , ,; porque não po- 
derão passar aos vasos lácteos , e transmittirem-se assim de 
hum para outro animal ? Baldinger citado por Brera , encon- 
trou Vermes desenvolvidos dentro das Mamas , o que não 
deixa duvida de que o leite possa conter os seus ovos ; co- 
mo igualmente todos os humores secretorios do animal , por- 
que o interior da boca , as ventas , os ouvidos , o bote , a3 
glândulas da trachea , e a bexiga urinaria são lugares onde 
os mesmos Vermes tem apparecido já formados. 

Semelhantes factos , se por hum lado fazem admirar a 
tenuidade dos ovos dos Vermes , e a força da sua vitalida- 
de, capaz de resistir á pressão dos fluidos, e aos differentes 
attritos , que devem encontrar na sua peregrinação ; dimi- 
nuem pelo outro lado o maravilhoso , que á primeira vista 
poderia resultar de se encontrarem os mesmos Vermes fora 
dos Intestinos , que parecem m:is propriamente destinados 
á sua habitação : poderia até reputar-se extraordinário co- 
nhecerem-se tão poucas destas suppostas anomalias ; mas 
além de que os exemplos são já bastante triviaes , e o se- 
rão ainda muito mais quando o espirito de observação se ti- 
ver generalisado ; deve advertir-se que para os ovos se desen- 
volverem , requerem se certas circunstancias, que nem sem- 
pre tem lugar; taessâo principalmente hum calor moderado; 
huma certa demora em hum lugar , onde não scjão desar- 

K ii rau- 



yá Memorias da Academia Real 

ranjados durante o seu desenvolvimento; e em fim a dispo- 
sição predominante do sugeito. As duas primeiras circunstan- 
cias existem commummentc nos Intestinos , por isso talvez 
alli ha huma maior quantidade de Vermes, do que nas ou- 
tras partes do corpo; e as três, todas reunidas, tem prin- 
cipalmente lugar nos primeiros annos dos animacs , quando 
todos os seus oi gaos são mais froxos c tenros , estando por 
isso mais sugeitos a esta moléstia , do que os adultos. 

O que até aqui tenho exposto não he mais do que hum 
bosquejo do systcma , que me parcceo mais satisfatório , e 
mais bem fundado a respeito da geração em geral dos Mo- 
luscos Intestinaes : conheço porém que actualmente elle não 
he o mais seguido , e que o da geração espontânea conta 
hum numero maior de sectários entre os modernos Natura- 
listas ; mas nem por essa razão os seus argumentos me pa- 
recem mais concludentes. 

Para sermos somente sinceros , deveríamos confessar a 
nossa ignorância ; mas o espirito inquieto do homem difi- 
cilmente se satisfaz por este modo , e na falta de experiên- 
cias , recorre ao raciocínio que muitas vezes o illude , por 
falta de bases solidas que lhe sirvão de fundamento. Pôde 
bem ser que me ache actualmente neste mesmo caso ; sem 
embargo do que quiz deixar entrever qual fosse a minha 
opinião a respeito do modo , por que o Verme de que ha 
pouco fallei , póde introduzir-se no olho do Cavallo : mas, 
como disse , sou obrigado a deixar este assumpto para ou- 
tra occasião , e a ceder o lugar a quem melhor do que eu 
hade entreter por hum pouco as vossas attençoes. 



DA 



siaw ot 



DAS SciíMCIAS DE L I S B O A. -^f 



DA ANTIGUIDADE DA OBSERVAÇÃO 

DOS ASTROS, 
E da Bússola e de outros Instrumentos no uso da Navegação. 

Por António Ribeiro dos Santos. 

Jd/Screvemos em resumo , e cm proveito da Mocidade Por- 
tugueza algumas das cousas cjue nos parece que podem ser- 
vir para provar dois Artigos , dignos d^ pe notarem nos Es- 
tudos da Historia Marítima Universal : i.° Que o aspecto 
do Ceo e a observação dos Astros foi o regulador que a 
principio tiverão os mareantes no uso da Navegação do al- 
to mar : 2.° Que a Bússola e alguns outros instrumentos 
jTiais modernos da Náutica já tinhão sido inventados antes 
do Século XIV. . 



D. 



CAPITULO I. 

Da Observação dos Astros no uso da Navtgaçao, 



'Izemos que os antigos navegadores nas suas viagens 
do alto mar , se guiavjo pelo aspecto do Ceo , e pelo curso 
do Sol e das estrellas. 

Dos navegadores do Mar roxo , da índia , da China , 
e do Mar do Sul se conta em antigas relações , algumas 
delias de testemunhas occulares, que elles navegavão pelo 
pego até grandes distancias. São nellas frequentes os luga- 
res "que ou o suppoem , ou disso fallão expressamente ; so- 
bre o que se podem ler as Viagens dos dois famosos via- 
jantes Marco Polo , e Nicolao Veneto : o primeiro fallando 

da 



78 Memorias da Academia Rkal 

da Ilha de Cypango no mar Oceano , aonde havia outras 
muitas ilhas , diz <« que as náos de Mangy , que lá hião , 
j> por hum anno inteiro estavão no mar , hindo-se no in- 
» verno , e voltando no verão , por nao haver senão dois 
>» ventos " e accrescenta <« que era esta terra mui afastada 
» das ribeiras da índia >» e já antes havia dito dos Chins, 
como testemunha ocular *< que navegavão , ainda que com 
» grandes difficuldades , ás Ilhas Filippinas e ás Molucas , 
» posto que muito distantes do Continente (a) . » 

Do segundo que andou pela índia vinte c cinco an- 
nos , podemos apontar dois lugares que aqui multo servem : 
j> Duas Ilhas ha , diz elle, em a índia Interior a cerca dos 
» extremos fyms do mundo , e ambas por nome som cha- 
» madas Jaua maior , e menor ; e jazem contra Oriente ; 
>» E estam alonguadas d'terra firme huu mez de navcgaçom. 
>» E antre hfia e outra das ditas Ilhas som cem milhas em 
j» ho mais perto , aonde elle cõ sua mulher e filhos e cora- 
j» panheiros do mar de sua peregrinaçom folgou per nove 
j> mezes. Alem destas (Jauas) per navegaçom de quinze 
j» dias mais contra Oriente jazem duas Ilhas , huraa se cha- 
»> ma Sanday , e a outra Badam , em a qual so nace o cra- 
» vo , e dalli o levam as Ilhas de Jaua. Foi Nicolao Vene- 
» to para Occidente , e navegou a Cidade de Liampa , que 
j» jaz em costa de mar, e navegou a Ilha Secutera que ja/^ 
5» contra o Occidente da terra firme cem milhas , e neste 
» caminho esteve dois mezes (b) . " 

Particularmente se notou dos da Ilha de Otahiti , ou 
Taiti no Oceano Oriental , que perdendo a vista de terra , 
navegavão sem Bússola até 400 legoas longe das Costas , 
e chegavão até a Nova Zelândia , e conhecião as grandes 
distancias ás Ilhas do Mar do Sul. Dos Chins se diz o mes- 
mo ; conta-se que desde o Século IV. e V. não só navega- 
vão 

(<j) Lib. III. C. IV. e VIII. na ColUci^ão das Navegações de Kamtt- 
sio , Tom. II. 

(í) Livro de Nicolao Veneto , escrlpto por Poggio Florentino , pag. 
85 e 87 , que vem com o de Marco Polo , ambos traduzidos por Valentim 
Fernandes. Lisboa 1502 foi. 



OAS SciENCIAS DE L I S B O A< 7^ 

vão pelas costas do Japão, dejcsso, e de Kamtschatcá, mas 
até se engolfavão nos mares largos , chegando sem costea- 
rem a terra , ás Ilhas do Mar do Sul , e a outras partes 
afastadas do Continente, de que tornaremos a fallar no Ar- 
tigo da Bússola. 

^ Qiial era logo o regulador , que tinhao estes povos 
maritiniob para poderem navegar tao longe , se não possuião 
ainda o mostrador da Bússola ? Por certo tinhâo ellcs outra 
guia , posto que menos prompta e segura , por que se po- 
dião governar, independentemente de outro maior soccorro. 
O particular conhecimento , que os antigos mareantes tive- 
rão das cstrellas , foi muitos Séculos a Bússola da sua na- 
vegação. O aspecto do Ceo appresentava aos navegantes da 
nossa Zona hum certo numero de estrellas, que ficavão so- 
bre o horisonte , durante as noites inteiras , sem jamais se 
porem ; e era natural que os seus olhos se voltassem para 
estas guias permanentes : os Antigos fazem muitas vezes 
menção desta pratica marítima da observação das estrellas 

.... Clavwnque adfixus et haréns 
Nusquam amittebat ^ oculosque sub astra tenebat (a) 

. . . . Félix stellis qui segnibus usum, 
Et dedit £qtioreos , Coelo duce , tender e cursus 

Qui Lybico nuper cursu dum sidera servat . . , . (b) 

Ducunt instabiles sidera certa rates (c) 

Gubernator , quipervigil nocte sideruin quoque motus custodit (d) 

Em verdade os Sidonios e Fenícios servlão-se de dia 

da 

(a) Virgil. iCneid. Lib. ir. 852. 

(b) Virgil. ibi Lib. VI. f. 5?8, 
(O Tibullo Lib. I. Eleg. X. jr. 10. 
(rf) Pctronio Arbitro Satyr. Cap. lOí. 



8o Memorias da Academia Real 

da direcção do Sol ; e de noirc cndireitavão pelas estrellns 
o seu curso maritimo; c tão práticos corrião com os olhos 
no Cco , que forão os primeiros que ousarão até navegar 
no meio das trevas (iistrabão): a elles se deveo a arte de 
navegar pelo soccorro dos Astros ; porque elles observavão 
as Constellaçóes , que se moviao a roda do eixo do globo 
em virtude do seu movimento diurno; e tomavão por sin.i!. 
do norte huma das mais visiveis e mais visinhas aelle, qual 
era o gruppo de estrellas tão notável por sua figura , que 
excitava a attenção particular de todos , a que os Astróno- 
mos cliamárão Grande Ursa , que apparecia sempre para o 
mesmo ponto do Ceo , c se não punha senão em paroe pa- 
ra as Costas mais meridionaes da Europa; sendo assim pró- 
pria para dar a conhecer o norte ; sinal na verdade duvi- 
doso, mas tal, qual se podia desejar nos primeiros tempos 
da invenção da Náutica, 

Observavão também a pequena Ursa , que era menos 
apartada do mesmo norte, e ainda mais fixa que a outra; 
por isso o famoso Filosofo Thales de Mileto , voltando do 
Egypto e da Fenicia aconselhava aos Gregos , que se ap- 
proveitassem também da inspecção da pequena Ursa, de que 
os Fenícios se servião , ( Diógenes Laércio in vita Thale- 
ti. ) De ambas as Ursas para este fim fez Ovídio menção 
relativamente aos Sidonios , e aos Gregos : 

Magna , minorque fera; , qttnrum regh altera Grajas , 
Altera Sidouias j titraqiie sicca , rates 

e Ara to que se refere á Grande Ursa nestes versos 

Dat Gracis Hélice cursus majorihiis artes , 
Pbcenicas Cynosura regit ; 
Certior est Çynosiira tamen stílcaiitibus lequor j 
Qiiippe brevis totaiii fido se cardine vertit , 
Sidoniamque ratem n»tnqiiam spectata fefellit. 

As- 



DAS SciENciAS DE Lisboa. Bt 

Assim a grande e a pequena Ursa scrvião de guia ás 
Nações nas suas viagens. 

Náo só os mareantes Fenicios , Gregos , e Romanos , 
mas também os Asiáticos se rcgulavão pelo aspecto do Ceo: 
estes ultim )S attcntavão pelas estreitas do Polo Antartico, 
c por elljs endireitaváo as suas navegações: dellcs o attcs- 
ta o celebre viajante Nicolao Veneto : << os mais que nr.ve- 
" gam cm aquella índia , diz elle , com Bússola se regem 
» por as estrcUas do polo antartico , que he o Sull. Ca 
» poucas vezes vem as estrellas do nosso norte. Elles nó 
» navcguam por agulha, mas se regem e naveguam segundo 
5> que acham a estrella do polo alta ou baixa , c esto sabem 
»> por certa medida. E nõ menos mede ho curso que fa- 
>» zem , c a distancia que tem de huu lugar pêra outro ; 
>> e assi sabem em qualquer lugar em que estiverem no 
>» mar (a) . » 

Podemos trazer em confirmação disto mesmo , o que 
os nossos escrevem do Piloro Gazarate, Malcmo Cana, que 
Vasco da Gama levou de Mclinde para dirigir a navegação 
para Calecut , o qual contava entre as mais praticas que 
teve com elle <« que os Pilotos do Mar roxo alem de seus 
» particulares instrumentos usavão principalmente da estrel- 
>» la , de que se mais scrvião em a navegação ; mas que elle 
j» e os mareantes de Cambaia e de toda a índia peró que a 
» sua navegação era por certas estrellas assi do Norte , ccmo 
" do Sul , e outras notáveis que cursavão por meio do Ceo 
» de Oriente a Ponenrc. »> ( Barros Decad. I. Liv. IV. C. VI,) 

Luiz Barthema Bolonhez , que andou algum tempo a 
serviço de Portugal , fc;lJando de suas viagens da Moluca 
Borneo ejava, dá hum claro testemunho desta antiga pra- 
tica de navegar sem Bússola. <« I)im:ndó il mio compagno 
» alli Christiani poi che noi h ;bbiamo pcrso la tramonta- 
Tom. V. L » na 

{a) Livro de Ni 0I.10 Comi , ch.iiT.ado vulgarmente Nicolao Feneto , 
traduzido cni Portuj;uez por Valentim Fern.indes , no fim do Livro de 
Marco Polo, Edic. de Lisboa içoi foL O Texco Latino vem no Tom. I. 
da ColUct^ão dai Fiagcns de Ramusio C. Vlll. 



82 Memorias da Academia Real 

» na , come si governa costui : evvi altra stella tramontana 
» che qucsta , con la qual noi navighiamo ? Li Christiani 
»» ricercarono il padron delia nave , qucsta medisima cosa ; 
» et cgli ci mostro quatro ó cinquc stelle bellissime ; infra 
'» Ic quaii ve n'cra una, qual disse ch'era alTincontro delia 
j» nostra tramontana , et ch'egli navigando seguiva quclla , 
j» per che la calamita era acconcia et tirava a la tramon- 
j> tana nostra: ci disse anchora che dali' altra banda di dctta 
5» Isola, verso mezzo giorno, vi sono alcune genti le quali 
" navigano con le dette quattro ò cinque stelle , che sono 
í> per mezza la nostra tramontana ; et piu ci disse , che: di 
« là dalla detta Isola si naviga tanto , che trovano che il 
" giorno no dura piu che quattro hore , et che ivi era 
" maggior freddo che in luogo dcl mondo. >> ( Iten. di Bar- 
them. na Collecção das Navegações e V~tagens de Ramiisio Tom. I. 
pag. 168 3.* Edição ) 

Tanto se servião os Asiáticos , Indianos , e Árabes da 
observação dos Astros , que até por ella se guiavão nas 
jornadas por terra , quando atravessavão grandes solidões e 
desertos , o que conta o mesmo Nicolao Vcneto , e parti- 
cularmente o nosso famoso Viajante , tão pouco lido e tão 
digno de o ser, o Padre Manoel Godinho na sua viagem da 
índia; aonde assevera como testemunho ocular « que as ter- 
» ras que se estendem para o meio dia são todas cubertas 
j> de vastos e cansados areaes , não se achando nellas pe- 
j> dras , arvore , herva , nem caminho ou carreira por espa- 
» ço de 300 léguas; e que os que por ellas caminhão, ob- 
»> servão o curso do Sol e das estrellas para se não perde- 
» rem. »> {a) 



CA- 



(4) Cap. 18. pag. 103. 



éW-t r» 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. 83 



CAPITULO II. 

Do conhecimento e uso da Bússola ou Agulha de marear , e 
de alguns outros Instrumentos maritimos , antes do mea- 
do do Século XIF. 



E 



Aliamos no discurso antecedente do regulador ou guia 
das antigas navagações do alto mar, pelo subsidio do aspe- 
cto do Cco, ou curso do Sol c das estrcllas: segue-se com- 
pilar as noticias que podem servir para mostrar que a Bús- 
sola e outros instrumentos modernos da Náutica crão já co- 
nhecidos e usados antes do meado do Século XIV. isto he 
antes da época de Flávio Goia Amalfitano. 

Os meios e instrumentos maritimos principaes são a 
Bússola , o Astrolábio , a Balestilha , o Quadrante , a Son- 
da , e as Cartas maritimas. Diremos o que podemos saber 
de cada huma destas cousas, que certo não he ainda quan- 
to desejávamos , e quanto deviamos esperar dos Antigos : 
este tem sido o destino dos illustres Artistas, bemfeitores 
da humanidade , que enriquecerão e aperfeiçoarão as Artes 
pelas suas invenções , que a ignorância ou desattenção dos 
Escritores seus contemporâneos privarão na posteridade da 
noticia de suas pessoas , nomes , profissão e caracter , do 
tempo em que viverão , e de seus descobrimentos e inven- 
ções. ,; Quantos succcssos nos não offerecem os Annaes do 
espirito humano, transmittidos sem menção de algumas da- 
quellas circunstancias, que podião satisfazer a nossa curiosi- 
dade , que naturalmente folgaria de as saber? 

Daqui vem que as épocas do descobrimento da Bús- 
sola , do Astrolábio , e de outros instrumentos maritimos , 
os povos que primeiro os pozerao em uso , c os seus Au- 
tores, são Problemas que tem hoje occupado a penna de 
mui illustres Escritores , e que ainda não estão inteiramen- 

L ii te 



84 Memorias da Academia Real 

te resolvidos : com este prcsupposto fallaremos dos princi- 
paes instrumentos , e meios próprios da direcção da Nave- 
gação. 

Artigo I. 
Da antiguidade da Bússola ou Agulha de marear. 

Da Bússola. JLX Um dos instrumentos maritimos he a Bússola ou Agu- 
lha Náutica , sem a qual se entende geralmente , que não 
era possível fazer-se navegação cm largo mar. i Mas temos 
nós certeza, de que d' antes não havia o regulador da Bús- 
sola , e quando o não houvesse como hoje o temos , que 
não haveria outro meio de supprir esta falta ? 

Quanto ao primeiro nós ainda não sabemos como foi 
descuberto o segredo da pedra Iman e da Bússola , nem o 
tempo, em que se intioduzio, e recebeo entre as Nações ma- 
rítimas da Europa; nem as primeiras vantagens, que se ti- 
rarão do seu uso. Pôde porém suspeitar-se , que os Antigos 
a conhecerão e usarão ; e que perdida depois , e ignorada 
por muitos Séculos , esta Arte se restituio outra vez ao 
mundo , crendo-se invenção nova , o que só foi recupera- 
ção da antiga (a) , Avancemos porém a alguma cousa mais 
positiva e certa. 

Os Chins entrarão na pertençao do seu invento, datan- 
do o seu uso já desde o reinado do Kinpcrador Wang-Ty , 
muitos annos antes da EraChrisrã. Falião disto o Padre Mar- 
tim , Missionário da China , na Historia Sinica pag. 106, as- 
severando que a Agulha Náutica era conhecida na China 
mais de três mil annos antes da Era Christã , opinião que 
seguio Mr. Esmenard no seí\ bello Poema Francez da Nave- 
gação no Canto V. Delia também faz memoria o outro Mis- 
sionário o Padre Amyol , que a jwem no reinado de Hoang- 



(/j) Atsim o conjecTOfou o discreto Feijó no Tom. ^^ í>iscurso XV'. 
§. V. pag. )24. fallando da Areetica. 



01 



DAS SciENCtAS DE LiSBOA. if 

Ty , que corresponde ao nnno 1637 antes da Era Chris^á {a) . 
Fíjrâo para csra parte o Padre d' EnlrccoUes , referido na 
Historia Universal por huma Sociedade de Homens de Letras 
qu.; as.sevcra/a como testemunha ocular, que os Chins ti- 
nhao huma espécie de Bússola , de que ellc descreve a par- 
ticular composição (b) , Fournier na Hydrografia Lib. II. C. I. , 
Pluehe no Espectáculo de Natureza , e FronctcUi em huma 
Dissertação num. 29. §. I., que todos reconhecerão huma 
espécie de Bússola entre os Chins. 

Com effeito consta que elles desde 45-8 não só nave- 
gavão pelas costas do Japão, de Jcsso , e de Kamtschatca, 
mas até se engolíavão nos mares largos , chegando , sem cos- 
tearem a terra , a algumas partes remotas , e a varias Ilhas 
do Alar do Sul , como já dissemos, de que fallárão Hornio, 
Hyde , o Barão de la Houtan , du Praz, e principalmente 
Mr. de Guingncs no seu Extracto das Viagens no Tomo 
XXVIII. das Memorias da Academia das Inscripçoes e Bellas 
Letras ; sendo assim que foi para muitos verosimil , o que 
diz Montucla na Histm-ia das Mathemaíicas , que delles pro- 
viessem aos Europcos o conhecimento deste segredo da Na- 
tureza por intervenção de Marco Polo, ou de alguns Mer- 
cadores Venezianos , que fiV/ião o commercio da índia pelo 
Mar roxo ; e affirmando que os mesmos Chins ainda depois 
de aperfeiçoada a Buiisola pelos Europeos , faziao uso de 
hum pedaço de ferro tocado no Iman , e posto sobre hura 
pequeno páo ou cortiça , dentro de hum vaso cheio deagoa, 
que parece ser ainda hoje a Bússola dos juncos Chinezes (c) . 

Não só ha quem f;;ça os Chins inventores da Agulha 
Náutica, mas ha muitos que procurão achar-lhe a pátria en- 
tre os Árabes : em verdade o Geógrafo Nubiense , que es- 
creveo pelo Século XII. , indica o seu uso entre elles ; e 
por esta parte o citão Kircker na obra Magnes , Fournier 

na 

(íí) Abrtgé Chronolog^iqiie de rHistoire Univtrsclle detEmpirc Cbitii/is , 
<]ue vem no Vo!. XIII. das Memorias tocantes aos Chins , p. 234 n. 3. 
(i>) Tom. XX. pag. 141. 
CO Histoir. des Aíatbcmatiqucs P. II. Liv. II. §. II. pag. }84. 



■ 86 Memorias da Academia Real 

na Hydrograpbia Liv. II. C. I. c Riccioli na Geografia e Hy- 
àrografia Liv. X. C. i8. Para a mesma opinião encaminha o 
curioso Bergcron , que na Historia dos Sarracenos pertende 
que os Árabes fossem seus inventores , e delia ^ie servissem 
longo tempo antes dos Europeus , para viajarem nos mares 
da índia , c commerciarem com os Chins , aonde Icvavao as 
suas mercadorias ( Abrcgé de rilistoire des Sarraans p. 119) 
o què se faz verosimil , vendo que elles crao mui peritos 
na Náutica, c que delia escreverão em Séculos, em que na- 
da se escrevia na Europa ; superiores nesta parte a Gregos 
e Romanos , e aos mais povos da meia id:ide , que quanto 
nós hoje sabemos nos não deixarão obra alguma desta scien- 
cia (tf), e por certo que cm hum Livro, que entre elles cor- 
re com o titulo Ketab Allachiar ^ fizcrao menção da pedra 
Iman e de seus cíFeitos e virtudes {b) . 

Tan- 

(rt) Casiri entre outras obras de que faz menção na Bibliochcca do 
Escurial , refere o Tratado de hum Anonymo da Arte Náutica , e ou- 
tro de Tabet ben Corrab de Syderibits eorumque occasH , ad anis Nauticx 
usiim accommodatis Tom. I. pag. 586 , Tom. II. pag. 6 

(/') He traducçáo Arábiga de huma obra que esereveo Aristóteles so- 
bre a Pedra por excelUncia , de que Diógenes Laércio nos conservou o 
titulo, na qual o Filosofo já fallava da virtude da pedra Iman , cuja in- 
venção parecia attribuir aos Orientaes. O Texto Grego perdeo-se , e só 
se acha traduzido entre os Árabes , do que faz memoria Harbelot na Bi- 
bliotheca Oriental : e com efFeito Aristóteles por seus gr.indcs conheci- 
mentos na Historia Natural e nas Artes , e pelos que podia haver por 
meio das conquistas de Alexandre Mat^no , seu líiscipulo , estava em 
estado de saber o uso, que os Orientaes faziáo da pedra Iman, e da 
Bússola. 

Não ignoramos que alguns tiveráo para si , que esta obra não era 
a de Aristóteles, e a rejeitarão como apociyfa , e foi hum delles Lipe- 
nio no seu Dissurso sobre a navegação de Ophir C. V. ; c depois Ti- 
rabo;cl>i , o Abbade ]oão André , e outros msis se persuadirão ter sijo 
producçâo de algum Árabe , que lhe procurou dar sabida com o nome 
supposto de Aristóteles. Dos mesmos que a tem por obra do Filosofo 
ha quem pense ter havido falsificação no seu Texto. ; E que interesse 
tinháo os Interpretes Árabes de o falsificar , c attribuir ao Escritor Gre- 
go hum conhecimento que cUe não tinha, ou não inculcava ter em seus 
escritos; Was demos a bel prazer a impostura da obra, ou a falsificação 
do Texto: sempre por esta Trjducção assim mesmo ou suppoita, ou in- 
fiel se prova , que se Aristóteles , ou os Gregos não conhecerão a virtu- 
de e effeitos do Iman, o conhecerão cettameiue os Árabes, que he quan- 
to nos basca pata o nosso assumpto. 



DAS ScTENCiAS DE Lisboa. S^ 

Tanto usavão da Bússola como instrumento de sua in- 
venção , ou pelo menos de longo tempo adoptado na pra- 
tica , que até se valiâo , c valem ainda hoje da Bússola nas 
viagens de terra , quando caminha) sobre camcllos os vas- 
tos c longos areaes e desertos de Africa , para irem em ro- 
magem a Meca ou a outras partes : assim o attcsta o Gre- 
go Leôncio Chalcondila no Liv. III. de Rebtts Tiircicis Ca- 
nte lios ascendunt utentes sigiiis , qu<e viam cvnimf.nstraitt magtie- 
tis demoustrationibíis ; colligentes igitiir ab Septeutriouali plaga , 
qiia orbis parte eutidum sit , eo viam conjectantes pergunt : o que 
mais hc que ate delia se servem para suas superstições , 
isto he , para regular por ella as suas orações e rezns ", vol- 
tando-sc por sua direcção para aquclla parte do mundo , 
afunde está o Templo de Meca ; a qual Bússola chamão 
Keblek tioma , ou Kebleh-nimia , como refere Herbelot na pa- 
lavra Kebletati ; o que tudo ponderado faz justamente acre- 
ditar, que estes povos muito antes dos Europeos havião co- 
nhecido e usado este instrumento. 

Particularmente o podemos assim asseverar , por não tra- 
zermos outros exemplos , dos Árabes habitantes de Egesim- 
ba ; sabe-se com certeza por nossos mesmos Historiadores , 
que elles se ajudarão da força do Iman no uso da Náutica. 
Os curiosos folgarão de ler aqui a descripção que fez o 
cloquentissimo e doutissimo Bispo de Silves , Jeronymo Ou- 
souro ou Osório na bcUa obra de Rebus gestis Emmanuelis 
no Liv. I. pag. 3f : he longa a passagem, mas he ao mes- 
mo tempo curiosa e decisiva na matéria , de que falíamos. 

'» Utcbantur in navigando normis naviculariis , quas 
»> nautae Açus appellant. Quarum formam proter eos , qui 
>> a maritimis regionibus semoti sunt , haud alienum arbitror 
» explicare. 

» Vasculum est e ligno factum , planum atque rotun- 
»» dum , altitudine duorum aut trium digitorum. In médio 
j> habet stylum prxfixum , in summo prseacutum , aliquan- 
» tò brevicrem , quam sit vasculi ipsius altitudo. Regula 
» dcindc c ferro solcrtissimè facta , tenuis & angusta ad 

»> vas- 






88 Memorias da Academia Real 

vasculi modum dimensa ; ita tamen , iit diametri ipsius 
vasculi longitudincm non cxasquct , inducitur. Styli vcrò 
cuspis per mcdium hujus regulae , quod est infcrius exca- 
vatum & fastigianim , supcrius immissa, ira cam suspcn- 
sam , parihusquc momcntis libraram conriner , ur urrinqiie 
ângulos pares cfF.ciar, Operculo deindc virreo xnea vir- 
gula circundara firmaro , ne possit regula cxcuri , & ali- 
qua ex parre labarc , conrcgirur. Cuni vero magncris ca 
narura sit , ut non modo fcrrum ad se rrahar , veruin 
etiam una illius pars ad Seprentriones aspirei, altera in 
Austrum propendeat, naturamque suam cum ferro ccirimu- 
nicet: efficitur , ut , cum regulx huius caput ad eam nia- 
gnetis partem , qux spectat ad Scptcntrioncs, applicatum , 
attrituque illius extersum fucrit, candcm in se vim con- 
cipiat : & cum ita suspensa extiterit, ut mobiliter in varias 
partes impelli possit , semper in Septentriones insira pro- 
pensione referatur. Sic autcm fiebat ; at nautse hoc instru- 
mento moniti , quamvis in profundo pélago versarentur, 
& cjelum esset nubilum , & caliginosum , possent tamen 
ad Septentrionis lationem cursum dirigere. Hanc autein 
regulam, quia ad açus similitudinem proximè accedebat, 
acum naviculariam appellabant. Dcinde cum facillimum 
sit humanis ingeniis addere semper aliquid ad ea , quz 
sunt solerter inventa, aliam norma: rationem excogitarunt, 
qua possent exactius, quem cursum in navigando tenerent, 
ratione perspicere. E viigulis enim ferreis figuram efíi- 
ciunt lateribus paribus , angulis imparibus , in rhombi 
speciem deformaram. Huic unam cx parte superiora, al- 
teram ex inferiore chartam orbiculatam adglutinant. Ma- 
gnctis autcm adiuncta vi, sic figuram hanc temperant, 
ut unus ex acutis angulis Septentrionem , alter Austrum 
respiciat: ex obtusis vero unus ad ortum Sol is , alter ad 
occasum spectet. Diametri autem orbis huius longitudo 
figuras longitudincm non exccdit. Habet autem orbis hic 
in médio jeneum umbilicum alExum , ad eam formam fa- 
ctum , qua diximus rcguls médium fabricatum fuisse. 

» Per 



DAS SciENciAS DE Lisboa. S9 

« Per umbilicum illud igitur styli cuspis iminissa , orbcm 
>> hunc suspensum continct , qui iion modo rcgulae illius , 
>» de qua dixinius , vice fungitur , sed omnes ventorum re- 
>» giones, quorum flatibus navis impellitur, in conspcctu pro- 
» ponit. In charta namque supcriore Scptentrio , & Auster, 
j> & Orieiís, & Occidcns , & interjecrs inter hos términos 
" regiones cxactissimê describuntur. Norma ad hunc mo- 
>» dum constituta , hoc restabat incommodi , quod opus erat 
»> quoties navis fluctibus agitata, ut fieri nccesse est , in 
»» pupim aut proram , aut in alterutrum latus inclinarct , 
j» ut illa in profundo subsidens adhaeresceret , ncque motu 
j» libero in Septentiioncs dirigi posset. Ne autem hoc eve- 
j> nieret, fuit solertissimè cxcjgitatum. Nam vas ipsum pau- 
j» lò infra labrum circulo xneo arctè constringitur. Utrin- 
V que autem ab eo circulo virgula calybea ducta , in fora- 
j> mcn alterius circuli maioris & extcrioris , módico intcr- 
j> vallo ab interiore distantis , immittitur ; virgulíe vcrò bi- 
" nae ita sunt squales & oppositae , ut si ex utràque una 
» & perpetua ficret , circularis illius spatii diametrum con- 
» tincret. Exterior autem circulus circa duas illas virgulas 
>» quasi circum axem versatur. Rursus ab exteriore circulo 
>» ali£e binx virgula pari intervallo ad ambitum alveoli cu- 
» juí^dam orbiculati , intra quem hsc machinatio contine- 
» tur, simili ratione perducuntur. Ita sunt autem has vir- 
>» gulx exteriores interioribus ex adverso constitutae , ut si 
" du3E tantum ex illis quatuor directx fierent , sese ad an- 
» gulos rectos intersccarentur. Cúm vero machinatio ex in^ 
» feriore parte znea & ponderosa sit, neque fimdum attin- 
í» gat ullum , ita undique pellitur , ut médium locum te- 
»> neat. Et cum pcnsilis & mobilis existat , pondere suo 
>» nixa ca ratione consistit, ut quamvís maximi fluctus na- 
»» vem jactcnt, ipsa semper ad íibellam directa permaneat. 
" Sic autem fit, ut nihil interveniat , quod normam ab eo 
" motu , quo in Septentriones fertur , impedire queat. His 
'» normis solcbant uti iam illo tempore Árabes illi {a) . 
Tom . V M Sen- 

(4) Se a tudo isco se quizer lepôr , que esta Aguliia e BuisoU Ara- 



5)o Memorias DA Academia Real 

Sendo tudo isto , dos Árabes cm geral podião haver 
os Euiopeos o conhecimento e uso da Agulha Náutica ; 
fosse dos Árabes Asiáticos, fosse por meio das Expedições 
em Ásia debaixo do titulo de Cruzadas , fosse por via dos 
S.irraceiios de Africa , que se espalharão pela Itália , e pela 
Hespanha (a) . 

Não ni)s contentemos porém com esta só prova, ten- 
do outras , que nos ofFcrecem as memorias dos dois Sécu- 
los XIII. e XIV. No principio do primeiro achamos o cc- 
nh?*de"" ^^^^^ Pocta Franccz Guyot de Provim , que vivia por 1200: 
Guyot. o qual no seu Poema escrito em o idioma Gaullez , que 
appareceo em 1204 com o titulo La Bible Gujiot , dá hum 
bem claro testemunho da existência da Agulha náutica (b) , 

des- 



bica ou Indiana diíferia da Europea , pouco nos importará esta dltferen- 
ça , para a cerccza da existência de hum Instrumento próprio pun a na- 
vegação do alto mar , que entre aquelles povos servia para sua direc- 
ção , como a mesma Bússola Europea para as nossas navegações. 

Bastará o que temos dito pata se encontrar a doutrina do sábio Do- 
mingos Alberto Azuni , na sua Dissertação sobre a origem da Bússola : 
elle se propoz mostrar, que ella não fora conhecida dos Antigos; que 
os Chins e Árabes a tomarão dos Europeos ; e que entre estes forão os 
Francezes os primeiros , que a descobrirão e pozeráo em uso. Com tu- 
do não o fez sobre bases solidas , e só sobre conjecturas c suas induc- 
çócs ; não podendo delias ccncluir-se exact.)mente nem a total exclusão 
do seu uso , ou de outro seu equivalente entre aquellas nações ; nem 
a invenção original dos Francezes , precisamente por usarem da Bússola 
no Século XIII. , e delia fallarem alguns de seus Escritores : notando 
C0R1 razão Saverien que lhe dá o primeiro uso por 12CO, que não cons- 
tava que os Francezes fossem os inventores , e se devia remontar irais 
acima , e entender que era ja conhecida dos Antigos. 

(<j) Pôde ler-se sobre isto Trombclli Ac-Bon no Tom. II. P. III. , 
Tiraboschi no Tom. IV. Liv, V. C. XI. , e o Abbade D. ]oáo André 
na Origem , progressos , e estado actual de toda a Litteratura no Tom. I. 
C. X. , que todos attribuem aos Sarracenos o merecimento da invenção 
da Agulha Magnética. 

(i) Existe na Bibliotheca Real de Paris hum precioso MS. que per- 
tencera em outro tempo á Igreja Cathedral ; o qual contem este Poema. 
Mr. Le grand na sua Collection des Fabli.iux é>- Contes Tom. H. reftie 
alguns versos, e Fouchet transcreveo cinco na sua obra d.is j^níitjtiitts 
de la France Liv. II. , hum e outro com defeito. Azuni na Dissertação 
tur lOrigme de la Boussole traz o lugar pot inteiro , e tirado do próprio 
otigiaal MS. 



DAS SciENCIAS DeLiSBOA. pi 

descrevendo elle as estrellas circumpolares , explica-se des- 
ta maneira. 

>í Voisissi , qu*il semblas Testoile 

» Qlií ne SC muet : bien la voyaent 

» Li marinicrs , qui si avoient , 

j> Et lor sen , & lor voie tienncnt. 

» lis rappellent la tresmaintaigne. 

» Icelle cstoile est moult ccrtainc : 

j> Toutes les autrcs se removent , 

>» Et rechangent lor lieus , & tornent j 

>» Alais celle cstoille ne síe muèt , 

»> Un art sont qui mentir ne puct , 

'> Par la vertii de la marinière; 

j> Une picrre laide & brunière , 

3> Ou li fcrs volontiers se joint, 

»> Ont , si esgardent le droit point , 

yy Puisquc une aguille ont touchié , 

j» Et en un festu Pont couchié ; 

j» En l'eve le mettent sans plus, 

» Et li festus la tiennent desus. 

» Puis se tourne la pointe toute 

>» Contre 1'estoilc , si sans doute 

» Que ja nus hom n'en doutera 

" Ne ja por ricn ne fausserá : 

j> Quand la mer cst obscure & brune , 

» Qiiand ne voie cstoile , ne lune 

» Dont sont à l'aguille allumer 

" Puis n'ont ils gardc d'esgarer 

" Contre Testoile va la pointe (a) . 

# 

M ii Com 



(<j) Pozemos por inteiro todo este lugar dcGuyot, porque melhor se 
veja contra o (jue affitniou Gregório Grimaldi na sua Dissertação sobre 
a primeira invenção da Bússola no Tom. III. da Collecçáo Italiana JíJ,?- 
gi de Dissert. Academ. de CAcadem. Etnisca pag. 214, que de Guyoc só 
se deduzia ser então conhecida a virtude do Imr.n e da aiiracçío de fer- 
ro , mas não o uso da Agulha que guiasse os navegantes. 



pi AI EMOLIAS DA AcADBMIA RbAL 

Testfmii- Com O tesremunho do antigo Poeta Francez pódc vir 

de Jacob q Jq Caldeai Jacob de Vitry ou de Vitriaco , que vivia 

por I200, o qual também faz menção expressa da Agulha 

magnética na sua Historia líierosoUmitana ; accrescentando , 

que ella era necessária e indispcnsensavel aos viajantes por 

mar. «t Fenum occultâ quadam natura ad se trahit açus fer- 

>> rea , postquam magnetem contingerit, ad stellam Scpten- 

» trionalem , velut axis firmamenti , allis vcrgentibus , non 

» movetur, semper convcrtitur, undc valdc necessarius na- 

j> vigantibus in niari. j> 

Testemu- No mesmo Século apparece depois destes a mesma no- 

nho da i\(^\^ na antiga Chronica de França , que põe nositivamen- 

Chronica . »„ , ' i ^ , , "^ • '^ i 

deFranç3,te O uso da Dussola com O nome de Marmett pelos tem- 
e de Hugo p^j ^^ primeira expedição das Cruzadas para o Oriente por 
Luiz IX., i&to he por 1248; e em Hugo de Bercy , Escri- 
tor muito exacto e contemporâneo de S. tuiz, que falia 
desta espécie de Bússola; e dá delia huma dcscripçao , co- 
mo de cousa já conhecida e usada em França , declarando 
que os marinheiros de seu tempo delia se servião para co- 
nhecer o Scptentrião. 
Testemu- Pertence ao mesmo Século o outro testemunho , que 

nhodeVi-se acha em Vicente de Bcauvais , chamado geralmente o 
lovacense. Bcllovaccnse , quc falleceo em 1262 , cu como quer o Padre 
Echard em 1269 , o qual no seu Speculmn Historicum ^ que 
chega até 1244, impresso em Vetleza em 1434,00 Tom. í. 
Lib. VIII. C. 19, attribuindo a noticia disto a Aristóteles, 
diz assim : « Aristóteles in libris de Lapidibus : Lápis ma- 
5> gncs ferrum trahit ; & ferrum obediens est huic lapidi 
jj per virtutem. occultam , quae inest illi , ipsum movet ad 
j» se per omnia corpora solida , sicut per aera ; & uno qui- 
j> dcm ipsius angulo trahit ferrum ; ex opposito angulo fu- 
»» gat ipsum. Angulus quidem ejus , cui virtus est attrahcn- 
j> di ferrum , est ad Zoron , id est Septentrionem ; angulus 
>» autem oppositus ad Afron , id est meridiem. Itaque pro- 
j» prietatem habet magnes , quod si approximes ei ferrum 
j> ad angulum ipsius , qui Zoron , id est , qui Septentrio- 

'> nem 






DAS SciENClAS DE LlSBOA, (JJ 

» nem respicic, ad Scprentrioiícm se convertit; si vero aJ 
»> angulum oppositiim fcrrum admovcris ad Afron , id est , 
»» meridiem se movcbit. Qiiod si huic ferro fcrrum aliud ap- 
>» proximaris , ipsum de magnete ad se trahit (a) . » 

Cresce a força destas autoridades com a do famoso 
Escritor da mesma idade Alberto Magno , fallecido cm 1 280 , Testemu- 
no seu Tratado dos Mitteraes ou Metaes Tract. II. C. VI. ^'°Q*jyj3^ 
cUe diz expressamente: <c Angulus magnetis cujusdam cst,gno. 
„ cujus virtus convertendi fcrrum est ad Zoron , hoc est , 

„ ad Septentrioncm , & hoc utuntur nautas etsi 

„ approximes fenum versus angulum Afron , convertit se 
„ fcrrum ad Zoron (Z») . „ 

Depois de todos estes Escritores , apparece nos fins do 
mesmo Século o celebre Mestre do Poeta Dante, Brunet La- Testemu- 

. . T,, 1 ■ / 1 / 1 nnodeBru- 

tini Morentmo , o qual já antes de 1294 , época da sua mor-net. 
te, fallou expressamente da Bússola, como instrumento usa- 
do dos Francezes em seu tempo ; e a explica na obra in- 
titulada Tresor , escrita no Francez antigo , traduzida por elle 
mesmo em Italiano, e impressa depois era Veneza em lyjj- 
com o titulo Tesoro de Messer Brunetto Latini Liv. II. C. 49. 
foi. 54 : eis-aqui o seu lugar: «Onde per ció navicano i 
„ marinari , & che cio sia Ia verita' , prendete una pietra di 
„ calamita , voi troverctc che ella ha due faceie , l'una che 
„ giacc verso l'una tramontana , & Taltra verso Taltra ; & 
,, peró sarebbero i marinari bcffati , se ellino non prendes- 
„ sero guardiã ; & pcrò che queste due stelle non si mu- 
„ tano, advicne che Taltre stelle che sono nel firmamento 
„ corrono per li piu piccoli cerchi , & l'altri per li mag- 



>5 



gio- 



{a) Ainda que ests dcscripçáo náo hc exacta , todavin prova o co- 
nhecimento , que então havia , da attracção e força directiva da Magneta 
para o norte. 

(fc) Dos Vocábulos Zoron e Afron , de que usáo Vicente de Beauvais , e 
Alberto Magno , concluio Tiraboschi que a obra de Lapidiòus , que cllcs 
citáo como de Aristóteles , n.ío podia ser delle , pois que estas palavras 
náo eráo Gregas , e nem ainda Latinas : j mas que implica que se hajáo 
por Arábicas , e que os Árabes por ellas quizessem expressar o sentido do 
Filosofo i 



SI3U - ra 



P4 Mkmokias da Academia Real 

„ giori , secondo che elle sono piu presso , ó piu lungi di 
„ quelle tramontane ; &sappiatc, clic a questc diie tijmon- 
,, tanc vi si apprcnde la punta dclTaco verso quella tiamon- 
,, tana, a cui quella faceia giacc. ,, Lib. II. C. 49 foi. 5'4. 
Arrematemos a serie destas testemunhas do Século XIII. 
Testemu- com a autoridade do famoso Hcspanhol Raymundo LuUio , 
Raymun- ^"'''''"''i-ido O Doutor Illiiminado , pela sua estupenda erudição 
doLuilio. ainda hoje respeitável. Trata elle expressamente da Agulha 
náutica de ferro em diversas partes das suas obras , que es- 
crcveo desde 1271 até 1298, e explica mui doutamente, 
como grande Filosofo que era, a sua direcção para o polo, 
tocada no Iman , e o seu uso no curso da navegação do seu 
tempo. Eis-aqui alguns lugares do seu Livro I. de Contem- 
platione. « Sicut açus per naturam vertitur ad Septcntrioncm, 
„ dum sit tacta a magnete , ita oportet , quod tuus servus (fal- 
„ la com Deos) se vertat ad amandum & laudandum suum Do- 
„ minum Deum {a) . z; Quia sicut açus náutica dirigit marina- 
„ rios in sua navigatione, ita discretio dirigit hominem in ad- 
„ quisione Sapientije : nam sicut est naturale acui , Domine, 
„ vertere se ad aquiloncm , per naturam magnetis a qua est 
,, tacta , ita naturale potentiie rationali dirigere hominem ad 
j, discretionem. „ {b) 

Artigo II. 

Da antiguidade do Astrolábio. 

Do Astro JL/lgamos agora do Astrolábio , que serve para se conhe- 
cer a altura do polo e por ella saber o que estamos apar- 
ta- 
is) Cap. i2p num. ip. 

(t) Cap. 2pi num. 17. De tod.i esta serie de Escritores se convence 
o pouco ou nenhum fundamento com que muitos pertendêráo d.ir j Flá- 
vio Gioja Amalfitano a gloria da invenção da Agulha , c particulnrmen- 
te Fabrini , o ]esuita Bartholo , e o "siibio GrimaMi na sua Dissertação 
Sobre 3 Hu<;soIa , cjue vem no Tom. III. das Actas da AcaJcmia de Cor- 
tona : os quac ficáo tendo contra a sua opinião todas as provas , que aqui 
temos apresentado , de testemunhos anteriores ao Cidadão Amalfitano. 



LtAsSciBNCiASD£ Lisboa. 9^ 

tados da Equinocial , ou em que parte está o navio do ca- 
minho que leva, como se não navegue de Leste a Oeste, 
pois então se julga já por estimativa ou fantasia. Entcnde- 
se vulgarmente que em tempos passados não havia Astro- 
lábio, c que sem ellc se não podia navegar ao largo. Mas 
^ está decisivamente provado , que d'antes o não havia , ou 
pelo menos , que não houve algum outro equivalente , que 
o sup p risse .'* Sem remontar a tecnpos antiquíssimos, e tra- 
zer á memoria a Arhaleta dos Chaldeos , a que elles chama- 
vão Báculo de Jacob , com que tomavão a Latitude e distan- 
cia do lugar, em que estava o navio relativamente ao Equa- 
dor {a) , basMrã lembrar que o Astrolábio , ou instrumento 
equivalente a elle , não deixou de ser conhecido muito antes 
do Século XV entre as gentes do Arabismo , e em nossa 
mesma Hespanha ; porque do Árabe Cordovez Al-Zarcaili se 
conta , que inventara nclla hum instrumento para observa- 
ção do Sol e das estrellas , de que pasmarão os sábios As- 
trónomos do Oriente quando o chegarão a ver. (Vej.oAu- 
thor da Bibliutheca dos Filosqfos Jrabes). Geralmente se ha- 
vião propagado entre estes povos instrumentos , que ou erão 
análogos ao Astrolábio , ou serviâo , como elle, para a ob- 
servação da altura do Sol e do movimento dos Astros. 

Vem a propósito e em confirmação do que dizemos o 
que conta o nosso grande Historiador da índia de Malemo 
Cana , Mouro de nação , que Vasco da Gama levou comsi- 
go de Melinde por piloto : « E amostrando-lhe Vasco da 
„ Gama (diz Barros) o grande Astrolábio de páo , que le- 
„ vava , e outros de metal , com que tomava a altura do 
„ Sol , não se espantou o Mouro disso , dizendo : que al- 
„ guns Pilotos do Mar roxo usavão instrumentos de latão 
„ de figura triangular , e quadrantes , com que tomavão a 
,, altura do Sol em a navegação. Mas que elle , e os ma- 
„ reantes de Cambaya e de toda a índia .... não toma- 
„ vão a sua distancia per instrumentos semelhantes áquel- 
„ les , mas por outros. „ 
Tão 

(,a) Veja-sc Saverien ic8. 



^6 Memorias da Academia Real 

Tão sábio era este Mouro Guzarate , que Vasco da 
Gama pelas praticas que teve com clle , o houve por hum 
grão thesouro , como se explica Barros; e bem certo que 
debaixo da sua guia atravessou cm 23 dias por 700 legoas 
o grande golfo, que separa a Africa da Índia, e o fez sur- 
gir felizmente em Calecut. 

Finalmente dos Árabes cm geral diz o douto Renau- 
, dot , que tem instrumentos bem construidos , e particular- 

mente pequenos Astrolábios, que os seus Pilotos regularmen- 
te trazem no seio, e de que usão ha muitos tempos (a) ; e 
que os que sahiâo do Golfo Pérsico , e hiao até á ponta do 
Malabar , e o corriao , e atravessavao o canal até a Ilha de 
Ardeman , e passavão ao outro porto do Golfo de Bengala , 
usavão unicamente do Astrolábio {b) . 

Sendo isto assim , não se pôde negar ser já conheci- 
do em tempos passados entre os Árabes o Astrolábio , ou 
instrumento a elle similhante : donde fica menos razão aos 
que o considerão como insrumento de invenção moderna e 
Europea , sendo hum delles o nosso Poeta Manoel Thomaz 
na sua Insulana : 

Em seu conceito , sendo o Astrolábio 

Dos certos gráos , medida mui segura , 

De Europa he instrumento , e não Arábio (c) . 

Artigo III. 

Da antiguidade da Balestilha. 

Da Eaiesti- xA. Balestilha he outro instrumento náutico , que tem o 
^^ Piloto com o Astrolábio, com o qual toma a altura do Sol 

ou 

{a) Dissertatiou de Venirée des Aíahometaiin a Ia Chinc. 

(í») Podem Icr-se sobre isto as duas Relações He dois viaiantc; Maho- 
metanos ás índias , e China , no Século IX. , traduzidas do Aribe em Fran- 
cez com notas, Paris 1718: a primeira de 357 da He»ira , <]iie corres- 
ponde ao anno de 8çi de Era Chtistá : a segunda de 574 da mesma Egi- 
ra , 877 da mesma Era. 

(f) Liv. III, Est. 55. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. P7 

OU de hum astro , sendo de noite , para conhecer a do l^o- 
lo. Foi também este instrumento conhecido cm tempos mais 
antigos : pelo mesmo Barros na Dec. I. Liv. IV. C. VI. 
pag. 72 jf^. se prova que os Árabes usavao de hum instrumen- 
to similhante , o qual mostrou a Vasco da Gama o mesmo 
Piloto de Melinde , Malemo CanáGuzarate, que era de três 
taboas. « E posto que ( diz Barros ) da figura e uso delias 
„ tratamos em nossa Geografia , em o Capitulo dos Instru- 
„ mentos da Navegação , basta aqui saber que servem a el- 
j, les naquella operação , que ora acerca de nós serve o 
„ instrumento a que os Mareantes chamão Balestilha , de 
„ que também no Capitulo que dissemos se dará razão del- 
„ le , e de seus inventores. „ O que mostra que tal instru- 
mento era já conhecido dos Árabes , e usado de muitos 
tempos atraz. 

Artigo IV. 
Da antiguidade do Qtiadrante. 



Ambem do Quadrante náutico havia já uso de tempos 1^° 9^* 
antigos nas viagens do Mar roxo ; assim o attestava a Vas- " "" 
CO da Gama o já referido Piloto de Melinde, como conta 
Barros , dizendo «< que alguns Pilotos do Mar roxo usavao 
„ de instrumentos de latão de figura triangular, e quadran- 
„ tes , com que tomavão a altura do Sol. „ ( Dec. I. L. IV. 
pag. 7^ f- 

Do mesmo instrumento se ajudavão em suas viagens 
os Árabes de Egesimha , e geralmente das Costas de Qui- 
lôa , Sofala , c Moçambique , que erão grandes navegadores , 
como escreve Osório : <c Quadrantibus etiam , Solis varias con- 
„ versiones , & quantum queque régio ab squinoctiali cir- 
„ culo distaret , observabant. „ ( De Rebtis gestis Emma- 
nuelís Lib. I. ) O mesmo attestava o Gentil-homem Flo- 
rentino , que viajou com Vasco da Gama , e escrcvco hu- 
ma Relação da sua viagem cm 1497 dizendo que os de 
Tom. F. N Ca- 



^8 Memorias da Acadbmia Real 

Calecut navegavão nos mares com huma espécie <Jc qua- 
drante de páo (a) , 

Artigo V. 

Da antiguidade de outros instrumentos. 

De outros V-XEralmente fallando , havia muitos; outros instrumentos 
imtnimen- n^uti^oj ^ jg qug cstavío apaiclliados os Mouros para suas 
navegações , em que pouca ou nenhuma vantagem lhe le- 
vavão os nossos : venha outra ve/. cm apoio deste nosso con- 
ceito a auctoridade do mesmo Osório : « Tam multis de- 
j, nique erant ad navigandum artibus instructi , ut non mul- 
„ tum Luíitanis nautis de rcrum maritimarum scicntia & 
„ usu concederent. ,, (De Rebus gestis Emmanuelis Lib. I.) 

Artigo VI. 

Da antiguidade da Sonda, 

Emos de accrescentar , que também não era desconhe» 
Bi Sonda, eido antigamente o uso da Sonda, ou prumo náutico, para 
sondar as braças de mar, e qualidade de seu fundo: delia 
se deve entender o Périplo de Hannon , aonde diz , que os 
Carthaginezes entrarão em hum golfo , ou mar immenso e 
insondável. Na meia idade se praticou , dando-se-lhe o nome 
de BoUide , accaso do verbo Grego B«^^" , querendo significar 
por elle cousa arrojada , como o era a Sonda ao fundo do 
mar. Dos Árabes Africanos particularmente sabemos , que ti- 
nhâo esta pratica, c do mesmo já referido Piloto Guzarate 
conta o nosso Castanheda, que delia se sérvio na Viagem 
de Vasco da Gama de Melinde para Calecut : « E logo Ca- 
„ naqua deitou ho prumo , e achou corenta e cinco braças , 
„ e por se arredar desta Costa , como foy noyte se kz ho 



„ caminho ao Sueste. „ 



A 



R- 



{a) Na Collecçáo das Viagens de Ramusio Tom. I. C. 15. foi. 157 
e seguintes. 



.4ã« ^>- 



N; 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. p^ 

Artigo VII. 

Da antiguidade das Cartas maritimas. 



Ão deixaremos de fallar das Cartas maritimas ou Hy- Das Carta» 
drograficas , que ensinão a disposição que tem entre si os ^y jg'J^ 
portos , ilhas , baixos , bancos , e outros inconvenientes que lev. 
SC oflFerecem na navegação ; e os caminhos que ha de hu- 
mas partes para outras. Destes subsidios andavao já os Ára- 
bes em tempos antigos bem providos em suas navegações. 
Não nos cança citar muitas vezes a Barros , por quão gran- 
de he a sua authoridade , e trazer de novo a theatro o Pi- 
loto Guzarate acima mencionado ; « do qual Vasco da Ga- 
„ ma (diz o nosso Historiador) depois que praticou com 
j, clle ficou muito contente , principalmente quando lhe 
j, mostrou huma Carta de toda a índia , arrumada ao modo 
„ dos Mouros, que era em meridianos mui miúdos, sem ou- 
„ tro rumo de ventos ; porque como o quadrado daquellcs 
„ meridianos e parallelos era mui pequeno , ficava a Costa 
„ por aquelles dois rumos de Norte Sul , e Leste Oeste 
„ mui certa , sem ter aquella multiplicação de ventos da 
„ Agulha commum da nossa Carta , que serve de raiz das 
„ outras.,, (Decad. I. III. C. VI. p. y6 f.) 

Com Barros concorda Osório , que também nunca nos 
pezará de trazer cm nosso abono ; fallando elle dos Asisim- 
bros , diz assim : << His normis solebant uti jam illo tem- 
„ pore Árabes illi , & chartis prseterea , quibus maritimarum 
„ regionum situs , secundiim descriptas in illis lineas , expio- 
„ rate cognoscerent. „ ( Lib. I. ) 

Os Europcos desde muito tempo usavão também de 
Cartas maritimas , principalmente na navegação de Levante ; 
e erão eminentes nisto os Malhorquinos , de que falia o nos- 
so douto Pedro Nunes no Tratado da Defensão da Carta 
de marear: d'entre elles fez vir o Infante D. Henrique com 
muito custo o Mestre Jacome , homem mui perito na Ar- 

N ii te 



loo Memorias da Acadbmia Real 

te de navegar , que fazia Cartas e instrumentos , para haver 
de ensinar os nossos. ( Barros Dec. I. Liv. I. C. 16.) Os 
Venezianos no Século XIV e principios do XV costuma- 
vão também fazer Cartas e Roteiros ; e póde-se notar que 
algumas houve , que já demarcavao o Cabo da Boa Esperan- 
ça, e indicavão as ultimas ilhas para as Costas da America. 
Isto basta para se entender quão antigo era o uso da 
observação dos Astros, e da Bússola , e outros instrumentos 
náuticos , nos mares da Europa , Ásia , e Africa , e deduzir 
em consequência a possibilidade da navegação pelo alto mar 
em tempos mui remotos. 



DO 






DAS SciENCIAS DE L I S B O A. lOI 



DO CONHECIMENTO 

Que era possível ter da existência da America , pela tradição 
dos Antigos , e por motivos Filosóficos. 



Por António Ribeiro dos Santos. 



A, 



.Praz compilar em breve algumas cousas sobre o co- 
nhecimento que se poderia ter da existência da America ou 
Novo Mundo , assim pela tradição dos Antigos , como por 
observações filosóficas , antes dos seus novos descobridores. 
Com razão havia já dito o douto Commentador de Elia- 
no , Jacob Perisonio , que não duvidava que os Antigos cres- 
sem , ou soubessem alguma cousa da America , parte por 
antiga tradição, havida dos Egypcios ou Carthaginezes , par- 
te por discurso c reflexão sobre a forma e posição do Or- 
be {a). 

Artigo I. 

Do conhecimento que se podia ter da existência da America 
pela tradição dos Antigos, 

Oi tradição constante em toda a antiguidade , que alem 
da Europa e Africa , para as ultimas partes do Oceano Atlân- 
tico Occidental, ou a Oeste, existia hum grande Continen- 
te. Este conceito tiverão os Egypcios , Gregos, Romanos, 
Hebreos , e Árabes. 

Quan- 

{a) NuUus tamcn dubito quin vetercs aliífuid crediderunt vtl scienmt .... 
de America ; fartim ex antiqua traditione ab /Egyptiis yel Carthagincnsibiis 
accepta , partim ex ratiociíiatione dejorma ó- situ Orhis terrâtum coUi^ehant 
supeiesse in hoc Orbe etiam alias terras , prxter Asiam , Africam <â>- " Ettro- 
pam. 



6IS« 01 



102 Memorias da Academia Real 

Ttadi(;5o Quanto aos Egypcios c Gregos , sabidos são os luga- 

dos Egy- fçg jg Platão no seuTimeo, e no Dialogo entre Critias e 
Sócrates : este grande Filosofo da antiguidade assevera no 
primeiro , que sendo ainda moço ouvira fallar nesta maté- 
ria a seu avô Critias , o qual na sua mocidade tinha si- 
do instruido por Sólon, amigo de Dropydas seu pai, que 
havia viaj ido pelo Egypto , e de lá tinha tomado os seus 
conhecimentos filosóficos, e escolhido para seu ensino al- 
guns dos Sacerdotes de Sais , Cidade do Delta. « Huin 
>» destes Sacerdotes ( refere Platão ) versado nas Scicncias , 
j> e instruido em toda a antiguidade , exclamava desta ma- 
>» neira : O' Sólon ! Sólon ! vos outros os Gregos sois ainda 
» moços j não ha hum único velho entre vos ; vos igno- 
>» raes o que se tem passado ou aqui , ou entre vós mes- 
j» mos ; nós conservamos a historia de oito mil annos , es- 
» crita nos livros sagrados ; podemos subir ainda mais al- 
j» to ; e fallar-vos das acções illustres de vossos pais , de 
» nove mil annos para cá. Vós não tendes conhecimento 
j» senão de hum deluvio , a que muitos outros precederão. 
» Ha muitos tempos que Athenas subsiste , e que o seu no- 
3> me he famoso no Egypto. Sabei pois como resistindo a 
>» huma Potencia que sahio do mar Atlântico , a vossa Re- 
j» publica nos conservou a liberdade. Este mar era então 
>f navegável ; e cercava , não muito longe da embocadura a 
>» que vós chamais em vosa lingua Columnas de Hercules, 
i> huma Ilha mais vasta que a Azia e a I^ybia juntamente; 
»> entre elle , eo Continente ainda havia algumas Ilhas mais 
» pequenas. Este grande terreno chamava-se Atlântida j era 
»» povoado e floreçente , e governado por Prinçipes pode- 
j» rosos que se apoderarão da Lybia athe o Egypto, e da 
» Europa athe a Tyrenia : estes emprehenderão conquistar 
>» todas as Províncias situadas dentro das Columnas de Her- 
»» culcs , e nós todos viemos a ser escravos. Então he que 
»» os da vossa Republica se mostrarão superiores a todos os 
»» mortacs : vós conduzistes as vossas frotas contra os con- 
>» quistadores , os vossos conhecimentos na arte da guerra 

'> vos 



DASÍÍCIENCIAS DeLiSBOA. IOJ 

»» VOS soccorreríu neste eminente perigo ; vós vencestes os 
»> inimigos, e nos livrastes da escravidão. Mas huma maior 
" infelicidade se preparava para os Atlânticos ; e quando 
>» nestes últimos tempos sobrevierao os terramotos e as in- 
»> nundações , a Ilha Atlântica foi súbito submergida ; os 
>♦ vossos guerreiros , e hum Gontinete mais vasto que a Eu- 
»' ropa e Azia juntas , dcsappareçcu no espaço de huma noi- 
j> te; por isso o mar que alli existe, não foi mais navtga- 
»» vel nem conhecido por alguém , porque todo ellc se 
» converieo em huma alagoa pantanosa, proveniente da tcr- 
» ra submergida. »» 

Eis-aqui o sentido de tudo o que Platão nos disse a 
respeito da Atlântica ; o mesmo assumpto repetio o Filo- 
soto no dialogo de Critias c Sócrates : alli conta como 
os Dòoscs se apartarão ; como a Neptuno coube em sorte 
a Ilha Atlântica , como a povoou, e dividio o senhorio en- 
tre seus filhos , donde Atlas o mais velho teve maior qui- 
nhão , e como este Rei deo o seu nome a todo aquelle 
paiz ; nenhum Principe teve mais sciencia , nem transmit- 
tio tanta riqueza a seus herdeiros. A Ilha era de três mil 
estádios sobre dois mil de largura , e era de huma forma 
oblonga , e abundante em tudo. Os bosques a fornecilo de 
madeira de construcçao ; a terra criava toda a casta de ani- 
maes selvagens e domésticos ; terminava ao norte por huma 
cadca de montanhas , e este terreno era fértil , bello e ma- 
ravilhoso ; produzia toda a sorte de metaes , e sobre tudo 
ouro , e o oricalco que hoje se não conhece ; elle falia da 
magnificência dos dcscer.dentes de Atlas , da riqueza dos 
Templos, da povoação do paiz , e de hum terreno fertiliza- 
do pelos trabalhos de muitas gerações em huma longa car- 
reira de Séculos. « Os Estados envelhecem (accicscenta el- 
>» Ip) os Atlânticos, e seus governadores se corromperão, 
j» e os homens os mais virtuosos e mais sábios vierao a ser 
» os mais Ímpios e depravados ; clles irritarão os Deoses 
»> por seus crimes e abominações : Júpiter ultrajado de seus 
»> excessos ajuntou os Deoses nas suas moradas celestes, que 



104 Memorias da Academia Real 
» são situadas no meio do Universo por . . . >? Aqui aca- 
ba o fragmento ; o resto do Dialogo , que trata evidente- 
mente da submersão , perdeo-se , c não existe {a) . 

Com Platão pódc trazer-!sc a similhante sentimento 
Aristóteles, no Livro do Mwnlo no Cap. III. em que di/, 
que toda a terra habitada he hiima Ilha cercada do Mar 
Atlântico , e que he provável que hajão outras Ilhas remo- 
tas e oppostas a esta, além do mar, e já maiores do que es- 
ta , já menores, todas porém anos desconhecidas. O mes- 
mo Filosofo, ou quem foi o Author do Livro áí^s Maravi- 
lhas ^ assevera que no mar , fora das Columnas de Hercules , 
ti- 

(<í) Escrabâo , que nao Lo^^unla tatilnitmc acreditar as noticias das an- 
tigas navegações , com tudo iolire a existência dc^te Coin:ntrne diz no 
Liv. III. da sua Geog. , que já pôde ser que não fosse Fabulopo. 

Pôde também ver-se sobre a existência da Atlântica o Conde Carli 
Cartas Americanas T. II. Cartas 56, 57 , e 58. Não será desagradável 
accrescentar aqui huma observação fysica que não he vulgar , e pôde 
servir de tornar mais verosimiil a antiquissima existência daquelle gran- 
de Continente , e persuadir que he parte rest.>nte delle o novo Mundo. 
Olhando nós desde a boca do Rio grande do BrazJl , iité á ponta do Ca- 
bo de Tangrin , na Costa Africana de Malagueta , por huma linha que 
faça hum angulo com o Equador de 50 a 55 gfáos , vèm-se nella , pe- 
la grande extençáo do mar Atlântico , claros vestígios de haver quasi 
desapparecido , ou por innundaçócs ou por outras causas similhantes , hum 
grande Continente ; porque nesta mesma linha se descobre huma conti- 
nunção de Ilhotas , Picos , e Baixos , demonstradores da antiga existên- 
cia de huma vastissima região ; o que bem mostra Mr. Buache em os 
dois Mrppas que publicou , e depois reimprimio o já citado Carli nas suas 
Cartas estamp.idas em Cremona em I78j. 

Ainda se pôde ajuntar a esta auctoridade a de Bory de S. Vincent nos 
seus Eiuaios sobre as Ilhas Fortunatas ; onde fallando da subversão de 
hum grande Continente no Mar Atlântico , não somente traz o argumen- 
to da tradição da mais remota antiguidade , mas também o que se de- 
duz do estado fysico das Ilhas Canárias , e das outras Atlânticas , que 
parecem ser restos do antigo Continente , submergido pelos eff;itos reuni- 
dos da violência do Oceano , e das irrupções vulcânicas , sendo prov-^s 
disto a pouca profundidade que ha naquelles mares , e as muitas Ilhas 
e Ilhotas que nelles se obsetváo. 

]á antes deste ultimo tinhão inclinado para a mesma parte os trcs 
também modernos Escritores , Mentelle , Volt jire , e Rainald. ir Eu não ve- 
» jo nada (disse o primeiro) que se possa oppor a ter existido noutro 
i tempo, entre a Europa e America, hnnia muito gr.nde exten. áo de 
II terras , de que 3 Madeira, as Canárias, os Açores, e talvc. as mesmas 
II Ilhas de Cabo verde sáo rcsios ainda subsistentes, j O mesmo , com 
pouca difíisiença , dizem os dois últimos Autores que citámos. 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. lOJ" 

tinhão achado os Caithagine/cs huma Ilha abundante de 
todas as cousas , que alguns delles alli ficarão , como em la- 
gar de gralhes regalos e delicias, e que o Senado prohibi- 
ra com pena de morte que ninguém mais navegasse para 
aquellas partes , porque se não despovoasse Carthago. 

A' existência destas novas terras de outro Orbe alludia 
S. Clemente Alexandrino , de quem traz as palavras S. Je- 
ronymo , quando excitava a questão , se ainda além do nos- 
so Orbe havia outro Mundo , existente ao trave/, do Ocea- 
no (a) ? 

Diodoro Siculo ao fazer memoria das Ilhas Occiden- 
taes no Oceano, que descobrirão os Fenícios, sendo a ci- 
las lançados por huma grande tormenta, dá as noticias que 
então havia da grande Ilha , que elles .descobrirão , e a des- 
creve com todos os sinaes , que indicão claramente o paiz 
da America, " Ha ( diz elle ) no Oceano defronte da Lybia 
„ hua mui grande Ilha , distante muitos dias de navegação , 
„ de ar saudável , fértil torrão , e de amenos campos ; cor- 
„ tada de montes , regada de rios navegáveis , que mais pa- 
„ recia habitação de Deoses que de homens : em tempos 
„ antigos se ignorava , por estar separada do nosso Orbe , 
j, e foi achada deste modo. Os Fenícios , costeando a Afri- 
„ ca pelo Oceano, tivcrão huma tormenta, que os arrojou 
„ para o mar alto ; e a cabo de muitos dias aportarão áquel- 
„ la Ilha incógnita , de cuja situação e fertilidade fizerão 
„ na vinda hum relatório. ,, (b) 

Para aqui vem talhado hum lugar de Thcopnmpo , se- 
gunda) o refere Eliano , Escritor do Scculo II. , no Cap. XVIII. 
do Liv. III. da Faria Historia ; nella faz menção expressa 
de hum Continente diverso do nosso, dizendo que Sileno 
Tom. F. O en- 

(<») Secundiim sMtilum iiimuli hujns utnim tiain &■ /iliud SMulum sit , 
tjuod noit pcrtineat aã nmndiim istum , sed ad mundos alios , de quihus <ò- 
Clcmens in epistola ma scribit ; Oceanus éi- tnuiidi qui trans ipsum sunc ' An 
miindus unus iste sit. (Tom. IV. de suas Obras C. 2. Epist. ad Ephe- 
sios. ) 

(/<) Eit Lybiatn versus ad Occcanum sita plurium dierum navigatione in- 
sula permagna , agro fenili , tum campis /jm*7iif , lum montibus distincta 



to6 Memorias DA Academia Real 

entre as praticas , que teve com Midas Rei da Phrygia , que 
vivera mais de treze Séculos antes da Era Christã, affirma- 
va que a Europa, Ásia , e Lybia (isto he Afaça) era hu- 
ma Ilha cercada toda em derredor de mar ; e que lóra des- 
te Orbe havia hum Continente , cuja grandeza era immen- 
sa e infinita : os homens crao de longa vida , e a terra de 
grande quantidade d'oiro c prata ; o que bem indica ter si- 
do a America (<j) . 

Plutarcho iallando das Ilhas do Oceano Atlântico dá 
outro testemunho do conhecimento , que então havia deste 
vasto Continente , a que chama firme ; e tratando de Ser- 
tório , conta como clle quizera embarcar-sc , e trespassar-sc 
pelo Oceano para huma de duas Ilhas , que huns marinhei- 
ros vindos de huma viagem do Oceano Atlântico , lhe rcfe- 
ríráo haver achado na distancia de xcio. passos de Africa 

Pos- 

I »■■■■■ iii.iMM I II— ■■■■-.i 11 !■! ■ ■! I ■■■■■ i.ia^i.. n ^ 

fuminibus rigatur , qtu sunt naviítm capaces : friseis umforibus , quoniam 
a reliquo orbe divulsa , videtur incógnita (Liv. V. C. XIX.) 

Cabs aqui lembrar , para illustraçáo deste lugar de Diodoro de Si- 
cília sobre a descoberta dos Carthaginezes, huma Inscripçáo , achada em 
Dighton em distancia de 40 a 50 milhas ao Sul de Boston , aberra em 
hum penedo sobre a riba Oriental do rio ]aunston , que em i^ de Se- 
tembro de 1768 copiarão MMrs. Estevão SeNi-al , e Thomas Danforth 
com assistência de MMts. Walliams , Baylies , .... Williams, e David 
Cobb : a qual combin.-ida com Insctipçóes que trazem Kircker e Pocockio , 
c com os Alfabetos Fenícios, he no conceito de Mr. Court de Gibelim 
hum Monumento Fenício. { A^/oiul Prlmit. Tom. VIII. pag. 59, 561 e 

Tem aqui t»mbem lugar » noticia , que se publicou na Gazeta de 
França de 1781 de se terem achado ao norre de Boston na America rres 
Inscripçóes Púnicas , gravadas cm huns rochedos junto da foz de hum 
rio , as quaes annuuciaváo a chegada dos navegadores áquelle p.iiz , e os 
tratados que iizeráo com os seus habitadores, o que cita Mr. ]oseph Ro- 
main Jofy Ç_L'Âncienne Geographie Univeneile). Todas estas Inscripçóes 
Púnicas Inculcáo a verdade da arribada dos Carthaginezes em tempos an- 
tigos em as costas da America. 

(rt) Europ/im , jlsiam , «b- Libiam Insulas esse , quas circumcirca Oceanas 
tontiuat ; Continentem vero unwit extra hum mundum existere , lò- m/ignitti- 
dinem ipsius infinitam , &■ immensam esse narrabat <6fc. ( Lib. III. C. 10. 
p. 4C8. ) 

Este lugar pôde illusttar-se pela bella Dissertação de D. Pernerty 
publicad.i em Berlim sobre a fertilidade, forç.i , e rapidez da vegetação 
do solo Americano c long» vida de seus habitadores. 



ívn o. 



OAS S CIÊNCIAS DE L/ISiO A. lOJ 

Possidonio, Filosofo do tempo de Ciccro , estava per- 
suadido que no Oceano havia outro Continente , ou terra não 
inferior á nossa; e Estrabão , approvando este parecer, diz 
que elle com razão creo como verdadeiro o que contava 
Platão da Ilha Atlântida. 

Bastão estes testemunhos dos Gregos por não trazer- 
mos já outros de Homero na Odyssca , que apontava para 
as Ilhas Fortunatas j c de Porfyrio , e Proclo, que ambos fal- 
lárâo de huma grande Ilha ou Continente além dos mares 
de Africa , para a banda do poente: o que tudo mostra ha- 
ver entre os Gregos , e outros pbvoíj antigbs , noticiàS-tradi- 
cionacs da existência ç descobrimento de ttrras Occideiuaes 
e remotas, que não podiaO deixar de ser do vastíssimo Con- 
tinente da America. > j>é.,ii /.;> lOw!- 

Se dos Fenícios e Gregos se desce aos Romanos, acha- Tradição 
se Séneca nis Suasórias ^ aonde Avíto attestava , que corria a^i^ísRonia- 

. . ^ . • • j .' ' .nos. 

opinião commum da existência de outras praias c terras de 
outro Orbe alem do Oceano (a) ; a que parece que elle 
tnmbein alludia no bem sabido passo da sua Tragedia Medéa^ 
cm que apontou para outras novas terras Occidentaes, e pre- 
disse o que veio a acontecer nos fins do Século XV, certo 
que guiado pelo farol das tradições. 

Venient ànrtis sacula seris , 
Oiiíbus Oceanus vincula rerum 
Lnxvt , & itigetis pateat telltts , 
Thethys que novos delegai orbes ; 
Nec sit terris ultima Thule 

ou pelo dizer em Portuguez 

Inda tempo virá nos tardos annos , 
Fm que abrirá seus seios o Oceano, 
Em que huma vasta região se amostre , 

O ii E 

(íj) Fertiles in Oceano jacere terras y tiltraqne Oceanum rtusus alia lit- 
tora , alium nasci orban. Suas. i. 



io8 Memorias ua Academia Real 

E novos mundos nos descubra Tethis j 
Nem já ultima terra seja Thule. 

Para aqui pôde vir o passo de Manilio , contemporâneo 
de Augusto , no Liv. I. do Jstronomico S'- 437 e seguintes. 

Altera pars orbu sub aqtiis jacet . . . 
Iguorata que hominum gentes , nec . , • 
Comniune ex uuo lutnen ducentia sole, 

•i„. ..Arnobio no Liv. I. Contra Gentes , c Tertulliano de Pai' 
lio no Cap. II. , e igualmente no apologético reconhecerão 
huma grande Região ou Continente , aldm dos mares oppos- 
tos á Africa , da parte do Poente ; e Ammiano Marcellino mos- 
trou ao dedo a America quando disse: "No Mar Atlan- 
„ tico ha hua Ilha maior que o Continente da Europa. „ {a) 

He decisivo o lugar de Lúcio Apuleio : "Muitos (diz 
„ elle) dividem a terra em duas partes : a híía chamao Ilhas , 
„ e a outra Continente ; nisto porém manifestao sua igno- 
„ rancia , pois a nossa terra cercada do Mar Atlântico , fór- 
„ ma huma só Ilha juntamente com todas as que se vem 
„ neste golfo ; além desta ha no Oceano outras varias se- 
„ melhantes. „ 

Sobre a probabilidade que resulta destes testemunhos 
he digna de se apontar aqui a authoridade do famoso Geó- 
grafo Christovão Cellario , o qual fliUando do Ní;vo Mun- 
do , e considerando alguns destes lugares , que temos com- 
pilado , não duvidou rematar com estas palavras : " Proba- 
„ bile cst altcrum orbem non plane antiquis ignotum fuisse; 
„ & omnino quidem in eum invectos^revectos que, qui far 
„ mam de eo sparserint. „ (a) 

Pôde agora accrcscentar-se que não só os Gregos e os 

Ro- 

(a) In j^tlantieo ntari Europ£0 orbe potior Insula. 
(a^ Notitia orbis antiqui , ou no fim ái sua Geogtafia no A<Uit3(nen- 
to de Novo Orbe. 



J 



DAS SciENCIAS DeLiSBOA. I0<) 

Romanos , mas também os Orientaes , isto he , os Hcbrens Tradi«?;o 
e os Árabes tiverão noticias da existência de hum novo [*" ^^ 
Mundo. 

Bastaria lembrar aqui algumas tradições, que corrião en- 
tre os Rabbinos a respeito da região de Ophir , paiz tíjo 
famoso e celebrado nas Sagradas Escripturas , aonde hiao 
desde o porto de Asiongaber, e donde vinhão as frotas de 
Salomão , com viagem de três annos , carregadas de ouro , pra- 
ta , aromas , madeiras preciosas , e animaes de espécie não 
vulgar, asseverando que este paiz tão opulento, e tão re- 
moto havia sido algum lugar ou região da America Meri- 
dional no Peru, ou no México, ou no Brazil, ou em aU 
guma outra daquellas partes , abundantes das maiòtcs prc*- 
ciosidades c riquezas naturaes , que se conhecem no Mun- 
do. A'j 

Com effeito esta opinião seguirão Cm geral Cijion, o 
douto Hebreo Hespanhol David Kimcki , Escritor do Sécu- 
lo XI. , isto he , quatrocentos annos antes dos dous fama» 
SOS descobridores Colom e Magalhães , c outros Rabbinos 
seus contemporâneos, que refere Segismundo Hadelich nas 
Memorias da Academia de Esford ; propenderão para o mes- 
mo sentimentos entre os Christãos Gebert , Gcncbrardo , Mal' 
donado, Árias Montano, Vatablo, Posrello , Ernesto , Schi- 
mid , o outros que refere Ptcsfer no Liv. Dúbio. Ccnt. lí. 
XIV. pag. 43Z , e ultimamente o Conde Carli , e o seu Tra- 
ductor e Annotador Francez. O que porém he mais de no- 
tar he , que até o mesmo Colom , sem embargo de ser mui- 
to zeloso dos seus descobrimentos , situou a região de Ophir 
na mesma America Septentrional , arrumando-a na Ilha de 
Hispaniola , de que ellc se dava por segundo descobridor. 

E quanto ao Brasil em particular, podião também lem- 
brar algumas das mesmas tradições Rabbinicas , principal- 
mente o que diz o referido Hespafihol David Kimcki , dé 
quem cita passagens o mesmo Segismundo Hadelich nas so- 
breditas Memorias da Academia de Esford. Com cff-Mto al- 
guns tiverão que o Brasil , e particularmente a Parayba , fora 

o 



lio Memorias da Academia Rkal 

o antigo Ophir, e para esta parte se inclinarão alguns dos 
Escriptorcs acima nomeados {a) . 
Tradição Pclo quc pcrtcncc aos Árabes , que forão depositários 

dra Ara-(je muitas tradiçócs , parece que clles conservarão tumbem 
esta da existência do Continente de hum novo Mundo nos 
seus Livros Orientaes ; por quanto nelles fallão de huma 
região secca e árida , isto hc Continente , situado além ou 
da outra banda do Monte Caf ^ que he entre os Mouros o 
Atlante dos Antigos ; e a esta região derão diversos nomes, 
que quadrão ao paiz' da America , como o de Gezira Khescbk , 
Ilha secca firme, o de Âlgiaib ai Makhloiikat , Maravilhas das 
Creaturas ou da Nature/.a ( segundo os próprios termos do 
Livro Tbumuratb Nàmela ou Historia de Thumurath ) e o 
de Jeiíi Dtmia , o mesitio que o Novo Mundo ; do que con- 
cluio o sábio Herbelot , que a America não fora desconhe- 
cida dos antigos Árabes (rt). 

Da tradição que cursava entre elles , acaso nasceo a 
empreza maritima mui notável de oito Árabes Lisbonenses, 
que nos tempos da dominação Sarracena em nossas terras , 
sahírão da barra de Lisboa com pensamentos de tomarem o 
alto , e de se engolfarem para os fins do Oceano Occiden- 
tal a ,que elles cliamavão Mares Tenebrosos , a fim de des- 
cobrir a aloeste novos mares e terras do Mundo ; navega- 
ção em que encontrarão duas Ilhas a que aportarão , na ul- 
tima das quaesfor-ão atalhados para poderem proseguir na 
sua empreza , do que fiilla o Geógrafo Nubiense (f) . 
■ Por 

(a) Ha quem aplique para aqui o lugar de Jsaias no Cap. 18. f. l. 
cm que filia da terra além da Ethiopia , depois da qual ha huma ter- 
ra de gente terrivel , pizada dos pés , ( ou Antípodas ) a quem os grandes 
rios roubarão muito terreno; a qual enviava de huma parte para a outra 
os seus vasos ou embarc.içóes e canoas , de huma só peça de madeira ca- 
vada , ou feitas das cascas , e cortiças das arvores ; assim o entenderão José 
da Costa, tio versado nas Escriptur.is Sagradas, como na Geografia e 
na Historia Natural das Ilhas Occidcntaes ; os doutissinios varões I^r. Luiz 
de Leão , Thomas Rosio , Árias Montano , e Martim dei Rio , e sin- 
gularmente o nosso Vieira na sua engenhosa e caprichosa Historia do 
Futuro. 

(í) Veja-se a Biblinthecã Orktttnl p. 58^. 

(ç) Este Geógrafo traz o Périplo desta viagem na Part. \. Clim, IV. 



DAS SciBNCiAS DE Lisboa. iri 

Por ventura de antigos navegadores seria aquelle anti- 
go monumento lapidar que se achou na Ilha do Corvo , 
huma das dos Açores , descobertas por Gonçalo Vello , Com- 
mendador de Almorol : por quanto não nos acanhamos ãc 
trazer aqui á lembrança aquella notável antigualha , que a 
muitos parece fabula , da estatua de pedra de hum homem 
vestido com capa , descoberto da cabeça , e montado em 
hum cavallo em osso , que se achou formada de huma la- 
ge , e sobreposta no cume de huma altíssima rocha que cahe 
sobre o mar, e se avista de muito longe; a qual tem a mão 
esquerda na clina , e o braço direito estendido , encolhidos 
os dedos , excepto o indice , apontando com elle para o poen- 
te , ou mais directamente para o noroeste. Tem letras cor- 
tadas na penha inferior , que se não entenderão ; mas da par- 
te para onde apontava , se discursou então , que por aquel- 
la maneira se qui/ annunciar que para alli havia terra habi- 
tada ou habitável ; contando-se que por esta estatua vierao 
os mareantes a chamar-lhe a Ilha do Marco , porque em ra- 
zão daquelle marco alto dalli se demarcava em demanda 
das mais Ilhas (a) . 



cjue já tirou de huma obra do Príncipe Alchariz Aldrisi. Delia fez de- 
pois memoria o outro Árabe Zen Edain Omar na obra intitulada Ketat 
JCaridat el Adgiarh ou Livro da Pérola das Maravilhas ; Hornio de Ori- 
gene Gentium Americanartim. Mr. de Guin^nes na Noticia e Extracto dos 
Códigos Árabes da Real Bibliotlieca de França : o nosso Luiz Marinho 
de Azevedo no Livro das Antiguidades de Lisboa. 

Ça) Disto falláráo Damião de Góes , o Doutor Gaspar Fructuoso no 
Liv. VL Cap. 48, Faria m A si/J Portngiieza Tom. L F. I- C. H. p. 17, 
e o Padre António Cordeiro na Historia Insulana Liv. IX. Cap. VL 
pag. 4B9 e 490. 

Sendo as letras da Inscripçáo desconhecidas , pòje suspeitar>se cjue 
serio Árabes , Fenícias , ou Púnicas , assim coroo se reputarão as que se 
acharão abertas na TOcha de Digthon , na Ameiica Sepcencrional , àt que 
falíamos acima pag. 106. 



aiaj O * 



112 Memouias da Academia Real 

Artigo II. 

Da suspeita que se poderia ter da existência da America por 
ideas filosóficas. 

k3Eguc-se a segunda parte deste Discurso , isto he , o co- 
nhecimento , ou antes suspeita da existência de hum novo 
Orbe. 
1.' Conje- Primeiramente para se conjecturar que podia haver hum 

^id"do^(]u! novo Continente no largo Oceano Occidental , podia bem oc- 
xoerertuxo corrcr a marinheiros entendidos c filósofos o que tinha occor- 
oí mares, j.jj^j ^^ discreto e subtil Raymundo LuUio nos fins do Sé- 
culo XIII : discorrendo aqucllc illustre Filosofo da sua ida- 
de sobre as causas do fluxo c refluxo do grande mar , consi- 
derou que observada a convexidade delle , e o seu medido 
fluxo e refluxo , devia haver necessariamente para as partes 
do Occaso grandes valles oppostos , que contivessem a agoa 
tão vasta e movediça , e fossem como portaes de seu ar- 
co : e inferio dahi que na parte que nos he occidental , 
havia de existir hum Continente , em que topasse a agoa 
movida , assim como topava em a nossa parte respectiva- 
mente oriental; persuadindo-se que o alterado movimento 
do fluxo e refluxo necessitava do concurso da terra , e dos 
seus dois extremos , em que se contivesse o volume das 
agoas sobre si , e satisfizesse a este movimento (rt) . 

Esta idéa talvez foi a que excitou a Colom ; porque a 
razão que elle dava de navegar em direitura para o poen- 
te era, que o balanço do Orbe terráqueo necessitava de hum 
Continente no Occaso, opposto a nós outros, o que era o 
mesmo discurso de Lullio ; e como este deixou muitos li- 
vros seus em Génova , já pôde ser que Christova© Colom 
Genovez , e Estevão Colom seu irmão tivessem occasião de 
saber e aproveitar os seus discursos. 

Po- 

(a) Vem isto na sua obta Guotlibetica Qttdistiones per Artcm Demon- 
strativnm soltihiles em 1287, e tem 2c6 Questões ; e na 154. trata do 
fluxo e refluxo do mar. 



dasSctenciasdeLisboa. 113 

Podia tarnbcm occorrer a outros, para conjecturar a cxis- 2." Conje- 
tencia das terras da America , a mesma reflexão , que parece ^^""^ "^^ 
que também occorreo depois ao mesmo Colom , deduzida theoria <u 
da theoria da csfcrccidade da terra , já então conhecida; e da ^f"^^^^ 
sua grandeza , também já determinada ; porque delia se con- 
cluia que os Continentes da Europa , da Ásia , e da Africa 
não formavão senão huma pequena porção da superficie do 
Globo terrestre; sendo de conjecturar por isso mesmo, qu.- 
os vastos espaços , que estavão até alli desconhecidos , não 
erão inteiramente cobertos das aguas de hum Oceano estéril , 
sem alguma terra habitada do homem ; e podendo-se crer 
cm consequência , que os Continentes do Mundo conhecido , 
postos sobre hum dos lados ou partes do Globo , deviãp 
estar contrabalançados para equilibrio , por huma quantidade 
mais ou menos igual de terras no Hemisfério opposto. 

Além destas reflexões havia outras , que poderiao vir á 5 a Co^jj. 
cabeça de marinheiros expertos , qual era a porfia e fre~ ctura de- 

• 1 '^ . ^ /. '■ ^, duzida da 

quencia dos ventos geraes , e quasi sempre nxos , que cosru- frequência 
mão cursar do poente ou de Leste a Oeste entre os Tro-dos vemos 
picos, para daqui conjecturarem que havia terras occidentaes^^jl^ç^g^^ 
remotas , donde elles vinhão , pois isto era o que elles in- de Leste a 
dicavâo ; e isto também parece que muito demoveo aCo-^"'^" 
lom para a sua expedição. 

Havia ainda outras causas e sinaes , que podião incul- ^a Conje- 
car a verosimilidade de terras para aquellas partes, quaesctma de- 
erão entre outros os bandos de aves, que costunião íi^'2n- ^'í^ j^°' 
çar sobre os mares , e voltejar em roda dos navios , e diri- ves , fran- 
gir seus voos para o Oeste : além disto fragmentos de páv>s •"«"'<>' ^^ 
e de madeiras, plantas, e corpos humanos que appareciao .(eiras, plã- 
boiando sobre as ondas, e annunciavão rambem que havia''"' ^"^^ 

' ,, . . , , 1. . , pos mortos, 

terras próximas para aquelles sítios ; hum destes 101 o pao que vinhSo 
esculpido fluctuante sobre as agoas , que achou hum Piloto «''^«"^ 
Portuguez , que se havia empegado , mais do que era cos- 
tume naqucllcs tempos , para os mares de Oeste ; o qual 
vinha trazido pelo vento da mesma parte , e lhe fez crer 
que vinha de alguma terra incógnita , situada perto daquel- 
Tom. V. P le 



XI4 Memobias da Academia Real 

le mesmo ponto ; c o outro madeiro tambcm talhado de es- 
culprura , que achou o Piloto cunhado de Christovão Co* 
lom , trazido pelo mesmo vento de Oeste {a) , e também 
roseiras bravas de huma grossura enorme, similhantcs áquel- 
las que Ptolomeo descrcvco como huma producção parti- 
cular das índias Orieiítaes : e arvores desarrcigadas que se 
encontravão sobre as costas dos Açores : plantas ou hcrvas 
marinhas muito espessas , de que vião os maics coalhados era 
muitas paragens , a que os marinheiros cosruraavâo chamar 
Çargaço, que erSo indicações da visinhança de terras para 
aqucUes siiios. Finalmente corpos mortos de homens que al- 
gumas vezes se achavâo , e de feições diversas dos habitan- 
tes da Europa , da Ásia , e Africa , que os mares traziâo 
da mesma parte , quando o vento Oeste continuava por mai- 
to tempo. 

Por tudo isto se vê que não faltavâo principies e mo- 
tivos filosóficos , que podião ter indicado a existência das 
terras de hum novo Continente occidental , que he a se^ 
gunda parte deste nosso discurso. 
Condusáa Quando cada huma das cousas , que temos até aqui 

apontado , de per si só não sejão suficientes para apurar 
nosso propósito , com tudo ellas todas juntas mutuamente 
se ajudão , e formão por sua combinação harmónica huma 
prova geral de probabilidade de que , desde tempos mui re - 
motos, cursava entre os antigos huma noticii e tradição so- 
bre a existência de hum novo Orbe, fora do que então se 
conhecia , e além da Ethiopia ou Africa , e nos fins do 
Oceano Tenebroso ou Occidental ; e que lhe precedera al- 
guma navegação para aquellas partes , que dêo lugar ao co- 
nhecimento de terras daquelle vasto Continente. 



DA 



(<j) Robettson , Historia da Amtrica Tom. I. Lib. I. pag, 131 e 171. 






>ÂS SciENCIAS DE L I S B O A. 11^ 



DA POSSIBILIDADE E VEROSIMILHANÇA 

Da Demarcação do Estreito de Magalhães no Mappa do 1»' 

fante D. Pedro. 



Por António Ribeiro dos Santos. 



H. 



.Avendo tratado em huma Memoria particular da pos* 
sibilidade e verosimilhança da demarcação do Cabo da Boa 
Esperança , nos dois Mappas do Cartório de Alcobaça {a) , 
e do Infante D. Pedro , Duque de Coimbra , passamos ago- 
ra a fallar da possibilidade e verosimilhança da outra de- 
marcação do Estreito de Magalhães, que só se acha no do 
Infante D. Pedro , ainda mais notável que a primeira. Prin- 
cipiamos confessando , que grande motivo he para duvidar 
da existência , ou authenticidadc deste Mappa , achar-se nel- 
le demarcado aquelle Estreito, o que pode admirar a hun«, 
e fazer vacillar a outros. 

Gomo admittir ou suppor facto de longa navegação 
para a America Meridional , como era necessário que hou- 
vesse , antes do Descobrimento de Fernando de Magalhães , 
para dclle poder resultar a singular demarcação daquelle 
Estreito , para assim se sinalar no Mappa do nosso Infante ? 
Seja-nos dada a liberdade de discursar hum pouco sobre es- 
te assumpto , e de resolver , se nos for possivel , as diffi- 
culdades. Não pertendemos defraudar com isto a gloria de 
Magalhães, que será sempre grande e magestosa aos olhos 
do Universo , de qualquer modo que se considere a sua na- 
vegação : mas não o ofiFcndemos , se em matéria ( qu2 tem 
sido , e he ainda hoje controvertida de alguns Sábios ) da 

P ii ori- 

(ijj Memorias de Litieraiura Portugueza da Açotlemta K. das Scientias 
Tom. 8. pjg. 275. 



ii6 AIkmorias DA Academia Real 

originalidade deste descobrimento tomamos por outro cami- 
nho mui diverso do que até aqui se ten\ seguido. 

CAPITULO I. 

Da possibilidade da navegação para as partes da Jlmerica , an- 
tes dos descobridores Colom e Magalhães. 

kJEndo o Estreito denominado de Magalhães tão remoto 
do nosso Continente , e dclle separado por tão longos ma- 
res , he claro que a sua demarcação no Mappa do Infante 
D. Pedro, que A^eio a Portugal em 1438, não podia dei- 
xar de ser resultado do Facto de alguma viagem , que lhe 
tivesse precedido para aquellas partes do novo Mundo, i Era 
esta navegação possivel naquelles tempos ? ^ Houve algum 
facto de descobrimento de terras da America , que faça ve- 
rosimil aquella descoberta antes de Colom e Magalhães? 

São estas as duas cousas que se devem aqui notar. Come- 
çando pela primeira , dizemos que esta navegação era pos- 
sivel naquelles tempos , porque podia ter sido feita i.° ca- 
sualmente: 2." ainda deliberadamente e de propósito. 
Naves;a<,ão Primeiramente podia ser casual , acontecendo que , sahin- 

cisuaL ^Q algum navio hum pouco da esteira ordinária de navegar 
. 6en'ilmente pela Costa , entrasse muito pelo Oceano Oc- 
cidental j ou fosse porque demasiadamente nelle se engol- 
fasse correndo a alueste mais do que quizera , ou tosse por 
esgarrar por tempestade de ventos que lhe desse, e o ar- 
remeçasse para aquellas partes. ;Não tem acontecido simi- 
Ihantes desvios a muitos mareantes ? j Não tem sido por es- 
te modo que muitas terras d' antes incógnitas, se tem acha- 
do em hum e outro Hemisfério ? 

Não foi casualidade , quando o nosso insigne Capitão 
Pedro Alvares Cabral , fazendo a sua rota para a Índia , e 
amarando-sc muito ao largo do Cabo da Boa Esperança , 
arrebatado da força dos ventos que lhe saltarão, veio a des- 

ca- 



ST^TM OT 



DAS SciHNCiASDH Lisboa, 117 

cahir tanto para o Oceano Austral , que clicgou a ter vista 
de huma terra do novo Mundo , descobrindo a do Brasil ? 
Com effeito não falta quem conte algumas outras viagens 
casuacs para ab partes da America , antes de Colom , e de 
Magalhães (a) . 

Em segundo lugar esta navegação podia ser feita deli Nave<;arão 
bcradamentc e de propósito para algum descobrimento. oeiíDcraaa. 

Supposco quanto os homens são aventureiros , e de scii 
natural cubiçosos de novas cousas , podiao bem Pilotos e ma- 
rinheiros affoitos e atrevidos , largar mão da Costa , e aba- 
Jançar-se pela extensão do Oceano para os últimos fins do 
Occidcnrc; c isto ainda mesmo desprovidos do soccorro dos 
instrumentos próprios para a navegação do alro , (bem que 
expost-i a maiores difficuldades e riscos , que seria preciso 
sobrcmontar) : quanto mais sendo certo que já antes do Mip- 
pa do Infante havia o conhecimento e uso da Agulha náu- 
tica (h) . 

Dizemos que podia cometter-se esta empreza maríti- 
ma , ainda sem o auxilio da Agulha, na persuasão de que nos 
fyis do Mar Occidental se acharia hum Continente ; per- 
suasão que assentaria ou sobre noticias e tradições dos An- 
tigos, a quem não foi inteiramente desconhecido ( como en- 
tendemos) o Continente do novo Mundo ; ou sobre racioci- 
nios e discursos filosóficos , que podessem excitar idéas da 
existência daquellas terras iç) . 



CA- 



(<í) Sobre as navegações casuaes para a America póJe vci-se Joio Fi- 
lippc Cassei , Professor de Brema , na Dissertação de Friicmum naviga- 
íione jortNÍta in Amtrictim , Sxculo XI facta. Míigdcbtiri^i 1741 , e na ou- 
tr» Dt Navigationtbui jontiitts in Amtricam ante Colunúium factis. Magdt- 
burgi. f^i. 

(h) Vcja-se isto provado na Memoria a pag. 77 deste mesmo volume. 

(f) Veja-se ?. Alemoria precedente a pag. loi. 



é\TS. 01 

■ , — - ^> 



ii8 Memorias da academia Real 



CAPITULO II. 

Da verosimilhança de alguma navegação para as partes da 
America 'avtes de Colom e Magalhães, 



D. 



'Epois de ter fallado da possibilidade da navegação pe- 
lo alto mar , nos tempos da demarcação do Estreito de Ma- 
galhães na Carta Geográfica do Infante D. Pedro ; tem lu- 
gar a illustração do outro ponto da sua verosimilhança , pe- 
la consideração de alguns factos e documentos , que se re- 
ferem , os quacs provão terem precedido navegações para 
aquelle Continente , antes dos dois famosos Argonautas. 
Do desço- E começando pela America Septentrional , que foi a 

aMa^^ttiP''''"^'''^ a que chegarão Colónias Europeas , sabido he , que 
rasdaAme-já na meia idade houvera navegação para as Costas Boreaes 
ricaSepten-(^aqugllg novo Continente, que descobrirão e conhecerão a 

trienal ates „ • j. a • n i «- • t-.t- i • 

das expedi- ^itocnlandia : ve-se isto no Breve de Gregório IV , eleito 
j;óesdeCo- Pap^ em 817 , dirigido a Santo Anscario, Arcebispo de Hani- 
burgo , e a seus successores , Legados Apostólicos para as 
nações circumvizinhas , e para as Septentrionaes e Orien- 
taes ; por quanto entre ellas se noniea Gronlandon , que he 
claramente a Groenlândia , extremidade septentrional da Ame- 
rica. (Vej. Pedro Lambecio. Or/ç/;;. Hamburg. 1706, pag. 

E na verdade a Nação Groenlandica foi quanto pare- 
ce a primeira da America Septentrional que os Europeos co- 
nhecerão. A Marinha dos antigos Scandinavos , formidável a 
muitas Nações , excitou o espirito das aquisições marítimas 
de novas terras, em que fundassem Colónias: em 874 fi- 
zerão huma expedição á Ilha de Islândia, donde ficava fácil 
passarem a terras da America Septentrional. Com efFcito acon- 
tecco que Torwal Senhor Norwegiano , e seu filho Eric , 
havendo commettido hum crime , embarcassem para aquella 
Ilha em 982, e dalli tentassem descobrimentos, e fossem 

dar 



DAS SciENCiAS DF. Lisboa. ir^ 

dar com huma região da America , a que chamarão Gron- 
land ou Groenlândia, isto he terra verde, em que já encon» 
tráráo habitadores, e nella fizerao huma Colónia , principal- 
mente no paiz Occidental aonde estão hoje Colónias Dina- 
marquezas (a). Em 983 descobrio Leif filho de Eric, na 
mesma America Septentrional , hum paiz a que deo nome 
Dinamarqucz de Viinhand , pelas vinhas silvestres de que 
^ abundava. Oláo Trigucson , Rei de Norwegia , ouvindo-lhe 
contar algumas cousas destas terras , quando elle voltou á 
sua pátria , enviou Colonos a Groenland , que fundarão a 
Cidade de Guarde , que depois se chamou Alba ; e desde 
então ficou Groenland tributaria á Norwegia até 1348. 

Também se referem as viagens de Herjollo , e de Bioin) 
cmprehendidas no Século XI, com as quaes pertende Forstcro 
mostrar que Colom não foi o primeiro descobridor do no- 
vo Mundo (Z») . 

Consta também , que morto Owen Guyneth , Princip* 
de Walles , havendo discórdia e guerra civil entre seus fi- 
lhos sobre a succcssão , Madoc hum delles , deixando a Hy- 
bernia , navegou a buscar no Occidente novas terras j e que 
descobrindo algumas da America Septentrional , voltara e 
levara muitos comsigo , e fizera alli Colónias na Florida , 
e no Canadá , ou como outros dizem na Virgínia ou no- 
va Anglia ; o que confirmão as tradições da Virgínia , e de 
Guahutemalia {c) . 

Com 



(/j) Podem ver-se Torpheo nas Amif^uidadts hlandicAs , impressas em 
170; ; t Jonas Argorim IsUndez na Obra De Rebus Islaudkis Lib. III. 
impressas em Hamburgo em lyp?; historiadores de huma fé conhecida, 
que nio fazem mais que seguir as antigas e mais authenticas Chionicas 
Islandezas. 

(J)) Veja-se Mr. Mallet na sua Introdtic^io d HiitorÍ3 de Dinamarca ^ 
que cita a Chronica de Oláo , Rei da Noruega , composta por Snoro 
^cuoladines , Ou Stuolusones. Stokolmo 1657 ; altm das duas Dissertações 
de ]oáo Filippe Cassei já citadas. 

(f) Sobre isto podem ver-se Martyr Dec. VII. C. III. e Dec. VIU. 
C. V.; David Powel na Historia deCambria ao anno 1170; Homio das 
Origens Americanas Liv. III. C. II. pae. i^ç e 136; Hetberc no Af pen- 
ais ou Itinerário na Collecçáo de Hackluit». 



lao Memorias oa Academia Real 

Com o descobrimento destas terras da America Septen- 
trional devemos ajuntar também o de alguma das Ilhas An- 
tiliias ou Antilhas , que pertencem áquella parte do (>,nri- 
nente : sirva para isso o documento do Mappa ou Planis- 
ferio, ainda existente, de Anc-ré Biancho de 1436, de que 
já falíamos na Memoria sobre a demarcação do Cabo da Boa 
Esperança no Mappa de Alcobaça. Vio este Mappa Mr. il'An.':e 
Villoison , Membro da Academia Real das Inscripçóes e Bei- 
jas Letras. 

« O Ms. Italiano (diz elle) num. LXXVI da Biblio- 
» theca de S. Marcos de Veneza contem huma Carta ma- 
» ritima , desenhada com muita exacçao , composta de 10 
j» folhas. Nesta Carta acha-se huma das Antilhas , dcmar- 
» cada pela mesma mão , e vê-se escripto com o mesmo 
>» caracter s; isola Antillia tz o que he tanto mais notável 
» quanto vemos , que o descobrimento das Antilhas se at- 
» tribue a Christovão Colom em 1492. Espantado desta 
j> singularidade, fiz copiar muito exactamente á minha vista 
j> esta preciosa Carta, e a enviei em 1781 a Mr. o Conde 
» de Vergennes , que a apresentou ao Rei : hum dos meus 
j» amigos , a quem eu enviei esta noticia á Alemanha , a 
3> fez imprimir na Gazeta de Gotha pag. 39 do anno de 
>» 1732. (a) » Não devera isto espantar tanto a Willoison , 
se soubera que o Historiador Gonçalo Fernandes de Oviedo 
já dava as Ilhas Antilhas , e a nova He;;panha descubcrtas 
pelo anno de 590. Ora bem se sabe, que as Antilhas, as- 
sim chamadas por estarem antes das Ilhas maiores do Gol- 
fo Mexicano , são partes da America , que ficão ante o seu 
Continente Septentrional. O douto traductor e annotador 
das Cartas Americanas do Conde Carli reconhecia , que as 
Antilhas vinhao sinaladas no mesmo Mappa ou Planisfcrio 
de Veneza, longo tempo antes de Colom (pag. 22.) 

A' noticia deste Mappa pôde ajuntar-se a da Carta Ma- 

ri- 



(1) Carta XLIX. no cora. II. das Cartas Americanas do Conde C<ir- 
li pag. 51P 520. 



DAS SciENCIAS DE L 1 S B O A. Ill 

ritiina , que consta que Paulo dal Pozzo Toscanclli , celebre 
Astrónomo , mandou ao mesmo Colom com data de 25' de 
Julho de 1474, na qual se diz que também se achava de- 
lineada huma Ilha com o idêntico titulo de Isola Antilia; e 
que o mesmo se achava em outra Carta , que havia antes 
enviado ao nosso Fernão Martins , Cónego da Sé de Lisboa , 
e pessoa da estimação do Seniior Rei D. AfFonso V. (a) . 

Náo deixaremos de lembrar , depois destas Cartas cu 
Mappas , o famoso Planisferio de Maitim Bchaim , ou co- 
mo nós lhe chamamos, de Bohcmia , feito em 1491, que 
ainda se conserva na Cidade de Nuromberg , como refere 
Qiristovâo Gothiet de Murr na Historia Diplomática de Mar- 
tim Bchaim , que traduzio do Alemão em Castelhano D. 
Christovão Cladera , com o titulo de Investigaciones Históri- 
cas ^ Madrid 1798 : neste Globo também se achava demar- 
cada aquclla Ilha , de que o mesmo Murr náo tirou , pelo 
dizer de passagem , o partido que convinha , como lhe no- 
ta o Traductor e Annotador das Cartas Americanas do Con- 
de Carli {b) . 

Tom. V. Ct He 



(rt) E!ste Toscanelli foi o mesmo que construio em 1468 o f.imoso 
Gnomon da Cathedral de Florença , que he o mais antigo , e mais ele- 
vado que se conhece na Europa ; o qual esteve desconhecido por três 
Séculos , ate que o celebre Ximenes , Mathemacico do Gr5.o Duque de 
Toscana , o poz em uso , e nelle fez varias observações do SoUiicio , 
e muitas outras. 

Domingos Alberto Azuni assevera que Toscanelli escrevera duas car- 
tas \ Christovão Colom, em data de 25 de julho de 1474, em que fa- 
zia huma dcscripçáo exacta da viagem que Colom projectava fazer nos 
niares de Guine e do Occidente ; descripçáo que muito contribuio pnra 
ejte emprehender depois o descobrimento da America. (D/sserí. í«r VOú- 
gina dí la Bomsole. Art. IV. pag. 124.') 

(è) Na Prefação ao Tom. I. pag. XXIII. Martim de Bohemia foi na- 
tural de huma antiga familia nobre de Alemanha , e tirava sua origem 
de Bohemia , de que ainda adiante fallaremos , foi Astrónomo , e Cos- 
mógrafo ; delle se conta que Isabel , Regenta de Borgonha , mulher de 
Filippe II. por sobrenome o Piedoso, lhe ministrara em 1460 huma em- 
bjrc.TÇáo para descobrimento de novas terras ; depois veio ao serviço de 
Portugal , em que exercitou o seu préstimo. Elle fez com que ElRei 
mandasse navios, ainda antes da expedição de Colom , para des obrimen- 
to das Antilhas , os quacs com tudo se retirarão sem alcançar fructo at- 



12} Memorias da Academia Real 

He verdade que se não achava naquellas Cartas de 
Biancho e de Toscanelli , c no Globo de Behaim mais do 
que huma só Ilha Antilia , mas também he certo que hu- 
ma só basta , sendo do numero das Antilhas para se mos- 
trar, que já antes de Colom houvera descobrimento de hu- 
ma terra ou Ilha Americana. 

O que porém nos pódc desenganar decisivamente que 
esta Ilha era realmente huma das Antilhas e não outra , he 
a mui diversa e remota demarcação que lhe achou o Con- 
de Carli , na mesma Carta Geográfica de 1436 de André 
Biancho que acima referimos ^ da qual elle attesta que ha- 
veria trinta annos que a vira nas mãos de Foscarini , c que 
alli se achava sinalada huma Ilha , que he a mesma que 
nella se diz Antilia , a qual estava na mesma posição que 
a de S. Domingos ; e esta Ilha he justamente huma das 
grandes Antilhas , concordando assim a identidade da posi- 
ção de huma e de outra , para provar a identidade de ambas 
ellas. 



CAPITULO III. 

Da verosmilbança do descobrimento de algumas terras da 

America Meridional , antes da expedição de Colom e 

Magalhães. 

kJE alguma parte da America Septentrional era já desco- 
berta desde tempos anteriores a Colom, ^porque se have- 
rá 



gum daquella viagem : referem este facto Herrera no Cap. VII. da i.' 
Década, e também Cordeiro na Hist. Insulana Liv. 9. Cap. <^. §. 41. 

He porem certo que voltando de Portugal á sua pátria para ver os 
seus parentes, alli fez hum globo de io pollegadas de diâmetro, no qual 
desenhou toda a terra conhecida segundo o systema de Ptolomeo , a)un- 
tando-lhe novas descobertas : a sua familia conserva ainda preciosamente 
este Globo , o qual Dopelmayer reduzio a hum Mappa Mundi , que vem 
copiado no fim do seu Livro: nelle se achava demarcada huma das Ao* 
tilhas. 




lom. 



11 AS SciENClAS DE LiSBOA. I2J 

rá por inverosímil que rambcm o fosse antes dellc alguma 
parte da America Meridional ? 

Com clFoito noticia havia entre os nossos e os estra- Do dcsco- 
nhos de que regiões desta parte do Novo Mundo erao jáji'""^';'"^^^^ 
conhecidas , antes das expedições do navegador Gcnovcz. So-rasdaAme- 
bre esta noticia não duvidou Mariz escrever o seguinte : "■,'" , '*'"'" 

j» E. bem dl/em os que ainrmao que os marmheiros , das expedi- 
j» que a Christovão Golom descobrirão a navegação do Mun-<^"^' deCo- 
j> do Novo erão Portuguc/es , que podião mui bem ser dos 
» muitos que o Infante D. Henrique mandou a este des- 
j» cobrimento, alguns dos quaes não tornarão ao Reino : as- 
>> sim que nem os que querem dar invenção do descobri- 
» mento do Mundo Novo a Christovão Colom, nem os que 
» dizem que erão nãos Biscainhas são dignos de credito. »» 
E entre outras cousas remata por fim com huma reflexão , 
que não deixa de merecer contemplação: «E se Christo- 
» vão Colom ( diz elle ) antes que fosse ao seu descobri- 
» mento, promettia nelle grande somma de ouro c prata, 
» e assim succcdeo ; claramente se pôde Inferir que de al- 
» guma outra pessoa foi elle certificado desta verdade, que 
3» a tivesse já visto com seus olhos ; c que o Genovez pe- 
j» rito na Geografia e Astronomia , e grande marinheiro en- 
>í traVa por isso em pensamentos altivos de cometter e des- 
» cobrir aquelle novo Continente. » 

Deveremos occupar aqui a critica de Robertson , que 
tem por pouco digno de credito o lugar de Mariz , e isto 
em razão do silencio dos dois Historiadores antigos Hespa- 
nhoes , André Bernaldes , e Herrera , e do Italiano Pedro Már- 
tir, que publicou a primeira Historia Geral que houve do 
Novo Mundo ; sobre o que diremos que Bernaldes era ami- 
go de Colom , como reconhece o mesmo Historiador In- 
gleZjTom. I. Not. XXI, e podia sobreestar, ou não dizer 
cousa que podcsse diminuir alguma parte da originalidade 
e gloria de seu descobrimento : demais não só a elle mas 
aos outros dous podia ser ignorada esta noticia ; he com tu- 
do certo que ella correo entre os nossos , e os Hespanhoes , 

Q,ii CO- 



124 Memokias da Academia Real 
como o refere hum dos mais clássicos Historiadores da Ame- 
rica , Trancisco Lopes de Gomara , Author mais antigo que 
Mariz ; diz elle assim na sua Historia de las índias e Con- 
quistas do México , impressa cm i y ç 2 . 

» Navegando una caravella por nuestro mar Oceano , 
tuvo tan forçoso viento de levante , y tan continuo , que 
fue a parar en ticrra no sabida , ni pucsta en el Mapa , 
ó Carta de marear. Bolviò de allá en muchos mas dias 
que fuc , y quando a cá llcgò no traya mas de ai piloto, 
y a outros três o quatro marineros , que como vcnian 
enfermos de hambre , y de trabajo , se murieron dentro 
de poço tiempo en el puerto. He aqui como se dcscu- 
brieron las índias, por desdicha de quicn primero las 
viò , pues acabo la vida sin gozar delias , y sin dexar , a 
lo menos sin aver memoria de como se Ilamava , ni de 
donde era , ni que ano las hallò. Bien que no fue culpa 
suya , sino malicia de otros , o invidia de la que llaman 
fortuna. Y no me maravillo de las historias antiguas , que 
cuenten hechos grandissimos , por chicos o escuros prin- 
cipies , pues no sabemos quien de poço a cá halló las ín- 
dias , que tan scnalada y nueva cousa es ; quedaranos , si 
quiera , el nombre de aquel piloto , pues todo lo ai con 
la muerte fenece. Unos hazen Andaluz a este piloto , 
que tratava en Canária , y en la Madera , quando le acon- 
tecio aquella larga , y mortal navegaciou. Otros , Vyz- 
caino , que contratava en Inglaterra , y Trancia. Y otros 
Português , que yva , o vénia de la Mina o índia : lo 
qual quadra mucho con el nombre que tomaron y tienen 
aquellas nuevas tierras. Tanbien ay quien diga que apor- 
to la caravella a Portugal; y quien diga que a la Ma- 
dera, o a otra de las Islãs de los Açores. Empero ningu- 
no afirma nada. Solamente concuerdan todos en que falle- 
cio aquel piloto en casa de Christoval Cólon. En cuyo 
poder quedaron las escrituras de la caravella , y Ia reía- 
cion de todo aquel lungo vi.igc , con la marca , y altu- 
ra de las tierras nuevamente vistas, y bailadas. »» 

No 



£ia« U( 



DAS SciENCIAS DE L I S B O A. I ly 

No ritulo semiintc , que tem por summario Qttien era 
Christoval Colom , continua o mesmo Author a dizer desta 
maneira. 

» Este Christoval Cólon començó de pequeno a ser 
>» marinero, oficio que usan mucho los da Ribcra de Ge- 
» nova. Y assi anduvo muchos annos en Suria , e en ou- 
» trás partes de Levante. Dcspucs fue maestro de hazer Car- 
j' tas de navegar , por do le nacio cl bien ; vino a Porto- 
» gal por tomar razon de la Costa Meridional de Africa, 
»> y de lo que mas los Portogueses navegavan , para mcjor ha- 
>> zer y vender sus Cartas. Caso-se en aquel reyno , o como 
» djzen muchos , en la Islã de la Madcra. Donde picnso 
j> que residia , a Li sazõ que llegò alli la caravella suso di- 
>» cha. Hospedo ai patron delia en su casa. El qual le dixo 
>» el viagc que le avia sucedido , y las nuevas tierras que 
» avia visto , para que se Ias ascntasse cn una Carta de 
» marear , que le comprava. Fallecio el piloto en este ca- 
" médio. Y dcxole la relacion , traça , y altura de la nue- 
>» vas tierras. Y assi tuvo Christoval Cólon noticia de las 
>» índias. Quieren ranbien otros , porque todo lo digamos , 
" que Christoval Cólon fuesse buen Latino , y Cosmogra- 
»> í'o. Y que se movio a buscar la ticrra de los Antipodas , 
» y la rica Cipango de Marco Polo , por avcr Icydo a Pla- 
" ton en el Timco y cn el Cricias , donde habla de la gran 
>' Islã Atlante, y de una tierra cncubierta , maior que Ásia , 
'» e Africa; y a Aristóteles, o Theofrasto en el libro de 
'» muravillas , que dize , como ciertos mercadores Carthagi- 
'» neses , navegando dei estrecho de Gibraltar hazia ponien- 
j> te y médio dia , hallaron , ai cabo de muchos dias , una 
'» grande Islã despoblada , empero proveyda , y con rios 
»> navegables. Y que leyó algunos de los authores , atras 
" por mi acotados. No era doto Christoval Cólon, mas era 
" bien entendido. E como tuvo noticia de aquellas nuevys 
»' tierras por relacion dcl piloto muerto , informose de om- 
í> bres leydos sobre lo que dizian los antiguos a cerca de 

>• otras 



ii6 Memorias da Academia Real 
otras tierras, y mundos. Con quien mas comunico esto 
fue un Fray Juan Peres de Marchena , que morava en el 
monastcrio de la Rábida. E assi crció por muy cieito lo 
que Ic dexó dicho y escrito aquel piloto, que murió cn 
su casa. Pareceme que si Cólon alcançara por sciencia 
donde las índias estavan , que mucho antes, y sin venir 
a Espana tratara con Genoveses , que corren todo el Mun- 
do , por ganar algo de ir a dcsccbrillas. Em pêro nunca 
penso tal cosa : hasta que alho con aquel piloto Espaílol , 
que por fortuna de la mar, las halló. " (rf) 

O mesmo disserão depois 
Estevão de Garibai. 

D. João Salusano De Jure Indiartim Tom. I. Cap. V. n. 6. 
Henau nas Antig. de Cantábria. 
M. Feijó no Tom. IV Discurso 8 num. 84. 
Hornio. De Origine gentittm Americanarum. 
João de Laef. 

Cláudio Bartholomeu Marisó na Histeria Orhis Maritimi, 
Liv. II. Cap. 41 pag. 649. 

Ricioli na sua Geog. e Hidrogr. Liv. III. Periegeticus Cap. 
2Z pag. 93. 

Este ultimo e grande Mathematico, principalmente 
na Chronologia , Geografia , e Hidrografia , fallando de Co- 
lom , expressamente assegura que elle achara as terras do no- 
vo Mundo, ou por inducções e conjecturas de seu próprio 
engenho , ou por informações e noticias que lhe communi- 
cara Martim Behaim , de quem acima já falíamos, e ainda 
logo fallaremos , o qual lhe precedera nos conhecimentos de 
algumas partes do outro Hemisfério. 

>> Christophorus Columbus (diz elle) ex Palestrella 
» stirpe Placentina oriundus , & postea Liguriae incola , 
» cum prius in Madera Insula , ubi conficiendis ac delincan- 
» dis chartis Geographicis vacabat , sive suopte ingenio , ut 
>» erat vir Astronomise , Cosmographix , & Phisices gnarus , 

>» si- 

(d) Foi. 10 f. 



DAS SciENCIAS DE L I S B O A. IZJ 

>* sive indicio habito à Martino Bohemo , aut ut Hispani 
»» diciitant ab Alphonso Sanchez de Helva nauclero , qui 
>» forte inciderat iii insulam , postea Dominicam dictam , co- 
>» gitassct de Navigationc in Indiam Occidenralcin & id pro- 
» posuissct Joanni II. Regi Lusitano. » (a) 

Não podemos deixar de accresccntar aqui , quanto aos 
nossos , que entre elles foi constante o que disse Mariz no lu- 
gar já citado, que as experiências e observações dos navega- 
dores Portuguezcs servirão também de muito ao Genovez ; el- 
Ic era discipulo da doutrina Portugueza, como justamente o 
intitula Francisco de Brito Freire na Guerra Brasílica Liv. I. n. 
iz, e teve muitos dos nossos de que se podesse aproveitar, 
principalmente de Bartholomcu Perestrello , seu amigo e pa- 
rente , da mesma ascendência dos Pcrestrellos da Lombardia, 
hum dos mais acreditados varões da Escola do Infante D. 
Henrique , c dos illustres Capitães e descobridores em suas 
primeiras expedições: delie dizem que muito se ajudara Co- 
lom , e que viera a ser possuidor de suas Cartas e itenera- 
rios , em que achara notas e demarcações , que muito lhe ser- 
virão para o feliz successo de suas emprezas maritimas. 

De tudo isto se pódc coUigir que Colom não foi em 
sua navegação ao mero acaso , nem somente guiado por 
principios da sua grande theoria ; mas muito particularmen- 
te por informações e noticias de pessoas , que tinhao antes 
delle avistado e reconhecido alguma parte daquelle vastis- 
simo Continente ; por quanto se vê bem pela Historia de 
sua viagem, que sahindo da Gomeira , huma das Canárias , 
tomou a derrota caminho do poente , e dirigio constante- 
mente o seu rumo para Oeste , engolfando-se cada vez mais 
no largo Oceano Occidental , com huma constância invariá- 
vel na sua rota , apezar dos clamores de seus marinheiros , 
e dos riscos de vida a que se expunha , sem jamais des- 
maiar ; como que tinha certeza , por precedente informação , 
de que por fim acharia por aquella parte huma nova terra : 

se- 

(/J) Ricioli na sua já citatada Geografia e Hidrografia Liv. 111. Pene- 
jeticHS Cap. 22 pag. pj. 




128 Memorias da Academia Real 

segurando aos seus , que passados dias havião de ver com 
seus olhos o que então a esperança dilatada lhes represen- 
tava ijnpossivel : com tanta segurança c senhorio o affirma- 
va , que suas palavras erao cheias de certeza, c daviío no- 
vos corações a seus já desfalecidos companheiros (d). 
Do desço- Demos agora mais hum passo por diante , para nos apro- 

aMw °ter- ximarmos ao particular objecto destes nossos discursos ; e 
nsdiAme- inustremos que nao só houve noticias da existência de al- 
dioliaMus guiTias terras da America Meridional , antes de Colom , mas 
da expedi- que tambcm as houve daquellas mesmas partes que depois 
j° /;/'••"- se chamai ão de Magalhães. 

, Para isto não duvidamos recorrer outra vez ao grande 

cação doEs- Astrónomo e Cosmógrafo Martim Behaim ou de Buhcmia: 
íreito,qde- pQjg pgj gyjjs Cartas Maritimas já estavão demarcadas as 
mou de Ma- terras visinhas á Ponta Austral daquelle ContinL-nte , ou ao 
galháe'! , at- Estreito quG depois se chamou de Magalhães. Isto escreve 
lw'artin°Be-delle positivamente Pigaffetta, author coevo, e fidedigno, 
haimnoseu que foi scu Companheiro de viagem {b) , dizendo que o mes- 
MaupL' ' nio Magalhães vira na Thesouraria de ElRei de Portugal hu- 
ma Carta , feita por aquelle excellentissimo homem Martim 
de Bohemia , em que aquellas terras vinhão delineadas. 

Nesta parte pode também servir a authoridade de Fran- 
cisco Lopes de Gomara na Hisioria das índias , o qual as- 
severa que Magalhães vira as Cartas de Behaim , em que es- 
tava traçada a rota que se devia seguir para aquellas partes, 
e que este lhe facilitara aquella nova descoberta que de- 
pois achou. Poremos aqui o seu lugar por ser de Authur 
clássico em taes matérias. >■<■ Fernando Magallanes y Ruy 
» Falero vinieron de Portogal a Castilla a tratar en el Con- 
>j sejo d' índias , que descubririan si buen partido les hi- 
» ziessen , las Malucas, que produzen las especias, por nue- 

>» vo 



(<j) Esta firmeza inculca bem , que elle tinha mais motivos de perse- 
verança do que a sua só tlieoria , e o seu systema , a que Robertsor» 
só quer attribuir tão invicta constância. Na Historia da yívierica Tom. I. 



na Nota 17 pag. 380. 
(b) Viagem de Pigaffetta. 



DAs3ciENClASDELlSbOA. Ilp 

» vo caminho , y mas breve , que no el de los Portugue- 
» ses a Galicut , Malaca , y China. El Cardenal íray Fran- 
>> cisco Ximencz de Cisncros , governador de Castilla , y los 
>» dei Consejo de índias les dieron muchas gracias por el 
» aviso y volunt;id , y gran esperança que, venido cl rey dou 
>> Carlos de Flandes , scrian muy bien acogidos y despncha- 
j» dos. Ellos espcraran con esta respuesta , la venida dei 
>> nuevo Rey , y entretanto informaron asaz bastanteinentc 
j> ai Obispo Don Juan Rodrigue?. d' Fonseca , presidente 
» de las índias , y a los Oydores de todo el negocio , y 
» viage. Era Ruy Falero buen Cosmógrafo y humanista , 
» y Magallanes gran marincro. El qual afirmava que por 
» la Costa dei Brasil , y Rio de la Plata avia passo a las 
j> islãs de la especicria mucho mas cerca que por cl ca- 
» bo de Bucna Esperança ; a lo mencs antes de subir a se- 
» tenta grados , segun Ia Carta de marear que tcnia el Rey 
» de Portogal , hecha por Martin de Boémia , aunque a- 
>> quclla Carta no ponia estrecho ninguno, a lo que oy de- 
M zir, si no el assiento de los Malucos. Si ya no puso por 
» estrecho el Rio de la Plata , o algun otro gran rio de 
j> aquella Costa. Mostrava una Carta de Francisco Serrano 
» Portogucs , amigo o pariente suyo , escripta en los Ma- 
» lucos, en la qual le rogava que se fucsse allá, si queria 
» ser presto rico. >» 

Com este testemunho de Gomara concorda outro de 
Herrera também Hespanhol. Sobre tudo podcm-se allegar 
por esta parte Wangensei , que deo esta noticia tirada dos 
Archivos de Nuremberg , que vem no Paneg. de Behaim ^ af- 
fii mando que elle achara o Estreito , para por elle se ir por 
Occidente ás índias Oricntacs. 
Seguirão a mesma tradição 

O Author do Dicciouario Universal HoUandez. 

Dopelmayer na Relação Histórica dos Artistas de Nuremberg. 

O Barão de Bielfeld na Obra intitulada Progres des Ale~ 
mands no Cap. III. cm que repete esta mesma noticia. 

Freher in Tbeatro. 

Tom. F. R Não 



130 Memorias da Academia. Real 

Não podemos adoptar a conjectura de quem já se lem- 
brou , que a demarcação nas Cartas de Martim de Bohemia 
tinha sido por ventura trcsladada das noticias que dera a 
Américo Vespucio , nas cartas e papeis que apresentou a 
ElRei ; Por quanto as Cartas e Globos de Martim de Bohe- 
mia havião sido anteriores ao facto de Américo , tendo ellc 
feito o seu Globo quando esteve com seus parentes em 
. Nuremberg, aonde o deixou no anno de 1491, e já antes 
disso nas suas Cartas Marítimas , o que tudo vem a ser 
muito anterior ás viagens de Américo Vespucio em ijor 
e IS"©! ; além disso não consta que Amcrico chegasse nas 
suas duas primeiras viagens áquelle Estreito , havendo fica- 
do na altura de 32 grãos, isto he na visinhança do Rio da 
Prata , como elie mesmo o diz em huma das Cartas escri- 
tas ao Senhor Rei D. Manoel sobre as suas viageus. 

Isto he o que pertence á demarcação de hum paiz da 
America Meridional , qual hc o Estreito chamado de Ma- 
galhães , no mesmo Século XV , e antes da expedição do 
rncsmo Magalhães : e posto que este facto seja posterior á 
demarcação que se acha no antigo Mappa do Infante D. 
Consequen- Pedro ; todavia i." destroe a originalidade da descoberta 
cias que se (j,,qy£i]g fgnioso navcgadot : 2.° concorre para mostrar, que 
facto. destruído o fundamento daquella originalidode , se faz me- 
nos inverosímil aquella nota em hum Mappa mais antigo 
e anterior a Magalhães. 

^ Mas como pôde servir, dirão alguns , o facto do des- 
cobrimento daquelle Estreito trinta e cinco annos antes de 
Magalhães , para tornar menos inverosímil a existência de 
huma descoberta ou demarcação mais antiga, e anterior não 
só a Magalhães, mas ainda ao mesmo Behaim, qual a que 
se achava no Mappa do Infante ? 

Responderemos , se podermos , a esta duvida , que a mui- 
tos pôde fazer peso. 
Se o desço- Behaim não poz nota alguma, nem nos Globos , nem 

jç™^r^a^o nos Mappas , em que declarasse a originalidade da demar- 
do Estreito caçao do Estreito j não nos disse se ella fora sua própria e 

ori- 



Eiíni Oí 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. I3I 

original, por seu mesmo descobrimento, ou se foi trasla:i- foi por facto 
cia e derivada de algum outro M.ippa ou Globo mais an- j^^'°J'j'.'° "^ 
tigo que o seu ; nem alguns dos Authores que disto fallá- Fthaimjou 



de tacto a- 



rão asscverão cousa alcuma decisiva e parcntoria nesta par- „ . 
te: redu/,mdo-se huns a afhrmar o seu descobrmicnto por cedente. 
Behaim , sem nos dizerem precisamente se o dcscobrio cm 
consequência de noticias de outros Mappas que lhe prece- 
dessem ; e outros a terem para si aquella demarc^^çao por ori- 
ginal , conjecturando-o assim pelo só facto de a verem por 
elle assignalada no seu Globo e Mappas. 

Nesta incerteza ou silencio ^- quem nos prohibe , ven-ftianeirapor 
do o mesmo luMr apontado iá no Mappa do Infante D, Pe-'í P"'''* j* 

O r j i k .... ter entrado 

dro , julgar que delle mesmo , ou de algum outro navega- no Mappa 
dor antecedente se trasladou e derivou aquella demardação '^° injante 
para o Globo e Mappas de Bchaim , vindo este a ser na- demarcação 
quella parte, não originário e primitivo descobridor, mas d" Estreito, 
sim hum simples annotador e copiador daquellc passo? chamnTdo 
^Porque não diremos que algum aventureiro, de tem- Magaliiies. 
pos muito mais remotos aos de Colom e Magalhães e do 
mesmo Behaim , teria alcançado noticia das partes circumvi- 
sinhas daquelle Estreito ? Em verdade já no Século XIII e 
XIV havia feito a marinha Europea pr<!gressos considerá- 
veis , correndo as Nações marítimas e industriosas todos os 
mares por seus pataxos , caravellas , e varinds , ou fosse pa- 
ra Levante , ou para fora do Estreito pelo Oceano Atlân- 
tico ; ou fosse dos Africanos , isto he dos Árabes Barba- 
rcscos , navegadores de huma parte da Costa de Africa e 
d'Alcm mar; ou fosse dos Genovezes e Venezianos , ou dos 
Malhorquinos , cujos vasos navegavão para toda a parte, e 
entre os quacs se faziao muitas Cartas de marear; ou fosse 
dos Normados da Normandia , que dalli passarão a navegar 
em 1346 pelas Costas de Africa até Guiné, por onde es- 
tabelecerão diversas Colónias (a) ; ou fosse dos Guipuzcoa- 

R ii nos, 

(rt) Huet Histor. do Ccnmi. e Navig. ; Murillo Geografia ; Franehc- 
ville na Hist. das Comp. das índias impressa em Paris em 1758 ; e na 
Disstrta^ão em que falia das Naveg. de Tareis no Tom. XVII. das ií/e- 



131 Memokias da Academia Real 

nos, Biscaynhos, e Andaluzes que desde 1393 forão á Con- 
quista das Canárias ; ou fosse finalmente dos nossos Portu- 
guezes que já então começavão a figurar na carreira naval. 
De algumas destas Nações podiao marinheiros ou pilotos 
aventureiros ter já sahido para alguns descobrimentos , por 
onde tivessem occasião de se engolfarem mais no pego , ç 
correndo para Ahieste haverem vista de algumas ternis do 
novo Mundo : ou fosse navegando deliberadamente , e dç 
propósito por aquelles mares , ou fosse desgarrados dos ven- 
tos e tempestades. 

Nestas circunstancias sendo a navegação para alguma 
parte da America possivel naquelles tempos , tcndo-sc em- 
prehendido naquelles dois Séculos muitas emprezas mariti- 
mas de grandes aventureiros , nenhuma inverosimilhança tem 
que se descobrisse entre ellas alguma parte da terra ou Es- 
treito Magallanico da America Meridional , donde provies- 
se aquella nota e demarcação para o antigo Mappa , quç 
havia trazido o Infante D. Pedro das suas peregrinações 
de Veneza , ou de outro algum paiz da Itália. 



Ni 



CAPITULO IV. 

Resolução de algumas duvidas. 



Ao poremos remate a este nosso discurso sem primei- 
ro tomar conta de duas objecções, que occorrem natural- 
mente nesta matéria. 

Primeiramente pôde reparar-se sobre a inacção em que 
parece que ficou o Infante D. Henrique , sem se aproveitar 
da singular noticia e demarcação deste Mappa ; sendo mui 
natural que á vista delle , se tal então existisse , facilmen- 
te se excitasse c demovesse a mandar procurar aquellas ter- 
ras , por quão mettido e engolfado andava na empreza das 

no- 

mori/is da Academia das Belias Li'tras de Berlim Jo anno de 17Ó1 ; e Courc 
de Gibelim no Mundo Primitivo Tom. VIII. Are. V. 



SI a a OT 



t-. 



UAsSciENçiAS DE Lisboa. 133 

novas descobertas. Não he dilficil de satisfazer a esta du- 
vida : as razões , que já na primeira Memoria apresentámos , 
a respeito da falta de actividade , que se podia notar no In' 
fante avista da outra singular noticia c demarcação do Pro- 
montório Austral de Africa , sinalada no Mappa do mesmo 
Infimte D. Pedro, c no de Alcobaça, são agora também 
accommodadas para satisfazer em parte a esta objecção (a) . 
Com effoito as grandes despczas que era necessário fazer 
nas expedições maritiinas , e as declamações dos que muito 
reprovavão as suas tentativas, como dispendiosas, inúteis, 
e até fatacs , tudo concorria para que el!e í;e limitasse uni-r 
çameiue ap descobrimento das costas de Africa , quç çrãç) 
njais próximas e conhecidas , e se não repartisse e dividis- 
se para novos descobrimentos de outros rumos diversQS,.e 
de terras não sabidas. 

Em segundo lugar pôde também parecer incrível qu« 
o Senhor Rei D. João II. deixasse de ter noticia deste Map-. 
pa se existisse ; e de com clle se excitar , por mui grande 
averiguador que era de novos mares e terras , a tentar o 
descobrimento do Continente da America , que alli jse acha- 
va demarcado ao Oeste da Costa Africana. 

Respondamos a esta objecção : em primeiro lugar não 
implica que aquelle Príncipe ignorasse aquelle Mappa ç 
demarcação, ou que cUc já não existisse no seu tempo. Em 
segundo lugar podia elle saber disto , e todavia não tomar 
a resolução de mandar ao descobrimento do Estreito que 
o Mappa demarcava , porque podia ponderar diíEculdades , 
que bastantes fossem a embaraçar empreza tão fragosa ç 
arriscada ; e mais ainda sem saber qual fosse a extençao da« 
queiie terreno, a qualidade da terra, e que proveito se po- 
deria tirar delia. 

Nem admira que a demarcação do Mappa , se por ven- 
tura o vio , o não movesse á empreza do descobrimento do 

no- 

(<í) Veja-sc o que dissemos na Memoria sobre dois antigof Aíappas 
Geográficos do Jnjante D. Pedro e do Cartório de yilcoba^a Cap. ç. , tjuç 
vem a pag, 295 do VIII vol. das Memorias de Littcratura da Academia, 



«TÍ OT 



134 AIemorias da Academia Rkal 
novo Mundo , quando o não niovco o mesmo plano que 
Colom lhe apresentara para aqucUa navegação , combinado 
sobre varias observações e noticias ; que antes o rejeitou , 
ou por pouco solido c seguro , ou por muito dispendioso , 
e arriscado , como o tivcrão a principio os mesmos compa- 
triotas de Colom , c as Cortes de Hespanha e de Ingla- 
terra , quando ellc lhes oflFcrccia pela primeira vez o mesmo 
plano; fosse, como diz Garcia de Rezende, por lhe não dar 
credito {a) , havendo suas palavras por imaginaçócs e vai- 
dades ( como as houverão o Doutor Calçadilha, famoso Cos- 
mógrafo daquelle Príncipe e muito seu valido , e D. Diogo 
Ortiz, Bispo de Ccpta , e os Mestres Rodrigo, ejose (^j , 
aos quaes costumava encomendar as cousas da Cosmogra- 
fia ) ; fosse finalmente por alhco de suas idcas , e medidas , 
em que entravão de mãos dadas as esperanças de maior uti- 
lidade , e de maior fama e gloria que haveria com os des- 
cobrimentos de Africa e índia , que não com os de terras 
do Poente ainda incógnitas , ou duvidosas. 

Na verdade aquelle Príncipe estava desejoso de prose- 
guir a carreira , que o Infante tinha começado pela Costa 
de Africa; e estava cheio da leitura das Viagens de Marco 
Polo , de Nícolao Conti , e de outros Viajantes da Ásia , que 
muito lhe atiçarão os desejos de abrir por mar caminho no- 
vo para a índia Oriental ; fazer voltar o Commercio delia 
para Portugal , e estancar o monopólio das especiarias que 
fazião os Árabes e Turcos , e os Venezianos por Alexandria , 
principal recurso do seu poder e rique/.a. Esta era só a em- 
preza, que elle considerava digna de seu animo Real, e ca- 
paz de lhe trazer em direitura os thesouros do Oriente , e 
fazer revolução no curso do Commercio , e no Estado Po- 
litico de toda a Europa , em muito proveito destes Reinos. 

E 

(rt) Chronica de D. ^oão II. C. 164 foi. 108. 

(/>) Do pouco credito que ElRei dava a Colom, c quanto os Cos- 
mógrafos houverão por v.jidade suas palavras , talião os nossos , e entre 
elles João de Barros na Dec. J. Liv. III Cip. XI. pag. 5-'; e dos es- 
tranhos bastará cit.ir por todos o Padre Laiícau na Historia dos Descobri- 
mentos e Conquistas dos Portuguezes Liv. I. pag, 67. 



I 

i 



DAsSciENCiAS DE Lisboa. 135' 

E tão acceso andava neste descobrimento da índia , que sem 
embargo de ter já reconhecido até além do Cabo da Boa 
Esperança por mar, o quiz também fazer por terra em 1486 , 
enviando viajantes encarregados disso (a) ; e cm verdade 
tantos desejos tinha de a descobrir , que havia concertado 
€ prestes huraa armada para este fim , com os regimentos 
feitos , e escolhido já por Capitão Mor delia o mesmo Vas- 
co da Gama (b) . Em fim foi este o seu unlco disvello, co- 
mo o mesmo Capitão expressou bem ao Rei de Melinde di- 
zendo : 

Este , por haver huma fama sempiterna , 
Mais do que tentar pode homem terreno 
Tentou , que foi buscar da roxa Aurora 
Os términos , q' eu vou buscando agora (c) . 



EX- 



{a) Garcia de Rezende na Chronica de D. João II. Castanheda 
Cap. 60 pag. 42. 
(/>) Garcia de Rezende Cap. tcs íol. 122 ir. e I2J, 
CO Lusiad, C. IV. Est. LX. 



SI3a OT 



I3<5 Memorias da Academia Real 



(*) EXTRACÇÃO DE LOTERlASj 

Que se executa em tempo brevíssimo ^ e sem que se possa com- 
metter erro ou engano : proposta 

Por António de Araújo Travassos. 



kjUppondo que a Loteria seja de 10:000 Bilhetes, faz-se 
a extracção pela maneira seguinte. Forma-se hum numero 
ao acaso entre todos desde 1 a 10:000 , tirando entre os 
dez algarismos o. i. 2. 3. 4. f. 6. 7. 8. 9. hum para a 
casa das unidades , e repetindo-se a mesma operação 2.* , 
3.* , e 4.* vez para as casas das dezenas, centenas, e mi- 
lhares j sem que se extra'ia algarismo algum para a casa das 
dezenas de milhar , pela razão de que esta casa só pôde 
ser occupada pelo algarismo i , no caso único de terem si- 
do o. o. o. o. os quatro algarismos tirados á sorte : os quaes 
são a decima millesima combinação , e por isto se conven- 
ciona que representem o numero 10:000. 

Pode dar-se ao numero formado o nome de Regula- 
dor , porque serve para regular a distribuição de todos os 
prémios da Loteria facil e promptamente , pela maneira se- 
guinte. 

Em a Noticia ou em os próprios Bilhetes da Loteria 
se declarará que o maior premio ha de pertencer ao Regu- 
lador , e o 2.°, 3.°, 4.°, 5.° &c. e todos os mais prémios, 

?J2_ 

( * ") Este modo de extracção de Loterias foi communicido á Acade- 
mia Real das Sciencias em 29 de Agosto de 1815, e por isso antes que 
o que se publicou a pag. i8o da segunda parte do Tom. IV desta Col- 
lecçáo : publica-se porém somente a^ora pela razão de ter sido remetti- 
do por Ordem de Sua Magcstade a fim de se examinar, o que impcdlo 
a sua impressão , em quanto não houve licença expressa , que ultimamen- 
te se obteve. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. I37 

pela ordem de seus maiores valores , hão de pertencer aos 
numeres immcdiatos depois delle ; e no caso de que estes 
números até o ultimo da Lotcria não sejão bastantes para 
se lhes conferirem os referidos prémios , continuar-se-ha a 
distribuição pelo numero i , e seguintes. 

Se não se quizer que os prémios todos hajão de per- 
tencer a números seguidos , fácil he o declarar na mesma 
Noticia , ou nos Bilhetes , as diíFcrenças ou intervallos que 
deve haver entre o Regulador e os números a que ha de 
conferir-se cada premio ; ou , o que vem a ser a mesma 
cousa , declarar-sc-ha que os números dos Bilhetes , iguaes 
á soma do Regulador com os números que se indicarem , 
terão os premies que adiante delles igualmente forem indi- 
cados , e que daquellas somas do Regulador com os refe- 
ridos numeres que se indicarem , as quaes forem superiores 
ao numero total de Bilhetes, subtrahir-se-ha o dito nume- 
ro total , e os restos serão os numeres , cujos bilhetes go- 
zarão dos prémios respectivos. 

Talvez isto se entenda melhor á vista do seguinte pla- 
no ; no qual todavia por amor da brevidade não se declarao 
as diffcrenças todas por extenso e cada huma de pcrsi , e 
usa-se do artificio de designar muitas debaixo de hum nu- 
mero e seus múltiplos. Com eíFoito he mui sufficiente esta 
declaração ou sistema, para cm conformidade delle, e de- 
pois de formado o Regulador , se fazer a Lista Geral , e 
j^ara cada dono de Bilhete , ainda sem consultar a dita Lis- 
ta , saber logo qual foi a sua sorte na Loteria. 



Tom. r. S P/a- 



138 Memorias da Academia Real 

Plano de Loteria , e medo de formar a Lista Geral para 
ã distribuição dos prémios. 

O numero Reguladpr terá - i premio de Reis. i6:oooii)ooo 
E os números que forem iguaes á 
soma do Regulador com cada hum 
dos números que aqui se dcciarão , 
terão os prémios seguintes. Adver- 
tindo que daquellas somas do Re- 
gulador com estes números , as quaes 
excederem a 10:000 , e que por con- 
sequência não se encontrão em Bi- 
lhete algum desta Loteria , se sub- 
trahirá o referido numero 10:000 , 
e os restos serão os números pre- 
miados. 
5:001 -------- I----- 8:000(||)000 

^:$or -------- i---.. 4:000^000 

7:500 1 2:coo|)ooo 

T.l')! e 6:1J2 ----- 2 de 1 :000(Í)COO 2.000>|)000 

603 , $:6oi , 3:i05', e 8:103 4 »» 400^000 1:600^000 

1:197 e todos os seus múltiplos 8 '» loo^jfjooo 1:600^000 

600 e dito dito dito - 16 >» looc^ooo \:6co^ooo 

333 e dito dito dito - 30 »> 60(|)000 i:8oO(jÇ)ooo 

141 e dito dito dito - Jo »> 20J^ooo 1:400^000 

3 e todos os seus múltiplos 

que não estão acima 

comprehendidos - - - 3:200 »> i$^QQíO 48:000(^)000 

Bilhetes com Premio - 3:334 
Ditos sem Premio - - 6:666 

Abatidos 12 p.' c." importão os 10:0 do B.^ a lo^ooo rs. 88'000(3booo 

" sT 



sina Ot 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA, 139 

Se O numero de Bilhetes não for dez mil , mas por 
exemplo vinte mil , deve extrahir-se para a quinta casa do 
Regulador hum algarismo, não entre os dez já menciona- 
dos , mas só entre os dous o c i ; porque neste caso 
o. o. o. o. o. hc a vigcssima millcsima combinação, con- 
venciona-se que represente o numero 20:000. 

E se o numero de Bilhetes for por exemplo 30:000 , 
deve extrahir-se para a quinta casa do Regulador hum al- 
garismo entre os três o. i. e :. ; c porque neste caso 
o. c. o. o. o. he a trigessima millesima combinação , con- 
venciona-se que represente o numero 30:000. 

Hum modo análogo se seguirá em qualquer outra Lo- 
reria de 40, 50, 60, 70:000 Bilhetes &c. Sc porém não 
for de numero redondo e completo de dezenas de milhar , 
mas por exemplo de 16:000 Bilhetes; neste caso, depois 
de extrahidos os três algarismos para as casas das unida- 
des , dezenas, e centenas, extrahir-se-ha hum algarismo ou 
hum numero composto de dous algarismos para a casa dos 
milhares , ou para esta e para a das dezenas de milhar , 
entre os 16 algarismos e números seguinres, o. i. 2. 3. 4. 
y. 6. 7. 8, 9. 10. II. 12. 13. 14. e rj. E porque o. o. o. o. o. 
he a decima sexta millesima combinação , convenciona-se 
que represente o numero 1 6:000. 

Semelhantemente se praticará em as Loterias que fo- 
rem de outros números de Bilhetes , e a todas se poderá 
applicar facilmente qualquer distribuição de prémios que 
mais agradar , exactamente como acontece em as Loterias 
até agora usadas entre nós. 



S ii ME- 



140 Memorias da Academia Real 



MEMORIA 

Sohre a nova Mina de ouro da outra banda do Tejo. Lida 
em 10 de Maio de 1815". 

Por José' Bonifácio de Andrada e Silva. 



J Ulgo não será desagradável a esta Academia dar-lhe 
desde já em pequeno bosquejo alguma idéa da nova Mina 
de ouro chamada Priíuipe Regente , que se está lavrando 
"actualmente. Principiarei pelo seu descobrimento e pesqui- 
sas preliminares , e depois passarei a noticiar o estado pre- 
sente da sua lavra e aproveitamento ; reservando para outro 
tempo a parte technica de seus trabalhos. 

Sendo do meu dever na conformidade dos Regimen- 
tos, e das vistas paternaes de S. A. R. quando se dignou 
crear a nova Administração de Minas , descobrir e aprovei- 
tar todos os mineraes úteis que encerrâo as entranhas do 
nosso Portugal (que cm verdade pôde correr parelhas, cm 
riquezas subterrâneas , com os mais privilegiados do Glo- 
bo) julguei que nao devia por mais tempo- deixar de>cn- 
nhecida e desaproveitada , ao menos huma pequena porção 
do muito ouro , que encerra ainda Portugal , não obstante 
a extensa e antiga mineração dos Carthaginezes , Romanos, 
Árabes , c ainda dos Portuguezes nos primeiros séculos da 
Monarchia. 

Os motivos que me induzirão a escolher de preferen- 
cia o terreno da bahia , que começa na ponta da Trafaria , 
c vai findar no Cabo de Espichel , para estas tentativas e 
pesquizas, forao as noticias históricas, que tinha obtido da 
Torre do Tombo ; das quacs consta, que os Ouriviciro."? ou 
Mineiros da Adiça , que fica três quartos de legoa ao Nas- 

cen- 



vJSH 01. 






I 

DASSCIENCIASDE LiSBOA. 141 

ccntc da nova Mina , dcsãe o tempo do Senhor D. AíFonso 
Hcniiqucs, em que já estavao cm lavra estas terras, até o do 
Senhor D.João III. que as doou a hum certo António da Fon- 
seca , sempre se conservarão em trabalho constante e lucrativo , 
a pezar do muito ouro , que pelas navegações do immortul In- 
fante D. Henrique , nos vinha então da Costa da Mina. 

Que as antigas Minas da Adiça forão de muita utili- 
dade á Coroa e ao Reino , o provao os grandes privilégios 
ciMicedidos pelos nossos Reis aos Mineiros , em huma lon- 
ga serie de Cartas de confirmação desde o principio da Mo- 
narchia até os fins do Reinado do Senhor Pvci D.João III. 
cm que cessarão esses serviços ; talvez porque passarão da 
Coroa para as mãos de António da Fonseca. A Adiça for- 
mava hum Coutí) Real com Juizes próprios e privativos pos- 
tos por lilRci nos primeiros tempos, e chamados então Qtiin- 
tciros , e depois eleitos pelos próprios Mineiros. Tinhão es- 
tes o jirivilegio de se queixarem immediatamcnte a ElRei das 
pessoas , quaesquer que fossem , que lhes não cumpriáo seus 
foros e isenções ; ou os incommodavão cm seus trabalhos e 
occupações. Não pagavão jugada , nem imposto algum de 
suas herdades e fazendas : não hião á guerra : não respou- 
dião em causa civil ou criminal perante algum Juiz, que 
não fosse o seu próprio : ninguém pousava em sua casa ; 
nem se lhe tomava cousa alguma do seu contra sua vonta- 
de : cstavão isentos de todos os encargos e officios do Con- 
celho , até mesmo da Almoraçaria ; e o que mais he , até es- 
ravão livres dos Pedidos Pvcaes de géneros c dinheiro , e 
dos encargos de Caudclaria : finalmente podião empray.or 
perante ElRei todo e qualquer Juiz , que fosse contra al- 
gum destes privilégios. Tudo isto consta da Carta de Con- 
firmação do Senhor Rei D. Manoel de 2 de Maio de 1497 , 
onde vem inseridas todas as outras mais antigas desde o Se- 
nhor D. AfFonso III. O Senhor Rei D. João iíl confirmou 
ar.tcs da do;ição já mencionada , os mesmos privilégios pela 
sua Carta de 17 de Abril de ijzó. 

Parece pelos documentos que examinei , que até o Se- 
nhor 



si-í-x or 

■■>r-->ííVí-. 



14» Memorias da Academia Real 
nhor Rei D. Duarte formavâo os Mineiros huma compa- 
nhia ou sociedade viontanistica ; e nao só pagavao o quin- 
to do ouro , que tiraviío por sua conta ; mas erão tambcm 
obrigados a lavrar por conta d' ElRei certos sities daquel- 
la costa. Em tempo porém do Seniior D, Duarte mudou-sc 
esta administração, a requerimento dos Mineiros , cm huma 
capitação annua , pelo ouro que lavravão no chamado Me- 
dão ou Barreira, que acompanha e fica sobranceira ás praias 
desta costa : ficavão porém obrigados a lavrar a Mina do si- 
tio chamado da Malhada , quando entendessem ser tem- 
po próprio de se apanhar o seu ouro , do qual pagavão me- 
tade a ElRei. Os Adiceiros formarão então huma com- 
panhia composta de vinte e huma pessoas , chamadas Mi- 
neiros mores , incluídos neste numero hum Mestre , e hum 
Escrivão ; e de vinte e três outros chamados Mineiros me- 
nores. Os primeiros pagavão por cabeça annualmentc duas 
coroas de bom ouro , e os segundos huma só. Deste modo 
a capitação dos Mineiros , afora a metade do ouro que se 
apanhava na Malhada , de que não sei a quantia , montava 
a sessenta e cinco coroas de ouro, que julgo serem das an- 
tigas do Senhor Rei D. Pedro , por não haver outras cu- 
nhadas até o Senhor Rei D. Duarte. Ora cincoenta destas 
dobras de ouro fino fazião hum marco , e por tanto vinha 
a importar esta capitação no tempo de agora em valor in- 
trínseco 144(3^640 reis com mui pouca differença. Tal foi 
a sabedoria e magnanimidade do Senhor Rei D. Duarte , 
que soube contentar-se com huma tão diminuta renda , pa- 
ra assim animar a classe interessante dos Mineiros , de que 
Portugal havia tirado grandes proveitos , e os Senhores Reis 
huma parte mui principal do seu Património. Devo esperar 
da sabedoria do nosso Augusto Príncipe , que tão gloriosa- 
mente caminha pela estrada de seus Augustos Avos , que 
haja de favorecer as nossas nascentes Minas , de que foi o 
Creador , com o mesmo amor e patrocínio , que merecerão 
as antigas a seus Augustos Antecessores. 

Além destas noticias accrescco o ter sabido que alguns 

ho- 



DAsSciENClAS DE. LiSBOA. I4J 

homens ás escondidas , e sem licença , tinhão ha poucos an- 
nos gandaiado algum ouro por estes sitios , c o vcndiao 
aos Ourives de Lisboa. Animado de tão boas esperanças , 
logo que cessarão os perigos da guerra desastrosa , que fe- 
lizmente acabou , mandei fazer pcsquizas successivas , para 
me certificar da abundância de ouro , e calcular pelo preço 
presente dos jornaes , se me era possivel restabelecer essas 
antigas Minas. Começarão estas pcsquizas em Outubro de 
1813 , e se concluirão em 25 de Maio de 18 14; então cheio 
de summo prazer, por ver realizadas as minhas esperanças, 
paticipei ao Governo destes Reinos o seu resultado, e pe- 
di a sua approvação , c algumas providencias de que pre- 
cisava , que me forão logo concedidas. 

Os primeiros ensaios e pcsquizas forão feitos em trcs 
difiFcrentes sitios, i.° nas visinhanças da antiga Adiça , 2.° na 
sitio chamado a Ponta do mato , onde fiz abrir a Mina que 
hoje se lavra com o nome Príncipe Regente , e no dos Olhos 
d'agoa mais ao Sul , e distante do primeiro perto de legoa 
e meia. Posteriormente ordenei novos exames ao longo do 
pé da Barreira ou Medão , entre os dois extremos da Adiça 
c da Ponta do mato ; e por elles consegui felizmente certeza 
de que em toda esta extensão de costa ha mais ou menos ou- 
ro , que pôde ser aproveitado. Das outras pcsquizas feitas 
terra a dentro no sitio da Azoia , e Ponte das cabeças , e 
ultimamente nas Cruzinhas junto á praia, fallarei depois. 

Achando-me sem Mestres , nem obreiros , que soubes- 
sem da mineração e apuração de ouro em pó , e só com o 
hábil Mineiro Manoel Nunes Barbosa, natural da Capitania 
de Goyazes , por acaso residente nesta Cidade, e que hoje 
he o Inspector e Mestre da nova Mina , vi-me forçado a 
começar hum só serviço para ir attrahindo gente , e flize-la 
instruir na laboração do ouro , para depois poderem servir 
de Mestres , e Feitores de novos estabelecimentos , que dese- 
jo successivamente ir fazendo em tempo próprio nestes dis- 
trictos ; e cm outras Províncias do Reino. Pela novidade do 
objecto, e pelo alto preço dos jornaes, que espero dimi- 

nuão 






144 Memorias oaAcade MIA Real 

nuão com o tempo , c quando houver maior abundância e 
baratcza de viveres, não pcSdc ainda este Estabelecimento 
chegar ao gráo de prosperidade c lucro, que delle espero. 
Acresce também a falta de tempo para poder recolher no 
verão mineral em abundância , que depois se haja de lavar 
pelo inverno , em que as continuas borrascas , chuvas , e 
grandes marés difficultao, c impedem muitas vezes abrir no- 
vas catns , c recolher a pissarra aurífera : todavia com o fa- 
vor Divino, eá força de zelo e actividade, e com ajuda das 
sciencias auxiliares , até para aproveitar devidamente a dif- 
terença das mares nas praias , e escapar das marés vivas , 
temos lutado ftílizmente contra os elementos ; e a extracção 
do ouro não tem parado até hoje, a pezar das terriveis in- 
vernadas que tem havido, e das ventanias e borrascas con- 
tinuas que reinão nesta costa gerdlmente. 

No dia 4 de Julho de 1814 se começou pelas três ho- 
ras da tarde a primeira cata encostada á fralda da Barreita, 
no sitio já mencionado da Ponta do mato ^ que fica quasi no 
meio da bahia. Principiou-se este trabalho com três únicos 
homens , e estes mesmos erão Soldados inválidos do peque- 
no destacamento , que guarnece aquella Mina. Eu mesmo 
fui examinar o terreno c a formação, e dar as instrucçõcs 
e ordens que me parecerão mais convenientes para o me- 
thodo e andamento daquclle serviço. Nos fins da semana se- 
guinte , que acabou aos 11 , me recolhi muito contente e 
cheio de enthusiasmo com 215 oitavas e 5-7 grãos de ouro 
cm pó muito limpo e de excellente cor : este producto ex- 
traordinário porém foi devido , parte á escolha do lugar , 
onde a formação era mais rica ; e parte á actividade e tra- 
balho desmesurado , que empregou sem cessar o Mestre Ins- 
pector. Foi preciso porém deixar por algum tempo a ex- 
tracção , para se cuidar em edificar a mina , construir lava- 
douros ou bolinetes , e fazer outros trabalhos preliminares 
e indispensáveis a qualquer novo estabclccimcnro. No fim 
de Julho já o numero dos trab.ilhadorcs se tinha augmen- 
tado até 13, e hoje andão de 30 a 40. 

An- 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. I.lf 

Antes de ir abrir a Mina , cuidei logo de fazer hum 
regulamento para organizar c dirigir a administração c eco- 
nomia deste novo Estabelecimento , cujos Officiaes de Ins- 
pecção são hum Inspector c Mestre , hum Contador e Fis- 
cal , c hum Feitor ou Cabo da gente empregada. Huma das 
economias que introduzi , e que já tem rendido bastante , 
foi o aproveitamento pela amalgamaçao de toda a área c es- 
meril que fica depois de apurado o ouro pela lavagem e 
batea , o que no Brasil e ainda em varias partes da Europa 
se deita fora : por este novo methodo portim ganhamos , 
apczar de ser feita a lavagem e batcagcm com todo o es- 
crúpulo e perfeição da arte , ainda assim mais de -^ da quan- 
tidade total do ouro apurado. No Brasil ouso affirmar , que 
perdem quasi metade do ouro, que apurao. 

O ouro se acha nesta Mina em estado nativo , em pa- 
lhetas de cor amarella gemmada , que são ás vezes já de 
bom tamanho; e menos lisas, e mais brilhantes, que o ou- 
ro em pó dos rios de Sena , e do Brasil , por via de regra. 
Acha-se este ouro disseminado em hum taboleiro , ou ca- 
mada de terra arenisca , e mui pouco consistente , que tem 
de altura hum até dois palmos : já se tem achado porém 
de cinco palmos de grossura. Conrém hum palmo cubico 
desta formação , hum por outro , segundo o calculo feito 
até hoje , dous grãos de ouro. O taboleiro , ou formação , 
que hc de cor de cinza , passando a amarella depois de scc- 
ca , consta de pissarra formada de área mais ou menos fi- 
na , e conglutinada ou mesclada com argilla , e contém mis- 
turados em maior ou menor quantidade fragmentos e par- 
ticulas de esmeril , ou mineral de ferro arenoso negro , ai- 
tractono, de mica branca argentina, de quartzo cristalisa- 
do , amethista , e pedrinhas coradas , que vistas com a len- 
te mostrão pela cor e brilho ser fragmentos de espinello , 
ou Kannelstein de Werner. O esmeril do sitio da Mina Pr//;- 
cipe Regente , assim como o da Adiça, he mui fino, e em 
maior abundância que o dos Olhos d'agoa : igualmente os 
dois primeiros sitios contém menos amethistas , e espinel- 
Tom. V. T los , 



14^ Memorias da Academia Real 

los , que o terceiro. Também contem esta formação seixos ro- 
dados de quartzo commum , e outros corados , ou malhados 
de amarcllo e vermelho de schisto siliceo commum , e lydico. 
Pousa a camada mineral sobre salão ou argilla plásti- 
ca cor de cinza: sobre a supcríície do salão se deposita bas- 
tante ouro ; e por isto se cava este para se aproveitar a cô- 
dea superficial. A pissarra ou camada mineral hc coberta por 
área do mar , que tem de altura segundo os lugares das 
catas 5 , ^ , e is vezes lo , e i8 palmos. Esta área se des- 
capa por desmonte , para se poder tirar, e aproveitar a pis- 
sarra auriFera. 

A Barreira ou medão , que fica quasi a pique , e so- 
branceiro á fralda da praia, tem de altura 122 palmos, e 
consta de 8 camadas distinctas , quasi horisontaes ; as quaes 
no sitio da Mina Príncipe Regente são as seguintes , princi- 
piando debaixo para cima : 

I.* Argilla ou salão cor de cinza, escura quando molha- 
da , e menos carregada quando sccca , fica ao nivel do mar ; 
não sabemos ainda a sua profundidade. Na continuação da 
praia , onde em alguns sitios as camadas fazem sellas , ou 
alteamcntos undulosos , observa-se abaixo do salão huma ca- 
mada de marna argillosa denegrida; e abaixo desta outra de 
petrificados de conchas engastadas em pasta argillosa cor 
de fumaça , que lhe dá o oxido de ferro , que nella abunda. 

2.* Pissara argillosa , que na sua prolongaçao para a praia 
he onde se lavra o ouro , e já fica desciipta. Tem ás ve- 
zes pedaços e detritos de conchas marinhas : e aa barreira 
tem vinte palmos de grossura. 

3.* Área algum tanto argilosa, cor de fumaça com muitos 
fragmentos grandes e miúdos de conchas ; e com finíssimas 
partículas de mica argentina : tem de grossura vinte palmos. 

4.' Área de cor parda amarellada , com muita mica disse- 
minada : tem de grossura quinze palmos. 

5:." Área amarclla cor de ocre , com manchas e laivos mais 
desmaiados , e tambcm com mica : tem de grossura dez palmos. 
• 6.' Pissarrâo ou saibro pouco argilloso , de cor parda ama* 

rel- 



íiiaa 01 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 147 

rcllada , mais escura que a do n.° 4.° , contém muito pedre- 
gulho de quartzo commum , e algumas partículas de mica 
argentina : tem de grossura dez palmos. 

7/ Saibro grosso com alguma terra vegetal , de cor do 
n.° 4.° , mas sem mica : tem quinze palmos de grossura. 

8.^ A camada ultima superficial hc de área grossa, pura, 
e quasi branca , com alguns seixos rodados amarcUados de 
quartzo siliceo , e com particulas de mica transparente : tem 
de grossura trinta palmos. Este medáo ou Barreira não he 
inteiramente falto de ouro; he este porém em tão pequena 
quantidade , que não faz conta alguma o apurallo. 

No principio desta lavra duvidei se o ouro da píssar- 
ra , que se acha como disse nas fraldas do medao ao lon- 
go da praia , viria de longe ; trazido e depositado alli pe- 
las vagas do mar , que banhão aquella costa ; pois o Geó- 
grafo Árabe , Ebn Edrisi , que escrevco em Sicília , onde 
estava refugiado, pelos annos de ii^i a ii5'3, diz fallan- 
do do Castcllo de Almada ( que quer dizer Castello da Mi- 
na) que assim se chama por causa do ouro, que para alli 
acarreta o mar , quando anda bravo : porem posteriores e 
mais miúdas observações me tem convencido, que este ou- 
ro não vem de fora ; mas se acha mais ou menos dissemi- 
nado nas formações alluvines daquelle terreno , o qual foi 
formado das ruinas e detritos de montes e vieiros auriferos, 
ou distantes ou visinhos , que as antigas inundações do 
Oceano , ou de grandes lagos , e rios internos , causarão em 
diversos tempos. He provável que pelo andar dos séculos 
as chuvas, penetrando as camadas, desmoronando as barrei- 
ras, e abrindo canaesinhos , lavassem as terras, e ajuntas- 
sem o ouro , e o fossem depondo nos baixos , e sitios mais 
azados da costa, onde as ondas lavão, e apurão as suas par- 
ticulas disseminadas. 

Querendo verificar esta suspeita , que tive logo que 
pela primeira vez examinei o local , e a natureza da for- 
mação, mandei no mez de Abril passado trabalhar de novo 
cm alguns sitios , já lavrados no estio antecedente. Desde 

T ii 17 



148 Memorias ua Academia Real 

17 de Abril até 6 do corrente mcz de Maio, o. ouro que 
temos recolhido naquella Mina , Foi rodo tirado das antigas 
catas , que o mar de novo enchera , revolvendo c lavando 
repetidas vezes as arcas , e as terras desmoronadas das fruí- 
das da Barreira. Verdade he que a camada aurifera , que se 
formou de novo , não tem por ora mais que hum palmo de 
grossura ; e o palmo cubico só rende hum grão de ouro : 
todavia em trcs semanas, em que se não pode abrir em si- 
tio virgem catas mais rendosas , pela falta de agoa , e ou- 
tros embaraços locaes, que já estão vencidos, deo esta se- 
gunda colheita 416 oitavas, ou 6 marcos e 4 onças de ex- 
cellente ouro em pó e amalgamado. 

Assim se por hum lado as ondas do mar embravecido 
sobre a immensa praia desabrigada contrarião muitas vezes 
nossos trabalhos mineraes , por outra he o Oceano ao mes- 
mo tempo hum valentíssimo e excellente operário, que ajun- 
ta, e deposita as fagulhas seiji conto do ouro derramado, 
e as lava c apura sobre as rampas da praia , que lhe ser- 
vem então de óptimo bolinete ou lavadouro de concentração , 
quando acha base firme , qual he o salão ou greda já descripta. 

As novas pesquizas ultimamente feitas na Azoia e suas 
visinhanças , de que vou a fallar, dão tambcm muita luz 
a esta matéria. No districto da Azoia, que fica a duas Ic- 
goas da Mina Príncipe Regente , e arredada do mar quasi meia 
"Icgoa , he coberto o terreno em muita parte por huma ca- 
mada superficial de cascalho de hum até trcs palmos de gros- 
sura , e pousa sobre outra inferior de pissarra de cor ás ve- 
ves parda , com manchas cinzentas e azuladas. Esta piss-irra 
não he aurifera , mas sim o cascallo. 

Esta cascalheira ou conglumcrado de seixos de diver- 
so tamanho , pela maior parte de quartzo branco , ou cora- 
do , e de pedra da Lydia , aglutinados por área e argilla fer- 
ruginosa , pousa sobre pedra calcarea , densa , acinzentada 
ou amarellada , a qual alterna com bancos de pedra de área 
branca de grão fino , e muita mica argentina disseminada , 
que ao ar se mancha em amarello pardeçcnto , e bancos de 

mi- 



sia-J OT 



DAS SciENCiAS UE Lisboa. 149 

mina de ferro argillosa com muita arca ou preta ou ama- 
rcUa pnrdecenta , ou parda amarellada de diffcreiítes visos. 
Por baixo da cascalheira aurífera scgue-se hum pissarrão de 
diversa grossurj , de cor parda , tirando ás vezes a sangue de 
boi , em outras passa a cinzento , o que também se nota no 
cascalho. Notei nas provas que se fizerao tanto net.te si- 
tio, como no da Ponte dos cabeços, cm que fallarci , que 
o cascalho he tanto mais aurifcro , quanto he mais carre- 
gado em cor. Qiiatro palmos cúbicos deste cascalho, apura- 
dos pela batea , dcrão ;^ grãos de ouro ; c dariao mais se 
muita parte do seu ouro, que he muito fino e polme, se 
não perdera na apuração pela simples bateagem ; o qual se 
aproveitaria sendo este casc.ilho lavado e concentrado era 
lavadouro ou bolinete próprio e bem construído , e a fa- 
rinha , assim lavada , apurada depois pela amalgamação. 

Continuando na direcção dos jugos , ou encostas que 
vem da lombada central já mencionada, e no sitio da Pon- 
te dos cabeços apparece a grande cascalheira descoberta , 
a .qual he quasi da mesma natureza que a acima dc>--cripta, 
e se estende até os baixos do Feital. Esta cascalheira he 
ioda cortada por muitos bavrocaes profundos , por onde cor- 
rem grandes torrentes de inverno, deixando nos remanços 
e cotovelos bastante arca , que he muito mais rica em ou- 
ro que o mesmo cascalho. Devo notar que este cascallio 
pousa sobre bancos de pissarra muito grossos, commumcn- 
tc de cor de sangue de boi , mais ou menos carregado ou 
deslavado. Sobre a supcrficic do terreno , tanto nesta cas- 
calheira , como na antecedente do sitio da Pereira , appare- 
cem soltos na superfície seixos rodados de quartzo branco 
commum , e lácteo. Dois palmos cúbicos do cascalho des- 
tes barrocaes derao pela bateagem 3^ grãos de ouio palhe- 
ta excellente , c graúdo ; o qual se for aproveitado de o.;- 
tro modo , será então mais abundante. 

Temos pois descoberto e ensaiado felizmente huma tor- 
mação de cascalho superficial, owGuapiara na frase dos Mi- 
neiros do Brasil , que espero poderá ser lavrada com pro- 

vei- 



siavt or 



jjro Memorias da Academia Real 
veito, apezar dos grandes jornaes, logo que se possa ajuntar 
a agoa necessária , formando-sc tanques e prezas nas profun- 
das quebradas, ou barrocas, como fazem nas Minas do Hartz 
em o novo Reino de Hannover ; onde apezar de não haver 
agoa corrente , por este único modo se sustenta ha sécu- 
los huma grandissima mineração de prata , chumbo , &c. 

Nesta Guapiara pois podemos aproveitar não só o cas- 
calho , e talvez , como espero , parte da pissarra ; mas tam- 
bém a área das quebradas , em que o ouro está mais lim- 
po e concentrado pela lavagem natural das enchorradas. 

Sendo tradição entre os velhos das visinhanças do Ca- 
bo de Espichel , que quando em tempo do Senhor Rei D. 
João V. se abrirão as minas da agua , que vai conduzida í 
Senhora do Cabo , se dera em rocha que continha muito 
ouro, e que por isso piarara a sua continuação, quiz ultima- 
mente examinar esta formação. Á primeira vista perdi toda 
a esperança , não observando senão pedra calcarea densa acin- 
zada de formação muito nova ; mas discorrendo e exami- 
nando com mais cuidado aquelle sitio , descobri hum gros- 
so banco de cascalho quasi da mesma natureza que os já 
descriptos , que corre norte e sul , e se inclina para o Les- 
te cm angulo quasi de 45- gráos , seguindo o pendor das 
encostas da lombada central. Este facto Geognostico foi pa- 
ra mim inteiramente novo , por nunca o ter até hoje ob- 
servado em todas as minhas vastas peregrinações pelos mon- 
tes e serras da Europa , que viajei. Não podendo penetrar 
pelas bocas e poços da mina d'agoa ao interior do monte, 
por se acharem já quasi entupidos pelo decurso do tempo, 
contentei-me em quebrar hum pequeno pedaço do cascalho 
superficial , que se pizou e lavou para ver se continha algu- 
ma fagulha de ouro visivel , ou algum indicio , que compro- 
vasse a tradição daquelles povos. Não apparcceo ouro, mas 
sim muito esmeril na frase dos Mineiros do Brasil. O exame 
regular e em grande deste cascalho fica reservado para me- 
lhor tempo. 

Depois de ter examinado do modo que me foi possí- 
vel 



DAS SciKKCiAS DE Lisboa. i^t 

vcl todos estes cascalhos e pissarras , fui de novo visitar 
a costa do mar , que decorre desde a Mina Priticipe Regen- 
te até Á lagoa d' Almofcira , e dahi até perto do Cabo 
de Espichel. No sitio dos Olhos d'agoa , em que já fallei 
nesta Memoria , achei todas as disposições para huma nova 
lavra de ouro em pó. Não só ha cinco grandes nascentes 
d'jgoa , quasi pegadas humas ás outras , cm vários pequenos 
boqueirões formados pelas agoas chovcdiças, que se preci- 
pitão da Barreira para a praia, mas igualmente sobre o ban- 
co de salão , que decorre em pouco fundo para o mar , to- 
das as áreas que nelle assentao são auriferas , e o seu ouro 
he de muito fácil extracção. Verdade he que sendo a praia 
estreita neste sitio só em tempo de verSo se poderão lavrar 
e apurar estas áreas c pissarras; mas estou certo que darão 
então muito ouro. 

Passada a lagoa de Almofeira examinei de novo o si- 
tio das Cruzinhas , que o Inspector em 9 de Março do pre- 
sente anno já tinha de algum modo pesquizado, e achado 
que sete bateas do pissarra arenisca davão dois grãos de bom 
ouro : os exames que se fizerão de novo confirmão o lesul- 
tado daquclla pesquiza. Este sitio fica hum quarto de Icgoa 
para o Sul da lagoa : o local he excellente por haver bas- 
tante agoa corrente, e sor o mcdáo ou Barreira mais baixa 
e espraiada do que no resto desta costa. 

Referirei aqui também o resultado das pesquizas que 
mandei fazer ^ de legoa da Mina Príncipe Regente para o 
Norte no sitio da antiga Adiça chamado a Fonte da Telha ; 
«ssim na fralda da Barreira e praia , como no cascalho de 
pedregulho miúdo, ou propriamente pissarrão, quasi super- 
ficial , o qual cobre o cimo do medao ou Barreira , e tem 
de grossura hum até dois palmos , formando na sua prolon- 
gação varias pequenas undulações. Na praia e fralda da Bar- 
reira fica o salão em que pousa o ouro muito mais fundo 
que na Mina Príncipe Regente ; e só começou a apparecer 
algum ouro na profundidade de dezoito a vinte palmos de 
desmonte. Não temos ainda chegado ao salão por falta de 

hu- 






lya Memorias da Academia Real 
huma bomba própria para esgotar a cata , que se ha de 
apromptar brevemente : do que está profundado sahcm já 
amostras boas. Em outra abra ou pequeno boqueirão visi- 
nho a este sitio , aonde já ordenei pcsquiza em grande , 
ha esperanças de lavra rendosa , visto ser a praia mais lar- 
ga , de inclinação mais doce, c de salão menos profundo; 
e haver também muita agoa nasccdiça e corrente psra as 
lavagens e apurações. Iguahncnte em ambos estes sitios , em 
duas fundas goivas para dentro da Barreira, ha dois brejos 
ou lagoas , cujo fundo poderá ser bastante rico , visto ter 
recolhido em remanço todas as agoas chuvediças , que pre- 
cipitando-sc do cimo da Barreira , cortao e desmoronão 
o banco de cascalho aurífero superior , em que já tallei. 

Este cascalho miúdo ou pissarrão he composto de área 
grossa e fina com muitos seixos pela mor parte de quartzo 
commum, e algum schisro siliceo do tamanho de huma ave- 
lã até huma noz e mais. Este pissarrão quando húmido he 
de cor cinzenta amarellada , e quandp secco mais amarella- 
do. O seu ouro he de boa cor , porém miúdo e polme j 
mas não faz por ora conta a sua lavra em grande. 

De todo o exposto até aqui se vê quanto esta mine- 
ração de ouro pôde extender-se e ampliar-se com o andar 
do tempo (a) . ^ E quantas outras riquezas , que já conheço, 
não darão as Provindas de Portugal hum dia , se Soa Alteza 
Real , livre dos cuidados da guerra , se dignar favorecer 
tão importante ramo de occupação e utilidade publica , co- 
mo he de esperar da sua Magnanimidade e Sabedoria ? 

(/J) A totalidade dns despezas feitas nas pes<^uiz3$ , edifícios , ferramen- 
tas , maquinas , abertura e laboração da mina , montão ate o fim de Abril em 
5:504^810 reis ; sendo a somma das despezas, cjue cessão para o futuro, 
1:234^)170 reis. Nos três quartéis findos em Setembro e Dezembro do anno 
passado , e em Março deste anno entrarão na Casa da Moeda em ouro em 
pò , e amalgamado 63 marcos , 7 onç.is , 6 oitavas e 66 grãos , que depois de 
fundidos , e apurados na lei de 22 quilates e li grãos , ficarão reiiuzidos » 61 
marcos ,4 oitavas e 60 grãos ; cujo valor intrínseco monta a 6:5 15(^)5:0 reis. 



ME- 



MEMORIAS 

DOS 

CORRESPONDENTES* 



'.ifaa oõ 



MEMORIA estatística 

^cei-ca da notável Vtlla de Monte Mor o Novo. 
Por Joaquim José Varella. 



Le Monde est plein de Magistrats , et de gens employés , 
qui font leurs charges sans jantais s'en former un sistéme j qui 
vivent au jour la journée , et qui ayant agi toute leur vie sans 
scavoir comment , sotit encore regretdz aprés leur mort sans 
qiCon sache pour quoi. 

Bar. de Bielf. Inst. Polit. 



INTRODUCÇÃO. 



Ouo o homem que observar miudamente a importância 
d' huma Estatistica , trazendo á memoria os resultados de uti- 
lidade que delia tira a Republica , bem conhecerá quão 
relevantes sao os serviços cstatisticos. O Monjrcha , que co- 
nhece as forças dos seus Dominios , e os recursos que nelles 
tem , pode com certeza decidir os pontos políticos de maior 
interesse ; na discórdia e disputa com qualquer Nação po- 
derá sempre ter hum equilíbrio infallivel na sua balança j 
he então que o Politico trabalha com certeza no gabinete, 
e o General na campanha. 

Se tanto se deve á Estatistica , ^- que fado nos tem prohi- 
bido este conhecimento de primeira ponderação , esta tra- 
balhosa coUecção , que faz ver a grandeza ou decadência 
Nacional ? Se hum pequeno golpe de reflexão faz conhe- 



A 11 



cer 



4 Memokiasda Academia Real 

cer, que a cntcrtn idade não pódc ser curada sem o seu pré- 
vio conhecimento, e das suas causas, ^ ijuao importante se- 
rá este golpe levado em grande ao nosso objecto ? 

He a Estatistica , que tem o privilegio exclusivo de apre- 
sentar todas as faces de grandeza e abatimento de hunia Na- 
ção , suas causas, e resultados; logo só por esta via poderá 
o Legislador dar o conveniente remédio ao mal , que cm 
ponto claro e visível se lhe apresenta no grande mappa dos 
cCHitentos dos seus Dominios. Tal he a grandeza c impor- 
tância dos trabalhos estatisticos ; a sua cmprcza será sempre 
considerada, como huma daquellas, por que o Cidadão se 
faz digno do seu nome ; he por isso que me dediquei á' 
este serviço em beneficio da Pátria a quem devo a existên- 
cia , e cuja Estatistica trabalhada no anno de 1 8 14 eu ouso 
apresentar ao Publico nos doze artigos , em que dividi a. 
minha Memoria. 

Oxalá que os meus ténues trabalhos , sendo proveito- 
sos á Nação , possâo nesta parte ser imitados por aquelles ^ 
que constituidos em dignidade pelo Soberano , tem maio- 
res meios , e ainda maiores obrigações de formar a Estatisti- 
ca nos limites do seu governo : desta arte a Toga se torna- 
rá cada vez mais digna daquelle a quem serve de ornamen- 
to ; Portugal então será contado no numero dos felizes Es- 
tados , que de perto conhecem o seu gráo de elevação , ou 
de abatimento; o Monarcha e o Vassallo, o Politico e o 
Filosofo , cada hum no lugar que occupa , sem sahir do 
seu gabinete , poderá correr a extensão das terras , avaliar 
as suas riquezas e producções y e contemplar os seus habi- 
tantes. 



«air 01 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. 
A R T I Q O I. 

Da posição de Monte Mor o Novo , e suas principaes es- 
tradas e direcções. 



M< 



^Onte Mor o Novo , huma das primeiras Villas do Alem- 
téjo , está situada no coração desta Provincia em lo gráos 
e 12 minutos de longitude, e 38 e 34 de latitude. Di.sta 
da Cidade de Évora sua Capital cinco legoas ao Noroeste, 
que vem a ser duas legoas e meia até Patalim , aonde se 
encontra huma má estalagem , e outro tanto até áquella Ci- 
dade ; dista quinze legoas pelo Occidente da Cidade de 
Elvas , que vem a ser três legoas a Arraiolos , o mesmo 
á Venda do Duque , outro tanto a Estremoz , e seis legoas 
áquelle destino ; fica em distancia pelo Oriente da Capital 
do Reino em igual espaço de quinze legoas do seguinte 
modo , duas legoas ás Silveiras , o mesmo ás Vendas No- 
vas , três legoas aos Pegões , cinco a Aldegalega , e três a 
Lisboa. 

Está fundada nos baixos d' hum eminente castello , ou 
arrabaldes da Villa velha {a) . 

Tem 



(/J) A V1II.1 velha está edificada em hum ponto elevadíssimo , formado 
de trCi altos montes, sitio agradável pelo çrandc golpe de vista, que se 
estende ao longe em distancia de muitas legoas , e bellissimo pela pure- 
za de frescos e saudáveis ares. Desta eminência de montes , em que se 
fundou a antiga c illustre povoação, lhe veio o nome de Monte j\!or, 
chamando-se-lhe Novo em contraposição ao Velho. Aquella Villa ainda ho- 
je existe cercada de fortes mutos com quatro portas , e sobre ellas qua- 
tro soberbas torres , algumis já arruinadas pelo tempo. Tem ainda no seu 
tecinto três Parochias , a Matriz , S. João , e S. Tiago. Tem o Con- 
vento da Saudação das Religiosas de S. Domingos , e o rologio em hu- 
ma magnifica torre pro.vima á porta principal. Tudo o mais está sepul- 
tado debaixo das ruinas , como a mais antiga e sagrada P.irochia de Nossa 
Senhora da Villa , o famoso Palácio , que foi dos Alcaides Mores , os 
Paços do Concelho , e outros muitos edifícios. Os moradores , deixando 
» Viila antiga, foráo povoando os arrabaldes , cstendendo-sc princip:ílmen- 
tc pela parte do Norte , roubando a meia ladeira c grande margem dos 
montes daquelia Villa. 




6 Memorias da Academia Real 

Tem o seu Termo seis legoas de Norte a Sul , e sete 
de Nascente a Poente («). 

Monte Mor o Novo pela sua posição he frequentado 
dos viajantes ; as suas estradas verdadeiramente militares tem 
o seu principio na povoação , assim para a Capital do Rei- 
no , como para a Cidade de Elvas ; são mui largas , por 
cilas se dirigem em cavallos de posta os Correios , que 
se envião áqucUas Cidades , e chegão a estaVilla nas terças 
feiras , quintas , e Domingos de todas as semanas. 

Tem Monte Mor o Novo trcs pontos telegráficos ; 
na direcção de Lisboa, no sitio das Vendas Novas, qua- 
tro legoas de distancia daquclla Villa, acha-se hum ponto, 
que communica para o Oriente no espaço de três legoas 
a outro situado na Parochia de Nossa Senhora de Safira , e 
dahi se dirige no espaço de huma legoa ao ponto próximo 
á Ermida de Nossa Senhora da Visitação , que está para a 
parte do Norte em pequena distancia de Monte Mor o No- 
vo , e continua o golpe de vista em trcs legoas de distan- 
cia até a Villa de Arraiolos. 

Artigo II. 

Da antiguidade , nobreza , e dignidade de Monte Mor o 

Novo (b). 

XXLguns observadores das antiguidades tem pertendido 
que Monte Mor o Novo já no tempo dos Romanos fosse 

con- 

(_a) O Termo de Monte Mor o Novo comprehendia outr'ora mais 
algum terreno , pertencia-lhe a Villa de Lavre em distancia de trcs legoas 
ao Nordeste. O Srir. Rei D. Dinis fez a desmembraçáo da dita Villa , 
mandando a Monte Mor o Novo Rui Soares , Deão das Sés de Braga, 
e Évora , pedir á Gamara Termo para povojr a Villa de Lavre. Entre os 
papeis avulsos da mesma Camará acha-se o traslado da escriptura de con- 
sentimento , que o Concelho de Monte Mor o Novo dco para a desmem- 
braçáo da Villa de Lavre. 

(/>) He tão respeitável o nome antiguidade, que ninguém ha no mun- 
do, que não pertenda remontar-se a huma origem desconhecida. Todas 
as scicncias , todas as artes tem cogitado hum começo mui remoto , e 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. J 

considerável e insigne , deduzindo as suas observações dos 
mais bellos monumentos, que se tem encontrado nestes sí- 
tios. 

Entre estas peças a mais importante he a celebre pe- 
dra , que se acha embutida na parede exterior do adro da 
Igreja Matriz , intitulada Nossa Senhora do Bispo. Eu con- 
sidero esta Lapide tão antiga como huma peça de todo o 
valor; por isso a offereço em copia aos meus leitores (a). 

A legenda , que ao homem observador apresenta a fren- 
te ou testa do Sepulcro Romano , mostra muito bem , que 

de- 

todas ellas percendem esconder-se nas primeiras eras do mundo : o homem 
hc o ente , ijue m.iis ambiciona este género de j;randeza , envolvido 
muitas vezes em genealogias , qne nutrem mais de metade da sua al- 
ma , vai ancioso á velha idade indagar o nascimento dos seus Avoengos, 
desprezando as vezes huma mais moderna , que lhe dá o lustre e feli- 
cidade ; tem chegado neste ponto a vaidade do homem a tal excesso , 
que clle tem pertcnJido encontrar a sua origem , humas vezes nos Deoscs , 
e ouiris além de Adam. Esta máxima , que a cada passo se encontra no 
mais perfeito habitador da terra , estendese também ao lugar do seu nas- 
cimento : o homem não se gloria só com a antiguidade dos seus ascen- 
dentes , quer tamhem que a origem do seu paiz vá encontrar-se com as 
primeiras e mais celebres habitações do mundo. Deste pequeno esboço 
se conhece quio venerável e respeitável he a antiguidade , por isso eu 
apresento aos meus leitotes este ponto histórico da minha Pátria. 

( /j ) Esta peJra he de branco jaspe, tem oito palmos e meio de 
comprimento até ao lado quebrado , e dois de altura ; este monumento 
tio famoso escapou a indagação e vigilância do Mestre Resende , e não 
tenho noticia de escriptor algum antigo, que delle fizesse menção; t.il- 
vez escapasse aos Antigos por não estar patente , podendo ser encober- 
to pelas ruinas de aigum edifício da Villa velha , ate á factura do adro 
que he moderno , senJo evidente a qualquer homem , que a pedra foi pos- 
ta na parede do adro da Igreja Matriz , bem como outra de nenhurr» 
valor ; o que he visivel , observando-se que do lado esquerdo se acha 
quebrada pela ignorante mão do alveneo : se nos deixou a legenda , foi 
isso devido ao melhor geito que a pedra faz , posta por este modo na 
parede. Por via de certas escavações feitas com o tempo , houve quem 
observasse no fundo da pedra quatro buracos circulares, que seriáo pa- 
ra sustentar, as columnas do sepulcro ; hoje, como a p.írede está concer- 
tada , só se observão dois. 

Seria para desejar que hum monumento tão celebre , que nos con- 
serva hum facto de antiguidade tão respeitável , fosse tirado das ruinas 
do tempo , que já lhe tem feito estriges consideráveis ; e que exacta- 
mente se observassem as luminosas providencias do Alvará com força de 
Lei de 4 de Fevereiro de itíoz , e de 15 de Maio do mesmo anno. 



S Memorias da Academia Real 

debaixo dellc cstivcrâo as cinzas de huma Flaminea, Sacer- 
dotiza Romana da remota antiguidade (a). 

Alem desta peça , encontrou-se também outra , que 
igualmente offcreço aos amantes de Antiguidades (b) 

Sendo occupada a Villa pelos Mouros , o primeiro Mo- 
narcha dos Portuguezes a conquistou : destruida depois , e 
desamparada , a mandou de novo povoar seu filho o Snr. D» 
Sancho I. , dando-lhc Foral pelos annos 1239 da era de Ce-» 
sar , 1201 do Nascimento de N, S. Jesu Christo , libera- 
lizando-lhe isenções c Privilcg^ios iguaes aos da Corte c an* 
tinquissima Cidade de Évora: eis-aqui as palavras do Foral , 
que sâo dignas daquclle grande Rei , a quem com toda a 
justiça derão o egrégio titulo de Povoador : In nonúne Pa-* 
tris , et Ftlii , et Spiritus Sancti Ameíi. Ego Rex Sanctius Ma-. 



(<i) Os Fhmines eráo huns Sacerdotes de muita consideração entre 
Oi Romanos, tinháo o appelliJo dos Deoses a quem pertenciáo ; Flamen 
Didlis dizia-se o Sacerdote de Júpiter, Martialis de Marte &c. &c. As 
riamineas etáo as Sacerdotizas , mulheres do» Ftamines , tinháo grarídes 
prc/ogativâs , e algumas eráo ij;ui»ladas em honra e di?tincçáo aos seus 
niaridos , como a Flanúnka Dialis. A Lusitânia , envolvida nas trevas do 
Paganismo, teve também os Sacerdotes daijueltes tempos. Évora então 
gozou da maior distincçào Sacerdotal ; o desgraçado povo daquelle tem- 
po tributava grandits cultos e venerações á Deosa Diana , a quem con- 
sideravão como Tutelar, e esta Divindade tinha hum magnifico Templo , 
aonde os Eborenses a invocavão. O aferrado culto , que a antiquíssima 
Évora ofFerecia a esta e outras Divindades do Paganismo , foi o moti- 
vo de se lhe conceder a prinyazia Flaminica , essa summa honra Sacer- 
dotal , a cuja obediência estaváo sugeitos os Sacerdotes e Sacerdotizas 
dos outros Templos , como da Salada , hoje Alcácer do Sal ; de Prosér- 
pina , hoje Villa \''içosa j de Júpiter, lugar visiiiho á Villa do Torrão; 
de \'enus , hoje Monte de S. Gens na Serra d'Ossa ; de Júpiter F.ndo- 
vellico , lugar lunio á Villa de Terena , c outros muitos Templos da 
Lusitânia , cujos Sacerdotes eráo suffraganebs do Flamen e Flaminica Ebo» 
tense. 

(/') Esta Lapide tem quatro palmos de comprimento, e pouco mús 
de dois palmos de largura , foi achada em hum terreno prox>mo á Villa 
por huns trabalhadores , que encontrat\do alguns vasos em que est.iváa 
depositadas as cinzas , quebrarão imniediatamente estes preciosos monu- 
mentos ; a pedra acha-5e actualmente entre as famosas antiguidades do 
Illustrc Cenáculo, aonde a vi com o meu amigo Josc António de Leão, 
Corregedor da Comarca de Évora ; eu devo a sua legenda a este tãa 
famoso Jurisconsulto c Politico , como sabedor de Antiguidades. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. p 

giti , Alfonsi Regis Filius una cu ftliis méis Rege Alfonso , Re- 
ge Pctro , et Rege Fernando , et Regina Blanca , et Regina 
Dulcissa ad honorcm Dei , et Sancta Marine semper Ftrginis et 
omniítni Sanctormn Montem-M ajorem volumus populare. 

Foi Pclagio Peres o primeiro Alcaide Mor desta Villa ; 
c o Sfír. D. João , filho do Sfír. D. Fernando , Duque de 
Bragança , o seu primeiro Marquez (a). Os Condes de San- 
ta Cruz tbrão Alcaides Mores por mercê do Snr. D.João II. , 
feita ao seu Capitão de Ginetes , Fernão Martins Mascare- 
nhas, na Cidade do Porto a 8 do mez de Dezembro de 1483 
annos. O Snr. D. Manoel a unio para sempre á Coroa em 
Santarém a 4 do mez de Janeiro de 1498 {b) . 

Celebrarão Cortes nesta Villa os Senhores Reis D. 
Affonso V. , D. João II. , e D. Manoel no anno de 1497, 
em que se determinou a expedição da índia : este grande 
Monarcha lhe dêo novo Foral em Lisboa no dia 15' de Agos- 
to de 1503. O Snr. D.Sebastião a fez Notável , nas Cortes 
de Lisboa em ij de Fevereiro de 1563 , de que lhe pas- 
sou Carta a 20 de Março do mesmo anno. Tem voto em 
Cortes , e assento no quarto banco. 

ArtigoIII. 



Dos illustres Escriptores de Monte Mor o Novo (c) . 



D 



Affonso Furtado de Mendoça , Reitor da Universida- 
de , Bispo da Cidade da Guarda , de Coimbra , Braga e 
7om. V. B Lis- 

(<j) Este Martjuczado toi concedido por mercê do Snt. D. Aftonso V. 
ao Snr. D. João , (|ue também foi Condestavel deste Reino , e Senhor 
de muitas terras. Morreo em Castella , e está sepultado no Wosteiro do 
Carmo de Sevilha. Ant. de ViUasboas e Sampaio Nob. Port. cap. 8. DLir. 
Portug. tom. I. p.ig. 4P7. 

O') lintre os bellos pergaminhos da C.nmara de Monte Mot o Novo 
acha-se a Carta de Confirmação do Snr. Rei D. PeJro II. paraque es- 
ta Villa seja realenga , e náo se dè a pessoa alguma. 

(O Esta relação he deduzida alfabeticamente do Summ, da Biblioth, 
Lmit. 



10 Memoi^ias da Acadbmia Real 

Lisboa , escreveo Cotutituiçoes do Bispado da Guarda , e a sua 
Visita ad limina em lózy. Falleceo cm 1630 {a). 

Fr. Agostinho da Victoria , da Ordem de S. João de 
Deos, escreveo Translacion de S. Juan de Dios , Madrid 1667 
e 1674. Instruction de Novicios ^ Madrid 1668, em 8.° Ad- 
dicion a la vida de Fr. Juan Peccad, , Chron. da Religião. 

D. Álvaro da Conceição , Cruzio , escreveo Sermão de 
Udssa Senhora da Pureza y Lisboa 1686 , 4.° Falleceo em 
Coimbra cm 1728. 

Padre André Ferreira escreveo Memorias da Villa de 
Monte Mor o Novo, ms. em foi. Falleceo em 1633 (b). 

Fr. André Sobrinho, Graciano , Confessor do Duque 
D. Theodosio , escreveo de Casib, Couscieutia , ms. que es- 
tava no Convento da Graça de Lisboa. 

António Pinheiro Compoz Magnificat a varias vozes , 
que estava na Real Livraria da Musica. Falleceo cm 16 17. 

Btnto de Lemos, Jesuíta , enviado pela Companhia a 
Inglaterra , aonde foi por espaço de quatorzc annos Prega- 
dor da Rainha Dona (]atharina, converteo muitos hereges, 
e coadjuvou a conversão de Carlos II. , Rei de Inglaterra y 
a quem administrou o Sagrado Viatico na hora da morte. 
Recolheo-se a Portugal com a dita Rainha , e falleceo cm 
1700. 

Diogo Sobrinho foi com seu amo , o Embaixador de 
Portugal, ao Concilio de Trento, escreveu Itinerário do que 
succedeo nesta jornada , manuscripto que tinha seu filho aci- 
ma mencionado Fr. André Sobrinho. 

Fr. Diogo de S. Tiago , da Ordem de S. João de 
Deos , escreveo Postillas Religiosas , e Arte de Enfermeiros , 
Lisboa 1741 , 8.° Falleceo cm 1747. 

D. Fernando Martins Mascarenhas, Reitor da Univer- 
sidade, Inquisidor geral, e Bispo do Algarve, escreveo 

7ra- 

(íi) [3lzem alguns qae esre Vario illustre nascêr.\ em Lisboa. 

(£>) Seria cousa bem util ver igora est.is Memorias para se combinar 

11 decadência ou o augmento de Monte Mor i não pud': alcançar noticia 
alguma acerca deste manuscripto. 



fíAS SciEiTCiAs DE Lisboa. ii 

Tract. de auxiliis etc. Ulisip. 1604, Lugd. 16 14. Pro defeusi 
Imitucul. Concept. Epist. Hispal. 1616. Ojjicium S. Anton. Uli- 
sipon. Ulisip. 1623. Trnctado sobre vários weios para o remédio 
do Jiíílaismo, lózf , e varias obras ms. Falleceo cm 1628. 

Padre Francisco Barreto , Jesuita , Missionário do Ma- 
labar, donde veio por Procurador a Roma, e ahi publicou 
cm Italiano Relatione delia Provifxia di Malabar ^ Rom. 1645' , 
e sahio em Francez , Paris 1646. Foi eleito Bispo de Co- 
chim , c Arcebispo de Cranganor. 

Padre Jeronymo Rodrigues , Jesuíta^ Missionário na ín- 
dia , escreveo quatro Cartas sobre a Missão até 1570 , que sahí- 
rão nas collec. latinas. Doutrina Christã na língua Malaia (ji). 

Padre Ignacio de Carvalho , jeSuita , escreveo Compen- 
âium Lógica Coiiimbricens. Eborae , 4.^ Falleceo em 1682. 

Padre Ignacio Mascarenhas, Jesuíta, escreveo Relação 
d<i Jornada de Catalunha , Lisboa 1641. Jtisticia d^ElRei D. 
João ly, ^ Barcelona 1642. Oração exhortatoria aos fieis e pios 
Christãos ,\j\^\i. 165-6. Falleceo em 1669. 

João Baptista de Siqueira escreveo Antiguidades de Al- 
cácer do Sal , ms. 

S. João de Deos escreveo Cartas a differentes personas 
Madrid 1623 , 4°; c mais cinco que andao na sua vida. 
tallecco em ijfo {b). 

Fr. João da Cruz , Provincial dos Trinos , escreveo 

B ii Ser- 



(<i) Duvida-se da sua naturalidade j aíHrmáo alguns que nascera em 
Monforte. 

(/>) Este he 6 homem fain-iso , com que Monte Mvir o Novo se 
{>loria j o Sr^nde pai dos pobres, fundador da hospitalidade, fiasceo n.t 
rua Verde de<:ca Villa, aonde está hoje ediHcada a sua casa, em que ha- 
bitãp os Religiosos, que elle instituio. O virtuoso Andrc Cidade foi o 
seu progenitor, ignora-se o nome de sua mái ; seu prodigioso nascimen- 
to hc inculcado por Moreti no Dkc. Hiit. pai. Monte Mor o Novo, no 
dia 8 de M.irço de 1405 ; segundo a Chronica da sua n.eIigiáo aconte-* 
eco no dia 25. Passando á Hespanha o varão ditoso, la morreo no dia 
8 de Mirço de 1550. Os nossos Monarchas nas suas viagens por esta 
Villa tem o religioso costume de enrr.ir na Ermida do Santo , c beijar 
a sua teliquia. Sua Magestade ora Rein.-.nie, e sua Augusta Familla tam- 
bém ia praticarão este acto de grande devoção. 



j% Memorias da Academia Real 

Sermão na Ctwonização de S. Luiz Gonzaga.^ Lisboa 1721» 
Tract. de potest. et jiirisd. conservatorum. Falleceo em 1745'. 

Luiz Martins de Sousa Chichorro escreveo Psalmot 
de David cm verso heróico Porttig. e Latim. ms. 

Padre Manoel Banha Qi^iaresma escreveo Thesaur. resO' 
lut. ad leges mwticip. ordinal ion. Portug. Roms 1724 até 1727 , 
4 tom. tol. Falleceo cm 1726. 

Fr. Alanoel Caldeira , Provincial dos Gracianos , escre- 
veo Catalogo dos varões Hl us três da Ordem , ms. Duas Postil- 
las de Theologia , que estavao no Convento de Lisboa. Fal- 
leceo em 16Ó2. 

Fr. Manoel Coelho, da Ordem de S. Domingos , De- 
putado d 1 Conjcih 1 G^ral, escreveo Sermão nas Exéquias de 
ElRei Filippe L , Lisb. 1600, 4.°; Loci dijpci/es S, Script. , 
ms. foi.; De Potest. Papa:, ms. foi. Falleceo em 1622. 

Padre Paulo Mendes , Jesuita , escreveo Setas do Amor 
Divino f Évora 1678, 8.° Falleceo cm 1687. 

Artigo IV. 



Da população de Monte Mor o Novo ^ por espécies de in' 

dividitos. 

Èl. XOmens cazados -.-------- 1715 

Mulheres cazadas ---------- 1711 

Viúvos ------------- 207 

Viuvas ------------- 178 

. , ,.,,(■ homens 937 

{ ate 30 annos de idade -< ,, „ 

o , • 1 ^ l mulheres 8Ç7 

boltenos < 1 ^ ^ 

) , . f homens 464 

t de 50 annos para cima < ,, 

^ ^ ^ l mulheres 222 



Total geral 



6291 {a) 
Por 



(íj) Inc,ins;ivclmente trabalhei pata averiguar a população de Monto 
Mor o Novo, consultei por isso os Farochos , e esperei mais de seis 
mezes pelas respostas de alguns j í\z todo o género de combinação dos. 



áI3S 05 



• DAsSctENCrAS DE LiSEOA. IJ 

Por idades. 

Aré IO annos de idade --------- iipi 

De IO aré 20------------ 1298 

De 20 até 30 ------.->-- nój- 

De 30 até 40 --_--_-_--- 1194 

De 40 até j o ------__--- 810 

De 5-0 até 60 ----------- - 35-1 

De 60 até 80 ----------- - 369 

De 80 até 100 -..--»----- ij 

Cazamcntos no anno de 1814- - - - - - - 91 

Fogos no mesmo anno ---------2031 

A população de Monte Mor o Novo aeha-se em hum 
gráo muito abaixo daqiicllc , a que poderia ser elevada. 

Huma das causas , que mais consideravelmente con- 
corre para diminuir a população de Monte Mor o Novo , 
he a desigualdade , que se enconrra entre os proprietários 
e não proprietários. Huma grande parte dos prédios de Mon- 
te Mor o Novo , mui principalmente as herdades que são 
os mais importantes, pertencem a ricos Morgados, que vi- 
vem na Corte , ou nesta Villa ^ os quaes , não cultivando 
hum só palmo do terra,- utilisão tudo quanto a mesma pro- 
duz, ; daqui vem que esses grandes proprietários cobrem de 
miscria huma immensidade de homens, que pela sua situa- 
ção deixâo o estado conjugal. 

Cresce este mal com a pratica análoga , que se encontra 

ni'S , 

_ 1 

livros H.is Compaiiliias das Ordenanças com as' r.>l3çóes Parochlaes ; pare- 
ce-me por isso i]tie o resultado dos meus trabalhos he o mais apurado 
í certo. Não trato neste artigo da população por classes , porque fazen- 
do menção nos lufares competentes dos números respectivos a cada huma 
dellaí , julguei cjue não devia repetir o que o leitor ahi pôde ver : ad- 
virto também, que nessa toTal população são comprehcndidos iío mendi- 
gos do sexo masculino, e lOi do sexo feminino, igualmente fi expos- 
tos do sexo masculino , e 1 1 do sexo feminino. Lembro ao meu leitor 
que as quatro niulíieres canadas, que falcão para completar o numero dos 
homens cazaJos , estão fora do Termo de Monte Mor. 






14 Memorias da Academia Real 

nos cultivadores ; hum só homem occupa grandes planícies j 
vastas c extensas herdades , e cogita todos os dias para expul- 
sar de hum pequeno terreno o seu visinho , que bem o cultiva. 

Huma multidão de mendigos , que cm fervedouro cor- 
re a Villa e o Termo , não cogitando em outra cousa mais 
do que na abundância da fatia , faz também diminuir sen- 
sivelmente a população de Monte Mor o Novo. 

A mortandade de engeitados , como se verá no Map- 
pa , que unirei a esta Memoria , he mais hum fatal golpe 
na pcpulação. 

Aldm destas causas ha aqui huma mui sensivcl , que 
faz a perda da população por aquelle mesmo lado por on- 
de cila SC promove c augmenta. 

A falta de educação da mocidade da minha Pátria , de 
que faltarei no lugar competente , he a origem deste gran- 
de mal. O homem , que deve tudo á educação , como ben» 
advcrtio hum Philosopho da Antiguidade, sendo guiado sim- 
plesmente pelos dictames da natureza, propende sempre pa- 
ra o estado brutal, e não tem aquelle gráo de capricho so- 
cial , tão necessário no meio das acçóeá do mundo civiliza- 
do ; daqui vem que alguns mancebas levados ao estado Cí)n- 
jugal , sem vergonha nem pejo despre/ão suas mulheres , até 
jia proximidade dos dias das bodas ^ e desta sorte hum meio 
tão santo de promover a população , tornando-se em objecto 
de calamidade e desordem , faz diminuilk por aquelle mes- 
lao lado , por onde ella cresce e augmenta. 

Evitar estes ohstaculos será cousa bem proveitosa pa- 
ra a população de Monte Mor o Novo , esta empreza não 
he tão árdua, que não possa vencer-se : gozem muito em* 
bora os grandes proprietários dos prédios , que a fortuna 
lhes concedeo , porém para benefício da povonção repartão 
huma parte do seu dominio com aqucllcs que cuttivão : sc- 
jao muito embora os grandes proprietários scnhoics directos, 
rcnhão porem os cultivadores o donimio útil ; desta sorte 
o espaçoso ttircno , que serve só para manter o lustre de 

hum 



DAS SctENClAS OE LiSBOA. I^ 

hum homem , se tornará útil a muitos , e o vasto campo , 
em que se encontra huma só casa , e ás vezes nenhuma , te- 
rá muitos ca/.aes , que farão rápidos progressos na população. 
Igual remédio deve ser applicado aos lavradores ; seja 
vedada a estes a extensão de terrenos que não cultivão; ha- 
ja huma igualdade proporcionada com as forças na cultura 
das terras ; muitos edifícios niraes , que a avareza dos lavra- 
dores negociantes , e monopolistas tem privado do seu habi- 
tador , para os entregar aos ratos e ao tempo estragador , se- 
jão restituídos a hum casal , que cultiva o seu pedaço de terra. 
.... Laudato ingentia rura '. 
Exiguum colito. 

He expressão de Virgílio; Georg. II. 

Eis-aqui hum verdadeiro meio , que fará prosperar a 
população de Monte Mor o Novo. 

Para extinguir os mendigos nada mais he necessário 
do que renovar as saudáveis providencias , que nos forão dei- 
xadas pelo fífír. Rei D. Sebastião. 

Para crear os Engeitados , que tanta contemplação de- 
vem merecer, apontarei os remédios conducentes no lugar, 
em que hei de fallar desta matéria ; a educação da mocida- 
de vai ser desenvolvida no artigo seguinte. 

Artigo V. 

Da historia fysica e moral dos habitantes de Monte Mor o Novo. 

Estado fysica. 



O 



Homem de Monte Mor o Novo considerado na sua al- 
tura , configuração , ou estructura , em nada diíferc d' hum ou- 
tro homem Portuguez de qualquer Provinda ; porque nclic se 
encontra a variação d' altura e forças segundo a sua condição. 
A sua duração pequena diflFerença fará do resto dos 
outros homens, sendo certo que aqui se encontrão muitos 

avan- 



i6 MemoriasdaAcademiaReal 

avançados em idade , havendo entre estes de setenta c oi- 
tenta annos '. alguns sobrevivem a esta idade. 

As moléstias , que mais grassâo nesta terra , são febres 
intcimittentcs ; quasi todos os annos pelo estio chegão a 
atacar trcs quartas partes da população : parece ser esta mo- 
léstia a única , que tem o caracter de endémica. ^ Será ella 
devida a hum cano geral, que atravessando a Villa, decor- 
rendo para cUe todo o género de immundicia , c nao sen- 
do de boa corrente, pelo calor do estio, desenvolva mias- 
mas pútridos , que atacando o systema nervoso , o predis- 
ponháo para similhantes febres? ,; Ou acnso poder-se-ha attri- 
buir esta predisposição a miasmas desenvolvidos dospaúes, 
charcos , e agoas estagnadas , vistoque esta Villa he cingi- 
da de huma ribeira, a qual, aindaque quasi sempre corren- 
te , não deixa de dar occasiao a fermentações pútridas ? Sen- 
do por estas ou outras causas predispostos os indivíduos 
desta povoação , poderá considerar-se como causa occasio- 
nal para a desenvoluçao das mesmas febres a grande abun- 
doncia de fructas , de que goza esta povoação , das quacs 
se abusa frequentemente , comcndo-as prematuras e mal sa- 
zonadas ? Piírece ser esta huma delias , por isso que todas 
aquellas intermittentes são complicadas de vicio gástrico, 
cuja complicação sendo tirada, e corroborado depois o sys- 
tema nervoso, he quasi certa a cura; aindaque outras cau- 
sas occasionaes podem descobrir-se , como excessos de ca- 
lor encontrados com o uso de bebidas frias ou lugares frios. 
Algumas moléstias se desenvolvem neste povo proce- 
didas da norma de vida : os deboches , o excesso das bebi- 
das produzem em não poucos individuos hum cstadb de as- 
thenia , que os leva ao estado caquctico , e sugeita huma 
boa parte destes á hydropesia ascistis, de cuja moléstia tra- 
tados methodicamente sempre o resultado lie paliativo ; e 
decorrendo o tempo , por mais apropriado tratamento de 
que gozem , lhes provém a morte : similhantcmente se pro 
paga entre individuos dedicados a excessos venéreos a mo- 
léstia syphilitica , a qual por falta de policia e de moral , 

os 



' DAS SciEKCrAS DE LiSBOA. I7 

OS mancebos que a adquirem , sendo pela sua idade libidi- 
nosos , facilmente propagao sem horror j recebido assim es- 
te mal por pessoas desgraçadas , mercenárias , e que des- 
te trato vivem , por huma necessidade de subsistência o pro- 
longao , c os primeiros authores, que apenas cuidão no tra- 
tamento da moléstia quando são incommodados , logoque 
as sensações incommodas se modcrâo , continuão a semear 
o mal sem o evitar em si , donde resulta que huns por 
desordenados , e outros por necessidade fa/em o estabele- 
cimento chronico desta moléstia. 

Neste mesmo povo infelizmente grassa outra molés- 
tia chamada leucorlhca , em tal excesso , que delia se pode- 
rão considerar atacadas duzentas mulheres ; da historia desta 
moléstia não pôde conseguir-se facilmente hum conheci- 
mento de causa , por isso que ella ataca mulheres de todos 
os estados , e talvez se confunda muitas vezes esta fluxão 
com a moléstia , de que acima fallei em hum estado chro- 
nico , mas que o pudor ou reparação de credito farão in- 
culcar como porvenicntes de outra causa • entre tanto he 
digno de advertir-se , que esta moléstia ataca as pessoas mais 
morigeradas , e muitas vezes se tem querido attribuir á mul- 
tiplicidade de partos e desordens feitas depois destes , e 
outras vezes se tem attribuido ao demasiado uso do chá em 
pessoas de pouco alimento : a observação mais notável he 
encontrarem-se meninas , de sete até dez annos de idade , ata- 
cadas deste mesmo mal. 

As applicaçóes de medicamentos excogitados de todas 
as maneiras , já da classe dos nutrientes e mucilaginosos , 
já da classe dos tónicos c adstringentes , ferro , agoas fér- 
reas , banhos frios , mui pequeno resultado tem dado na 
cura desta moléstia j aindaque se modere por algum tem- 
po , raríssimas vezes se obtém a sua extincção. 

Seria para desejar, que os homens litteratos e mais aba- 
lisados na sciencia Medica inclinassem para aqui huma boa 
parte dos seus cuidados, a fim de illuminar a grande igno- 
rância , que a este respeito ha , do que resultaria para el- 
Tom. V. c les 



i8 Memorias da Academia Real 

les extraordinária gloria , e hum grande beneficio para a 
humanidade {a) . 

Estado moral. 

Com bastante magoa sou obrigado a descrever agora 
o estado moral do homem da minha Pátria ; eu sinto mui- 
to dizer certos verdades, porém insta o dever de cscriptor; 
as minhas reflexões serão agradecidas, quando, patenteadas 
á fjce do publico, obtiverem os remédios convenientes ás 
cntcrmidades ; eu exporei os Estabelecimentos e melhora- 
mentos , e se algum dia recahirem sobre a Pátria as mi- 
nhas lembranças , então me lisonjearei de lhe ter feito hum 
serviço tão importante. 

O principal quadro , que se me offerece , he a educa- 
ção dos mancebos, ea cultura das Sciencias ; estes ramos tão 
importantes estão em inteiro menoscabo em huma Villa no- 
tável e de consideração politica. 

Se Innço hum golpe de vista ao passado , e o levo até 
ao presente , observo então huma notável mudança ; os ve- 
lhos de Monte Mor o Novo cuidarão mais em cultivar o 
espirito dos seus descendentes , do que os modernos. 

Teve esta Villa em cutro tempo Aula publica de pri- 
meiras letras, tevc-as particulares , hum grande numero de me- 
ninos frequentavão estas Aulas, daqui sahião para o publi- 
co Gymnasio da lingua Latina; e habilitados assim, passa- 
rão i Cidade de Évora , e á Universidade de Coimbra , 
aonde aprendião as sciencias Ecclcsiasticas, Civis, c da Na- 

tu- 

(<^) Estas idóis devo eu a hum bom amigo professo na sciencia Me- 
dica , cujas luzes tem sido vantajosas a este povo. Por esta occasiáo de- 
vo notar , que os habitantes de Monrc Mor são .itacados do contaf;io daj 
bexigas , ijue muiio tem grassado nestes dias , cm que esrou escreven- 
do , e que podendo evitar-se pelo melo da Vaccina táo recommendada 
por rodas as Nações , arcgora não se tem d.ido hum só passo a esie 
respeito. Nãn se vio ainda neste povo vaccin.ir hum só individuo ; esta 
grande descobrinicnio i em vtz de defensores , tem aqui inimigos : seria 
jvua desejar, ijue se reprimisse de algum nioJo huma indocilidade , que ob- 
servo aqui contra a Vaccina , e que se fizesse excrcitAr este único pre- 
servativo d.íS bexigas. 



f 



UAS SciENCIAS DE L I S B O A. 19 

turcza. Teve Monte Mor o Novo muitos Doutores , que , 
honrando a sua Pátria , derão lustre ás Scicncias , e esten- 
derão o seu vasto campo (a) . 

Bem differcnte c mui calamitosa he a situação moral 
dos actuacs habitantes ; não ha huma Aula publica de pri- 
meira educação , os Mestres particulares , sem aptidão e ap- 
provação, contao mui poucos educandos ; o Professor de lin- 
goa Latina cm muitas estações não tem hum só ouvinte ; 
he para lamentar , que huma povoação notável , que conta 
no meio de huni Reino bem civilizado 6291 habitantes, 
oito Morgados opulentos {b) , e muitos proprietários e ho- 
mens ricos, não tenha actualmente hun^só oriundo, que 
frequente algum Gollegio , ou Universidade. Não tem Mon- 

c ii te 

(<'<) Alem dos homens illustres , de que fiz mençáo no Artigo III. 
desta Memotl.i , e de muiros outros , de que a sepultura não encobre o' 
nome , aind.i hoje existem egrei^ios e dignos varões da minha Pátria : 
hum João Ignacio da Fonseca Manso , Doutor cm Ciiiones , Deão da Sé 
de Leiria ; hum Gervásio Hyppolito de Vasconcellos Salema , Licenciado 
da mesma Faculdade , Inquisidor do Santo Officio da Cidade de Évora , e 
Thcsoureiro Mor da Sc da mesma Cidade * tem a esfera da probidade 
e da sciencia , que caracterisa os grandes génios ; hum Fr. Hetmogenes 
António da Conceição Ribeiro, Doutor na Sagrada Theologia , Freire da 
Otdem de S. Tiai;o de Palmella ; hum Fr. José Valentim Laboreiro, 
da Ordem de S. Jcronymo, Licenciado na mesma faculdade; Iium ]osé 
Xavier da Costa, Bacharel formado em Cânones, Freire da Ordem de 
S. Tiago de Palmella , Parocho de S. Romão do Sado , são Varões de 
todo o porte e sciencia , que tem honrado os seus Empregos ; os Ba- 
charéis formados em Leis Francisco Joaquim de Torres , famoso Advo- 
g.ido ói Casa da Supplicaçáo; ]osé Ferreira Cidade, que se tem empre- 
gado na Magistratura , honráo o Foto e a vara da justiça ; assimcomo 
o Licenciado da mesma FacuMade , António Manoel Laboreiro ; o Ba- 
charel formado João José Claudino Metejana , opnmo Advogado do Au- 
ditório de Monte Mor ; o Bacharel formado em Cânones , A:itonio Ma- 
ria de Castro , hum moço da maior probidade e sciencia , e o melhor 
Advogado na Cidade de Évora ; e o Bacharel formado em Leis , Ignacio 
Pedro Guião, muito sábio e recto Juiz de fora da Viila de Pcrtcl. 

(/>) Estes oito Morgados , residentes nesta Villa , icm avultadas ren- 
das, exceptuando hum, que apenas recebe annualmente KCOCj^oco, ou 
i:2COi^ooo réii , os rendimentos dos mais chegão a 6, 8, 10, 12, até 
i<; mil cruzados. 

* Aindique nasceo em Viinna do Aldntélo , foi todavia naturalizado dcid: 4 
mocid.ide em Monte Mor , noiule s;uj ill',i«t'ej Psis viverão. 



20 Memorias da Academia Real 

te Mor nestes dias hum só individuo dedicado ás Scicncias 
Ecclcsiasticas , Civis , e Naturaes. 

Entregue ao vicio e á preguiça observo eu a maior 
parte da mocidade da minha Fatna , calamidade , que he de- 
vida ao criminoso abandono dos chefes de familia ; daqui 
nascem os máos costumes , os péssimos usos , os frequen- 
tes jogos, os lupanares, e as intrigas, que sSo as insignias 
infalliveis do homem ocioso , e sem educação. 

He este o mais breve esboço , que sou obrigado a fa- 
zer como escriptor no meio do publico ; por elle poderá o 
meu leitor ajuizar, da situação moral dos habitantes de Mon- 
te Mor o Novo. ■' 

Neste lamentável estado do homem da minha Pátria 
he para desejar o remédio que impeça tanta ruina. O es- 
tabelecimento das Aulas publicas da prmieira educação, que 
recaia em pessoas dignas e hábeis , que a Villa não tem , 
será huin dos passos que concorrerá primeiramente para o 
melhoramento. Fará este o seu progresso quando a Comar- 
ca formar os Lyceos , e os Seminários de esclarecidos Pro- 
fessores , que ensinem as lingoas , artes, e sciencias j en- 
tão , fazendo-se desterrar dos mancebos o ócio e o vicio , 
se ligaráô os Pais á sua educação. Não veja então o pai 
seu fiiho no altar, celebrando o Sacrifício, semque tenha 
alcançado os grcindes conhecimentos Ecclesiasticos , que de- 
mandão tão alto e considerável emprego. Não possa então 
chegar o filho a certa idade , semque seu pai lhe tenha 
buscado o destino pelas sciencias , pelas artes liberacs ou 
mechanicas , pela agricultura, pelo serviço militar, ou ou- 
tra qualquer occupação : deste modo será destruido o mal , 
que a minha Pátria padece , e de que huma grande parte 
do Reino não está isenta. 

A nomeação do Ex.""" Siir. D. Fi. Joaquim de Santa 
Clara para Metropolita da Sé de Évora , he hum dos me- 
lhores presagios , que pode ter o lugar do meu nascimen- 
to. Este venerando interprete dos Oráculos sagrados não 
carece dos meus elogios ; e o seu nome , huma vez profe- 
ri- 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. ai 

rido , he bastante para fazer a apologia da sciencia e da 
virtude. Évora verá ainda dentro dos seus muros crigirem-se 
os Gymnasios ; e cntáo , desterrada a ignorância por todo 
o Arcebispado , o vicio e o ócio tomarão outra direcção. 
Hiima livraria vasta , monumento eterno do grande Cená- 
culo , rival das mais celebres que o Reino possue , deixa- 
rá de ser cousa inútil ; e augmentada pelo novo e respeitá- 
vel Prelado, levada a hum gráo de perfeito arranjo, fran- 
queada ao Publico , enriquecerá o espirito humano ; o edu- 
cando e mais o sábio Eborense terá então hum edifício pa- 
ra elle feito , em que a sua alma se poderá saciar. 



JlLi 



A T R I G o VI. 

Dos diversos impostos e tributos. 



íNtre os tributos de Monte Mor o Novo conta-se co- 
mo hum dos mais antigos o chamado Cizas ou Património 
Régio ; sahe das compras e vendas dos bens de raiz , cor- 
rentes , e caza do peixe {a). He regulado a lo por cento 
para os indivíduos não encabeçados , e na ametade daquel- 
la quantia para os encabeçados. Como o producto das com- 
pras e vendas nao dá huma somma necessária para fazer a 
totalidade do imposto , por isso he fintado o povo da Villa 
e Termo , rendeiros &c. , em cuja finta recahe huma par- 
te sobre a Villa, e duas sobre as Parochias ruraes {b). 

No anno de 1814 foi a totalidade do cabeção geral 
3'39S(í)756 reis, de que tem Sua Magestade o seguinte, 
( que se arrecada pelo Cofre da Comarca ) ; pelo singelo 
i'37i<í>77^ reis, pelo dobrado outra igual quantia, pe- 
la propina de cera 1-^^600 reis, pelo novo addicionamen- 

to 

(íil O producto da Ciza das correntes e casa do peixe he arrendado 
pela Camará no principio de cada hiim anno. 

( ^ ) O cabeção íjeral d.» Villa de Lavre pa^a desde tempos mui re- 
motos 7,^000 reis para o lançamento di finta de Monte Mor ; este re- 
conhecimento talvez SC possa deduzir da circunstancia apontada na no- 
ta (rt) pag. 6, 



2Z Memorias da Academia Real 

to 8o(í)ooo reis, que produzem a total somma de 2:2s7^i$6 
reis (a) . 

Ha tainbcm aqui dois impostos chamados Real d'agoa , 
e Subsidio Interario ; aquclle sahe das carnes talhadas nos 
açougues, e do vinho cozido, que se vende aquartilhado ; 
paga-sc hum real por cada hum arrátel de carne , e o mes- 
mo por cada Iiuma canada de vinho cozido , este sahe dos 
vinhos manifestados em mosto (Z»), das agoas ardentes, e 
vinagres, c paga-se por cada hum almudc de mosto i 2 rs. j 
do vinho verde , chamado vulgarmente de enforcado , 5 rs. ; 
d' agoa ardente 48 rs. ; e de vinagre 6 rs. 

Os mais consideráveis tributos desta povoação são as 
decimas ordinárias e extraordinárias de todos os prédios ur- 
banos e rústicos , das sommas de dinheiro a juro , das agen- 
cias ou maneios , é novos impostos , as decimas ordinárias 
de Confrarias e Irmandades , e mais do excesso que vai 
destas decimas á terça parte dos seus rendimentos ; quinto 
dos bens da Coroa ; decima ordinária da Casa da Misericór- 
dia , dos bens da Coroa, abatido o quinto, e decima ex- 
traordinária do commercio , lojas e casas publicas. 

Estes diversos tributos derão no anno em que escrevo 
a Memoria ()'.';A.2^6^y reis {c). 

Os Ecciesiasticos pagão também a decima respectiva 
ás suas côngruas , que no mesmo anno deo a somma de 
247(^)175' rs. , e o terço dos seus Benefícios, que foi arre- 
matado por 668<3Ç)ooo reis. 

Os bens do Concelho pagão a terça parte dos seus 

rcn- 



(^) Este pag.imenfo he fixo, e só altera para mais ou menos a pro- 
pina da cera , segundo o preço por que se vende cnda huma arroba na 
feira do S. João da Cidade de Évora. O excesso que vai da tot.ilidadc 
da finta ao que recebe Sua Magcsiade , serve p.ira salário do Juiz, Es- 
crivão do Lançamento 5 Escrivão das Cizas , Pintores, Recebedor, Al- 
caide , concerto de estradas , e ordenados dos Médicos. 

( /> ) O Lavrador he obrigado a manifestar a producçáo da sua colKei- 
ti em mosto , em cada huma somma de 100 almudes faz-se o abate de 
ao para quebras. 

(f) Esta totaliríade entra no Erário Rcgio pelo Cofre da Comarca, 
tem algumas qucijris , r.ne Jlie fazem pequena diminuição , assimcomo 
as quantidades, que sahem para cobradores, remessas, &c. 



L 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 23 

rendimentos , que no anno acima referido deo a somma 
de 5-09(^168 rs. ; pagão mais aos Médicos da Universida- 
de de Coimbra 5-8(^310 rs. • e ao Secretario do Desembar- 
go do Paço 3 2 (í) 100 féis. 

O pagamento da Terça durou até ao anno de 1806 ; 
deste tempo em diante se accrescentou outra igual Terça , ap- 
plicada por Ordem Regia para estradas, calçadas, e pon- 
tes , de cuja applicaçao foi ultimamente tirada para as dcs- 
pczas do Estado (a). 

Ha aqui também hum tributo particular applicado pa- 
ra o reparo das calçadas desta Villa ; sahc de todas as gal- 
leras , calcças, carros, c carretas, que são de fora do Ter- 
mo , e transitãõ por estes sítios ; este tributo he arrenda- 
do pela Camará no principio de cada hum anno , e o ar- 
rematante rcm o direito de receber por :ada huma gallera 
80 rs. , calcça 40 rs. , carro ou carreta 40 reis. 

O novíssimo tributo applicado para as despezas do Es- 
tado he a imposição do SjIIo dos papeis públicos , dos 
quaes se satisfaz a quantidade taixada pela Lei ; tendo nesta 
Villa simplesmente o uso de 10 rs. até 40 rs. por cada meia 
folha de pajíel. 

Artigo VIL 



H, 



Dos estabelecimentos de Monte Mor o Novo. 
Ecclesiastkos Seculares ^ e Regulares. 



.Um Vigário da Vara , Juiz dos Rcsiduos , he a Autho- 
ridade Ecclesia>tica de jMonte Mor o Noví) {b). Tem hum 
Promotor , Escrivão , e Meirinho ; a sua jurisdicçao cstcnde-se 
até á Villa de Lavre. Nos 

C .' ) Da terça parte dos rendimentos do Concelho, única <jiie hoje 
lhe pertence , sáo >,atIsfeitos os ordenados do Ministro , Escrivão da Ca- 
mará , Continuo, Alcaide, Escrivão d.is armas, Carcereiro*, e Relojoei- 
ro, afém das decimas; para o i^ue não chegando esta terça parte, tem 
por isso o Concelho hum avultado empenho. 

( /' ") Exerce actualmente este emprego o Reverendo Daniel Agosti- 
nho Perdigão , Clérigo respeitável. 



44 Memorias da Academia Real 

Nos limites da Jurisdicçao Ecclesiastica estão eonsti- 
tuidjs 4 Parochias da Villa , e 12 ruraes. 

A primeira e mais antiga he a Parochia chamada de 
Nossa Senhora da Villa (a): seguefn-se a Igreja chamada 
Nossa Senhora do Bispo, que he a Matriz {l/)-^ S. João 
Baptista (r), e S. Tiago do Castello (d). 
As 

(rt) Ests Igrcia Paroclii.U foi fundada em 1231; por Domingos Pcla- 
gio , descendcnie do novo povoador Pclagio. Ciianiou-se Nossa Senhora 
da Villa , por ser a tutelar e titular da primeira Igreja , tjue se fundou 
depois de conquistada a Villa pelos Christáos. Também se lhe dco o ti- 
tulo de Nossa Senhora dos Milagres pela sua Imagem , ou dos Açou- 
gues , porque estavâo próximos a esta Igreja. He sagrada , c tem Comenda 
intuul aaa de Santa Maria dos Açougues , de que he Comendador Ge- 
rardo Wenceslio Braamcamp. Hum Reitor collado , seis beneficiados , e 
hum Sacristão compõem a sua CoUegiada : tem actualmente hum só Be- 
neficiado, e servem pelos mais cinco Economos. Esta Parochia, como já 
disse cm outro lugar, estava fundada dentro dos muros da antiga povoa- 
ção: na sua origem foi Matriz, e única; lioje só ss vèm as ruinas , rias 
qriaes ainda se conserva o monumento da sua fundação, que o meu bom 
amigo José António de Leão pouJc ler a todo o custo , da seguinte rtja- 
neir.i : j4d bonorem Seu Mari,c Perpetiix Fir^inis Genitricis Dni. Nri, Ihu. 
Cbri. fttndavit Ecdesia inistam Dnícus Pcla^ii ejiis pral/itus , qui procenit e pto- 
gcnic Pelagii .... snb era MCCLXXf^ií. Este monumento d' huma Igre- 
ja Parochial do principio da Monarchia , bem mereci.i ser tirado da ve- 
)'^a parede, que o pode sepultar nas ruinas, e guardado segundo as Leis 
da P.itria. 

(/>) A Parochia de >3ossa Senhora do Bispo foi fundada pelo Dio- 
cesano em 1500; chamou-se assim por pertencerem os dizimos da Igreja 
ao Bispo Diocesano de Évora , que foi elevado a Dignidade de Arce- 
bispo no Reinado do Snr. D. João III. , por isso conserva ainda hoje 
O nome antigo: o Exceilentissimo Arcebispo de Évora he o seu Prior, 
e cura o Arcediago da sexta. A sua Collegiada he composta de hum Rei- 
tor collado , oito Beneficiados , e hum Sacristão ; servem hoje oito Kco- 
riomoi. Onze Ermidas estão sngeitas á Igreja Matriz , Santo Andrc do 
Oiteiro , q:]e foi hospital de empestados, c ja existia pelos annos de 
151'^, Nossa Senhora da Visitação, Nossa Senhora da Luz, Nossa Se- 
nhora da Paz , S. Pedro , S. Sebastião , S. Lazaro , S. Simão , Nossa 
Senhora das Necessidades, Nossa Senhora da Penhi de França, eo CalvJrio. 

(c) A Igreja Parochial de S. João Baptista foi erecta cm Mestre-es- 
colado , sendo o primeiro Afl-bnso Annes , que também o foi da Sé de 
Évora: achava-se já fundada pelos annos de 1580. Tem dois Beneficia- 
dos, hum delles he Reitor, e hum Sacristão; estas Dignidades Ecdesias- 
ticas forão outr'ora apresentadas pelo Reitor da Companhia de Jesus , por 
annexaçáo feita á Universidade de Évora no anno de 1561 ; hoje esrâo 
35 suas renda.9 annexas ao CoUceio Real de Nobres da Cidade de Lisboa. 

(rf) Querem alguns que esci\ Patochi» pertencesse em outro tempo 



i 

* 



DÁS SctENCIAS DE L I S B O A. if 

As Parochias ruraes são as seguintes : S. Mattheus (a) , 
S. Tiago do Escoural (^) , S. Christovão , S. Romão, Nos- 
sa Senhora de Safira, Santo António das Vendas Novas (c), 
Santo Aleixo, S. Gens (d), S. Giraldo , Nossa Senhora da 
Purificação da Repreza (e) , Santa Sofia , e S. Brissos (/) . 
O governo de cada huma destas Igrejas he dirigido pelo 
seu respectivo Parocho, oU Cura rural , ajudado de hum Sa- 
cristão ; e só a Parochia de Nossa Senhora da Purificação da 
Repreza tem, além do Parocho, hum Coadjutor (g). 

Os estabelecimentos Regulares consistem em cinco Con- 
ventos , e hum Recolhimento situados na Villa , e dois no 
Campo. 

O CortVento de S. Francisco he o primeiro da Villa (h) : 
Tom. V. D se- 

á 0'Jem de S. Tiago : h.i noticia desta Igreja pelos annos de 1457^ 
O Snr. Cardeal Infante , Arcebispo de Lisboa , e Governador de Évora , 
apresentou nella l'tior no anno de 15^4. Forma a sua Collegi.idi hum 
Prior collado, c quatro Beneficiados. Tem actualrfiente hum Beneficiado , 
três Economos j e hum Sacristão. 

(/») Tem duas F.rmidas, que lhe são sugeitas , chamadas de S. Luiz, 
e de Santa Margarida. 

(/') As Ermidas do Snr, Jesus, de Nossa Senhora do Rosário, e de' 
S. Chriuováo pertencem á jurisdicção Ecciesiascica do Cura de S.Tia- 
go do Escoural. 

(f) He celebre pelo famoso Palácio, que nos seus limites mandou 
fundar o Siir. Rei O. João V. 

( d ) Tem duas Ermidas , que lhe sáo sugciras , chamadas de S. Tof- 
quato , e Videira. 

(f) Tem Commcnda da Ordem de S. Ti.igo , de que he Commenda» 
dor o Exccllentissiiiio Marquez de Alvito. 

(/) A Ermida de Nossa Senhora do Livramento está situada nos li- 
miies da Parochia de S. Brissos. Ha outra Ermida de S. Erancisco situa- 
da no Termo de Monte Mor , porem sugcir.i atj Parocho d.-i Ffeguezia , 
chamada Boa fé , que está fundada no Termo da Cidade de Évora , é 
tem Parochianos no Termo de Monte Mor , assimcomo a Parochia de 
S. Sebastião da Giesteira. 

(,? ) Além dos Ecdesiasticos empregados nas Igrejas da Villa , e ruraes ,• 
ha quatro Clérigos Presbyreros sem destino. 

(/') Este Convento, pertencente á mendicante e Seráfica Ordem de 
S. Francisco, foi fundado na Ermida de Nossa Senhora das Graças; ha 
noticia de viverem Religiosos neste Convento pelos annos de 14çí , o 
gue bem se deduz do depoimento das testemunhas inquiridas em Monce 
Wor o Novo no processo de santificação do Patriarcha S. João de Deos, 
He governada esta corporação Regular por hum Guardião , que tem dt- 



aó. Memorias DA Academia Real 

seguem-se os Conventos de Nossa Senhora da Saudação (a) , 
de S. Domingos (b) , de S.João deDeos(f), e de Nossa 
Senhora da Conceição (d). Ha também na Villa o Reco- 
lhimento chamado de Nossa Senhora da Luz (<?). 

Os 

b.iixo (J.i sua obediência itez Religiosos e três Leigos. Hâ tambein den- 
tro do Convinro a Ordem Terceira da Penitencia , ijue he rendosa. Tem 
o mesmo Convento o seu Padroeiro , toráo outr'ori os Condes de iian- 
t.i Cruz ; hc hoje o Exccllcntissiiiio Mari)uez de Lavradio. 

(<í) Este Mosteiro foi estabelecido pela Catta Regia de ijoz con- 
ce.iida a Don.i Mccia de Moura , viuva de I). Nuno de Castro , peio 
Snr. Rei D. Manoel , na qual aijuelle grande Monarcha lhe dá a facul- 
dade de fundar o Mosteiro , entrando no numero dos doze , que o Pa- 
pa lhe havia permittido nos seus Estados ; loi concluido no anno de 
151 í. As Religiosas deste Convento seguem o instituto de S. Domin- 
gos , a sua primeira Prelada foi a Madre Isabel Vaz , filha do Mosiei- 
ro de Jesus de Aveiro, huma das cinco fundidoras do Mosteiro de San- 
ta Anna da Cidade de Leiria. ( Maço de Cart. , c Provis. Regias da Ca- 
mará de Monte Mor o Novo pag. 158.) Tem csra corporação hum Vi- 
gário Religioso da Ordem de S. Domingos , huma Prioreza , a cuja obe- 
diência estão actualmente sugeitas onze Madres professas , e oito Seculares. 

(/') O Snr. Cardeal Infante conceJeo no anno de i55y , aos Frades 
de S. Domingos a tacuidade de tundar o Convento em hum canto do 
recio , na Ermida de Santo António pertericenie a certos confrades : a uti- 
lidade e proveito 'da Pé no exercício da pregação inherente ao habito de 
•S. Domingos , he a razão que dá o Snr. Cardeal para a concessão. Ma- 
ço citado pag. 2ç e í6. Compóe-sc actualmente toda a corporação de 
num Prior , e dois súbditos Religiosos , hum Presbytero e outro Leigo. 

(f ) S. João de í)eos , como disse em ou-ro Kignr, nasceo na rua Ver- 
de de Monte Mor o Novo , ahi se acha fundado o seu Convento , em 
que se lançou a primeira pedra no anno de 1607; formando naquelle si- 
tio hum oritorio o Ir. João Pcccador , e seu companheiro João Lopes 
Pinheiro; porém a solemne fundação começou no anno de 1625, f m que 
se conduzio a imagem do Santo para o lugar do seu nascimento , lançan- 
«^o ?. primeira pedra D. Prancisco de Mello, sobrinho de D. José de Mello, 
Arcebispo de Evon ; bepzeo este novo lugar o Bispo D. Fr. Diogo de 
S.Vicente. A corporação actual compóe-se de hum Prior, a quem está 
sugcito hum Religioso Presbytero e onze de Ordens menores. 

( íJ ) Este Convento, que se acha fundado em hum sitio elevado nos 
olivaes próximos á Villa , perrence aos Agostinlos Descalços ; pelos an- 
nos de 1671 consta que estes Religiosos, tendo vivido dentro da povoa- 
ção nos sitios chamados das Pedras negras das Pissarras , e na Ermi- 
da de S. Lazaro , passarão para a Ermida de Nossa Senhora da Concei- 
ção , cujo Convento se prin.ipiou em 29 de Maio de 1688. Tem actual- 
mente cinco Religiosos Presbyteros , dois Leigos, e hum Prior, que os 
governa. 

(f) Deo principio a este recolhimento huma Irroandide, ou Confra- 



DAS SciBNCtAS DE LiSBOA. tf 

Os Conventos ruraes são os de Santa Cruz de Rio 
Mourinho (<j) , e o retiro solitário dos Eremitas descalços 
de S. l^aulo de Nossa Senhora do Casteiio , ou das Covas 
de Montcforado ( í» ) . 

D ii Da 

• i II I' ■ 

ria constiiuid.1 no aiiiio de 1578 n.i Ermida de Nossa Senhora da Paz, 
aonde esteve por espaço de quatro annos : não satisfeitos os Confrades 
com este sitio pedirão i Camará de Monte Mor huma ponta do recio , 
junto ao largo chamado da porta do Sol , que sendo-lhes concedida de- 
pois de varias vestorias c audiências dos visinhos , obtivetáo ' a sua con- 
firmação dada por El Rei Filippe , pela Provisão expedida a 6 de Agos- 
to de 15U2. No anno 174: pertendeo huma Catharina do Nascimento, 
natural da Cidade de Evura , fundar naquellcs sitios hum Recolhimento; 
com este desejo passou á Cidade de Lisboa , aonde falleceo sem ver o 
fim aos seus trabalhos , que forão ultimados pela agencia do seu director 
ó Padre Francisco de Negreiros Alftiráo , que obteve no dia 27 de Ju- 
lho de 1749 o Alvará para se fundar o Recolhimento em hum terreno 
do recio > próximo á Ermida de Nossa Senhora da Luz. Pelo citado Al- 
vará ficarão sugeitas as Recolhidas ao Provedor da Misericórdia , hoje 
estão sugeitas ao Ordinário , a cuja obediência se ligarão desde o dia 
ti de Julho de 1780, sendo Arcebispo o Excellentissimo Cardeal Rege» 
dor D. João da Cunha. Seguem os estatutos do Real Convento do San- 
(iisimo Sacramento do Louriçai j podem ter ate trinta e três Recolhi- 
das , tem actualmente vinte e duas , que são governadas por huma Re- 
gente , CUJO cargo occupou primeiramente a Irmã Joanna Rita Custodia 
do Sacramento. Tem o seu Capelláo e Confessor. 

(/») Pertence este Convento aos Eremitas de S. Paulo; está situado 
na Parochia de S, Maitheus em huma cimpina raza , pro.vima ao rio cha- 
mado Mourinho , distante de Monte Mor huma boa legoa ao Sul. Ha 
hum dos Eretnitorios mais antigos da Ordem de S. Paulo , foi fundado 
por Mendo Gomes Seabra , que o dedicou á Santa Cruz ; foi confirma- 
do pelo Sãr. Rei D. Duarte no dia 10 de Julho de 1456. Este Mostei- 
ro está actualmente arruinado , não tem , ha niuitos tenipos , Religioso 
algum ; as suas rendas são applicadas para o Collegio de Coimbra dos 
Eremitas de S. Paulo. 

(/>) Este retiro está fundado na Parochia de S. Tiago do Escoural, 
distante huma legoa de Monte Mor pela parte do Sul ; foi primeiramen- 
te habitado em 1710 pelo respeitável Padre Balthasar da Encarnação da 
Villa de Serpa. No dia 11 de Fevereiro de 17:5 foi benta pelo Ordi- 
nário esta habitação. Os Eremitas congregados estão sugeitos ao Ordi- 
nário ; tem actualmente hum Prior , e onze Irmãos Súbditos- Ainda 
hoje existe a gruta do Padie Balthasar , e os escarpados rochedos e covas 
subrerraneas , em que viverío os primeiros Eremitas ; he hum sitio bello, 
agndavcl á vista cio Filosolo , e do observador , e por isso he frequen- 
tado dos viajantes de bom gosto. 

Tolas estas relações dos estabelecimentos Ecclesiasricos Seculares, 
e Regulares de Monte Mor o Novo são devidas simplesmente ao meu 



tS Memorias da Academia Rkal 

Da Administração publica , politica , e económica, 

O Senado da Gamara he o governo politico e econó- 
mico de Monte Mor o Novo: trcs Vereadores, e hum Es- 
crivão c Procurador compõem aquella assemblca , que he 
presidida pelo Doutor Juiz de Fora desta Villa. Ha também 
hum ChanccUer , a quem se entrega o Sello , que se põe 
nas Sentenças. Entre os doze Misteres do povo se elegem 
dois Procuradores , e hum Escrivão , que tem assento na 
Cimara simplesmente nas arrematações dos preços das car- 
nes , e no estabelecimento , ou reforma de alguma Postu- 
ra ( rt ) . 

Tem dois Avaliadores do Concelho, que também ser- 
vem no Juízo dos Orfáos , hum Thesoureiro , c hum Con- 
tinuo {b) . 

Per- 

iMbalho ; a maior p,irte dos l^arochos e Prelados lo.aes ij^nora ns insti- 
tuições e anciguidaJes das Farochias e Conventos que dirige , por isso 
julguei cousa util o breve esboço , que nesta «Memoria hço das origens 
Parochiaes e Conventuacs de Monte Mor o Novo. 

( .; ) Por esta occasiáo devo notar que a Camará de Monte Mor o 
Novo para formar as suas Leia economicai; tem dividido geralmente a po- 
voação em três partes, Villa , Vinhas , c Matos; em cada hum destes ii- 
tnites , que cila cem marcado 5 ha hum Rendeiro Coimeiro, que exerce 
a sua occupaçáo pelas l.cis Municipaes , ou Posturas , que lhe foráo consti- 
tuídas. Esra ultima collecçáo , que a Camira tem teito , he do anno de 
1787 , que compreheridc até aos dias da minha Memoria 106 Posturas , 
das quaes quatro se acháo suspensas no acto da Correição leita pelo 
Doutor José António de Leão , e huma revogada pela Camará. Seri.t 
cuusa impcrtinenie e até enfadonha encher esta Memoria com a collec- 
çáo das Posturas , por isso limito-me simplesmente a dizer , que ness.i 
collecçáo , que huma e muitas vczes tenho visto com individuação , se 
acháo bellissimas Leis Municip.ies tendentes á prosperidade de Monte Mot 
o Novo , todavia tem algumas , que necessitâo de correcção , e outras 
que e.-cigem huma absoluta abrogação. Como este Código não he mui 
tertil no objecto Agricultura , que faz a parte essencial da grandeza de 
Monte Mor o Novo , segundo observo pela repetida lição do mcsn.o , 
cr: para desejar huma nova collecçáo de Leis Municipaes tendentes a 
objecto tão importante. 

^(íi) A Camará de Monte Mor o Novo cem sens rendimentos consti- 
tuídos em lamosas herdades, segundo as informações, que obtive do ieu 
Escrivão, montão huns annos por outros a 1:500^000 e tantos reis. 



•; 



é/Jjr 



Oc 



DAS SciEKCIAS DE L I S B O A. 2^ 

Pertencem igualmente ao governo económico e Muni- 
cipal dois Almotacés, que a Camará elege de três em três 



mc- 



Huma das cousas mais bellas, que a Camará possue , sem o saber, 
he o seu Cartório; aqui se cnconcráo mui velhos e importantes perjjami- 
nhos , peças de todo o valor : cu tenho vi^to huma coilecçáo de 6^ 
destes titulos de Antiguidade , que o erudito José António de Leão tirou 
do desprezo , em que se achaváo , para os arranjar do muilo possível. 
Fará se conhecer a importância destes papeis antigos , ofFereço aos mtus 
Leitores o Índice de muitas matérias, que nelles se contem, que vem a 
ser : 

Privilegio dado pelo Snr. D. JoÃo I. aos besteiros de conto. 

Ciipitiilos de Cortes feitas pelo mesmo Senhor. ^ 

Capitulas offcrectdos no Snr, D. Duarte pela Filia de Monte Mor o Nov9 
nas Cortes de Évora , assii^nadas pelo mesmo A4onarcha. 

Capítulos respondidos nas Cortes da Cidade díi Guarda em 1465. 

Cortes do Síir. D. Afonso V. 

Capítulos de Cortes do mesmo Senhor. 

DcmnreaçSes do Termo de Monte Mor o Novo. 

Capítulos respondidos em Cortes de Lisboa e Évora. 

Respostas dadas pelo Siir. D. Ajfonso V. a doze Capítulos , que nas 
Cortes de S^wtarem se lhe of.rícerito. 

Capítulos respondidos pelo mesmo Snr. em Évora aos Procuradores do pO' 
vo de Monte Mor o Novo , que se queixavão do numero dos besteiros de 
KOnto. 

Determina^ío para se reduzirem a vinte os besteiros de conto. 

Cortes de Evnra no Reinado do Snr. D. Manoel. 

Foral que este mesmo Monarcha lhe dco. 

Carta de ConfirmacHo do Snr. D. Pedro II. paraque a Villa de Monte 
Mor o Novo seja realenga , e não se dê a pessoa alguma. 
Muitas outras cousas importantes contém os velhos pergaminhos do car- 
tono da Camará de Monte Mor. Tem além disto preciosas Provisões e 
Cartas Regi.is ori^iaaes , assignajjs pelo próprio punho dos nossos Césares , 
collcçáo respeitável e ds toda a importância para Monte \íor o Novo ; 
muitas delias deixáo ver a grande attençáo que aos nossos Monarchas sem* 
pre mereceo esta Vill.l , achando-se a cada passo Cartas Regias , em que 
se dão as melhores providencias para a fortificação de Monte Mor e para 
muitos outros objectos. 

Ninguém pódc duvidar , que a lição dos papeis antigos ttaz ao ho- 
mem muitas idéas de grande proveito e utilidade ; a combinação Dipio- 
riitica pela serie dos tempos fornece ao Politico as mais beltas observa- 
ções , com que pôde brindar a Pátria : muitas destas c mui vantajosas 
na ordem das cousas pôde formar o Critico e mais o Politico , tendo á 
vista 03 antigos papeis da Camará de Monte Mor. O Governo dos 
nossos Monarchas , a origem e antiguidade de muiio> estabelecimentos , 
os costumes dos povos , as suas máximas , os seus requerimentos , as de- 
cisões , as virtudes e os vicios dos tempos antigos , as Cortes , a sua con- 
corrência , 3 sua linguagem, as expressões dos povos, &c. &c. ; ludo isto 



30 Memorias da Academia Real 

niezes dos Vereadores passados, e dos indivíduos que estão 
constituídos no gráo de primeira nobreza da Villa. Tem es- 
tes dois Juizes hum Escrivão para executar as suas provi- 
dencias (<?). 

Civil , Criminal , e Órfãos, 

He governada a Villa de Monte Mor o Novo no Civil 
e Criminal por hum Juiz de fora , que também he Juiz dos 
Órfãos, Gizas e Direiros Reaes {b). A sua jurisdic^ao esren- 
de-se ás Villas de Lavre e Canha , no lançamento dw Cabeção. 

Os 

fornece cm abundância a lição i!os pergaminhos da Camará de Monte 
Mor : o homem observador entre as muitas máximas de grande lote 
encontra ahi por huma deducção bem tirada , que os povos se civilizarão 
mais e mais á proporção , que os Monarchas crescerão em authorídade e 
derribarão os pequenos thronos dos Senhores. 

Não cabe nos curtos limites de huma Memoria referir agora os 
factos e as providencias , que se encontrão nesse grande numero de pa- 
peis importantes, possuídos pela Camará de Monte Mor o Novo; esta 
emprcza , que seria árdua , enfadaria ao mesmo tempo o meu leitor : bas- 
ia simplesmente dizer, que o annuncio de alguns litulos dos louvados pa- 
peis , que tenho rclerido , mostra bem a sua grandeza e o gráo de uti- 
lidade , a que podião chegar , procurandose por hum meio Bem fácil o 
seu melhoramento. 

Pede a verdade que se diga, que os preciosos pergaminhos da Ca- 
mará de Monte Mor estão quasi em hum absoluto menoscr.bo : he mui 
natural ter cm pouco aquillo, em que se não conhece utilidade; por este 
motivo tem soífrido horrorosa catástrofe belíssimos manuscriptos , que aos 
Boticários e Cor.fcitciros tem sido levados pela mão avara do ignoran- 
te. Os papeis da Camará , avaliados em pouco, não tem aquclle resgu.irdo 
necessário para lhes evitar o estrago do tempo ; achâccse al^jns mui cor- 
comidos , e cheios de buracos , cu)a perda he sensível na continuação 
dos períodos. Seria para desejar, que estes pipeis fossem reduzidos i 
huma boa legenda , e que , entregues ás pessoas legitimamente encarre- 
gadas de a fa.£cr , ficasse a Cainara entiqneciJa com hnm pecnlio moral , 
que não he inferior ao que fysicamentc possue : deste níodo ella nos 
forneceria bellissimís luzes Je Antiguidade ; a Historia e mais a Politica 
lhe ficarião agradecidas por hum presente tão mimoso. 

(rt) Ha nesta Villa três açougues do Clero, Nobreza c Povo; huma 
das obrigações dos Almocacés he vigiar sobre o bom fornecimento do 
segundo : o primeiro e terceiro estão entregues ao cuidado dos EcclesiíS- 
ticoJ , c Procuradores do povo. 

(í) Foi o primeiro juiz de fora desta Villa o Doutor Francisco 
Dias pelos annos de içifi; tem actualmente este nobilíssimo c.irgo o 
Doutor Cypriano Justino da Costa, hum inoço de muita aptidão, ver- 
lado náo só nas sciencias positivas, roas também nas exactas e namrae? 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. ;t 

Os Officiáes que pertencem a este governo são os se^ 
guinres : hum Advogado do Auditório, que também hc Cu« 
rador geral dos Órfãos , três Tabeliães de notas , cinco do 
Judicial , hum Inquiridor , Distribuidor e Contador , hum 
Alcaide , hum Escrivão de armas , hum Porteiro , e hum 
Carcereiro. Dois Escrivães de Órfãos , dois Partidores , hum 
Escrivão de Cizas, outro de Decima, e seu Meirinho , e 
três Agentes de causas. 

Ha também no Termo quatorze Juizes de Vintena , al- 
guns dos quaes tem o seu Escrivão- 

Militar. 

O governo Militar de Monte Mor o Novo hè dirigi- 
do por hum Capitão Mor («), Sargento Mor, e seis Ca- 
pitães de Ordenanças , que na Villa e Termo tem as suas 
respectivas companhias. 

Ha também hum Capitão de Alilicias , que commanda 
a 4.' Companhia do Regimento da Cidade de Évora, for- 
mada nesta Villa. 

Da Instrticção publica , Medicina , e artes liberaes, 

Huma Aula Regia de Latinidade he o único estabele'» 
cimento litterario , que se encontra em Monte Mor o No- 
vo ; apenas cinco discípulos ouvem actualmente a lição do 
seu Professor. 

Não havendo nesta povoação hum Mestre publico e 
capaz de ensinar as primeiras letras e a Grammatica Portu- 
gue/a , bem fe pôde ajuisar do ma'o estado do estudante 
de Latinidade ; este desarranjo de educação bem merece 
ser attendido , elle exige graves providencias, que são de 
esperar de huma Junta de Sábios , incumbida deste objecto, 
e a quem devo a minha existência litteniria. 

Dois excellentcs Médicos formados na Universidade de 
Coimbra, partidistas da Camará, Misericórdia e Hospital, 

são 

(íí) Serve actualmsnre o Sargento Mor. 



ji Memorias DA Academia Real 

são os empregados para tratar das enfermidades do povo 
de Monte JVlor o Novo, cm cujo destino se achão tambcm 
trcs Cirurgiões («) , hum Sangrador, trcs Boticas, c nellas 
três Boticários , e três praticantes. 

As Artes liberaes são quasi desconhecidas em Monte 
Mor o Novo , apenas ha hum Pintor de curiosidade , oue 
seria hum portento , se o seu pincel fosse dirigido por hu- 
ma boa educação (i»), e dois Músicos. 

De Piedade. 

Tem Monte Mor o Novo duas famosas casas dedica- 
das ao bem do próximo desgraçado , as mais dignas do ho- 
mem Christão e social. A Santa Casa da Misericórdia (c)) 
e o Hospital Civil de Santo André {d) são os dois magni- 

fi. 

(íj) Além desces ha também dois Curandeiros com cartis de Ciruí- 
gióes , que vivem no campo , aonde exercem a sua arte. 

(i) Este moço, chamado Thomás da Maia Borges, tem sido d 
assombro de habilissimos Pintores , nasceu com bum génio raro para 
csr.i arte , porem o seu pincel iiifelizmente riâo poude passar de Monte 
Wor o Novo. 

(f) A Santa Casa da Misericórdia desta Villa foi fundada no anno 
de 1499 , sendo a de Lisboa fundada hum anno antes. Goza de grandes 
privilégios , tem hum respeitável Governo , composto de doze Irmãos di 
nobreza e povo , a <]ue chamáo Meza , que he presidida por hum Pro- 
vedor , cujo cargo exerceo em primeiro hignr Rui Mendes Gago; tem 
)ium Syndico , hum Secretario , e dois servos chamados do azul. Ha den- 
tro do ediScio huma belia Igreja , em cujo coro rezáo oito Capelláes 
presididos por hum Capelláo Mor; hum Sacristão, e dois Acolycos são 
os serventuários nas funções da Igreja. 

Como esta illustre Casa se dedica ao soccorro da humanidade , para 
bem a exercer tem dois Médicos partidistas, do que já fallei em outro 
lugar , dois Cirurgiões , hum Sangrador , e huma Botica próxima ao sea 
edifício. 

O Compromisso da Santa Casa de Lisboa hc a mesma Lei , por or>- 
de se governa a Santa Casa da Misericórdia desta Villa. 

(W) O Hospital do Espirito Santo teve o seu principio no anno de 
IJ16. No anno de 1554 erigio-se huma Confraria em honra do Aposro- 
lo Santo Andté : foráo primeuos confrades D. Rui Gomes, Dona Magda- 
leiía , Pêro Esteves, e Dona Constança Domingues, sua mulher, os quacs 
dcráo as casas , com que se accrescentou o Hospiral , c dahi em diante 
íc chamou de Santo .-indiéi fizcio compromisso em \C de Junho do di- 



DAS SciENCIAS DE L I S B O A. 33 

ficos edifícios , que servem de apoio á humanidade afflicta. 
Como estas Casas sao de todo o respeito , ainda no cora- 
ção do homem bárbaro e cruel , devo dizer alguma cousa 
á cerca do seu governo , e do uso das suas rendas. 

He constante e sabido por todos os habitantes de Mon- 
te Mor o Novo , que a Santa Casa da Misericórdia desta 
Villa he huma das opulentas do Reino de Portugal j as 
suas rendas , segundo as intormaçóes que pude alcançar , 

Totn. V. E mon- 

to anuo , c nomearão primeiros Mordomos do Hospital a Miguel Domin- 
gues , Mercador, e Domingos de Araj:a. Aquelles Confrades , estes Mor- 
domos , c alguns mais que se seguirão , deixarão as £uas fazendas au 
Hospital. 

No anno de 151K principiou o Hospital de Santo André a ser admi- 
nistrado pela Misericórdia , em cuja administração esteve ate o anno de 
1531 , no qual passou para os Cónegos de S. João Evangelista, que a 
conservarão ate o anno de 1567, em que passou outra vez para a Mi- 
sericórdia, que novamente administrou o Hospital ate o anno de 1C77, 
cm cuja época entrou a Religião de S. João de Deos , a quem foi da- 
da em Cortes pelo Senhor D. Pedro II. a requerimento do povo de 
Monte Mor o Novo , em obsequio a S. ]oâo de Deos , Patrício desta 
Villa ; nesta administração se conserva actualmente. 

Do Compromisso da Confraria de Santo Andté consta ser obrigado o 
Hospital a curar os Confrades pobres , depois passou a curar os mendigos 
até o tempo da administração dos Cónegos de S. João Evangelista , 
hoje cura todos os pobres que se apresentáo , não sendo moradores desta 
Villa estabelecidos com família , a quem soccotre a Santa Casa da Mise- 
ricórdia ; cura também todos os Militares doentes aqui estacionados , ou 
transitantes. Tem duas enfermarias aonde se exerce este dever da huma- 
nidade , huma de homens de quarenta camas , e outra de mulheres de 
oito camas. O numero ordinário de enfermos diários calcula se de dez a 
doze. Tem outrosim huma roda de e.vipostos , cuja origem se ignora , po- 
rém sabe-se que não existia no tempo da administração dos Cónegos de 
S. João Evangelista, Ha também dentro do Hospital huma botica , que 
já existia no tempo daquelles Cónegos , e próximo ao mesmo esta nu- 
ma Casa de albergaria, em que se recolhem os mendigos , que he da mes- 
ma data. 

Hum Prior administrador, hum Capellão, hum Boticário, e cois Eit- 
fermeiros são os empregados eíFectivos no exercício das funções de hospi- 
talidade. Ha também hum Advogado e Escrivão do Hospital , dois Mé- 
dicos partidistas , dois Cirurgiões , hum Sangrador , e hum Barbeiro. 

Hum Cosinheiro , Almocreve , Moço de enfermaria , e Ama da to- 
da são os quatro servos do Hospital. 

Dentro do edeticio encontra-ss huma magnifica Igreja de abodeda. 
Esta relação he deduzida das informações do digno administrador Fr. José 
do Carmo e Sampaio. 



54 Memorias da Academia Real 

montão a dez e doze mil cruzados ; no anno em que es- 
crevo derão a somma de 4:380(2)027 reis. 

He para lamentar que de dia cm dia se tenha afrou- 
xado o governo desta Casa; sem mcthodo, e sem ordcra 
se cobrão annualmente avultadas rendas , e por este mes- 
mo gosto se despendem : muitos livros de receita e despe- 
za tem a Secretaria da Santa Casa da Misericórdia desta 
Villa , pori5ra não se encontra nelles huma tscripturação 
exacta , antes pelo contrario he tal a sua confusão , que 
com muita difficuldade e trabalho se pôde vir no conheci- 
mento dos devedores ; e quando estes são antigos , cresce 
cada vez mais a difficuldade. 

O uso dos rendimentos tem hum igual methodo no 
seu destino ; sem ordem e sem exame confusamente se ad- 
mitte todo o individuo ao curativo da Santa Casa da Mise- 
ricórdia, e desta sorte folga muitas vezes com os bens dos 
pobres aquelle que o não he. 

Neste estado de cousas he para desejar hum melho- 
ramento , que faça entrar no devido arranjo os reditos des- 
te bom estabclecim.ento ; hum edifício composto de boas en- 
fermarias , aonde se curassem as pessoas , a quem a Santa 
Casa costuma soccorrer , seria a meu ver hum melhoramen- 
to o mais plausível (a); desta sorte se evitaria» grandes 
males c desvios das rendas destinadas para os pobres (^), 
c o soccorro da Medicina , Cirurgia , e botica seria mais a 
tempo (c). 

Pas- 

(íj) As rendas da Santa Casa, como já disse, são de grande vulto, 
as dividas atrasadas são também de grande consideração , por isso era 
cousa mui fácil formar huma casa de enfermaria , para cujo exercicio 
tem Médicos , Cirurgiões , Sangradores , Boticário , Capelláes , e servos. 

(/>) Muitos doentes abusão dos reditos da Santa Casa, humas vezes 
sem necessidade recorrem ác]uelle soccorro, que sem escrúpulo, só com 
o pretexto mal entendido de fazer bem, lhes he dido francamente pelo 
informe do Mordomo ; outras vezes , não aproveitando o remédio do Me- 
dico , demorão a moléstia para gozar o diário sustento d' envolta com a 
familia assistente. Na repartição dos soccorros ha immensas cavilaçóes usa- 
das muito de propósito pelos servos; tudo isto se evitava com o estabe- 
lecimento indicado. 

(r) Esta verdade sahe aos olhos de todos, que conhecem ser mais 



DAS ScfENCiAs DE Lisboa. ^f 

Passo a fallar do outro estabelecimento , o Hospital Ci- 
vil de Santo Andrc. Os rendimentos desta boa casa , segun- 
do as informações que pude obter, são certos, e incertos; 
entre os primeiros contão se foros , juros , trigo , centeio , 
cevada , azeite , porcos , lenha e palha ; entre os contingen- 
tes entrão os reditos da botica , das sepulturas na Igreja e 
cemitério, os dinheiros que se achão aos enfermos, os pa- 
gamentos que muitos destes fazem , &c. &c. 

Como considero este objecto o mais importante , e por 
isso digno de toda a indagação e conhecimento , eu apre- 
sento aos meus leitores hum geral esboço da receita e des- 
peza feita no tempo do Administrador Carmo e Sampaio. 

Anno de i8ii. 
Receita Despeza Saldo 

2\o6^^y<;^ 2:010^)445: $9Í>1^^ 

Anno de 181 2. 
Receita Despeza Saldo 

1:984(2)000 i'.^6%^o^o ^5^95° 

Anno de 1813. 
Receita Despeza Saldo 

4:08^(^870 2:846(^320 i:24o^jr5'o 

Anno de 18 14. 

Receita Despeza Saldo 

3'S70^J7S 3:4)7(í)oio V-ii^ÒS^S 

E ii A N- 



fâcil visitar huma enfermaria, e dat-lhe os remédios a cempo , doque 
muicús enfermos separados. 



^6 JNIemorias da Academia Rbal 

'r 

•U 

A N N O DE iSry. 
Receita Despeza Saldo 

1:341^415- 461(^415 88i(í)ooo {a) 

lj . , - ' ' ■ • 

-. • Estes rendimentos náo tem sido empregados sempre 
com o cuidado e disvcHo actual ; o pobre e mui princi- 
palmente o exposto tem sido victima de huma prematura 
morte ; he testemunha iirclragavcl deste facto o mappa dos 
expostos, que entrarão no Hospital desde 1790 até 1814; 
custa a crer que uo decurso da quarta parte de lium secu* 
lo, entrando na roda 811 engeitados , sobrevivessem sim- 
plesmente 110, sendo sepultados 701^ 

Como esta matéria tão importante he ligada ao Hos- 
pital , oíFercço aqui aos meus leitores as relações , que a 
seu respeito pude alcançar. 

Em huma pequena casa dentro do Hospital de Santo 
André , aonde se acha a roda , em que se recebem os ex- 
postos , ha huma mulher com salário e ração paga pelos 
reditos do mesmo Hospital ; he do dever desta serva acei- 
tallos ou tirallos da roda, accallos , levallos ao Administra- 
dor para fazer o competente assento em hum Hvro com 
este destino, onde se dcclaia o dia (ia entrada , os signacs, 
e o vestido que trazião. O priíneiro passo que d4 o Ad- 
ministrador em beneficio d'>s expostos, he flizcllos bapti/ar 
na Igreja Matriz. , em que se despende 100 rs. ; tratq logo 
de procurar ama de leite para os crear, e em quanto a não 
acha , são nutridos os engeitados com certas papas , que lhes 
faz a serva ; succedendo muitas vezes não se achar ama , e 

ser 

(<j) Para dar hum cUro conhecimento de todas as minh.is averigua- 
ções acerca dcte assumpto , devt> advertir, t)ue exisrcm em deposito )udi- 
cinl 68í'jj>4CO reis , de cjue iC não fnz menção nas contas acim.i refe- 
ridas ; c ijue as sommas respectivas ao anno de 1815 só se entendem des- 
de o mez de Janeiro até Abril ; advirto também , que no saldo final de 
88i^^D rcjis ciitrãA l^d^iQO reis eiu mict,al. Akm destas somnias resta* 
rio também 2z8 alqueires de farinha , e Jy de cevada. 



dasSciengiasdeLisboa. 37 

ser por isso necçssarip recprrer i Vara (}a Justiça , sao le- 
vados neste meio tempo por algumas casas, aonde se tem 
noticia que haja mulheres com filiios de mama. 

Sendo achada a ama , recebe esta o cngeitado com q 
vestido necessário, que se reforma, e três pães de três quar- 
tas , e hum arrátel de assucar ; deste tempo em diante co- 
meça a vencer ordenado , que tem sido mui variulo y no 
anno de 175:3 forão foo rs. por mcz ; de 1753 até 1790, 
720 rs. ; deste tempo até 1798 , além do ordenado de 
7ZO rs. mensaes , estahelecco-sc hum premio de lOc^ooo rs. 
para cada ama , que desse o engeitado vivo e são no espa- 
ço de dois annos ; cincoenta e hum prémios despendeo o 
Hospital no espaço de oito annos (a). Nesta mesma épo- 
ca appareceo o fatal mcthodo de criar os engcitados a lei- 
te dtr cabras , destinando-se para esse fim huma casa em cer- 
ta herdade da administração do Hospital cm distancia de 
huma legoa , mandanJo-sc para esse sitio camas e mulhe- 
res 
s 

( rt ) As melhores lembranças <jue o phiUntropo cogirar para beneficie 
dos expostos, sempre hão de ceder ao plano dos prémios, dos privile- 
gias , c dJS honras ; o interesse he a mola real do género hum.Tno , de- 
ve por cila ser dirigida ; huns fazem consistir todo o seu uueresse no 
dinheiro , outros nas honraj ; estes dois meios bem applicados poJcm dar 
grindcs vaniassens não sò a bem dos expostos de Monte Mor o Novo , 
mas tambcm Jo Reino inteiro, eu quereria pois que as rendas destina- 
das par.i líio bellos estabelecimentos fossem divididas em algumas quan- 
ti.i.i.ics para se constituírem prémios as amas , que apresentassem os en- 
|;cit4dos vivos e s^ios em certas idades ; eu desejaria ver realmenre pre- 
miados com certas isenções irrevogáveis os mardos daqucllas mulheres, 
que tivessem crndo e apresentado em determinada idade hum certo nu- 
mero de enfeitados , eu desejaria ver premiado com algum habito das 
Ordens Militares o nobre , que certificasse ter criado á sua custa hunj 
numero de engcitados , podendo este premio ser levado a maior graça , 
conforme o au^mento do numero, j Quanto não lucraria o Estado conce- 
dendo , por exemplo, o foto de Fidalgo a hum rico negociante, que o 
ambiciona, qinn lo este apresentasse hum papel authcntico , que certifi- 
casse ter criado pelas suas rendas e fundos hum avultado numero de en- . 
gcitados ; liste serviço não seria inferior ao que se faz em huma bata- 
lha ; porque esta nio se dá sem gente, e he mais fácil disciplinar o Sol- 
dado, do «jue criallo desde a sua infância; desta sorte liberalisando o Es- 
tado .1 honra , a quem a merece , lucraria diariamente novos sustentáculos 
e apoios pelo augmento da população e agricultura. 



^?! MbmoíiasdaAcaí>emiaReal 

res a fim <.Ie trabalharem nesta ideada officina , cujos resul- 
tados forão as continuadas golpclhad is de cngeitados des- 
graçadamente mortos , de cujo facto sendo testemunha oc- 
cular , ainda hoje me horrorizo. 

O famoso e sempre vantajoso plano dos prémios foi 
suspenso no anno de 1799, augmcntando-se o ordenado 
mensal, que principiou a ser de 1000 rs. ; em Agosto de 
1813 subio a i5'oo rs. nos primeiros seis mezcs da cricção , 
e dahi até á idade de 7 annos conservou-se o ordenado de 
1000 reis. 

A criação dos engoitados teve outr'ora certas regula- 
ções feitas em seu beneficio, de que apenas hoje ha os ves- 
tígios de memoria ; hum Diploma Régio de 10 de Julho de 
1546 determinava que metade do numero , que excedesse 
TO, fosse criado á custa do Concelho; huma Provisão do 
Exccilentissimo Arcebispo de Évora de 19 dejulho de 1696 
mandava que o esmoler desse annualmente 6o(f)ooo rs. pa- 
ra ajudar a criação dos engeitados ; hoje porém não se ve- 
fificão aquellas graças , sendo as dcspezas feitas só pelo 
Hospital. 

Tenho exposto alguns factos mais óbvios sobre hum 
assumpto tao importante , vou agora lembrar alguns meios 
de melhoramento. Era necessário que o Hospital tivesse na, 
casa da roda huma ou duas amas de leite ; estas devião ser 
de boa saúde , abundantes de leite \ e paru não se secar , 
devião criar dois engeitados; os officios destas servas scrião 
dar de mamar aos expostos , em quanto o Administrador 
não achasse ama destinada para a criação. 

As amas devião apresentar os expostos mensalmente, 
quando recebessem o competente ordenado , assimcomo to- 
das as vezes que os mesmos expostos adoecessem ; deste 
modo se evitaria muito prejuízo , que tende a fazer mor- 
rer aquelles desgraçados , que pelas suas molestius e as das 
amas vão para a cova antes do tempo. 

Os engeitados desde o dia da sua apresentação de- 
vião ser vestidos de boas camizas , de bons coeiros , em 

vez 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. jp 

vez de trapos velhos , tirados das enfermarias dos corpos 
doentios. 

Seria óptima providencia nomear huma pessoa cap.iz 
para vigiar continuadamente na criação dos expostos. 

Voltando o fio do discurso ao Hospital de Santo An- 
dré , devo dizer, que tendo inculcado o arranjo de huma 
casa para curar os enfermos , a quem a Misericórdia costu- 
ma soccorrer , parece-me que este projecto seria vantajosa- 
mente executado, unindo aquelle Hospital á mesma Casa da 
Misericórdia , em cuja administração esteve outr'ora , como 
já disse ; accrescentadas as enfermarias , preparadas de todo 
o necessário, quanto podem as avultadas rendas destes dois 
estabelecimentos , constituída huma bem vigiada administra- 
ção , veríamos então este bello estabelecimento em huma 
Villa notável, e da primeira ordem, situada no coração da 
Província , poronde se encaminhão frequentemente as tro- 
pas , e os paizanos. 

Deste projecto, sendo executado, nasceriao muitas uti- 
lidades, grossas sommas deixarião de se gastar para se em- 
pregarem em beneficio dos pobres, doentes, e engeitados j 
os dois Médicos, os Cirurgiões, Sangradores, e Boticários, 
que recebem dois partidos de Misericórdia e Hospital , te- 
rião hum só proporcionado ao seu trabalho , e os servos da 
Santa Casa fariao serviço mais prompto e adequado. Estou 
persuadido que este projecto seria huma das portas de pros- 
peridade , que se abriria em Monte Mor o Novo. 

Da agricultura. 

Entre os estabelecimentos de Monte Mor o Novo tam- 
bém se conta hum tendente ao bem da Agricultura , a que 
se chama Superintendência de Caudelarias ; este cargo hc 
mui honroso , c por isso exercitado por pessoa da principal 
nobreza desta Villa j em virtude da Mercê Regia , tem seu 
Escrivão para fazer as diligencias, e execuções próprias do 
emprego. 

Es- 



snra oi 



40 Memorias da Academia Real 

Fstii administração caminha rodos os dias de mal pa- 
ra pcor , neniium cuidado ha cm manter a obrigação que 
os Lavradores tem de conservar boas egoas nas herdades , 
conforme se aciíão ligados pela Lei do Reino ; os Cavallci- 
los , cm vez de bons cavallos , que segundo o seu Regi- 
mento devem ter para a cobriçao das egoas , usao de pés- 
simos sendeiros, ou pequenos cavallos mal feitos, c cança- 
dos com o trabalho. Deste notável desleixamento provém 
dois grandes males , a falta de bons cavallos para a remon- 
ta do Exercito , e a das egoas para o exercício da lavoura. 

Alem do bem conhecido Regimento , que ha a este 
respeito , seria para desejar huma nova regulação adequada 
ás circumstancias actuaes. 

Ha outro estjbelccimento , que se dirige a beneficio 
da lavoura, denomidado ccllciro commum e deposito ge- 
ral. Foi instituído a requerimento dos Misteres e Procura- 
dores do povo desta Villa pelo Alvará de 6 de Maio de 
j6()^ , que lhe concedeo para seu fundo os quartos , que 
produzissem as terras de huma defesa chamada Adúa , de- 
terminando que para este fim se repartissem as ditas terras 
em courellas pelos singcleiros c pessoas do povo , que mais 
necessidade tivessem, e que se observasse o Regimento da- 
do para o celleiro commum da Cidade de Évora. Os acrés- 
cimos , com que devem entrar aquelles que recebem para a 
sua lavoura os géneros do celleiro , regulárão-sc em três al- 
queires por cada hum moio de pão. 

Não pude entrar no conhecimento do primeiro fundo 
deste bom estabelecimento , todavia posso asseverar , á vis- 
ta dos respectivos livros , que o celleiro commum chegou 
ater avultadissimas quantidades de pão, porém grandes por- 
ções vendidas humas vezes para obras de açougues , outras 
vezes para o arranjo das calçadas &c. &c. , forão diminuin- 
do de tal sorte este estabelecimento , que apenas conserva 
hoje trinta moios de pão. 

As pessoas empregadas no celleiro são cm primeiro lu- 
gar o Juiz de fora, que Iic o seu executor j o Juiz do cel- 

lei- 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 41 

leiro , que he o Vereador mais velho , a quem incumbe as- 
sistir ás entradas e sabidas do pão , hum Escrivão para la- 
vrar os termos necessários , c hum Thesourciro para guarda 
do deposito. Ao Corregedor da Comarca pertence tomar as 
contas do celleiro. 

Das fabricas f e artes mecânicas. 

Dentro da povoação ha huma fabrica de sola , que 
pertence á propriedade de António José da Rocha c Sousa , 
hum dos homens mais opulentos desta Villa. 

As pelles que se fabricão são as de boi , chibato , car- 
neiro , e cabrito ; usa-se para este fim dos seguintes géne- 
ros , cal , casca de sobro e carvalho , sumagrc , aroeira , fa- 
rellos, estrumes de pombo, de cão, pedra hume , caparoza , 
borras de azeite, sebo, manteiga de porco, farinha de tri- 
go espoada , e sal. Cortidas as pelles , sahem depois as se- 
guintes peças, a que chamão sola, vacca, bezerros, cordo- 
vões , carneiras , e pellicas brancas. 

As quantidades, que annualmentc se fabricão, são 800 
coiros de sola, 200 de vacca, 400 de bezerros, 1200 de 
cordovões , igual quantia de carneiras , e outras tantas pel- 
licas. 

Três mestres, quatro officiaes , e outros tantos serven- 
tes são os empregados no trabalho da fabrica. 

Os diversos géneros desta fabrica são extrahidos para 
a Capital do Reino, e para a Provincia do Alemtcjo ; pôde 
fabricar cinco vezes mais do que as quantidades acima men- 
cionadas , quando haja extracção («). 

Nos campos de Monte Mor , em pequena distancia des- 
ta Villa , nos sitios chamados da Ferras , ha outra fabrica 
Tom. V. . F des- 

(/») Estas relações forão transmittldas pelo dono da fabrica, que não 
ponde certificar-me a somma da extracção , nem o seu producto , porem 
eu posso asseverar em geral , que esta fabrica em alguns annos manufa- 
ctorisa mais avultadas porções cos diversos coitos , doque as acima men- 
cionadas ; posso também asseverar que esta fabrica , sendo mui provei- 
tosa ao publico , he também de conhecida utilidade para o pioprictâiio. 



\ „ 

42 Memorias da Academia Real 

destes géneros , destruída e arruinada , o que he para la- 
mentar ; porque estando fora da Villa , e em huma boa si- 
tuação , podia ser mui proveitosa , e de muita utilidade. EUa 
he susceptível de ser reedificada. 

Passando a fallar das artes mecânicas , offereço a rela- 
ção dos mestres , oíficiaes , e aprendizes empregados nas 
obras dos três Reinos da Natureza. 

No Reino Animal. 
Cortadores ---,----.----- % 

Fabricantes de cortumes de coiro. 
Mestres e officiaes ----------- 7 

Surradores. 
Mestre e officiaes --_---_---- t; 

Odreiro. 
Mestre -.-_____._.,__ x| 

Sapateiros. 
Mestres e officiaes --__--_---- 75- 
Aprendizes -----_*--.---_ 2y 

Selleiro. 
Mestre ----._--_«,_-- j 

Somhreireiro, 
Mestre --.-..-.-...-. i 

Cardadores de, la. 
Mestres --_-____._.___ t 

Cereeiros, 
Mestres ------.-,--_-- 1 

No 



i 



DAS Sci£NCIAS DE LiSbOA. 4S 

No Reino Vegetal. 

Serradores de madeira. 
Mestres- --------.__.. ■, 

Marcineiro. 
Mestre --------_____ i 

Carpinteiros de casas. 
Mestres e officiaes ---------- j? 

Aprendizes- ----.____..- ^ 

Carpinteiros de carretas. 

Mestres e oflSciaes ---------- n 

Aprendizes -----------__ ^ 

Moleiros de moinhos d'agoa - - - - - 30 

Padeiras ----------- jj 

Forneiros ----------- y 



Tecelões de panno de linho. 
Mestres ------------- 7 

Tecedeiras ---------- Z (à) 

No Reino Mineral. 

Ferreiros. 
Mestres e officiaes ---------- j> 

Aprendizes ------------ ^ 

Ferradores. 
Mestres e officiaes ---------- 6 

Aprendizes ------------ a 

F ii Ser- 

Q/;) Também tecem e fazem obras de lá. 



44 



Memorias da Academia Real 



Serralheiros. 
Mestres e officiaes -\. -------- 5- 

Aprendizes .--«._-_-,-- 2 

Cabouqueiros, 

Mestre __---__.-_--_ i 

Aprendiz ------------- i 

Calceteiro. 

Mestre ----___.----- i 

Fabricantes de cal ------- - 4 

Ditos de tejoUo e telha ------ y 

Pedreiros, 

Mestres e officiaes ----------20 

Aprendizes --__-^-,---- 4 

Olkiros. 
Mestres ------------- 7 

Aprendiz --<-----.---- l(«) 

Além destes ha outros diversos officios, como 

Alfaiates, 

Mestres e officiaes --------- -n 

Aprendizes ------------ 4 

Alhardeiros. 
Mestres ------------- 5- 

Bar- 

(a) AsOUarias, ou fabricas de louça de barro foráo outr'ora mui fa- 
mosís ; muitos escriptores Pottuguezes falláo deste assumpto , apontando 
como celebres certos púcaros de beber agoa ; os mesmos estrangeiros 
fazem menção djs OUarias como cousa digna de apreço, a La poterie de 
Montemor . . . . est fort estimée n diz de la Croix , Geog. mod. et «mV. 
tom. I. sect. 4. ^rt. 5. Hoje porém CStáo na decadência, em 4ue se achád 
as outras artes. 



tiTã. Cl 



DAS Sci£KCIAS DE LiSBOA. 



4J 



Barbeiros. 

Mestres -------------- i8 

Aprendizes _----_---.--- ^ 

Estalajadeiros ------ 4 

Todas estas artes mecânicas estão em hum atrazamcn- 
to incrível ; pôde sem exageração dizer-se , que não se en- 
contra hum só artista capaz de exercitar o seu ofEcio com 
primor. No meio desta crassa ignorância obscrva-sc huma 
filáucia tal , que o mestre de hum ou outro officio desde- 
nha sempre das obras de perfeição , que vê sahii; da Cor- 
te , ou d' algumas outras partes , não querendo jamais cor- 
rigir os seus erros pelos modellos , que se lhe oflFcreccm ; es- 
ta indocilidade , este ignorante orgulho he huma das causas 
da decadência das artes mecânicas em Monte Mor o Novo. 

Este mal he de fácil remédio ; para abater o mecânico 
orgulho , será óptima providencia introduzir na povoação 
bons officiacs , ou mandar aprender os mancebos nuquellas 
Cidades e Villas , aonde se ensina o primor das anes , li- 
gando-os depois a estabelecerem-se no lugar do seu nasci- 
mento. 

Artigo VIII. 

Das feiras publicas. 

Em Monte Mor o Novo duas feiras publicas , que se 
líãzem no seu recio no primeiro do mez de Maio, e no pri- 
meiro Domingo de Setembro de cada hum anno ; são com- 
postas de lojas de mercadores , de capella , de mercearia , 
quincalharia , chapelaria , sola , louças , diversas obras de 
palma do Algarve , &c. 

Vcnde-se nestas duas feiras muito gado de todas as 
espécies , vacum , lanígero , cabras , ovelhas , porcos , ca- 
vallos , mulas , e burros , sendo mui famosa a feira de Maio , 
pela abundância de bom gado vacum. 

Além 






^r 



4^ Memorias da Academia Real 

Além destas duas feiras ha outras, reguladas pelas Leis 
Municipaes , que impõem aos Lavradores e criadores a obri- 
gação de fazer feira no recio desta Villa com os porcos 
dos seus montados , em alguns dos dias de Santo André , 
Nossa Senhora da Conceição , e S. Thomé ; e a quacsquer 
outros indivíduos , que engordão porcos , em algum Domin- 
go ou dia Santo , não sendo dos acima referidos. 

Artigo IX. 

Da Agricultura de Monte Mor o Novo , e dos seus diversos 
ramos e producfões , etc. 



E. 



/Ste objecto o mais importante, e o primeiro da Nação 
Portugueza , que fecunda todos os outros ramos , e lhes dá a 
sua felicidade e prosperidade , este manancial de riqueza e fir- 
me esteio de grandeza faz a parte mais considerável e essen- 
cial da Villa de Monte Mor o Novo ; por isso devo apresen- 
tar aos meus leitores as averiguações e indagações , que , se- 
gundo o estado dos meus conhecimentos , pude fazer. 

Já indiquei em outro lugar a extensão do termo de Mon- 
te Mor o Novo , vou agora apresentar os diflFerentes obje- 
ctos agronómicos que nelle se encontrão : 779 farrejaes , 298 
herdades, 113 courellas e sesmarias , 545^ olivaes , 813 quin- 
tas e pomares , 42 vinhas constituem a principal grandeza 
e felicidade do povo de Monte Mor o Novo. 

Natureza e qualidade do terreno em geral : modo da cul- 
tura dos coutos. 

Deixando agora a verosímil opinião dos Filósofos , que 
nenhum terreno pode considerar-se estéril (/i), eu passo 

a 

(/») Tem observado os Chimicos que a certa simplesmente não pôde 
constituir por sua natureza a nutrição dos vegetaes ; que he necessário com- 
binar as matérias subscanciaes , que lhes dão o alimento , ou expo-la á 
influencia da atmosfera , que contém muitas daquellas matérias ; por este 
modo abanJonáo a divisão de esterilidade e fertilidade, e juigáo que todo 
O terreno o mais ingrato se fcriilisa com a industria. 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 47 

a referir brevemente o que encontro no terreno de Monte 
Mor o Novo ; este compóese por humas partes de terra 
preta, argilosa, vermelha e compacta, e por outras de ter- 
ia delgada e areenta. 

O terreno mais bem cultivado desta Villa he aquclla 
parte , a que chamao Coutos , ou porções de terra mais pró- 
xima á povoação : a sua cultura faz-se de dois modos , a 
^ue chamão serôdia e têmpora ; vcrefica-se a primeira , cor- 
tando a terra nos mezes de Janeiro , Fevereiro , e Março , 
semeando neste ultimo e depois , e gradando ; no seguinte 
armo vcrefica-se a segunda, semeando-se o alqueive feito, e 
lavrando-se. 

Os proprietários destes campos cuidao muito em os 
adubar já com os bardos das ovelhas , já com os estercos 
das cavalharices ; daqui vem que as melhores searas , que 
annualmeiite se colhem , sáo aquellas que produzem os far- 
rejaes dos Coutos. 

Herdades , sua cultura e tratamento. 

As herdades ou são de terra campa, ou de mato; hu- 
mas e outras tem a sua cultura dividida em folhas , que são 
de três e quatro annos nas primeiras, e de seis e sete nas 
segundas. As searas das herdades de terra campa são serô- 
dias ou têmporas ; pratica-se a cultura das primeiras na ter- 
ra forte , charruando-a no mez de Janeiro , Fevereiro , e Mar- 
ço , e logo semeando ; c na terra delgada , abrindo-a naquel- 
Jes mezes , depois cortando-a , semeando-a , e gradando-a (^i). 

As 

(**) Quando ns searas serôdias sáo de milho, costumão os bons La- 
vradores tazer o seguinte trabalho : hum mez antes de Abril e Maio char- 
ruáo as terras menos húmidas , e hum mez antes de S. João 3s terras 
mais húmidas , passando immediatamente a grada-las ; a este serviço ch:- 
máo abafar. LoRoque chegáo aquelles mezes, tornáo a charruar, semean- 
do e gradando immediatamente. Nasce o milho , cria algumas folhas , f..z 
o Lavrador o outro trabalho , a tjue se chama sacha , que he o mesmo 
<]ae huma cava feita com pequena enchada , diixando ficar cada huma 
planta na distancia conveniente para bem vegetar. Depois passa a butto 
trabalho, a que chamáo arrendar, ou chegar a cerra próxima ao milho. 



48 Memorias da Academia Real 

As tcniponls fabricao-se da seguinte maneira : no meZ 
de Janeiro e seguinte principia o Lavrador a alqueivar a 
folha , torna a cortar a terra no mcz de Maio , e nas pri- 
meiras agoas do mcz de Outubro e seguintes lavra e se- 
mea : no anno que se segue faz o mesmo á outra folha , 
lavrando e semeando de Outubro por diante o terreno da 
tolha passada , a que chamao relvas. 

As herdades de mato só admittem searas têmporas ; se 
exceptuarmos pequenas porções próximas ao Monte, (assim 
se chama á habitação do Lavrador ) cm que se observa a 
pratica dos coutos, a maior cultura reduz-se ao seguinte tra- 
balho: corta-se o mato, a que os homens do campo cha- 
mão roças , no mez de Maio , depois no mez de Agosto 
c seguintes abrazao-sc todas essas roças, sobre as cinzas do 
mato , e simultaneamente de muitas e importantes arvores 
criadas , e que vão a criar-se ; lança-se a semente e o ara- 
do nas primeiras agoas , que cahcm sobre a terra. 

Quem lançar hum golpe de vista sobre as minhas ave- 
riguações , dirá huma e muitas vezes , que Monte Mor o 
Novo, aonde se encontrão 298 herdades , (prédios os mais 
consideráveis ) podia fazer as delicias suas , communican- 
do-as a todo o Reino em abundância : não se preenche to- 
davia a esperança do observador; a pouca cultura, a inér- 
cia dos habitantes , a sua indocilidade , o immenso afinco 
ás suas opiniões fazem decahir tanto a povoação , quanto 
cila podia prosperar em beneficio seu e da Nação. 

As herdades , estes famosos prédios compostos das in- 
teressantes arvores de sobro e azinho, e de grandes terras, 

ca- 



de maneira que fjça hum monte á roda de cada planta. Isto mesmo se 
pratica nas searas dos grãos c feijjes , não Jevando o trabalho , a que 
chamáo arrendar. Os máos Lavradores charruáo huma só vez , semean- 
do e gradando mimediatamente , e dando huma só sacha ao milho , de- 
pois de nascido. 

Nos meloaes trabalha o Lavrador a terra do seguinte modo : no mez 
de Fevereiro e Março charrua e grada , em Abril e Maio torna a char- 
ruar, e logo corta a terra duas vezes com o arado , e depois semea c gta-, 
da. Nascida a planta , praríca o mesmo , que nos milharaes. 



I 



PAsSciENCiAS DE Lisboa. 49 

caminhão todos os dias para a sua ruina pela vergonhosa 
vereda do desprezo ; cu vejo huma grande parte dclJas tra- 
tadas do cavallaria , e que , podendo dar muitos moios de 
pão, nada mais produzem doque pastagens (a), que com 
o andar do tempo, em terra inculta, offcrecem menos van- 
tagem , do que sendo nascidas em hum terreno cultivado (b). 

Levando o mesmo golpe de vista aos montados , ob- 
servo huma grande parte sem alimpaçao alguma , rodeadas 
de mato as suas arvores : nao tendo a ellas chegado a po- 
dôa , o machado , o enchadao , e o arado , offcrecem áquel- 
les , que assim as tratao , a producção de que se fiizem di- 
gnos , em vez dos grandes fructos , que poderião colher. 

As carvoarias, arte que o inverno inventou, tem sido 
o mimo de muitos proprietários , que destruirão em hum 
só dia as arvores de muitos séculos , pelo sórdido interesse 
de poucos momentos. 

Não he a falta de legislação , que deixa correr este 
mal: alem das Leis do Código Nacional, tem Monte Mor 
o Novo bellissimas Posturas e constituições Municipaes , que 
rigorosamente pcrtenderão evitar tantos prejuízos ; nesse 
Código domestico e privativo de Monte Mor , de que já 
faltei em outro lugar , acha-se huma Postura , em que se 
prohibem as escavações das arvores , e os cortes peio pé , 
debaixo de gravíssimas penas , e dão-se muitas providencias 
sobre os fogos ; esta famosa Lei Municipal he devida ao 
cuidado e zello do immortal Varão , o Ex."'° D. Rodrigo 
de Sousa Coutinho , pela Ordem expedida ao Corregedor da 
Comarca de Évora no dia 6 de Maio de 1803. Todavia tan- 
Tom. F. G tos 

(/j) Quando leio em Plinio , que na Beócia e no Egypto produzia 
muitas vezes hum grão de trigo cem espigas , lamento ainda mais a fal- 
ta de cultura de muitas herdades , que priva a Nação de tão considerá- 
veis recursos. 

(6) Advirto neste lugar, que Monte Mor o Novo não tem prados 
artificiaes , porém não he cousa impraticável nos seus campos : aindjque 
o Alemtéjo he árido, todavia Monte Mor o Novo he huma daqucllas po- 
voações , que abunda de nascentes e fontes , que se podiáo aproveitar 
para o artencio dos prados , tendo para isso beliissimos sítios , onde a 
mio industriosa os poderia fazer. 



yo Memorias da Academia Real 

tos cuidados , tantos disvcUos pela Pátria tem sido mallo- 
grados ; a parte difficil da Lei ( a sua execução ) não tem 
sido satisfeita; no meio de tão bellas providencias trabalha 
impunemente o destruidor machado do hediondo carvoeiro, 
cerceando em hum dia , sem ordem nem escolha , immensi- 
dade de arvores , e reduzindo a planicies espessos monta- 
dos (a). Eis-aqui a deplorável situação de huma grande 
parte das herdades de Monte Mor o Novo. 

Olivaes. 

Levando o mesmo golpe de vista á cultura dos oli- 
raes , ramo de toda a importância desta Villa, observo mul- 
tiplicados deslcixos , encontrando apenas hum ou outro cul- 
tivador diligente ; vejo pela maior parte hum extenso arvo- 
redo cheio de mato , sem alimpaçao alguma tanto no ter- 
reno , como nas arvores ; corro com a vista a immensidade 
de olivaes, e não vejo actualmente hum tanchão , huma en- 
xertia nos zambujeiros para multiplicar tão importante arvo- 
redo (b) . A ferrugem, moléstia que ha muitos annos con- 
tagiosamente tem destruido os olivaes , apenas encontra os 
golpes de alguns proprietários ; a maior parte destes deixa 
crescer de dia em dia este ruinoso mal , menoscabando tan- 
tos 

(<í) Os Rendeiros ou Coimeiros , a quem incumbe fazer desviar mui- 
tos desces e outros males , que todos os dias carregáo sobre a Agricul- 
tura desta Vill.i , são, em vez de remédio, novos golpes, que augmen» 
tão a sua decadência e ruína ; aquelles homens , quando fazem o seu ajus- 
te e publica arrematação , contáo com o que recebem do Lavrador , e 
muitas vezes tem á vista hum mappa das quantidades dos géneros e di- 
nheiros , que annualmente sahem da lavoíra para estas novas aves de ra- 
pina , daqui vem o pouco ou nenhum exercício do Rendeiro na occupa- 
çáo de que está encariegado, e deste procedimento nascem dois grandes 
males: i.° entrar impunemente na seara alheia o gado daquelle que dá a 
espórtula certa i 2.° o grande tributo, que o Rendeiro impõe aos Lavrado- 
res. Era para desejar que em Monte Mor o Novo se puzesse simplesmen- 
te em pratica a Lei , em que se permitte a qualquer do povo encoimar 
com huma testemunha os gados , que achar fazendo damno no seu ptc» 
dio ; este meio era mais regular e conforme aos interesses da Lavoira. 

( {) ) O abandono dos gados pelos Coutos , aonde se acha a maior exi 
tensão dos olivaes , he huma das causas de»te mal. 



íTatf 



or 



I 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. fl 

tos remédios, produzidos pelas experiências de homens ob* 
servadores. 

Hum dos grandes prejuízos que observo nos olivaes , 
he o methodo de varejar , ou lançar abaixo a azeitona pa- 
ra ser apanhada ; vai acima da arvore hum homem de boas 
forças , e com hum páo ipui forte a castiga desapiedada- 
mente , lançando abaixo não só a azeitona , mas também 
muitos ramos e folhas , deixando a oliveira inteiramente 
nua e atormentada ; daqui vem a pouca ou nenhuma pro- 
ducçao dos olivaes no anno seguinte , e a triste nomen- 
clatura de atino de novidade ■, e de anno contrario. O melho- 
ramento deste ramo he a emenda dos males apontados , 
mui facii de ser praticada. 

Qíiintas j e pomares. 

Fez a natureza em Monte Mor o Novo hum paraizo , 
dando-lhe as mais bcllas quintas e pomares cheios de fer* 
tilissimas arvores , que , produzindo deliciosos fructos , pe- 
la sua abundância e variedade , regalâo e saboreao não só 
os seus habitantes , mas também muitos outros povos em 
huma grande parte do anno. 

Estes prédios dividemse em dois ramos, de espinho e 
de caroço; aquelles produzem bellissimas laranjas da china, 
doces e azedas, e otimos limões doces e. azedos (^); estes 
offerecem as mais bellas e abundantes variedades de fructas , 
como peras , maças , marmellos , ncsperas , figos , pecegos , 
ameixjs , ginjas, e nozes {b). K maior parte destes pré- 
dios he composta também de plantações de vinha, 

G ii Vi- 

(<») Ha no Termo de Monre Mor huma Aldeia , chamada de S. Tia- 
go do Escoural , e só cila he composta , pela maior parte , de abundan- 
tíssimos laranjaes , que não só regaláo os seus habitantes , mas também 
muitos povos , aonde são levados os seus fructos. Ahi se acháo , além das 
espécies acima ditas , toranjas , cidras , limas , e limões de Santa Hele- 
na : de todas as fructas de espinho , de que abiinJa este bello e agra- 
davel sitio, he preferível o limão doce, que pode dizer-se o melhor do 
Reino. 

C^) Todos estes fructos tem immensa variedade de vista, gosto e sa- 
bor ; aqui se encontra hum sem numero de espécies de bellisimas amei- 



f» Memorias da Academia Real 

J'lnhas. 

Não foi a natureza escassa em produzir este bel lo ra- 
mo p;!ra fazer a completa feliciJadc do homem de Monte 
Mor ; todavia elle he mais penojo do que proveitoso , pelo 
afinco , que os habitantes desta Villa tem ás opiniões dos 
seus avocngos. 

Ha dois modos de plantar a vinha , a que os proprie- 
tários desta fazenda chamao de velho, ou de acção; plan- 
tar a vinha de velho he deixar crescer e engrossar a vara, 
e depois formar hum perfeito circulo, a que os vinhateiros 
chamão velho , que descança em hum terreno em forma de 
caldeira, que se descobre com o trabalho chamado escava, 

e 

xas, acolá ainJa maior vaiieJade lie maçãs , deliciosos peros e peras tocáo 
por roda a parte os sentidos dos habitantes de Monte Mor , e aformoseáo 
as suas mv:/as. Duarte Nunes de Leão na sua obra intitulada Descrip^ão 
do Jíeino de Poriugal , primeira edição , fallando da excellencia dos Iru- 
ctos , diz assim no cap. ^^ pag. 6z : a Em Monte Mor as peras de pee 
n de perdiz pequenas no corpo , mas saborosíssimas. De codornos e de 
)i maimellos ha muita abastança .... de Monte Mor o Novo sae a enchen-» 
1 te dos peros de Rei , que he a mais nobre fruta , que todas as das 
D castas de maçãs, porque alem de virem, quando a outra fruta se aca- 
x ba , sani de suave cheiro e mui cordiaes , que se não dam em outra par* 
t te de Hespjnha : e por sua excellencia se chamao de Keis, » 

[-"osso asseverar aos meus leitores , que todo e qualquer elogio feito 
i minha Pátria , pela grandeza e variedade dos seus frucros , he inferior, 
elles excedem muito ao que a penna retere. No mcio dc^ta abundância ob- 
servo j.i aljjum dcílcixamento nos propnetarios destes bons prédios. Todo» 
sabím , que o arvoredo envelhece , e que na ordem vegetal ha hum canças» 
so iftiial ao que se observa no Reino animal ; por isso tendo Monte Mor 
onti'or.i abundantes fructos de certas arvores , hoje apenas tem algumas 
amçítras , por exemplo , das pereiras de Rei , d.is Flamengas , c de muita» 
outras , que o pouco cuidado tem deixado perder ; os proprietários vendo 
o seu pouco fructo , e não reparando que a idade dectepira he a causa 
diito , tem desprezado a plantação e enxertia daquellas arvores, que nos 
davjo tão saboioso^ c suaves pomos. 

Alem das arvores , de que tenho fallado , também se encontrão al- 
guns d'<niasqueiros , porem eiri menor abundância , algumas amoreiras ^ 
cuja arvore sendo tão importante e recomendável ptlo seu conhecido uso 
e utilicade , nenhum ciudaJo merece ao homem de Monte Mor. O ter- 
reno de 5. Tiago do Escoural he mui próprio e adequado para a plan- 
tação desças aivoces , e né he suecepiivst de admkrit a bananei». 



DAS SciENciAs DE Lisboa. yj 

e se cobre com a cava ; faz-se a vinha de acção deixando 
subir e engrossar a vide até formar hum bom tronco. 

Dada esta breve noção , devo advertir aos meus leito- 
res , que huma vinha plantada de velho exige sete vc/.es a 
mão do jornaleiro , que vem a ser , desempa , rebuça , esca- 
va , poda , esvcdiga , empa , c cava ; pelo contrario são bas- 
tantes os dois serviços da poda e cava no modo de plan- 
tar a vinha de acção. 

Apczar da grande vantagem deste segundo methodo ^ 
apenas se encontra em Monte Mor huma ou outra vinha 
desta arte plantada ; daqui vem , que o grande dispêndio não 
corresponde ás utilidades da vinha ^ e que o proprietário , 
quando não faz pelas suas mãos huma grande parte daquel- 
les penosos trabalhos , descmbolça mais dinheiro no amanho 
das vinhas, do que arrecada quando vende os seus vinhos. 

Este grande mal he devido á indocilidade dos habitan- 
tes , que de nenhum modo querem despegar-se das opiniões 
dos seus maiores, coadjuvando-as muito as sinistras persua- 
sões dos jorrtalciros para lhes faxer ver , que avinha planta- 
da de velho dura mais tempo, e produz mais Uva (a). 

Alguns homens prudentes , que tem a sua vinha plan- 
tada de acção, e que conhecem a sua grande utilidade, tem 
pertendido extender este bom methodo para bem do parti- 
cular e do publico , todavia elles não tem podido dobrar a 
dura cerviz de huma grande parte dos rústicos proprietá- 
rios , que mais depressa deixão perder as vinhas , doqiie 
adoptão as lições proveitosas (^). 
Pi- 

( <» ) Estas idéas , fomentadas pelos jotnaleiros , que tirão mais utilida- 
de dos gfandes trabalhos das vinhas, do que o proprietário , são inteira- 
mente falsas e opposcas á observação ; eu ter>ho visto vinhas plantadas 
de acção muito antigas , e produzirem ainda mais doque as vinh.is de velho. 
Supponhase por hum pouco , que a sua duração e producçáo he menor , 
; não fica isto muito bem compensado com a exclusão de tantos trabalhos, 
e de tantas dcspezas ! 

( ft ) Como o exemplo persuade mais ao homem de poucas luzes , tenho 
eu pertendido muítis vezes convencer por este moJo aos proprietários de 
vinhas da minha Pátria , fazendo-lhes ver, que as grandes vinhas do Doiro 
e Ribatejo são todas plantadas e formadas de acção ; os meus ttabalhos tem 
sido baldados , e a minha voz similhante áquella , que clamava no deserto. 



5*4 Memorias da Academia Real 

Diversidade de trabalhos , e preço dos trabalhadores. 

Os trabalhos principaes nos diversos ramos de lavou- 
ra , de que tenho fallado , são os seguintes , esmoitar ou 
limpar as terras ou os montados por baixo , em cujo tra- 
balho ganha hum jornaleiro o diário de 360 até 400 rs. ; 
desbastar as arvores, cortando- lhes os ramos inúteis e prc- 
judiciaes, neste trabalho ganha 480 até 600 rs. ; roçar e ar- 
rotear as terras 480 até 500 rs. Vem depois os trabalhos 
da sementeira de 400 até 440 rs. , de arrelvaçao de 300 até 
320 rs. , da cava dos milhos , mcloacs &c. de 400 até 480 rs, , 
da ceiía do pão de 600 até 800 rs. , da malha e debulha, 
de 400 até 480 rs. Estes trabalhos dizem respeito ás her- 
dades (rt) . 

Pelo que pertence ás vinhas , g^nha hum jornaleiro na 
desempa e rebuça 400 rs. , na escava 5'oo até 600 rs. , na 
poda e empa 480 até 500 rs. , na esvediga 400 rs. , na ca- 
va 600 até 650 rs. 

Nos olivaes pratica-se o trabalho de esmoitar e enter- 
reirar, em que o jornaleiro ganha 400 até 480 rs. , e o mes- 
mo no varejo da azeitona , em cujo apanho ganhão as mu- 
lheres, que fazem este trabalho, 200 até 140 rs. (í»). 

Estrumes, 

Os estrumes de que lança mão o Lavrador para adu- 
bar as suas terras são os animaes j os vcgetaes e os mixtos , 
que se considerão os mais úteis e abundantes, tem mui pou- 
co 

(o) Ha também outro trabalho, a que chamão monda , ou arranca 
das hervas nocivas, que nascem entre as searas, cujo trabalho feito pot 
mulheres, a lOO aré 1 6o reis permeio dia , não he igualmenrc praiicauo ; 
apenas se usa nos Coutos , e nas searas próximas ao monte ou casas do 
Lavrador. Nas quintas e pomares, aonde não ha vinhas, mas só arvore- 
do de truta, despende o proprietário com os trabalhos da escava e cava. 

(i) Todos estes jornacs são calculados de huns annos por outros, 
comendo o jornaleiro á sua custa. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. yj" 

CO USO nos campos de Monte Mor : o gado lanígero tão 
proveitoso ao Lavrador deixa com a morte na terra fria 
clieia de gelo o estrume , que com as camas de palha se 
podia augmentar e melhorar , evitando ao mesmo tempo a 
morte do utilissimo animal. 

Aparelhos ruraes. 

Os instrumentos ruraes , de que usa o Lavrador de Mon- 
te Mor o Novo no serviço da terra , são os que geralmen- 
te se conhecem. A charrua he hum dos mais perfeitos e 
úteis , de que o Lavrador lança mão para romper a terra , 
e fazer as suas sementeiras serôdias de tremez , milho , e 
meloaes. O arado he geralmente empregado nas lavras têm- 
poras ; aindaque este instrumento he susceptível de per- 
feição e artificio nas suas relhas e aivecas, para melhor rom- 
per a terra , e cançar menos o útil animal , todavia he su- 
perior a muitos que tenho visto em algumas Províncias. 
Usão também os Lavradores de outro instrumento , a que 
chamão grade , com dentes de ferro , para esmagar e des- 
fazer os torrões , e aplainar o terreno lavrado. 

De todos os aparelhos o mais próximo á perfeição he 
a carreta , em que o Lavrador conduz os géneros e pro- 
ducções da terra ; esta maquina rural excede muito aos car- 
ros , que tenho visto em algumas Províncias \ as suas ro- 

jdas maiores que as dos carros, e mais bem construídas , tem 
huma maior mobilidade , economisao as forças dos bois , e 

, fazem menor estrago nas estradas. 

Grãos j suas diversas espécies. 

Os diversos grãos , que geralmente se colhem nos cam- 
pos de Monte Mor o Novo com maior abundância , são os 
seguintes , trigo branco , anafil , galego , tremez , centeio , 
e cevada: são ainda de huma cultura mui diminuta o milho 
e arroz j os Lavradores antigos desprezarão inteiramente a 

in- 






yí Memorias da Academia Real 

intercssaiuc cultura destes géneros , e ainda hoje ha multo 
descuido, de maneira que a cultura deste segundo género 
reduz-sc a huma mera c\jriosidadc de hum ou outro Lavra- 
dor. Ha também varias semeaduras de grãos , de feijões de 
diversas espécies , de chicharos , favas , ervilhas , lentilhas , e 
tremoços. 

Podião os campos de Monte Mor produzir com mais 
abundância alguns géneros , que as outras Provindas culti- 
vão muito, como batatas, que, tendo hum uso tão provei- 
toso na casa do Lavrador, são quasi despresadas ; apenas se 
encontrão pequenas semeaduras feitas por curiosidade ; e ha 
poucos annos , que hum ou outro individuo lança á terra 
pequenas porções , em vez de muitos moios , que as outras 
Províncias semeão. 

Animaes , sua variedade e numero. 

Principiando pelo gado vacum , conta Monte Mor o 
Novo no exercício da lavoura 1566 bois, yy toiros, 1961 
vaccas, 583 bezerros e vítcllas; 8140 carneiros e ovelhas 
fazem a parte do gado lanígero ; tem 6890 cabras e chiba- 
tos , 4701 porcos e porcas (a), 34 cavallos , 106 egoas , 
28 potros, 6-j machos e mulas, 493 burros e burras. 

Estes diversos números de animaes levados á somma 
total dão 2462Ó cabeças, que os campos de Monte Mor 
annualmente sustentão (Z»). 

Posso asseverar, que as castas destes animaes são boas 
geralmente fallando ; o boi dos campos de Monte Mor he 
grande e formoso , e tem muitos dos requisitos e qualida- 
des , 

(rt) Os montados das herdades engordarão no anno de 1814, ^184 
cabeças de porcos; podem, segundo o arbítrio dos Lavradores, engordar 
huns annos por outros 2147 cabeças. 

(t) Esta relação he tirada das informações do» Juizes da Vintena. 
Tenho lido em alguns Cotograios Portuguezes , que os campos de Monte 
Mor o Novo sustentaváo outrVira mais de 4Oi|)00O cabeças de diversos 
gados, de cujo facto (sendo filho de averiguação) bem se deduz o quan- 
to tem diminuído este importante ramo da Lavouta. 



!i 



dasScie^jciasdeLisboa. 5*7 

dcs , que Culiimclla aponta para se dizer perfeito (a). O 
gado lanígero hc das boas castas que se encontrão no Rei- 
no , assimcomo as cabras e' as porcas ; multo inferior he 
a raça cavallar pelo máo regimen em que se acha a admi- 
nistração das caudelarias , de que já fallei em outro lugar. 

Mo/estias dos gados ^ suas curas e remédios. 

Fazendo meramente hum esboço mui geral deste as- 
sumpto devo dizer, que as moléstias dos gados devem ser 
apontadas entre os males mui fataes , que annualmente sof- 
fre a lavoura de Monte Mor o Novo ; eu tenho visto mor- 
rer cm poucos dias grandes porções de gado vacum ; em 
alguns annos perde o Lavrador huma grande parte , e ás 
vezes todo o rebanho do gado lanigero : de verão e inver- 
no eu vejo ás costas dos pastores hum sem numero de ove- 
lhas mortas ; as cabras e os porcos sofFrem também as suas 
enfermidades , porém não são atacados tão geralmente. 

As causas destas moléstias são muitas , entre ellas po- 
dem apontar-se o máo uso das agoas no verão , as humi- 
dadcs a que o gado fica exposto no inverno , e os pastos 
não bem sasonados , cem que se sustenta e ' nutre. Nesta 
matéria ha sem duvida muita ignorância e muito desleixa- 
L mento ; podiao os Lavradores ter agoas limpas , fontes e 
Bl tanques arranjados , e desta arte evitar muito prejuizo ; po- 
^Hdião conservar os gados em cabanas no tempo do inverno, 
^B fazendo-lhes camas de palha, como se pratica em muitas 
^^ partes , e aproveitar depois o estrume misto , mais útil , e 
I mais abundante : a tudo isto chamão esses homens rústicos 
theorias impraticáveis , que jamais podem verificar-se nos 
gmndes rebanhos ; porém he a sua ignorância e o seu des- 
Icixamcnto , que não lhes deixa enxergar huma verdade ma- 
nifesta 5 he a sua indocilidade e obstinação , que lhes tira 
o uso da razão para não conhecerem que he melhor con- 
Tom. V. \\ ser- 

I (rt) Lib. 6 cap. I de Re lust. 



^8 Memorias da Academia Rkal 

servar era cabanas huma menor porção de gado lanígero , 
que vive , que produz melhor , e utiliza tantas vezes a casa 
rústica , do que ter grandes rebanhos , que morrem expos- 
tos ao rigor do inverno , deixando apenas algum estrume 
na húmida terra , que lhes fez perder a vida. O monopó- 
lio das herdades deve também ser apontado entre as cau- 
sas das moléstias dos gados ; o desprezo da cultura da ter- 
ra faz produzir más pastagens , estas são devoradas muitas 
vezes pelos gados apenas suhem da terra , e por isso no 
meio da gordura dos gados observao-se mortíferas enfermi- 
dades. 

A Arte veterinária he inteiramente desconhecida nos 
campoe de Monte Mor ; apenas se encontra hum ou outro 
Empírico, ou Curandeiro, que tem o seu Cavaco^ e outros 
de igual lote , que lhe servem de guia na applicaçao dos 
remédios. 

Colmeias, 

Em outro tempo abundou Monte Mor o Novo deste 
artigo , ainda hoje tem em algumas Parochias ruraes boas 
e bem construídas silhas de colmeias , porém em geral en- 
contrão-se pequenas porções mui divididas. Segundo as in- 
formações que pude obter dos Curas , e dos Lavradores , 
podem regular-se ao todo em jyoo cortiços, cada hum dos 
quaes em huns annos por outros poderá produzir duas a três 
canadas de mel, sendo feita a cresta regularmente. 

Este mimo produzido no meio da lavoura bem mer.- 
ce ser levado ao gráo de augmento , em que se achava nos 
tempos antigos ; os campos de Monte Mor são mui belios 
para favorecerem este augmento, huma vez que se dester- 
re a perguiça inherente a este povo , a cuja moléstia he 
muito atreito. 

Caça e pesca. 

Como o Termo de Monte Mor o Novo he cheio de 
muitas herdades de mato , e terra campa , abunda por isso 

de 



^7.1'T or 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. 5"9 

de muita caça; a cada passo se encontrão perdizes, coelhos, 
lebres , alguns javalins , viados , e corças ; abunda também 
de perniciosos lobos, raposas, c outros animaes carnicei- 
ros. 

As ribeiras de Monte Mor, principalmente a chamada 
de Canha , tem abundância de bellissimos peixes , como bar- 
bos , bordallos , eirozes , bogas , e pardelhas. 

As sabias regulações que prohibem o uso da caça nos 
mezcs , em que a natureza se recreia em passar á posteridade 
a nova geração das aves e dos quadrúpedes silvestres , são 
inteiramente desprezadas nos campos de Monte Mor , he 
nesse tempo que o caçador mata maior numero de aves ; 
chamando os perdigões atraiçoadamente com o reclamo , 
deixa viuvas no campo immcnsas perdizes ; milhares de es- 
tratagemas praticão os caçadores para apanhar e matar os 
animaes nos seus dias mais deliciosos («) : os guardas dos 
gados destroem huma grande parte dos ninhciros das per- 
dizes, e de outras muitas aves, que chegao a vender al- 
gumas vezes na povoação. 

Tambcm a pesca soffre muitos abusos; a Camará des- 
ta Villa tem prohibido a pesca de redes em certos sitios 
da ribeira de Canha , e os Rendeiros coimeiros devem vigiar 
pela observância desta determinação ; todavia nada ha mais 
frequente do que a pesca de redes nesses sitios vedados. 
Pódc di^er-se que na pesca da ribeira de Canha ha também 
o seu monopólio ; certos homens na occasião em que o pei- 
xe vai a subir, fazem atravessar redes, e não deixão gozar 
os outros tanto do divertimento , como da utilidade da pes- 
ca. As cocadas na primavera he de todos o peor mal ; usão 
muitos desta depravada arte , que aonde ella se executa 
faz morrer todos os peixes. 



H 11 



Pro- 



(a) Tenlio observado no campo homens tão ardilosos nesta matéria, 
que sabem fazer certas chiadas, como os coelhos, para se ajtmtarem ; dei- 
te moJo maião muitos. 



6o Memoptas da Academia Real 

Produccoes dos diversos géneros. 

Para entrar no conhecimento ilas producçõcs dos diver- 
sos geacros de Agricultura, averiguei e examinei escrupu- 
losamente a arrecadação dos dizimos , que se faz mui varia- 
mente; porque ha aqui dízimos gcraes e particulares, que 
tem por isso diffcrentes airccadações ; fiz este exame res- 
pectivamente aos annos de 1813, e 1814, e o resultado 
dá a seguinte producção. 

No anno de 181 3, trigo de todas as espécies 11 3430 
alq. , centeio 39980 alq. , cevada 35685 alq. , milho gros- 
so e miúdo sí6° alq. , feijão 740 alq., favas 440 alq. j 
azeite 18146 alq., mosto ÍO737 almudes e meia canada. 

No anno de 1814, trigo 1 10960 alq., centeio 59430 
alq. , cevada 36155 alq. , milho 5080 alq. , feijão 1030 alq. , 
favas 6js alq- > azeite 1728 alq., mosto 20020 almudes (a). 

Processos dos productos da natureza. 

Hu4na das consideráveis perdas , que tem a Villa de 

Mon- 

(/í) Kstc computo he o mais exacto e próximo a verJacie ; não se- 
rá possivcl ach^r outro melhor; apenas ficáo fora do alcance aqiiclias 
pequenas porções , que não chegáo a cinco , e que por isso não sáo di- 
zimadas , a excepção do azeite , que rodo he dizimado , e por este mo- 
tivo o calculo acima referido pôde considerar-se ite huma verdade abso- 
soluca. 

As três porções de tri^o , centeio, e milho dão no anno de 181 5 
a somina toial de 15897O alqueires, e no anno de 1814 175470 alquei- 
res : ebtai quantidades não chegáo para o sustento dos habitantes ; a 
menor porção que pôde aqui arbitrar-se a cada individuo , geralmente 
fallando , he de ?o alqueires , porque o» homens de Monte Mor comem 
muno pão , que he o sustento precípuo dos habitantes do campo , cujas 
mezas abundão sempre dCítc género ; em muitos trabalhos os jornalei- 
ros só comem migas, e açordas, que he huma vianda composta de pão , 
azeite, e agoa ; eu tenho \isro os homens do campo comerem esta vian- 
da , misiurando-lhe ao mesmo rempo mais pão Dandose pois a cada 
ihdividiio 50 alqueires de pão, e sen<!o a população deójjji individuos, 
fie» evidenti- que não chega a producção para a população ; porque sen- 
do ind'spcn3aveis para esta 188750 alqueires das três espécies , pelassem- 
maS acima rcleridas vem a faltar para aquella 2^760 alqueires no anno 
de 1813, e 15260 no anno de 1814. 



DAàSciENciAS DE Lisboa. 6i 

Monte Mor o Novn , e lhe faz diminuir muitos gráos da 
sua prosperidade, de que cila muito bem podia gozar, he 
a ignorância , c mais o desprc/.o e dcsleixamento dos ha- 
bitantes acerca da manipulação dos productos da natureza. 

Nas aceifas , malhas , e debulhas do trigo , centeio , 
cevada &c. pratica-se aqui a penoso trabalho , que se ob- 
serva cm todo o Remo , com a diíFerença que nos calca- 
douros para debulhar o trigo usao os Lavradores , pela gran- 
de falta de cgoas , de vaccas c novilhos, que, não fazen- 
do tão prompto serviço como as cgoas, arruinão-se facil- 
mente com grave prejuízo da lavoura, que parece ter des- 
tinado as vaccas para produzir , e os novilhos para o ara- 
do. 

Paliando do fabrico do vinho , e do azeite , pódc di- 
zcr-se , como em provérbio , boa uva , boa azeitona , porém 
máo vinho, e niáo azeite (a). Esta bella povoação tem al- 
gum vinho e azeite digno da meza escolhida , porém os 
cuidados particulares , e o arranjo de alguns proprietários 
não desfazem a regra quasi geralmente adoptada ; as maqui- 
nas , cm que se faz o processo daquelles productos , são 
mal coiistiuidas , e as pessoas empregadas neste serviço sa- 
bem muito pouco para o exercitarem. Colhida a uva , mui- 
ta'; vezes verde, e mal sasonada, he lançada indistinctamcn- 
te na lagariça , e ahi mal espremida deixa cahir para a dor- 
na a primeira agoa , ficando na pelle o melhor sueco, que 
torna o vinho mais forte , mais durador e bello ; he então 
conduzido o mosto em coiros para lugares distantes , e ahi 
se lança em grandes vasos de barro , ou talhas. Deste pe- 
queno esboço já se vê, quão defeituoso he hum tal proces- 
so , e quão útil seria a sua emenda. 

Deste péssimo modo de fazer vinho succede , que os 

ha- 



C'0 Pela liçlo dos escriptores observa-se , que esta Villa teve outrora 
niiiito bom azeite. Du.irte Nunes de Leão no cap, 25 pag 4j) •jír. , fallan- 
Jo .iccrca deste género diz : ci F.m bondade e sabor o de Évora , Alvi- 
I to , Torres novas , Monte mor o novo , donde se soia levar para as 
1 cozinhas dos Reis. * 



6t Mfmorias nA Academia Rkal 

habitantes de Monte Mor não gozao da bella planta que 
o produz , podendo ter na sna torra o vinho igual ácjuelle 
que os homens mais ricos comprâo fora destes sitios , para 
se rcg.darcm nas suas mczas. 

Neste vergonhoso modo de fazer vinho encontro tam- 
bem outro mal considerável ; como elle he composto .da pri- 
meira agoa , deixando na pclle o melhor sueco , pela falta de 
tr.ibalho que se lhe deve fazer no piso, não tem duração 
alguma; huma grande porção de vinho he vendida na proxi- 
midade da colheita , e muitas vezes mal fervido se dirige 
para a barriga do pobre jornaleiro. Conservar os vinhos mais 
de hum anno he cousa rara e difficil em Monte Mor. 

Seria para dcsej;ir que de huma vez se lançasse por 
terra tão ruinoso methodo, e que o homem de Monte Mor 
aprendesse nas Províncias , aonde se sabe o útil processo de 
fazer vinho, e que este fosse praticado na minha pátria: 
tal he o melhoramento , que engrandeceria muito esta Vil- 
la em hum ramo de tanto lucro. 

Passando á manipulação do azeite , he sem duvida hum 
facto bem vergonhoso para a minha p.itria , que vinte e cin- 
co lagares não tcnhão hum só individuo , que se dedique 
áquelle trabalho ! Homens da Província de Tras-os-montes 
e Beira são os que se enipregão annualmcnte no serviço de 
fa7er azeite; estes mestres, aproveitando-se da inércia dos 
habitantes de Monte Mor , cogitão simplesmente nos seus 
interesses , amontoando muita azeitona em tulhas mal pre- 
paradas , aonde a demoião por muitos tempos, fazendo o 
azeite , quando ja' tem perdido grande parte delle ; desta 
maneira está reduzido a hum monopoho o methodo de fazer 
azeite. 

Seria também para desejar , que os habitantes de Mon- 
te Mor deixassem a inércia , de que elles muito gostão , e 
que se entregassem deveras ao fabrico do azeite, arranjan- 
do as suas maquinas , de que ha tantos modellos insinuados 
pelos sábios Physicos , fazendo delias tal uso, de que pro- 
viesse mais c melhor producçao de azeite. 

Me- 



í 



dasScienciasueLisboa. 6j 

Melhoramentos da agricultura. 

Tantos males , tantas ruinas tenho eu apontado no in- 
teressante ramo de Agricultura da minha pátria ; eu tenho 
tocado de envolta alguns remédios ; e jáque não he da mi- 
nha alçada cura-los , como escritor inculcarei mais alguns 
melhoramentos tendentes a beneficiar a lavoura. 

Hiima exacta observância das nossas Leis Agrarias , re- 
duzidas a hum novo systema , que se encaminhe ao pro- 
gresso e prosperidade da lavoura , como he de esperar das 
luminosas idéas do nosso século , seria hum dos primeiros 
melhoramentos para a prosperidade da Agricultura de Mon- 
te Mor o Novo , c simultaneamente da Frovincia do Alem- 
téjo. Os ajuntamentos sociaes de Agricultura tão reccommen- 
dados por habilissimas pcnnas, a educação e instrucçao dos 
Lavradores (a) , a diminuição notável dos encargos , que car- 

re- 



(_a) Fazer educar o mancebo nos diversos ramos da lavoura poderá 
ser huma djs funções das sociedades de Agricultura ; este objecto he sem 
duvida hum dos mais interessantes para o melhoramento ; porquanto te- 
mos visto que a ignorância , o desleixamento , e indocilidade dos habi- 
tantes hc huma das grandes causas do atrazamento dos diversos ramos 
da Irvoura de Monte Mor, e dos processos dos seus productos. He de- 
cidiJimcnte vergonhoso desprezar a educação e instrucçao do mancebo 
em huma arte , sem a qual nada pôde existir ; são terminantes as admi- 
rações de Columella a este respeito ; eu as refiro. Atíjui ego satis nn- 
rari non possuiu , quid ita diccndi ciipidi sdigant oratorcm , cujus iwiten- 
lur eloquentiam , mensttr/irum , ó- numerorwn modum rimantes , placiu du 
scipliihc consectentur magistruin ; voeis ò- cantas modnlatorem , nec minns cor- 
poris gesticul/itorem scrupiilosissimc requirant saltationis , ac musicx rationis 
icudiosi ; ja)iiqnc qui ícdijiceire veliin , fabros b- architectos advo(ent ; qui na- 
vigia mari concredere , giibcniaiidi peritos ; qui bclla moliri , armorum , &• 
militiiC gnaros \ is- iie singula perseíjtiar', ei stiidio , quod quis agere vf /ií , 
consuliissiinuin nctorem adhibeat ; denique aiiimi sibi quisque jormatorem prx- 
ceptoremque virtiitis c c£tu sapientám arcessat : sola res rústica , qtu sine dtt- 
bitatione próxima , (ò- quasi consangiiinea sapicini<c est , tam discentibus egeat , 
quam magiitris. yidhuc cnim scholas rhetornm , ó- , ut dixi , geometrarum , 
vmsiconimqtte , vel quod magis mirandum est , contemptissimorum vitiortan of- 
ficiíias , giilositts condendi cibos , «b- luxuriosius fercula struendi , capitmnque 
is- capillorum concinatores , iioii soltwi esse aitdivi , sed &■ ipse vidi : agrico- 
lationis nequt dociores , qtii se projiterentur , neque discipulos ço^novi : cum 






64 Memorias DA Academia Real 

regão sobre aquclla arte , que sustenta o mundo , a estima- 
ção decimal bem regulada (a), a honra e distincção , os 
privilégios e isenções dadas aos Lavradores , o engrandeci- 
mento da sua fecunda arte ( Z» ) , a reforma dos rendeiros 
coimeiros , a abolição de muitas posturas , huma nova col- 
Iccção deste Código municipal , e sobre tudo a obrigação de 
cultivar a herdade o próprio dono , projecto praticável pe- 
los aforamentos , poderáõ ser contados entre os remédios 
conducentes a desviar o mal , que a minha pátria soffre , e 
de que não está isenta a Provincia (c). 

Só 

etiamsi pr<£dictanim artinni professoribits civitas egeret , tanien , siciit apud 
priscos , porere possct Rcspublic/i. De lie riist. Lib. i. 

Nós temos mestres e discípulos de Agricultura, porém nem huns, 
nem outros a praiicáo. 

(a) A arrecadação dos dizimos he feita pelas m.ío- dos rendeitos, 
que por todos os meios tratáo de enriquecer á custa da lavoura ; che- 
gando a $ua ousadia ao ponto de estimarem arbitrariamente o preço do 
género, quando o Lavrador não pôde satisfazer a tempo, fazendo pou- 
co caso das regulações da Gamara. 

(í») Huma observação deduzida da Historia Romana deixa em ponto 
claro a proposição , que o augmento de Agricultura ou a sua decadência 
anda na razão do apreço ou desprezo que se faz do Lavrador. Emquanto 
Roma se dignou limpar o suor ao Lavrador, tira-lo do arado para as Di- 
gnidades, até ao sublime emprego de Dictador, vio ella os seus campos 
cheios de fertilissimas searas ; quando porém entregue nos br.iços do lu- 
xo e dos gostos dei.xou aos escravos o nobre emprego de Lavrador , bcin 
de pressase tornarão estéreis aquelles mesmos campos , que com a sua fer- 
tilidade e abundância fizeráo a felicidade dos antigos Romanos. 

(f ) Hum dos maiores golpes da lavoura de Monte Mor o Novo , e 
da Provincia do Alemtcjo he devido ao grande numero de proprietários , 
que não cultivão , alguns dos quacs nem ao menos virão os grandes ter- 
renos , que lhes couberáo em sorte ; daqui vem , que estes proprietários 
nada mais cogitão do que augmentar as suas rendas, gravar os Lavrado 
res , e carrega-los de pitanças , quando observío algum augmento no teu 
prédio ; este mal ainda he maior quando em massa arrendáo os seus gr-in- 
des fundos, porque o Rendeiro geral, que pcrtende utilisar simplesmen- 
te no espaço do seu arrendamento , usa humas vezes de todos os meios 
e esforços para augmentar o valor dos prédio» arrendados ; põem pitan- 
ças de porcos aonde não ha montadoi , de queijos aonde náo ha ove- 
lhas , de cera aonde náo ha colmeias ; recebe varias espórtulas ao as- 
signar das escripturas , a que chamão luvas , Scc. &c. ; o desgraçado La- 
vrador soffre tudo Isto só porque não pôde desarranjar sua casa , sua fa- 
mília e gados i despido de esperanças elle cultiva simplesmente para co- 
mer e satisfazer as rendas ; com o susto que lhe sejáo acrescentadas á 



I 



oasSciekciaSdeLisboaí 6y 

Só o poderoso braço do Soberano poderá curar as fe- 
ridas apontadas , e applicar-lhcs os remédios conducentes j 
feliz agoiro mo diz, que humPrincipe, hum Pai j hum Le- 
gislador , que emprega todos os seus cuidados para benefi- 
ciar c providenciar os seus Vassallos , os mais fieis de to- 
do o rtiundo, fará lembrar os ditosos dias do seu Augusto 
Avoengo o Snr. Rei D. Diniz , que considerou os Lavra- 
dores , companheiros da natureza j nervos da Republica. 
Tom. V. I Ar- 

primeira vista do augmento , despreza inccirAmenie esta idéa : outras ve- 
zes hutn bom Lavrador , hum digno chefe de familia , que he o susten- 
táculo da Nação , se tórtla cnt desgraçada victrtna da Sórdida avareza do 
Rendeiro geral, qiie expulsando desapiedadamente o honrado velho daquel- 
la terra , que elle regou por tantos lustros com o seu suor , folga sirrt- 
plesmenie com o negocid das (>astagen$ , tio cotticulo do seu arrenda- 
mento. 

Alguns proprietários , Lavradores só no nome , fazem da lavoura 
não hum utii trafico , mas sim hum destruidor negocio , utilisando sim- 
plesmente os seus campos em alguns dias dc divertimento , e entregan" 
do tudo ao cuidado dos feitores e caseiros ; p.ira estes homens pois re- 
commendo muito as bellas máximas do citado Culumella no cap. 2., en- 
t^c as quaes se acha a seguinte : Nam illud vetus est éi- Catonis : Agrum 
p.siime multiri , cujus dominus quid in to faciendum sit , non docet , sed 
audit villicum. 

At Corporações , abusando da Lei , dão as mãos para augmeniar o 
inali disfructando famosos prédios, que deviáo aforar, fazem humas ve- 
2Cí o mesmo que o Rendeifo geral , c outras vezes imitáo aos máos pro- 
prietários ; em nm he evidente que hum administrador trienal não empre- 
ga os seus cuidados para beneficiar hum terreno, que o seu futuro «uc- 
cessor hade utilisar , ou talvez deixar destruir. 

Emquanto pois não forem tirados estes grandes estorvos pela raiz , 
não se espere prosperidade na lavoura Transtagana-; a matéria não he tão 
árdua , que se não possa chegar ao alcance dos meios para se obter ; pa- 
ra issâ ne mister que se ouça a voz do Legislador : 11 Corporações , vóí 
D nád podcic exercitar a lavoura , entregai-a ao dominio uiil de quem cul- 
I tiva. Proprietários, sede lavradores, ou aforai vossos prédios, s Execu- 
tai á risca esta voz legitima , lieremos então caminhar avante todos os 
ramos de Agricultura ; o AvOengo , o Pai gosrosos (rabalharáó no augmen- 
to do prédio , que he a legitima herança dos netos e dos filhos ; prin- 
cipiará então hum novo commercio, que se acha amortecido pela estagna- 
rão dos prédios na mão do proprietário, donde pela sua natureza vincu- 
ada não pódc sahir ; desta arte utilisando o senhorio directo a percepção 
do cânon sem despeza , e dos laudemios crescidos pelo augmento do va- 
lor do prédio , ganhará muito o Estado , vendo florecer o seu esteio e sus- 
tentáculo , e entrar no seu erário tantas soinmas de novos teditos Reaes » 
ée que á muito tempo se acha privado. 



l 



6ê: MeMoUias da Academia Rcal 

Artigo X. 

Dos rtiitief'aes mais attendiveis. 

k3Egundo as observações , que pude fazer, alcancei , que em 
algumas partes do Termo de Monte Mor o Novo se en- 
contrão itiinas de ferro , e sulfato de ferro. 

Na Freguezia de S. Tiago do Escoural tirou hum 
Lavrador das entranhas da terra porções de ferro , com que 
fabricou dois arados. Na serra dos Monges das Covas de 
Montforado , além destas minas , ha muitas porções de sul- 
fato de ferjro. 

A R T I G o XI. 



A 



Das Ribeiras , Pontes , e Fontes. 



Ribeira mais considerável de Monte Mor he aquella 
a que os habitantes dão o nome de Canha; a sua corrente hc 
inui próxima á Villa , e cinge as faldas dos montes da antiga 

Sovoação pela parte do Sul. Perto do Eremitorio dos Padres 
e Santa Cruz de Rio Mourinho , de que fallei no Arti- 
go VIL, ha outra assim chamada; c na distancia de huma 
légoa àõ Poente encontra-se a pequena Ribeira , chamada da 
Lage. 

Duas pontes de pedra bem construidas dão aos habi- 
tantes de Monte Mor o Novo a passagem da Ribeira de 
Canha ; a antiquissima Ponte chamada de Alcácer (a) , que 
fica fnni 'próxima á Villa pela parte do Sul , e a Ponte de 
Évora, que fica para a parte do Norte em pequena distan- 
cia ■y chamadas assim pelas suas direcções ( ^ ) . A pequena 

Ri- 



(a) He do rempo do Siir. D. Sancho í. , que a mandou fazer. 

(6) Na estrada desta Villa em direcção para a Cidade de Lisboa nâo 
havia Ponte alguma sobre a RibeiM de Canha, cuja falta causava im- 
Mensos damnos ; prmcípiòo^se esta obra de prosperidade debaixo da di- 
tecçáo do meu bom amigo o digno e habilissimo Inspector João ]osé d« 



I 



i 



DAS ScTBNCiAS DE Lisboa. 67 

Ribeira da Lage tem igualmente huma Ponte de pedra do 
mesmo nome. 

Goza a Villa de Monte Mor e os seus campos de 5-65: 
Fontes , entre as quacs se contão 43 de bellissimas agoas 
férreas (a). 

Artigo XII. 



JlLí 



Do Commercio. 



/M dois pontos de vista se pódc considerar o cohimer- 
cio de Monte Mor o Novo , activo, c passivo {b): o trigo, 
centeio, c cevada nos annos da maior fertilidade f.izcm o 
objecto do commercio activo (c), dirigindo-se para a Ca- 
pital do Reino, c para algumas outras terras; o feijão faz o 
objecta do commercio passivo , assimcomo o arroz , cujos 
géneros nos fornece a Cidade do Porro , a Villa de Setú- 
bal , e Alcácer do Sal. O vinho he bastante para os habi- 
tantes , todavia entráo todo o anno grandes quantidades de 
vinho de fora , que se vende nesta povoação contra a-> pos- 
turas da Camará , que o prohibe. Faz tambcm objecto do 
commercio activo o azeite , que se dirige para a Capital 
do Reino , e para as Provincias. 

I ii As 

Veiga, hoje Corregedor d^- Ilha de S. Miguel, porém intelizmente a de- 
viscador.i guerra levou as providencias a outros destinos , e a Ponte tão 
necess.iriâ em huma estrada militar ficou em menos de ametade , era pa- 
ra dcseiar que náo ficassem baldados tantos trabalhos e tantas despezas já 
feitas , e que se ultimasse huma obra tão proveitosa. 

(ii) Correm muitas destas agoas férreas proximamente á Villa, sáo 
frequentadas pelos habitantes , e applicadas medicir.almcrte ; de todas as 
mais famosas são quatro Fontes férreas , que correm na Farochia de Sáo 
Tiago do Escoural , c huma na de S Brissos , debaixo do cume de hum 
monte , a qual ainda nos annos mais secos tem a corrente de huma te- 
lha d' agoa i pessoas que vivem em muita distancia anciosamentc a man- 
dão buscar. 

(fc) Chamo commercio activo aqu-lle que os habitantes fazem com 
as producções do seu local , e passivo ao que lhe provém das cousas 
existentes fora da povoação. 

(f) Nos annos , em que estes géneros náo chegáo para osr habitantes , 
e ainda mesmo no tempo de esterilidade , levão daqui os monopolistas va- 
lias porções , que fazem huma considerável talta nesta povoação. 



68 ^tEMoHIAS DA Academia Real 

As fructas , de que tanto abundão estes siitioe , entcáo 
em commcrcio activo ; a Capital da Província do Alemtójo , 
e muitis outras terras comem cm hama grande parte do an- 
no as hellas e deliciosas fructas , com que a natureza enri- 
quece a minha Pátria. 

O commercio activo mais considerável he a carne de 
porco ; mui gordas varas de porcos caminhão daqui todos 
os annos para a Capital do Reino , e para muitas partes 
das Províncias. Os bois, vaccas , carneiros c chibatos fazem 
o objecto do commcrcio mixto, cntrão muitas manadas des- 
tes difFerentes animaes , e sahem também muitas , criadas no 
Termn. 

As lãs e diversa coirama da fabrica , de que fallei no 
Artigo VII. , fazem huma parte não pequena do commercio 
activo que se dirige para as Provincias ; não ha porém huma 
só droga , que não seja objecto do commercio passivo ; as 
de lã c algodão em grande parte vem da Capital do Rei-, 
no, assimcomo as de seda, que também nos fornece a Gi-« 
dade do Porto, c o Reino de Hespanha ; as saragoças a Vil- 
la do Torrãa , e os chapeos as Cidades de Lisboa e Bra- 
ga. Alguns pannos de linho se fibricão em Monte Mor , 
são todavia poucos e mal arranjados ; a maior parte dos ha- 
bitantes usa de pannos de linho da Provincia da Beira. 

O sal c o peixe he todo do commercio passivo, que 
nos fornecem as Villas de Setúbal e Alcácer do Sal, 

Tem Monte Mor o Novo quatro lojas de Mercado- 
res , duas de Algibebes, e huma de Panneiros, estas com- 
prehendem também ramos de capella , mercearia , quincalha- 
ria , e alguns comestíveis. Os empregados nestes ramos de 
negocio são quatro Mercadores e seis Caixeiros , hum Al- 
gibcbe e Caixeiro, hum Panneiro e seu Caixeiro, 

O commercio desta Vi lia podia estcndcr-se muito em 
beneficio dos habitantes, e da Nação : melhorada a Agricul- 
tura nos diversos ramos , de que ella se compõe , teremos 
também melhorado o commercio ; melhoradas as machinas , 
em que se manufactnrão as producçoes da terra , aperfei- 
çoa- 



1 



dasSgienciasdeLisboa. C<) 

coadas as artes tão decahidas nesta povoação , teremos no- 
vos passos progressivos para o augmento dcllc ; o concer- 
to das estradas publicas , que o tempo e a guerra tem 
destruido , ultimará as vantagens e prosperidades do com- 
mercio de Monte Mor o Novo («). 



Aààitamento ao Artigo W. 

I^Uando tracei o plano , que devia seguir no desempe- 
nho desta Memoria , inclui nelle também a relação dos 
nascidos e mortos por espaço destes últimos dez annos em 
todo o Termo daquella Villa ; para este fim recorri aos Fa- 
rochos , aos quaes enviei hum papel mui claro das averi-» 
guaçoes , que delles pertendia (^). 

Eu não pude obter então aquelle fácil conhecimento ; 
porque os Parochos das Freguezia de S. Brissos , e de São 
Sebastião da Giesteira se desculpavão com a falta dos Li- 
vros , asseverando que estavao na Cidade de Évora ( r ) , e 

o 

(/i) As estradas publicas fazem huma parte essencial da felicidade 
dos povos j e do seu commercio ; todo o homem , que apenas rem hum 
vislumbre d;.'sta arre , conhece , que debalde produzem as terras com ter- 
tilidíde , quando os- povos não tem estradas capazes de levar aos seus 
visinhos a abundância do seu paiz. Deste vehiculo de fecundidade? ptin- 
cipia Monte Mor a gozar nos dias em que escrevo ; as suas estfadas es- 
taváo mui arruinadas , cm muiros sitios não podia passar huma carreta , 
ou hum carro sem f^rande risco ; a guerra foi causa principal de hum 
tal estrago, porque tendo-a? destruido corn os difFerenies trilhos do trem 
bcllico , não dêo tempo de as concertar. O actual Juiz de fora , o Doutor 
Cypriano Justino da Costa , tem destinado huma patte dos seus cuida- 
dos para este objecto tão importante. 

C/") Adiante oftcreço .-.os meus leitores hum dcsres papeis de avcti- 
gua/;áo , e a resposta do Cura rural aos respectivos quesitos. De propó- 
sito não quiz usar de mappas mui riscados , cuja complicação se deve 
evitar na indagação da verdade , mas sim de huma singela relação dos 
contentos Parochiaes. 

(f) Nestas ultimas averiguações conheci a futilidade do pretexto; to» 



70 Memorias da Academia Real 

o Cura da Parochia de Santo António das Vendas Novas , 
patenteava as consideráveis omissões do seu antecessor , que 
havia negado o devido assento a muitos nascidos e mor- 
tos ( rt ) . 

Apezar desta triste circumstancia continuei no meu 
trabalho , que pude ultimar em ponto exacto , indagando 
por mim mesmo os Livros das Parochias mais principacs , 
e aproveitando-me de alguns dignos Pastores , que me aju- 
darão nesta util tarefa : o Parocho da Freguczia de Santo 
António das Vendas Novas , pelo fácil conhecimento de hum 
pequeno circuito , poude mui bem supprir as faltas do seu 
antecessor , de maneira que o mappa manifestado agora ao 
publico neste additamento he filho de rigoroso exame , e 
da mais escrupulosa indagação ( ^ ) . 

Es- 



<3os os livros dos assentos dos nascidos e mortos no espaço de dez an- 
nos estaváo e estão ainda nos cartórios Parochiaes : eu devo muito nes- 
te trabalho ao oflicioso génio do Reverendo José António da Silva , Pa- 
rocho da Treguezia de S. Tiago do Escoural , o qual não só se encar- 
regou do mais exacto exame da sua Parochia , mas também das três vi- 
sinhas , S. Brissos , Boa fc , e S. Sebastião da Giesteira , de cujos Paro- 
chos cu não poderia esperar respostas , que satisfizessem os meus desejos. 

(rt) Eu presenciei estas faltas, encontrando entre as folhas dos livros 
dos nascidos c mortos pequenos papeis , que continháo algumas lembran- 
Ç.1S e declarações , que não forão lançadas no luçar comp?tente. 

(/í) Este trabalho, a que me dediquei , dèo occasiáo a ver alguns de- 
feitos importantes em certos livros dos assentos Parochiaes ; por isso sou 
obrigado a dizer pelo amor da verdade , caracter que deve ser insepa- 
rável do escriptor, que Oi livros dos Parochos necessitáo de hum arran- 
jamento feito por certo methodo claro e adequado as suas Parochias ; to- 
da a vantagem desta proposição será conhecida no publico , quando se 
obscrv.u que a Carta Estatística Nacional depende mui principalmente das 
averiguações Parochiaes ; ninguém melhor do que os Pastores Eeclesias- 
ticos p jde dar a perfeita e cabal descripçáo de hum pequeno circuito , 
aonde tem a sua efFectiva residência para dirigir as almas , e aonde hum 
espirito de recreio e curiosidp.de os pôde levar ao mais roiudo conheci- 
mento daquclla parte do seu rebanho , que lhe foi confiada : quando es- 
ta verdadeira lembrança se verificar , a passo e p.isso farão progressos 
as descri peões estatísticas até ao complemento da Carta geral tão inuior- 
tanre , e tão desejada. 

Parcce-me que seria óptimo methodo para evitar enganos , e ao mes- 
mo tempo mais facll e ptompto haver nas Parochias livros com os di- 
zeres communs impressos. 



I 



DAS Sf^iENciAS DE Lisboa- 71 

Esrc mappa offcrccc ás vistas de hum leitor amante da 
sua Pátria as mais dolorosas observações. Monte Mor o No- 
vo não entra no numero daquelles si tios os mais doentias 
da Província do Alemtéjo : ; quanto he pois para lamentar 
que huma bclla Vi lia tenha visto diminuir sensivelmente a 
sua população , morrendo no espaço destes últimos dez an- 
nos 339 habitantes, numero considerável, que excedeo os 
nascidos! (a) Sc este lastimoso facto está verificado na mi- 
nha pátria , i a que ponto de desgraça será levado nessas 
povoações , que sao bafejadas por hum ar impuro , cercadas 
de pântanos e de immundos charcos, privadas do bom ali- 
mento , da abundância das agoas , e dos soccotros da Clini- 
ca ? i Que horroroso aspecto offerece á nossa vista esta ter- 
rivel comparação 1 

Não he pois para desprezar huma observ^içao fatal ; a 
perda considerável da população da notável Villa do Mon- 
te Mor o Novo no espaço destes últimos dez annos exige 
providencias bem enérgicas para toda a Província , este ra- 
mo he o primeiro a que deve lançar a vista o verdadeiro 
politico ; a falta progressiva dos Vassallos diminue a gran»- 
deza do Soberano , e faz cahir a Nação a pouco e pouco 
até á sua ruina. 

Deixo inculcado no Artigo IV. desta Memoria al- 
guns remédios , que me parecerão conducentes para o des- 
vio dos males , que estorvão a população de Monte Mor o 
Novo ; e aprescntando-me o mappa dos nascidos e mortos 
de todo o Termo daquella Villa , cm comparação bem de- 
l duzida , huma pavorosa imagem de toda a Provinda , seria 
1 muito para desejar os remédios convenientes a tanto mal (b) . 
I A 

(a) Agora SC verifica cm ponto bem claro, o que eu asseverei no Ar- 
tigo IV. flcst« Memoria. 

(fr) Este infeliz resnlt.ido não poderá deixar de ferir sobremaneira o 

cor.tçâo do politico Portuguez , mui principalmente se eu lhe apresentar 

, 1 nesta nota cm ponto verdadeiro o resultado desta bem deduzida supposi- 

I ção ; pari isto será bastante ler poucas linhas do Investigador Portuguez 

• ifri Inglaterra Vol. 1. pag. ic6 ; ahi achará o mappa da população àe 

\ Portugal cm 1801 , que o convencerá da verdade, que tenho deduzido- 



7» Memorias da Academia Real 

A Agricultura da Provinda do Alcmtéjo , companhei- 
ra inseparável da população, caminha, á muitos tempos , pe- 
la calamitosa estrada da perda e da ruina, todas as Memo- 
rias e Discursos , que tem appaiccido na nossa terra a res- 
peito deste importante assumpto , dcixíío ver em ponto tão 
claro como a luz do meio dia a asseveração desta dura ver- 
dade. A guerra , que á pouco nos deixou , dêo a ultima 
demão ao estrago da Província Transtagana : todos sabem 
as mui variadas maneiras desta tcrribilissima luta; basta que 
lembre ao bom Cidadão , ao bom patriota , que os Portu- 
quezes se estragarão huma e muitas vezes para enfraquecer 
o inimigo nas suas arrebatadas invasões , defesa dura , po- 
rém necessária , e de prospero e milagroso resultado. 

Se os factos ruinosos da Agricultura do Alemtéjo são 
visíveis, he mister remedia-los de huma vez com energia, 
porque he bem sabido que não pôde haver população sem 
Agricultura , e que esta sem aquella também não existe ; 
são ambas as simultâneas promotoras da felicidade nacio- 
nal. Eu já apontei no Artigo IX. desta Memoria alguns 
remédios , que poderião generalisar-se á Província Transta- 
gana , e lembrarei agora , que seria hum passo indispensá- 
vel não tirar hum só braço deste terreno , que faz o seu 
fundo principal nos diversos ramos de Agricultura , cujo ob- 
jecto he o sustentatulo da Nação em todos os seus perío- 
dos. Tropas estrangeiras assalariadas , fazendo o serviço mi- 

li- 

Na pag. I IO .ipresenta aquelle mappa a difFerença dos nascidos e mortos 
ái minha Província da seguinte maneira ; a No Arcebispado de Évora fez 
« differença contra a população o numero àe 5/82 do sexo masculino , e 
■ 933 do sexo femenino. No Bispado de Porcalegre too , e lOp. No Bis- 
a pado de Elvas 635 , e 456. No de Beja 35 , 158. " 

Combine pois o Portuguez , amante da sua Nação o csrado desta 
Província com as outras ; observe , que nem scijuer hnm sn Bispado do 
Alemtéjo ofFerece aspecto favorável , antes pelo contrario a nwis dolorosa 
mortandade ; iembre-se igualmente , que se a minha Província escava no 
anno de 1801 no calamitoso estado de população apresentado pelo map- 
pa inserido no Investigador , a que ponto de desgraça terá chegacío hoje 
este fatal estrago , depois dos visíveis males , que desde então tem de- 
corrido , os quaes fazendo época na historia do Patriotismo Portuguez ^ 
UDlbem a liZiía no destroço da sua população. 



UAS SciENCIAS DE LiSBoA. 7J 

litar da Província , dcixarião á Agricultura os braços , que 
no meio de lia tem nascido ; desta arte hum bom numero 
de homens , muitos dos quacs se naturalisariao na Provin- 
cía , e contrahirião amizades c allianças , faria prosperar a 
sua Agricultura, e por conseguinte a população («)• 

Oxalá que cu tenha dito neste fraco esboço, a que me 
conduzio o funesto mappa , alguma verdade , que possa ser 
tão util d minha Provincia , quanto são os meus desejos; eu 
me lisonjearei então com esta Memoria ; o Filantropo agra- 
decerá os meus trabalhos , e o Publico conhecerá sempre as 
grandes vantagens , que a Nação pode tirar das dcscripções 
est.itisticas. 



'(i) A Suissa, cuja Constituição militar he hum.i das inais bellas que 
se conhece , podia fornecer óptimos soldados , que preenchessem o nu- 
mero lios Regimentos necessários á Provincia do Alcmtcjo ; este serviço 
praticado por hum espaço de vinte ou mais annos deixava gozar a la- 
iavoura de todos os braços da Provincia , que lhe são roubados no es- 
tado da melhor robustez para o duro trabalho do campo ; cresceriáo as- 
sim as familias , c appaceceriáo novos chefes : desta época por diante pa- 
rcce-me que as descripções esratisticas apresentariáo huma face agradá- 
vel , offcrecendo aos olhos do publico mappas do engrandecimento da 

lopulaçáo e Agricultura, em vez do triste aspecto, com que se mani- 

csiáo em os nossos dias. 



r< 



tom. V. K Ke- 



74 



Memokias da Academia Real 



Relação da Freguezia de Santo Aleixo , e resposta do Pnrocho 
aos quesitos que mlla se contem. 

Numero de indivíduos por espécies. 

Qiiantos homens casados --------- ^6 

QLiantas mulheres casadas --------- 66 

Quantos viúvos ------------ao 

Quantas viuvas ------------20 

46 

39 
4Z 
24 



Quantos homens solteiros até 30 annos de idade - - 
Qiiantas mulheres solteiras até 30 annos de idade 
Quantos homens solteiros com mais de 30 annos de idade 
Quantas mulheres solteiras com mais de 30 annos de idade 

Numero de individues por idades. 



Quantos tem até lo annos 

10 até 3o - • 
20 até 30 

30 até 40 - ■ 
40 até fo 

jo até 60 - - 

60 até 70 - ■ 

70 até 80 - ■ 

80 até 100 - - 



Numero dos nascidos. 



Quantos nascerão no anno de 



Sexo masculino < 



i8of 
1806 
1807 
1808 
1809 
1810 
1811 
i8ia 
1813 
l 1814 



Quan- 



5-4 
6Ó 

é4 
69 

39 

30 
4 
I 

o 



4 

9 
1 1 

10 

7 
6 

IO 

5 

4 



DAS SciINCIAS DE LiSBOA. 



7S 



Quantos nascerão no anno de 



Sexo feminino-^ 



ri 8oy 
180Ó 
1807 
1808 
1809 
1810 
i8ii 
1812 
1813 

L1814 



Numero dos mortos. 



4 
6 

S 

7 
6 

9 

7 

S 

4 

13 



Quantos morrerão no anno de ' 



Sexo masculino 



Quantos morrerão no anno de Ç 



Sexo feminino < 



806 

807 
808 
809 
810 
811 
8iz 
813 
814 

805- 
806 
807 
808 
809 
810 
811 
812 
813 
814 



S 

II 

12 

9 

7, 
12 

10 

II 

12 

6 

3 
6 

3 
16 

it 

6 

7 
10 

7 
14 



K 11 



En- 



j6 Memorias da Academia Real 

Engeitados. 

Qviantos nascerão «Jcsde iSoj" até 1814- - - - - o 
CjtLiiintos morrerão xlesde 1805' até 1814- - - - - o 

Numero dos casamentos. 
Cantos se celebrarão no anno dei8i4 - - - - 4 

Numero dos fogos. 
Quantos existem ------------88 

Numero das casas. 

Qiiantas existem habitadas ---------88 

Quanus inhabitadas ----------- 14 

Numero de indivíduos por classes. 

Qiiautos Clérigos ---__._--__ x; 

Qi^iaiitos Frades ------------ o 

Quantos proprietários de casas, ou prédios urbanos - o 
Qiiantos proprietários de fazendas , ou prédios rústi- 
cos de cjualquer natureza _-___--- ^ 
Quantos individues que vivem somente das suas ren- 
das _»-_.-_--_----- p 

Quantos indivíduos que vivem da sua industria , ou do 
seu trabalho mechanico --------- g^ 

Qi-iantos indivíduos que unem qualquer trabalho ás 
suas rendas ------------- 6 

Quantos trabalhadores jornaleiros ------ 48 

Qiiantos creados ------------49 

Qiiantas crcadas ------------13 

Quantos mendigos do sexo masculino ----- 3 

Quantos" do sexo feminino --------- 4 

Ge- 



I 



DAsSciEKCIASPxLlSSOA. <JJ 

Cieneros. 

Qiic gcneros produzio o terreno ? Como todo o ter- 
reno consta de montados , mais azinho do que sobro , por 
isso he a boleta sua maior producçâo , além disto , de tu- 
do o mais ha producções , mas em pouca abundância. 

Houve. alguma semeadura de batatas, e quanto produ- 
zio ? Só me consta em quatro frcguezes haver cuidado cm 

pequenas quantidades dessa semeadura. 

Topographia. 

Quantas pontes tem , e sua direcção ? Ha huma só» 

rnente , chamada a ponte da lage, na estrada real de Mon- 
te Mor o Novo , para Lisboa, 

Tem alguns bosques, e matas, sua situação e exten- 
ção ? Não ha. 

Tem algumas serras , e matos cultivados, sua situação,' 

e extenção ? Em algumas das herdades numeradas infra , 

ha seus outeiros e serras, mas tudo he cultivado ou por meio 
de roças , ou por meio de arrancas , mas humas comprehen- 
dem mais , outras menos folhas , em que dividem a herda- 
de. 

Tem algumas serras , e matas não cultivadas , sua si- 
tuação , e extenção ? Nenhuma. 

Tem algumas planices cultivadas ? Quasi todas as 

herdades tem em redor do monte seus recios , que cultivão 
mais annos do que o terreno dividido em folhas. 

Tem algumas planices não cultivadas? Nenhuma. 

Quantos vallcs tem ? __-.---_- 2 

Quantas charnecas ? Qi^iasi todas as herdades tem 

seu bocado. 

Quantas ribeiras ? ---.------a 

Quantas fontes? Tantas quantos são os fogos. 

Qiiantas d'agoas férreas ?------ --4 

Agri- 



78 Memorias da Academia Re ai. 

Agricultura. 

Quantas herdades tem? --------26 

(plantas courcllas , e sesmarias? - _ - - _ j^ 
Qiiantos pomares de espinho ?------ o 

QLiantos pomares de caroço? ------ £ 

Quantas vinhas ? -------^_- o 

Quantos olivaes ? Todos os pomares supra tem em 

redor oliveiras , e algumas herdades e courellas tem suas ar- 
vores desta natureza. 

Quantas variedades de arvores tem , e quaes são essas 
variedades ? - • - Azinheiras , sobreiras , oliveiras , poucas la- 
rangciras , pinheiros , choupos , loureiros , maceiras , pereiras , 
amcixeiras , poucas nogueiras , romeiras e figueiras em pou- 
co numero. 

Quantos viveiros de arvores tem ?----- i! 
Quantas silhas de colmeas ? -pToda a producçao não 
Quantos cortiços cada silha ? > chega para a fregue- 
Quanto produz cada silha ? J zia. 

Minas. 

Ha algumas minas descobertas de ferro , salitre , capa- 
roza &c. , e seus sitios ?--------- o 

Ha algumas pedreiras attendiveis ? - - _ - o 

Fabricas. 

Quantas fabricas ?---------- o 

Qiiantos fornos de cal ?-------- o 

Quantos fornos de tijollo? ------- o 

Quantos moinhos d'agoa ? ------- 7 

Em que ribeira estão construídos ? Na de Monte Mor. 

Qiiantos lagares de uvas ? ------- o 

Qiiantos lacares de azeite ?------- t 

^ Of- 



DAS SCIEKCIAS OE LiSBOA. 



79 



Officios 

Quantos Albardeiros ? - - - Mestres Aprendizes 

Alfaiates? ------- Mestres Aprendizes 

Barbeiros ?_------ Mestres Aprendizes 

Carpinteiros de casas ? - - - Mestres Aprendizes 

Carpinteiros de carretas ? - - Mestres Aprendizes 

Esteireiros ? ------ Mestres Aprendizes 

Ferradores ? ------ Mestres Aprendizes 

Oleiros ? __----- Mestres Aprendizes 

Sapatcims ? ------ Mestres Aprendizes 

Sciralheiros ?------ Mestres Aprendizes 

Surradores ? ------ Mestres Aprendizes 

Tecelões ?------- Mestres Aprendizes 

Torneiros ?------. Mestres Aprendizes 

E mais algum officio que houver na freguczia será 
posto aqui. 

Nesta freguezia ha s(^mente hum oíficial de Sapatei- 
ro , c hum picapedras , e moleiros tantos quantos são os 
moinhos. 



Confrontações. 

Com que freguezias ou termos parte a freguezia ? Pe- 
la parte do norte , com a Matriz S, Lourenço , e termo da 
Villa de Lavre : pelo nascente com a freguezia de S. Gens : 
pelo meio-dia , com a freguezia de Saphira : e pelo poen- 
■ te com a freguezia de Santo António das Vendas Novas. 

Historia abreviada da Igreja. 

Ede-se mais huma idéa breve da Igreja Parochial , que 
comprehcnda a sua origem , seu nome , se sempre o conser- 
vou ; seu Orago ; a quem está sugeita , se tem algum pa- 
droeiro ; seus reditos , suas Irmandades e Confrarias , seus 

no- 



8o Memorias da Academia Real 

nomes , origens , e rendimentos ; quantas Ermidas , ou pe- 
quenas Igrejas tem sugeitas á Parochia , pelos seus nomes ; 
se tem algum monumento ou inscripçao de antiguidade di- 
gno do aticnção , e como he ; e tudo o mais que íqt ce- 
lebre ? 

Pelos livros que ha nesta Igreja mais antigos he somen- 
te poronde posso dizer o seguinte j e pela tórma com que 
se observa erecta a Igreja material. A primeira obra na erec- 
ção foi huma Capella muito bem forte de abobeda , que ti- 
nha tanto de larga como de comprida , que não excede a seis 
passos, e agora accrescentada por duas vezes tem ein seu 
comprimento o dobro quadruplicado da Capella ; a primei- 
ra visita em que consta desta Capella erecta cm Parochia 
foi no tempo do Arcebispo D. José de Mello no anno de 
162 1 : ha só no destricto desta frcguczia a Igreja P.irochial , 
tem só huma Confraria , que he a do Rosário , confirma- 
da no anno de 1735", não tem mais reditos, doque os que 
dão de esmolas os Irmãos , segundo os estatutos , ou sua 
voluntária devoção ; a nada mais chegão 03 meus conheci- 
mentos. 



AP- 



dasScienciasdeLisboa. 8i 

APPENDICE Á MEMORIA ANTECEDENTE. 

Copia do Foral antigo de Monte Mor o Novo , como se conserva 

no Real Archiva no Maço 1 1 dos toraes antigos N. 16 , e no 

Maço 1 1 dos mci mos N. 3 fo/. 29 , e no Livro dos Foraes 

antigos de Leitura Nova foi. 78 cal. 2." 



I 



N nomine Patris et Filii et Spiritus sancti amen. Ego Rex Sancius , 
magni Alfonsi Rcgis filiiis, una cum filiis mcis RegeAlfonso, et Re- 
ge retro , et Rege Fernando , et Regina Tarasia , et Regina Dulcia ad 
líonorem Dei et sancte Marie seniper virginis et omnium sanctorum , 
Montem maiorem volumus populare. Damus vobis fonim de Elbora , 
tam preícntibiis quam futuns; ut duas partes do cavaleiros vadant in 
fossad-,) , et tercia pars remaneac in villa ; et una vice faciant fossado 
in anno: ille qui non fuerit a fossado pcctet pro foro quinque sólidos 
pro fossadcira. Et pro homicidio pcctet centum sólidos ad palaciíim. 
Et pro casa derrota cum armis , sentos , et spadas , pectet trecentos só- 
lidos , et septima ad palacium. Et qui furtarei , pectet pro uno novem, 
et liabcat intentor duos qiiiniones , etseptem partes ad palacium. Et 
qui mulier aforciaret, et illa clamando dixerit quod ab illo est afor- 
ciata , et ille negaret , det illa autorgamento de homines tales qualis 
ille fuerit, ille juret cum duodecim ; et si non liabuerit autorgamento, 
juret ipse solus, et si non potuerit jurare , pectet ad illam trecentos só- 
lidos , et septima ad palacium ; et testimonia mentirosa et fidele men- 
tiroso pectet sexaginta sólidos, et septima ad palacium, et duplet el 
avar. Et qui in concilio aiit in mercato vel in ecclesia feriret , pectet 
sexiginta sólidos , médios ad palacium et médios ad concilio ; et de 
médio de concilio septima ad palacium. Et homine qui fuerit gen- 
tile aut eredoro,non seat merino: et qui in villa pignos afflando et 
fiador et ad montem fuerir pendrar , duplet Ia pendra , et pectet sexa- 
ginta sólidos, et septima ad palacium. Et qui non fuerit ad sinal de 
judice, et pignos sacudiret ad saion , pectet unum solidum ad jiidicem. 
Et qui non fuerit ad apelido cavaleiros et pedones , exceptis hiis qui 
sunt in servicio alieno , miles pectet decem sólidos , pedon quinque só- 
lidos ad vicinos. Et qui liabuerit aldeiam, et uno jugo de bovcs , et 
quadraginta oves. et uno asino, et duos lectos, comparet cavalo. Et 

3ui crebantaverit sinal cum sua mulicre , pectet unum solidum ad ju- 
icc. Et mulier que leisaverit maritum suum de benedictione , pcctet 
trecentos sólidos et septima ad palacium. Et qui laxaverit mulierem 
suam pectet unum denarium ad judicem. Et qui cavalo alieno caval- 
Tom. F. L ga- 



2i Memorias oa Academia Real 

garet , pro uno die pectct iiniim cainariíini ; Et magis pectct las an- 
giieiras pro uno die qiiinqucdsnaiics, et pio una noctc unum solidiim. 
Et qui fcriret de lancea aut de espada pro Tantrada , pectct dcccm 
solides. Et si trociret ad alteram partem , pcctet viginti sólidos ad que- 
rcloso. Et qui crebantaverit oceulum aut brachium ayt dente, pro uno- 
quoquo membro pectet centum sólidos alisiado , et ilt^det scptima ad 
palacium. Qui mulier ante suuni niaritiim fcriret , pcctet triginta sóli- 
dos, et septima ad palacium. Qui moion alieno in suo ero nuidaret , 
pectct quinque sólidos , et septima ad palacium. Qui linde alieno cre- 
batavcrit , pectet quinque sólidos , scptima ad palacium. Qiii conducte- 
rio alieno mataverit , siius amus colligat homicidium et det scptima 
ad palacium ; similiter de suo ortelano et de quarteiro et de suo n-.on- 
leiro et de suo salarengo. Qiii iiahuerit vasalos in suos solar aut in 
sua hereditate, non serviant ad aherum hominem detota sua facien- 
da , nisi a domino de solar. Tendas et niolincs et lornos de homines 
de Monte maiori sint liberi de foro. Milites de Monte maiori sinr 
in judicio pro podestades et infiinsones de Portugal : Clerici vero ha- 
beant mores militum. Pedones sint in judicio pro cavaleiíos villos de 
altera terra. Q^ii venerit vozeiro ad suum vicinum pro liominc de fo- 
ras villc, pectet decem sólidos, et septima ad palacium. Ganado de 
Monte maiori non slt montado in ulla terra. Et homine qui se ana- 
fragaret suo adextrato quanvis habeat alium sedeal exqusato usque 
ad capud anni. Mancebo qui mataret hominum foras yille etfugerit 
suo amo, non pectet omicidio. Por totas querelas de palácio el Júdi- 
ce sedeat vozeiro. Qiii in viiia pindrar cum saionem, et sacudircnc 
ei, pignos autorgent et el saion, et prebendam concilio de três colla- 
ciones , et pindret pro sexaginta sólidos , médios ad concilio et médios 
ai rancuroso. Barones de Monte maiore non sra in prestano dado?. 
Et si homines de Monte maiore babucrint judiciar;; cum bnmines du 
alia terra, non currat inter illos firma , sed ciirrjt pesquisa aut recto. 
Et homines qui quesierint pousar cum suo ganaio in términos de Mon- 
te maiore , prendar de illis montadigo , de grego das oves quatuor car- 
neiros, et de busto das vacas una vaca: isto montadigo est de con- 
cilio. Et omnes milites qui fuerint in fossado vcl in guardiã, omnes 
cavaleiros qui se perdiderint in algara vel in lide, primo erectis eos 
sine quinta, et postea detis nobis quintam directam. Et totó homine 
de Monte maiore qui invenerit homines de aliis civitatibus in suis 
tcrminis tallándo aut levando madeira de montes prendant lotum 
quod invenerit sine calupnia. De azarias et de guardiãs quintiun par- 
tem nobis date sine ulla ofírecione. Qiiicumque ganatum doincíiicum 
pignorare vel rapare feccrit, pectct scxsginta sólidos ad palacium, et 
duplet ganatum a suo domino. Tcstamus vero et prehenniter firma- 

mus 



«uu or 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. ffj 

mus, ut quicumque pignoraverit mercatores vel vlatores christianos, 
judeos sive mauros, nisi fuerit fidejussor vel debitor , quicumque fece- 
lit , pectet sexaginta sólidos ad palacium , et duplet ganatum quod per- 
derit a suo domino; et insuner pectet centum morabitlnos pro couto 
quod fregit : Rcx habeat medietatem , et concilium medietatem. Siquis 
ad villam vcstram venerit per vim cibos aut aliquas res accipere,et 
ihi mortuus vel percussus fuorit , non pectet pro eo aliqua calupnia , 
ncc suorum parcntum omicide habeantur. Et si cum qucrimonia de 
ipso ad regem vel ad dominum terre venerit , pectet centum morabi- 
tinos , medietatem Regi, et medietatem concilio. Mandamus et conce- 
dimusvobis, quod si aliquid fuerit latro.et si jam per unum annum 
vel duos furari vel rapere dimisit , si pro aliqua re repetitus fuerit 
quam comisit, salvet se tamquam latro , et si latro est et latro fuit, 
omnino percat et subsubeat pena latronis. Et si allquis repetetur pro 
furto, et non est latro , neque fuit, respodeat ad suos foros. Si aliquis 
homo filiam alienam rapere extra suam voluntatem, donet eam ad 
suos parentes , et pectet illis trecentos morabitinos et septima ad pa- 
lacium , et insuper sedeat homicida. De portatico foro , de trosel de 
cavalo de panos de lana vel de Uno unum solidum. De trosel de la- 
na unum solidum. De trosel de fustanes quinque sólidos. De trosel de 
panos de colore quinque sólidos. De carrega de piscato unum solidum. 
De carrega de asino sex sólidos. De carrega de christianos de coni- 
lios quinque sólidos. De carrega de mauros de conilios unum mora- 
bitinum. Portagem de cavalo quem venderint inazougi unum solidum 
De mulum unum solidum. De asino sex denarios. De carneiro trcs 
medaculas. De porco duos denarios. De forom duos denarios. De car- 
rega de pane et de vino três medaculas. De carrega de pedone unum 
denarium. De mauro quem venderit in mercado unum solidum. De 
mauro qui se redimit , decimam. De mauro qui taliat cum suo domi- 
no , decimam. De corio de vaca et de zevra duos denarios. De corio 
de cervo et de gamo três medaculas. De carrega de cera quinque só- 
lidos. De carrega de azeite quinque solides. Ista portagem de homi- 
nes foras ville tersia de suo hospite , et duas partes de rege. 

Ego Rex Sancius una cum filiis méis hanc cartam confirmamus 
et roboramus : quicumque hanc cartam irrumere voluerit , sit maledi- 
ctus et excomunicatus : amen. Facta carta mense marcii era millesima 
duccntesima quadragésima prima. Qui afFuerunt Mar. Bracarensis Ar- 
chiepiscopus confirmai. Mar. Portugalensis Episcopus confirmar. Petrus 
LamecensisEpiscopusconfiruiat.Nicolaus VisensisEpiscopusconfirmat. 
Petrus Colimbricnsis Episcopus confirmat. Suarius Ulixbonenf Is Episco- 
pus confirmat. Pelagius Elborensis Episcopus confirmat. Alfonsus Me- 

L ii nen- 



84 Memorias DA Academia Real 

nendi Pretor de Sanctarem testis. Egas Pclagii testis. Rodericus Vene- 
gas testis. lohanes Gonsalví. Domnus G. Menendi Maiordomus curie 
confirmar. Domnus Mar. Fcmandiz signifer domini Regis confirmar. 
Domnus lohanes Fernandi dapifer domini Regis confirmar. Domnus 
Rodericus Menendi confirmar. Domnus Pelagius Suarii confirmar. Pe- 
lagius Pctri Pretor et populator ejusdem loci testis. Petrus Nuni restis. 
Fernandus Nuniz testis. Petrus Gomes testis. lulianus curic notarius. 

Ego Alfonsus II. Dei gratia Portugalie Rex , una cum uxore mea 
Regina domna Urraca , et filiis nostris Infaniibus domno Saneio et 
domno Alfonso et domna Alionor , concedo et confirmo vobis popu- 
latoribus de Monte maiore istam cartam et istud foium, quod vobis 
dedit Pater meus excellentissime memorie Rex Domnus Sancius. Et ut 
hoc meum factum in perpetuum firmissinium robur obtineat, precepi 
fieri istam cartam, et eam feci meo sigillo plúmbeo communiri. Facta 
fiiit hec carta mense lanuarií apud Sanctaren sub era millesima du- 
centesima quinquagesima sexta. Nos supranominati qui hanc cartam 
íieri precepimus coram subscriptis iilam roboravimus , et in ea hcc si- 
gna fecimus. Qui afíuerunt Domnus Stephanus Bracarensis Archicpis- 
copus confirmar. Domnus Mar. Portugalensis Episcopus confirmar. Do- 
mnus Petrus Colimbriensis Episcopus confirmar. Domnus Suarius Ulix- 
bonensis Episcopus confirmar. Domnus Suarius Elborensis Episcopus 
confirmai. Domnus Pelagius Lamecensis Episcopus confirmar. Domnus 
Bartolameus Visensis Episcopus confirmat. Domnus Mar. Egitaniensis 
Episcopus confirmar. Domnus Mar. lohanis signifer domini Regis 
confirmar. Domnus Petrus lohãnis Maiordomus curie confirmar. Domnus 
Laurencius Suarii confirmat. Domnus Gil Valasquiz confirmat. Domnus 
lohanes Fernandi confirmat. Domnus Fernandu^ Fernnndiz confirmat. 
Domnus Gomecius Suarii confirmat. Domnus Rodericus Menendi con- 
firmat. Domnus Poncius Al fonsi confirmar. Domnus Lopus Alfonsi con- 
firmat. Magister P/acius CamoT Portugalensis rcsris. Petrus Ga rsie tes- 
tis. Vincencius Menendi testis. Mar. Perriz testis. Petrus Petriz testis. . 
loanninus testis. Gunsalvus Menendi Cancellarius domini Regis. 

Novo Foral dado a Monte Mor o Novo pelo Senhor Rd D. Ma- 
noel, copiado do que se acha naCamera da dita Vi lia , e con- 
ferido com o riginal do Archivo da Torrt do Tombo. 



D, 



'Om Manoel per graça de Deos Rey de Portugall e dos Algar- 
yes daquem e dalém mar em Africa , Senhor de Guynee e da Com- 
quista Navegação e Commercio de Ethiopia Arábia Percya e da Ín- 
dia. A quantos esta nossa Carta de Foral dado a Villa de Monte 

Moor 



DAS SCIENCIAS DK LlSBOA. 8^ 

Moor ho novo virem fazemos saber , que por bem das deligencias 
e pauccs e emquyryçooens que em nossos Regnos e Senhorios manda- 
mos civelmente fazer pêra justificaçam e declaraçam dos foracs del- 
lec : e por algumas sentenças e determinaçoens que com os do nosso 
consellio e Letrados fizemos. Acordamos , visto o foral da dita Vii- 
la , dado por ElRey Dom Sancho o primeiro, que as Rendas e di- 
reitos Rcaes se arecndassem na forma seguinte. 

Posto que por o dito foral não fossem postos nelle nem decra- 
rados os Reguengos e propriedades, que nos c a Coroa Real destes 
Regnos tem na dita Villa , por ser couza própria nossa patrimonial , 
porem nos agora queremos fazer no foral desta Villa o que temos 
feito nas outras de nossos Reynos , a saber. Declarar todollos direitos 
que avemos na dita Villa os quaaes sao os seguintes. 

Primeiramente he da Coroa Real o Reguemgo nosso no termo 
da dita Villa, que chamão ho azinal cm que ha quinze arados que es-Azinlid, 
tão aforados e darcndamentos a prazer dos Lavradores e de Dom 
João de Sousa nosso guarda moor que de nos os hora traz. E paga- 
rão os Lavradores delle as ditas pençoens e foros , segundo as aven- 
ças e escripturas e contrautos que asy antre huns e os outros forem 
feitos; por quanto o dito Reguemgo he da Coroa Real yzentamente» 
e por isso as pessoas que em nosso nome o tem ou tiverem husarao 
delle como atee aqui fizerem per prazer dos Lavradores , segundo ss 
com elles consertarem , asy de paão e pitanças como de quaesquer cou- 
zas que se obrigarem de pagar per suas escripturas e convenças. 

E aos moradores da dita Villa fique inteiro seu direito e liberdade 
que tiverem ou poderam ter na serventya do dito Reguemgo , sem em- 
bargo de lhe agora ser embargado ou empedido, sem embargo do qual 
avemos por bem que se guarde seu direito. 

E alem das herdades emcabessadas que ha no dito Reguengo 
' c demarcadas per suas divisoens, anda também com o dito Reguengo 
I ho moinho que estaa no dito Reguengo , que paga sobre sy huum í^loinho. 
moyo de trigo e trinta alqueires de cevada. 

E tem mais isso mesmo no dito Reguengo huma orta que esta O'*^ 
a fonte do chaão , em que hora esta Tome Fernamdes , que tem de 
foro cada anno dous mil reis. 

E tem isto mesmo na dita Villa humas casas que remdem de fo-Cazas. 
TO dous mil reis cada anno e doze galinhas e ovos, as quaes estão 
ao pelourinho da dita Villa. 

Etem mais a Coroa Real em a dita Villa outro Reguengo, que Reguengos 
anda com os direitos dalcaidaria , e por isso ho trás ora Dom . . . .doCastella 
nosso Capitão dos ginetes como Alcaide mgor que lie da dita Villa , 
c a valia ercmda delle, easy doutro de citna dio azinhal, ouvemos 

por 



8^ Memorias da Academia Real 

porescuzada decrarar aquy , por que nam pagam foro certo, antes se 
mudam muitas vezes e por isso a renda delias não vai aqui; porem 
o dito Alcaide moor e as pessoas que depois dejle o dito Reguen- 
go de nos trouxerem, o daram pollos preços que poderem por anno 
ou annos, como lhes mais aprouver per prazer e comssintimcnto dos 
Lavradores que ncllcs ouverein de lavrar; no qual Reguengo os mo- 
radores da dita Villa iiuzaram como sempre costumaram, o qual cos- 
tume de tempo uzado a vemos por bem que se lhe guarde. 

Tabaliacs. Pagaram os cynquo tabaliaes do Judicial em cada huum anno 

aquella penssao soomente que soyam de pagar os quatro, ante que 
nestes cynquo fossem acrescentados, a saber mil e quatro centos reis 
cada hum dos quatro, que fazem soma cynquo mil e duzentos c sns- 
senta reis, a qual somma se ade partir igualmente pollos ditos taba- 
liaaês ; e pagam na dita maneira de mil e quatro centos e corenta 
reis por anno cada hum dos três tabaliaes das notas da dita Villa 
cada hum per sy. 

Açougage. Os açougues da dita Villa sam nossos e per consseguinte pa- 

gam a nos os direitos seguintes, a saber, pagam os almocreves que 
vem vender ao dito açougue de cada carga de pescado dous reis c 
mais hum arrátel pêra o Alcaide moor, e se forem sardinhas paga- 
ram os ditos dous reis e mais huma dúzia de sardinhas de cada car- 
ga , e este direito pagam os de fora como os da Villa , e pagam mais 
os de fora o direito da Portagem segundo em seu capitólio yra de- 
crarado. 

t^allaio. E as vendeiras que venderem na praça pagaram de qualquer 

cesto que teverem ante sy vendendo , dous çeitiis por dia , e se he gi- 
ga grande pagará meyo real ; e de qualquer carga que venderem 
pagaram huum real, e as padeiras pagaram de cada amassadura dous 
çeitiis. 

Carnecei- E pagaram ysso mesmo açougagem das carnes que cortarem no 

'°^ dito açogue, o qual direito estam em costume de se pagar por aven- 

ça que cadanno os Rendeiros com os carneceiros fazem , em que em- 
tra huuma casa própria dos ditos açougues em que os carneceiros 
sempre costumarão de terem e guardarem seus coyros, e porque se 
faria escândalo aos ditos carneceiros quando a dita avença se lhe non 
quizerem fazer pollos preços costumados , avemos por bem e manda- 
mos que quando os Rendeiros ou officiaaes se não quizerem com- 
certar com os ditos carneceiros, que os Juizes ordenairos vejam as 
avenças dos trcs annos passados, e de todos três façam soma , e o 
que montar no terço de todos três isso paguem os ditos carneceiros 
e mais nam. ' • 

E por quanto no corregimanto dos ditos açougues nam se pode 

bem 



DAS SciENciAs DE Lisboa. 87 

bem determinar, segundo a imquirição que mandamos disso tirar, que Reptiro 
quem avia de correger e repairar os açougues do pescado : Decra- ''« »s°"- 
ramos que o açougue da carne, e asy a caza sobredita pêra recolhi- -■'■"'^ 
mento dos ditos carneceiros seja sempre corrcgida e repairada de 
todo o que lhe comprir aa custa dos ditos direitos que se delia pa- 
gam pêra quaacsqiier pessoas que os ditos direitos de nos tiverem ; 
V.' quanto as cazas e açougue em que se vende o pescado achamos 
polia dita imquiriçam que nam estam em costume de se corregercm 
a custa das nossas rendas , e por tanto decraramos que nam scjão a 
iíso obrigadas ao dianre. Porem polia dita inquiriçam se mostra ho 
Marques que foi da diia \'illa tomar e desfazer ho açougue que es- 
tava dentro da Villa,c mandou fazer estoutro a sua custa, e deu cer- 
ta parte das casas delic a hum Fernam Dias Carvalho, a comdiçam 
que elle repairasse seiv.pre e corrcgcsse o dito açougue , a qual obri- 
gaçam passa a seus sobcessores que devem de fazer a dita despesa 
e nam o Comcellio; porem por não ser ouvido primeiro mandamos 
aos vereadores e procurador da dita Villa que demandem loguo os 
possoyv'ores das ditas casas pêra a dita despesa , e façam o feito con- 
cordir dentro doyto mezes , sopena ày en diante fasercm a sua custa 
a despesa dos ditos açougues. 

È polia penna darma se levaram duzentos reis e as armas per- Pena dai- 
didas, segundo nossa ordenaçam ; com estas decraraçÔes a saber, que"i»- 
a dita pena se nom levara quando algumas pessoas apunharem espa- 
da ou qualquer outra arma sem a tirar , nem pagaram a dita pena 
aquellas pessoas que sem prcposito e em reixa nova tomarem paao 
ou pedra posto que com el!n façam mal. E posto que de preposito 
tomem o dito paao ou pedra , se nem li?erem mal com eJle, nom pa- • 
garam a dita pena, nem a pagara moço de quinse annos pêra baixo, 
nem molher de qual quer hydade; nem pagaram a dita pena aquel- 
las pessoas que castigando sua molher e filhos e escravos e criados 
tirarem sangue; nem pagaram a dita pena quem jogando punhadas 
sem armas tirar sangue com bofetada ou punhada. 

E as ditas penas e cada huma delias nam pagaram ifso mesmo 
quaaesqucr pessoas que em defendimento do seu corpo, ou por apar- 
tar e estremar outras pesoas em arroydo tirarem armas , posto que 
com ellas tirem samgue; nem escravo de qual quer jiydade que com 
pao ou pedra tirar sangue. 

O gaado do vento hc direito Real segundo nossa ordenação , Gaado do 
com decraraçam que a pessoa a cuja maão for ter o dito gaado ho vento, 
venha dizer ao Escrivão pêra isso ordenado, sopena de lhe ser de- 
mandado de furto. 

A Dizima da execuçam das sentenças se recadara e levara na 

di- 



eT5',r OT 



Maninhos. 



Montados. 



88 Memorias DA Academia Real 

Dizimadas dita Villa por direito Real c de tanta parte se levara a dita dizi- 
Senten<,as. mg ^^ quanta SC fizer a cxeciiçam da dita sentença , posto que a 
sentença de mayor conthia seja ; a qual dizima se nam levará se ja 
se pagou em outra parte poiía dada delia. 

Os maninhos da dita terra quando os liouver scram dados por 
sesmeiros segundo nossa ordcnaçam, sem nenhuum foro nem trebuto. 

Os montados dos gaados que vem amontar de fora ao termo 
da dita Villa , tynliam cm costume os officiacs da Camará de os re- 
partirem antre sy , ho que temos mandado que se arecadc pêra a arca 
e renda do Comcelho, e asy mandamos que se faça daqui em dian- 
te, com decraraçam que em Camará osofiiciaes delia façam as aven- 
ças com os donos dos gados segundo sempre costumaram de faser, 
sem mais rigor nem apressam dos criadores do que se atecqui cos- 
tumou. E dos gados que emtrarem sem vesinbança ou licença ou 
avença dos ditos officiaaes ou dos seus B.cndeiros, pagaram por cada 
vez que asy focem achados a dez reis por cabeça degando vacuum, 
e cynquo por porco, e a real por cabeça de gaado miúdo; a qual 
pena e coima scnam levara senam despois que o malham ior to- 
do descuberto , e o gaado andar todo de dentro do dito termo e 
doutra maneira nam. E alem do foro qile asy pagam ao dito com- 
celho , pagaram também aos senhorios dos montados o que se com 
elles comcertarem , e asy do dano que lhe fiserem. 

E foi isso mesmo reservado pêra a dita Villa aliem do monta- 
do sobredito , que quem viesse a cortar madeira a seu termo perdesse 
a ferramenta e cousas com que a dita madeira cortasse , da qual pa- 
lavra a dita Villa nam husou segundo o rigor do dito foral , asy por 
guardarem boa visinhamça a seus comarcaãos , como a elles mesmos 
nos taaes lugares outro tal lhe fesesem; e por tanto tem-peiaiido a 
dita palavra com o costume mandanos que os que forem achados 
cortar a dita madeira pêra levar pêra fora , paguem p(^r cada vez cem 
reis e mais a ferramenta com que a dita madeira cortarem , e isto 
aquelles que nam tiverem licença ou avença ou forem Devora na com- 
tenda da giesteira , homde podem cortar sem coima como sempre fi- 
seram, sem nenhuma outra em.novaçam. 

Determinações pêra a Portagem. 

Primeiramente decraramos e poemos por Lei geral em todollos 
foraaes de nossos Regnos, que aquellas pessoas ham somente de pa- 
gar portagem em alguma Villa ou lugar que nam forem moradores 
e vcfinhos dclle , e de fora do tal lugar e tfrnio delle ajam de trazer 
as cousas pcra hy vender, de que a dita portagem ouverem de pagar 

ou 



CoRar ma- 
deira. 



DAS SciENCIAS UE L I S B O A. ?<> 

OU se os ditos homens de fora comprarem cousas nos lugares bon- 
de assy nam sam vesinhos e moradorts, e as levarem pêra fora do 
dico termo. 

E por que as ditas condiçooens se nam ponham tantas vezo? em 
cada hum capitólio do dito foral , mandamos que todollos capitólios 
e cousas seguintes da portagem deste foral se enicmdam e cumpram 
com as ditas condiçoens e decraraçoens , a saber, que a pessoa que 
ouvcr de pagar a dita portagem seja de fera da dita Villa e do 
termo , e traga hy de fora do dito termo con?as pcra vender , ou as 
compre no tal lugar donde assy non for vesinho e morador, e as ti- 
re pêra fora. 

E asy dccraramos que todollas cargas que adiante vam postas 
e nomeadas cm carga maior, se emtendam que sam de besta muar 
ou cavallar , e por carga menor se entenda carga dasno , e por costnl 
ametnde da dita carga menor , que he o quarto da carga de besta 
maior. 

E asy acordamos por escusar prolixidade, que todallas cargas e 
cousas neste foral postas e decraradas seentemdam e decrarcm ejul- 
gem na reparti^-am '»e conta j> delias asy como nos titullus seguintes 
do pam e dos panos he limitado; sem mais se fazer nos outros ca- 
pitólios a dita repartiçam da carga maior nem menor nem costal 
nem arrovas; soomente polio titullo da carga mayor de cada cousa 
se entendera o que per esse respeito e preço se deve de pagar das ou- 
Jias cargas e peso; a saber, poílo preço da carga mayor se entendera 
]oguo sem se mais dccrarar que a carga menor será dametade do pre- 
ço delia , e o costal será a metade da menor ; e asy dos outros '» pesos »» 
e cantidade , segundo nos » ditos » capitólios seguintes he decrrrado. E 
asy queremos que das cousas que adiante na fym de cada hum ca- 
pitullo mandamos que se nam pague portagem; decraramos que das 
taaes cousas se nam haja mais de fazer saber na portagem , posto que 
particularmente nos ditos capitólios non seja mais decrarado. 

E asy decraramos c mandamos que quando algumas m.ercadorias 
ou cousas se perderem per descaminhadas segundo as Leys e condi- 
çoóes deste foral , que aquellas soomente sejam perdidas pêra a por- 
tagem que forem escondidas e sonegado o direito delias, e nam as 
bestas nem outras cousas em que as taaes se levarem ou esconderem. 

Port.igem. 

De todo trigo, cevada , centeio, milho painço, aveia , e de fari-Pam, vi- 
nha, de cada huum deiles; ou de linhaça e de vinho ou vinagre ounho, sal, 
de sal e de cal , que a dita Villa e termo trouxerem homens de fo- "'• 
Tom. V. M ra 



9© Memorias oa Academia Real 

ra pêra vender, ou os ditos liomens de fora as comprarem e tirarem 

Eera fora do dito termo , pagaram por carga de besta maior» a saber 
esta » cavalar ou muar huum real ; e por carga dasno que se chama 
menor meio real; e por costal que hc a metade de besta menor 
dous ceitiis ; e dy pêra baixo em qualquer cantidade , quando veer 
pcra vender, hum ceitil. Equem tirar pêra fora de quatro alqueires 
pêra baixo nam pagara nada , nem fará saber á portagem. E se as di- 
tas cousas ou outras quaacsquer vierem ou forem em carros oa car- 
retas contar-se-ham cada huum por duas cargas mayores , se das taaes 
cousas ouuver de pagar portagem. 

Cousas de que se nam paga portagem. 

A qual portagem se nam pagara de todo pam cozido , queijadas 
biscoito , farellos , ovos , leite , nem de cousa » delle » que seja sem sal 
5» nem de prata lavrada»' nem do pam que trouxerem ou levarem 
ao moiniio , nem de canas , vides , carqueija , tojo , vasouras , palha ; nem 
de pedra, nem barro, nem lenha, nem erva , nem de carne vendida 
a peso ou a olho , nem faram saber de nenhuma das ditas cousas. 
Nem se pagara portagem de quaaesquer cousas que se comprarem 
e tirarem da Villa pêra o termo nem do termo pêra a Villa »» posto >» 
que sejam pcra vender, asy vesinhos como nam vesinhos. Nem se 
pagara das cousas nossas nem das que quaaesquer pessoas trouxe- 
rem pêra alguma armada nossa , ou feita per nosso mandado ou au- 
toridade. Nem do pano e fiado que se mandar fora tecer e pisuar, 
curar ou tinger. Nem dos mantimentos que os caminhantes na dita 
Villa e termo comprarem e levarem pêra seus mantimentos e de 
suas bestas. Nem dos gaados que vierem pastar alguuns lugares pas- 
sando nem estando , salvo daquelles que hy soomente venderem »» Nem 
dos panos e joyas que se emprestarem pêra vodas ou festas.»» 
Cara mo» De caza movida se nam hade levar nem pagar nenhum direi- 

vida. to de portagem de nenliuma comdiçiío e nome que seja , asy hinJo 

como vindo , salvo se com a casa movida trouxerem ou levarem cou- 
sas pêra vender de que se aja e deva de pagar portagem , porque das 
taaes se pagara honde somente as venderem e doutra maneira nam ; 
o qual pagaram segundo a calidade de que forem, como em seus ca- 
pitólios adiante se comrem. 
Passagem. E de quaaesquer mercadorias que á dita Villa cu termo vie- 

rem , de qualquer matieira que forem , de passagem pêra fora do ter- 
mo da dita Villa pêra quaaesquer partes , nam se pagara direito nenhum 
de portagem , nem seram obrigados de o fszerem saber, posto que 
hy descarreguem e pousein a qualquer tempo e hora e lugar; ese hy 

mais 



6iaB oi 



r 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. pi 

nvjis ouverem de estar que todo ho outro dia por alguma causa , em- 
tam o fará saber. E esta liberdade de passagem se nam emtendera 
quando forem pêra fora do Regno , porque emtam faram saber de 
todas, posto que de todas nam ajam de pagar direito. K esto se en- 
tendera no derradeiro lugar do estremo. 

Nem pagaram portagem os que na dita Villa e termo hcrd.irem Novidades 
alguns bens moves , ou novedades doutros de raiz que hy herdassem ; ''°^ '"^"' 
ou os que hy tiverem bens de rais propios ou arremdados , e leva- P^" "^ 
reni as novidades e fruitos delles pcra fora. Nem pagnram portagem 
quaesquer pesoas que ouverem pagamentos de seus casamentos , ten- 
ças , mercees , mantimentos cm quaesquer cousas e mercadorias posto 
que as levem pêra fora e sejam pêra vender. 

De todoUos panos de seda ou laã ou dalgodam ou de linho se panos fi- 
pag.ira por carga mayor nove reis , e por menor quatro reaes e meio , "os. 
e por costal dous reis e dous ccitiis , e por arrova jiuum , e di pêra 
baixo soldo aa livra, cando vierem pêra vender; porque quem levar 
dos ditos panos ou de cada hum delles retalhos e pedaços pêra seu 
huso nam pagaram portagem nem o faram saber ; nem das roupas 
que comprarem feitas dos ditos panos: porem os que as venderem pa- 
garam como dos ditos panos, na maneira que acima >? neste capi- 
tólio >» he dccrarado. 

A carga maior se emtende de dez arrovas e a menor de cinquo Carg?^ em 
arrovas , e o costal de duas arrovas e mea , e vem assy por esta con- arrovas. 
ta e respeito cada arrova em sinquo ccitiis e hum preto, pollos quaaes 
se pagara huum real : e polia dita conta e repartiçam se pagaram as 
cousas deste foral quando forem menos de costal. 

E assy como se aqui faz esta decraraçam e repartiçam pêra 
cmxempro nas cargas de nove reis, se fará nas outras soldo aa livra, 
segundo o preço de que forem. 

E do linho em cabello, fiado ou por fiar, que nam seja tecido ,La3, linho, 
c assy da laâ »e de feltres >» burel , mantas da terra , e de outros simi- panos gros- 
lliantes panos baixos e grossi s , por carga mayor quatro reis, e por^o'- 
menor dous reis, e por costal hum real, e dy pêra baixo atee hum 
ceitil quando vier pêra vender ; porque quem das ditas cousas e de 
cada huma delias levar para seu huso de costal pêra baixo que he 
hum real , nam pagara portagem nem o fará saber. Nem das roupas 
feitas dos ditos panos baixos e cousas que pêra seu uso comprar, e 
os que as venderem pagaram como dos mesmos panos baixos, segun- 
do a cantidade que venderem , como acima he dccrarado. 

De todo boy ou vaca que se vender ou comprar per homens deoaados. 
fora , por cabeça hum real , e do carneiro , cabra , bode , ovelha , cer- 
vo, corço ou gamo, por cabeça dois ceitiis. E dos cordeiros , borre- 

M ii gos. 



^> 



Memorias da Academia Real 



Carne. 

Ca(,-a. 
Coyrama. 

Calçadura. 



Pelitaria. 



Azeite , 
mel , e se- 
melhantes. 

Marcaria e 
semellian- 
tee. 



Metaacs. 

Ferro lavra- 
do. 

.^rmas , e 
feiramenta. 



gos, cabritos, OU leitões nam pagaram portagem, salvo se cada hu- 
ma das ditas cou«as se comprarem ou venderem juntamente de qua- 
tro cabeças para cima , das cjuaaes pagaram por cabeça hum ceitil. 
E de cada porco ou porca dous ceitiis por cabeça. E da carne que 
se com;rar de talho ou cmxerqua nam se pagara nenhuum direito 
j> de portagem» E do toucinho ou ninrraa inteiros por cada huum 
huum ceitil , e dos emcetados se nam pagara nada. 

E de coelhos , lebres , perdizes >> patn.s » adees , pombos , galinhas , 
6 de todollas outras aves e caça nam se pagara nenhuma portagem 
pollo comprador nem vendedor, nem o faratn saber. 

De todo coiro de boy ou vaca , ou ilo >» cada » pelle de cervo, 
corço, gamo, bode, cabras, carneiros ou ovelhas, corridas ou por 
cortir, dous ceitiis; e se vierem em bestas pagaram por carga mayor 
nove reis, e das outras per esse respeito. 

E na dita maneira de nove reis por carga mayor se pagara de 
çapatos, broziguis, e de toda outra calçadura de coyro , da qual 
nam pagara o que a comprar pêra seu huso e dos seus, nem dos 
pedaços de pelles ou coyros que pêra seu u?o comprarem , nam sen- 
ão pelle inteira , nem ilhargada , nem lombeiro , dos quaaes pagaram 
como no capitólio de cima, dos coyros, se comtem. 

E de cordeiras , raposos , martas , e de toda pelitaria ou forros , 
por carga mayor nove reis, e de pelicas e roupas feitas de pelles 
por peça meo real , e quem comprar pêra seu uso cada huma das 
ditas cousas, nam pagaram nada. 

De cera , mel , azeite , cevo , hunto , queijos cecos , pez , manteiga 
salgada , rezina , breu , sabam , alcatram , por carga mayor nove reis ; e 
quem comprar pêra seu uso atee hum real de portagem , nam pagara. 

De graâ, anil, brazil, e por todallas cousas pêra tingir, e por 
papel , e toucados de seda e algiiodam , e por pimenta e canella , e 
por toda especiaria , e por ruibarbo, e por todallas cousas de boti- 
ca; c por asuquar, e por todallas conservas delle ou de mel; e por 
vidro e cousas delle que nam tenham barro; e por estoraque, e por 
todoUos perfumes ou cheiros ou aguas estiladas, por carga mayor de 
cada huma das ditas cousas , e de todallas outras suas semelhantes 
se pagara nove reis. E quem das ditas cousas comprar pêra seu uso 
«atee meo real de porr;ifj;cm e dy pêra baixo» nam pagara nada. 

Do aço, estanho, chumbo, latam, arame, cobre, c por todo 
outro metal, e asy das cousas feitas de cada hum delles; e das cou- 
sas de ferro que forem moidas , estanhadas » limadas» ou enverniza- 
das , por carga mayor nove reis , das quaaes nam pagara quem a? 
levar pêra seu huso. E outro tanto se pagara das armas e ferramen- 
ta , das quaaes levara pêra seu huso as que quiserem sem pagar. 



b':::'.T oi 



liAsSciENCiAS UE Lisboa. pj 

E do ferro em barra ou em niaçuquo , e por todallas Cousas Ferfo g'<»- 
lavradas dclle que nam sejam da? acima contheudas , limadas, moy-'"- 
tias, estanhadas, nem emvernizadas, por carga mayor quatro reis e 
meo ; c quem das ditas cousas levar pêra sen serviço c das suas 
quintaas ou vinhas em qualquer cantidade nam pagara nada. Ue 
carga mayor de pescado ou marisco Iium real , e cimquo ceitiis ; ePescalo, e 
quem levar de meia arrova para baixo nam pagara. E do pescado "'^'"^'^o- 
d íi^oa doce atee mea arrova nam se pagara portagem , nem faram 
saber asy da venda como da compra, sendo somente truitas cu bor- 
dallos ou bogas , e dv pcra baixo. 

De castanhas verdes c secas, nozes, amcixeas, figos pasSados , Fruita seca. 
uvas, amêndoas, epinhoôes por britar, avcUaãcs, bollotas , favas se- 
quas , mostarda , lemtilhas, e de todollos legumes secos, por carga 
mayor trcs reis. E ourro tanto se pagara do çuiiuigrc e casca pcra ('jicajeçu- 
Ctirtir; e q;iein levar das ditas cousas meya arrova pêra seu uso , "'*Sf«- 
fiam pagara. 

E de carga mayor de laranjas, cidras, peras, cerejas, uvas ver-Fruita ter^ 
des , e figuos , e por toda outra fruita verde, meo real por carga. E ''^• 
outro tanto dos alhos secos, ccbollas, e mcllooes e ortaliça. E quan- Oitalica. 
do das ditas cousas se vender ou levar menos de mea arrova , nam 
íc pagara portagem poUo vendedor , nem comprador. 

Do cavallo , ou egoa , ou rocim , e bestas de muu ou mulla , huum lestas. 
real e cinquo ceitiis. E do asno ou asna hum real. E se as eguoas 
ou asnas se venderem com crianças nam pagaram portagem senam 
polias maaens. Nem se pag;ira direito se trocarem Jnimas por ou- 
tras ; porem quando se tornar dinheiro, pagarseha como vendidas, 
e do dya que se vender ou comprar o faram saber aas pesoas a isso 
obrigados , aiee dous dyas »» primeiros »» seguintes. E este direito nam pa- 
garam os Vassallos c esaideiros nossos , e da Rainiia , c de nossos filhos. 

Do escravo ou escrava que se vender hum real e cinquo cei- Efcravos. 
tiis. E se se forrar por qualquer concerto que fistr com seu Senhor, 
pagara a dizima de todo o que por sy der aa dita portagem. E se 
se venderem com filhos de mama, nam pagaram senam polias maií, 
e se se trocarem huuns escravos por outros sem tornar dinhcirc» , 
nam pagaram , e se se tornar dinheiro por cada huma das partes 
pagaram »» a dita >» portagem , e a dous dias depois da venda feita 
Jiyram arecadar na portagem as pessoas a isso obrigadas. 

De carga mayor de telha ou tigoUo, ou qualquer louça de bar- Telha, e 
ro que nom seja vidrada dous reis , e de menos de duas arrovas c tijollo. 
mea nam se pagara portagem pollo comprador. 

E da mallcga , e de qualquer louça ou obra de barro vidrada fliallega. 
do Reyno ou de fora delle , por carga mayor quatro reis. E de meo 

real 



sia^a ot 



Moos. 



Pedra , e 
barro. 

Cousu He 
paao. 



De palma , 
esparto, e 
seraelliaii- 
tes. 



Emtrada 
per terra. 



Descami- 
nhado. 



94 Memorias da Academia Real 

real cie portagem pêra baixo natn pngaram os que as comprarem 
pêra seu uso. 

E de moos de barbeiro dous reis, c das de moyniios ou atafo- 
na quatro reis , e de casca ou azeite seis reis. E por moos de mão 
pêra pam ou mostarda hum real , e quem trouxer ou levar as ditas 
cousas pêra seu uso nam pagara nenhuma cousa de portagem. 

Nem pagara isso mesmo de pedra nem barro que se leye , 
nem traga de compra nem venda por nenhuma maneira. 

E de tonees, arcas, gamellas, e por toda outra obra e louça de 
paao, por carga maior cinquo reis. 

E do tavoado sarrado ou por sarrar , e por traves , tirantes , e 
por toda outra madeira semelliante grossa, lavrada ou por lavrar, 
dous reis por carga mayor , e quem das ditas cousas levar de cos- 
tal pêra baixo, que sam duas arovas e mea , nam pagara. 

De palma , esparto , junca ou junco seco pêra fazer empreita 
delle, por carga maior dous reis; e quem levar pêra seu uso de mea 
arrova pêra baixo , nam pagara nada , e por todallas alcoíiaas , es- 
teiras, seirooes, açafates, cordas, e das obras e cousas que se fazem 
da dita palma e esparto &c. por carga mayor seis reis, e de meia 
arrova pêra baixo >j quem as tirar »> nam pagara nada. 

E as outras cousas conteudas no dito foral antiguo ouremos aqui 
por escusadas, por se nam husarem por tanto tempo que nam ha 
delias memoria , e algumas delias tem ja sua provisam por Leis ge- 
raes e ordenaçooes destes Reynos. 

Como se arrecada a portagem. 

As mercadorias que vierem de fora pêra vender nam as descar- 
regaram nem meteram em casa , sem primeiro lio notificarem aos ren- 
deiros ou officiaaes da portagem ; e nam os achando em casa toi:i3- 
ram huum seu vezinho ou huma testemunha conhecida , a cada hum 
dos quaaes diram as bestas e mercadorias que trazem , he onde hain 
de pouzar. E emtam poderam descarregar e pousar homde quizerem 
de noyte e de dya , sem nenhuma penna , e assy poderam descarre- 
gar na praça ou açogues da dita Villa sem a dita manifesraçam. 

Dos quaaes lugares nam tiraram as mercadorias sem primeiro 
ho notificarem aos rendeiros ou officiaaes da portagem , so pena de as 
perderem aquellas que somente tirarem e sonegarem , e nam as bes- 
tas nem outras cousas. E se no termo do lugar quiserem vender , fa- 
ram outro tanto se hy ouver rendeiros ou officiaaes da portagem. 
E se os nam ouver, notefiqueno ao Juiz ou vintaneiro ou quadrilhei- 
ro do lugar honde quiserem vender, se os hy achar, ou a dous ho- 

tnees 



dasScíenciasdeLisboa. jiç- 

mecs boos do dilo lugar, ou a huum se mais non achar, com os 
quaes arecadara ou pagara sem ser mais obrigado a buscar os offi- 
ciaacs nem rendeiros , nem cmcorrer por isso em alguma pena. 

E os que ouvcrem de tirar mercadorias pêra fora , podellas ham Saida per 
comprar livremente sem nenhuma obrigaçam nem cautclla , e seram '*;'"• 
soomente obrigados aas mostrar aos officiaaes ou rendeiros quando 
as quiserem tirar, e nam em outro tempo; das quaes manifestaçoóes 
de razer saber a portagem nam seram escusos os privillcgiados , pos- 
to que a nam aja de pagar , segundo adiante no capitólio dos pri- 
villcgiados vai decrarado. 

As pessoas eclesiásticas de todallas Igrejas, e moesteiros assy Prjvillegia- 
domees como de molheres , e as provencias e moesteiros em que ha dos. 
frades e freiras, e Irmitaâes que fazem voto de proíissam , e os clé- 
rigos dordes sacras , e os beneficiaados em hordes menores , que pos- 
to que -nam sejam dordens sacras vivem como clérigos e por taaens 
sam havidos , todos os sobreditos sam isentos e privillcgiados de to- 
do direito de portagem , nem hus.ijem , nem custumagem , per qual 
quer nome que a possam ciiamar, asy das cousas que venderem de 
seus bens e befieficios , como das que comprarem »» trouxerem >j ou le- 
varem pêra seus husos e de seus benefícios e familiares. 

E assy sam liberdades da dita portagem per privillegio que tem 
as Cidades , Villas e lugares de nossos Regnos que se seguem , a sa- 
ber, Monte moor o novo , a Cidade de Lixboa , e Agaya iIo Porto, 
Povoa de varzim , Guimarães, Braga, Barcellos , Prado, Ponte de li- 
ma , Viana de lima. Caminha, Villa nova de Cerveira, Valença, 
Momçam , Crasto Leboreiro, Miranda , Bragança , Frcixio, Oazi- 
nhoso, Mogadoiro, Anciaaes , Chaves, Monforte de rio livre. Mon- 
te alegre , Crasto Vicente»» Villa Real»» a Cidade da Guarda, Jar- 
mello , Pinhel , Castel Rodrlguo , Almeida , Castel mendo , Villar 
mayor , Sabugal, Sortelha, Covilhaã , Monsanto, Portalegre, Mar- 
vão , Arronches , Campo mayor. Fronteira , Monforte , Villa viçosa , 
Elvas , Olivença , a Cidade Devora , Lavre >» pêra os vendeiros soomen- 
te »> Monssaras , Beja, Moura, Noudar, Almodouvar, Odemira , os 
moradores no Castello de Cezimbra, E asy sam liberdades da dita 
quaaesquer pessoas ou lugares que nossos privillegios tiverem e mos- 
trarem , ou o treslado em pubrica forma , aliem dos acima contheu- 
dos. 

E pêra se poder saber quaaes seram as pessoas que seram havi- visinháça. 
dos por vezinhos dalguum lugar, pêra gouvirem da liberdade delle , 
declaramos que vezinho se emtenda dalguum lugar o que for delle 
natural, ou nelle tiver alguma dinidade ou officio nosso , ou do Senhor 
da terra, per que razoadamente viva,e more no tal lugar. Ou seno 

tal 



513Í1 OI 



96 Memorias da Academia Real 

tal lugar alguum for feito livre da servidam em que era posto , ou 
seja hy pertilhado per alguum hy morador e ho perfilhamento per 
nos confinrado. Ou se tiver hy seu domicilio ou a maior parte de 
seus beens com preposito de ali morar. E o dito domecilio se enten- 
dera onde cada iuim casar , em quanto hy morar. 

E mudandosc a outra parte com sua moljier e fazenda com 
tençam de se pcra Ia mudar, tornandose hy depois nam será ávido 
por vezinho , salvo morando hy quatro annos continuadamente com 
sua molher e fazenda , emtam será ávido por vezinho , e asy o será 
quam vier com sua molher e fascnda viver algum outro lugar estan- 
do" nelle »J os ditos quatro annos. E alem dos ditos casos nam será 
ninguém ávido por vezinho dalgum lugar j pêra gouvir da liberdade 
delle pêra a dita portagem. 

E as pessoas dos ditos lugares privillegiados nam tiraram mais 
o trellado de seu privillegio , nem no trazeram , somente traram cer- 
tidam feita pollo escrivam da Camará , e com ho sello do Concelho 
como sam vezinhos daquelle lugar. E posto que aja duvida has ditas 
certidooens se sam verdadeiras, ou daquelles que as apresentam , po- 
der lhes ha sobre isso dar juramento sem os mais deterem , posto 
que se diga que nam sam verdadeiras. E se depois se provar que 
eram falsas, perdera o escrivam que a fes o officio, e degradado 
dous annos pêra Cepta , e a parte perdera em dobro as cousas de 
que asy emganou , e sonegou a portagem , ametade pcra a nossa Ga- 
mara , e a outra pêra a dita portagem : dos quaes privillegios husa- 
ram as pessoas nelles contheudas polias ditas certidooens , posto qus 
nam vam com suas mercadorias, nem mandem suas procuraçooens , 
com tanto que aquellas pessoas que as levarem jurem que a dita cer- 
tidam he verdadeira , e que ns taes mercadorias sam daquelles cu^ 
he a cerdidam que apresentam. 
Penadofo- E qualquer »> pessoa " que for contra este nosso forsl , levando mais 

"'• direitos dos aqui nomeados, ou levando destes mayores conthias das 

aqui decraradas , ho avemos por degradado por hum anno fora da 
Villa e termo, e mais pague da cadeia trinta reis por hum de todo 
o que asy mais levar , pêra a parte a que os levou. E se a non qui- 
ser levar, sea ametade pêra quem ho acusar, e >j a outra»» pêra os ca- 
tivos. E damos poder a qualquer Justiça onde acontecer, asy Juizes 
como ventaneiros ou quadrilheiros , que sem mais processo nem or- 
dem de Juizo, sumariamente sabida a verdade, condenem os culpa- 
dos no dito caso de degredo , e asy do dinheiro atee conthia de 
dous mil reis, sem apellaçam nem agravo, e sem disso mais poder 
conhecer Almoxerife , nem contador , nem ourro official nosso , nem 
de nossa fazenda , em caso que o hahy aja. E se o senhorio dos di- 
tos 



«asScienciasdeLisboa. 97 

ros direitos o dito foral quebrantar per sy ou per outrem, seja lo- 
guo sospenso deiles e da jurdiçam do dito lugar se atever, em quan- 
to nossa mercê for; e mais as pessoas que em seu nome ou por elle 
o feserem , emcorrcram nas ditas penas. E o? AlmoxerifFes , escri- 
vaaens , e officiaaes dos ditos direitos que o assy nam conprirem , 
perderam logo os ditos officios , e nam averam mais outros. E por 
tanto manda;i)os que todallas cousas contheudas neste foral que nos 
poemos por Ley , se cunpram para sempre; do telior do qual man- 
damos fazer três , hum deiles pêra a Camará da dita Villa , e outro 
pêra o Senhorio dos ditos direitos, e outro pêra a nossa Torre do 
Tombo, pêra em todo tempo se poder lirar qual quer duvida que so- 
bre isso possa sobrevir. Dada em a nossa mui nobre e sempre leal 
Cidade de Lisboa aos quinze dias dagosto arino do nacimento de 
nosso Senhor Jesus Christo de mil e quinhentos e três. E eu Fernam 
de Pina por mandado especial de Sua Alteza o fis faser em desano- 
ve folhas com esta , e concertei per mym. 

ELREY. 
Registado no tonbo. Fernam de Pina. Ano do nacimento de 
nosso Senhor Jesus Christo de mil e quinhentos e quinse anos, aos 
vintee sinco dias do mes dabril , em esta Villa de Monte mor o no- 
vo dentro na Camará do Conselho da dita Villa , estando hy juntos 
em vereaçam o Licenciado Antam Feyo Lopes , Juis de fora com 
alçada em a dita Villa por ElRey nosso Senhor. Heytor de Sequei- 
ra , Cavaleiro da Casa do dito Senhor, e Joham Fernandes, Verea- 
dores que ora sam em a dita Villa , e Fernam Rodrigues , Procura- 
dor do Conselho , e loguo hy na dita Camará perante elles officiaes , 
e outras pessoas testemunhas, e mnito"; homens do povo que foram 
chamados , foi publicado este foral dElRey nosso Senhor ante of- 
ficiaes e povo por Álvaro Fragoso, Cavaleiro da Caza dElRey nos- 
so Senhor , que o dito foral troux,era a dita Villa por mandado 
dElRey nosso Senhor: e publicado como dito he, mandaram a mim 
tscrivam que pusese aqui a dita publicaçam , que foi asiiiada pelo 
dito Juis e omciaes , e pelo dito Álvaro Fragoso, testemunhas que 
estavam presentes, Eítevam de Faria, criado do dito Álvaro Fra- 
goso, e Joham Afonso, porteiro da Camará. E eu André Lopes, 
escrivam da Camará, esto escrevi e assinei. =: Antam Fevo Lopes, 
^ Heytor de Sequeira. r= Joham Fernandes. := André Lopes. = 
Joham Afonso. = Estcvam de Faria. 

N. B. /Is paliivrai que vão em grifo neste Foral não se encontrão no do Ar' 
chivo dn Torre do Tombo , mas sim tin do Cartório de Monte Mor o novo ; pelo 
contrario as que vão virguladas a.bão se no Exemplar do Archivo e não no da 
Camera de Monte Mor. He escusado dizir que o Registo he só do foral de 
Monte Mor, 

Tom. V. N ER- 



ERRATAS. 



Pag, Liu. 



Erros 



Emendas 



V 
XI 

6 


17 
18 

2 


os affligem 
germanisárão 
das suas 


affligem 

SC gcrmanárão ' 

nas suas 


15* 

i7 


12 

17 
ultima 


nos hemiplegios 
articular 
confundidos 
enjeitando 


nas hemiplegias 
orbicular 
contundidos 
injectando 


41 


^9 


com raião 


com razão 


4» 
56 


33 

24 


das experiências 
os distinguem 


nas experiências 
as distinguem 



^ 



ME- 






99 



MEMORIAS, 

QUE SE CONTÉM NA I. PARTE 
DESTE QUINTO TOMO. 



H 



I S T o R I A. 



D. 



ISCURSO recitado na Sessão publica de 2^ de Ju- 
nho de 18 16 , pelo Vice Secretario Francisco de Mel- 
lo Rranco, --_._.-«-- Pag. i 

Conta dos trabalhos Vaccinicos lida na Sessão publica da 
, Academia Real díis Sciencias de Lisboa aos 24 de jf«- 
nho de 1816 , pelo Doutor Justiniano de Mello Fran- 
co. --------------- XXX 

Frogramma da Academia Real das Sciencias de Lisboa , 

annunciado na Sessão publica de 24 de Junho de 18 16. xliu 
Lista dos Sócios da Academia Real das Sciencias. - - xlvii 
Relação dos Membros , e Correspondentes da Instituição 

Faccinica da Academia Real das Sciencias. - - - liv 

Memorias dos Sócios. 

Memoria sobre a identidade do Systema muscular na Eco- 

nomia animal , por Francisco Soares Franco. - - i 

\ Memoria -sobre hum Verme vivo dentro do olho de hum 
cavai lo , lida em a Sessão publica de 24 de Junho de 
1816, por Sebastião Francisco de Mendo Trigozu. 60 
I Da Antiguidade da Observação dos Astros ; e da Bússola 
e de outros Instrumentos no uso da Navegação , por 
António Ribeiro dos Santos. ------- 77 

Do Conhecimento que era possixel ter da existência da 
America , pela tradição do' Antigos , e por motivoi Fi- 
losóficos, por António Ribeiro dos Santos. - - - 101 
Da Possibilidade e verosimilhança da Demarcação do Es- 

N ii trei- 



joo Índice. 

treito de Magalhães no Mappa do Infante D. Pedro , 

por António Ribeiro dos Santos. ----- ny 

Extracção de Loterias ; que se executa em tempo brevís- 
simo , e sem que se possa commetter erro ou engano : 
proposta por António de Araújo Travassos. - - 136 

Memoria sobre a nova Mina de ouro da outra banda do 
Tejo. Lida em 10 de Maio de iSij , por José Bo- 
nifácio de Andrada e Silva. ------- 140 

Memorias dos Correspondentes. 

Memoria Estatística d cerca da notável Villa de Monte 

Mor o Novo , por Joaquim José Varella. - - - 4 
ylppendice d Memoria antecedente. ------- 8; 



CA- 



SI3« Oí 



« 



MAPPA DOS EXPOSTOS, 

Que entrarão , morrerão , e existirão no Hospital Real de Santo i( 
André da Vill.i de Monte Mor o Novo , desde lyyo até i8i4- ), 



1 



>> 




iíl^^=ií=^:í^^^=?:í=^^=v«?íbí=}:f'^=?=^^^::?^=^i5==:ií=^^ 



M A P P A I 

Dos nascidos c mortos na Villa de Monte Mor o Novo e ff 
seu termo, desde o anno de iSoj até ode 1814. fr 

i 

Numero dos mortos á> 

i 
» 



.1 "> 



« 



1805 

1806 



I 1807 

l 

I 1808 

I 1809 

<^ 1811 
1813 
1814 

Totalidades 



Numero dos nascidos 



M 



ASCULINO 



146 

142 

1 82 
186 
166 
161 

143 
18 1 



'EMININO 



1629 



138 
I 18 

149 

164 

1 66 



..Masculino 



1497 



148 
196 
187 
191 

147 

192 
196 

2 2 2 
I 46 



1778 



Fe.m 



E.MININO 



149 

,6,1 

2ro| 

Mi?! 

.84I 

>•> 
.79 j^ 









LAPIDE 



Achada nas visinhanças de Monte Mor o Novo, copiada como se 
acha no anno de 1814 entre as antiguidades do lllustre Cená- 
culo, Metropolita da Sé de Évora. 



LVRIAE T. F. BOVTIAE 
G. IVLIVS L. F. GAL. SEVERVS 
VXORI SIBI SVIS Q^VE. F. G 



LAPIDE 



De jaspe branco embutida na parede exterior do adro da Igreja 

Matriz, intitulada N. Senhora do Bispo, da Villa de Monte 

Mor o Novo. Copiada como se acha no anno de 1814. 



D M. S. 

MEMORIAE G. F. CALCHISIAE FLAM 
PROV. LVSIT. II FIL. PIISSIM. ET. MAR. L. F. 
SIDONIAE NEPT. DVLC. ET APON. LV 
PIANO. MAR. MERENT. FABRIC. QVA. MISER. MA 
TER IVN. LEONICA. KARIS SVIS ET SIBI 




({JSomnia 159 



=?á=^:í?=5:F'^í^^;í=i(a 



8i:ri 0'1> 




CATALOGO 

Das Obrai jd impressas , e mandadas publicar pela Academia 

Real das Scieítcias de JJshoa : com os preços , por que cada 

huma delias se vende brochada. 



I. IJR K V > 5 Instrucçóes aos Correspondentes da Academia sobre 
as remessas dos productos naturaes , para formar hum Museo Na- 
cional , Jolheto a." -- no 

II. Memorias sobre o modo de aperfeiçoar a Manufactura do Azei- 
te em Fortugal : remettidas á Academia por ]oáo António Dalla- 
Bella , Sócio da mesma , i vol. 4.° ..-.-.--- 480 

III. Memoria sobre a Cultura das Oliveiras em Portugal , remetti- 

da á Academia pelo mesmo , i volume ,4." ...... 480 

IV. Memorias de Agricultura premiadas pela Academia , 2 vol. 8." p6o 

V. Paschalis Josephi Mellii Frcirii Hisioriae júris Cívilis Lusitani 
Liber singularis , 1 vol. 4.° ...-.--..-.. 640 

VI. Ejusdcm Institutiones Júris Civilis , et Criminalis Lusitani , 5. 

vol. 4.* .............--..-- 1400 

VII. Osmla , Tragedia coroada pela Academia , joih. em 4-'^ - - 24P 

VIII. Vida do Infante D. Duarte, por André de Rezende, folh. 4° 160 

IX. Vestigios da Lingoa Arábica em Portugal , ou Lexicon Eiymo- 
logico das palavras , e nomes Portuguezes , que tem origem Ará- 
bica , composto por ordem da Academia , por Fr. Joáo de Sousa , 

I vol. em 4.° 480 

X. Dominici Vandelli Viridarium Grysley Lusitanicum Linnaeanis 
nommibus illustratum , i vol. 8.°----------- íOO 

XI. Ephemerides Náuticas , ou Diário Astronómico para o anno de 
1789, calculado para o Meridiano de Lisboa, c publicado por 
ordem da Academia , i vol. 4."--- -.- j6p 

O mesmo para os annos seguintes até 1809 inclusivamente. 

XII. Memorias Económica; da Academia Real das Sciencias de 
Lisboa , para o adiant.imento da Agricultura , das Artes , e da In- 
dustria em Portugal , e suas Conquistas , 5 vol. 4.° - - - - 4000 

XIII. Collecçáo de Livros inéditos de Historia Portugueza , desde o 
Reinado do Senhor Rei D. Dinis , até ao do Senhor Rei D. João II. 

4 vol. Jol. - 7200 

XIV. Avisos interessantes sobre as mortes apparenres , mandados re- 
copilar por ordem da Acaxlemia , (olh. 8.° - - gr. 

XV. Tratado de Educação Pysica para uso da Nação Poriugue^a, 
publicado por ordem da Academia Real dns Sciencias , por Fran- 
cisco de Mello Franco , Corrcspondfnte da mesma , i vo!. 4.° - }íO 

XVI. Documentos Arábicos .d.i Historia Portugucza , copiados dos 
Originaes da Torre do Torabo com permissão de S. Magestade , 

e 






',y A T A L o o o. 

Estão no prelo as seguintes. 

Documentos para a Historia da Legislação Portugiieza , pelos Sócios da 
Academia )oáo Pedro Ribeiro , Joaquim de Santo Agostinho de Briío 
Galv Jo , e outros. 

Ccllecçáo dos principaes Historiadores Portuguezes. 

Collccçáo de Noticias para a Historia e Geografia das Nações Ultramari- 
nas. 

Taboas Trigonométricas , por ]. M. D. P. 

Obras de Francisco de Borja Garção Stockler , Tom. 2." 

Memorias da Academia , Tom. 5." 

Obras escolhidas do Padre Vieira, 

Fendem-se em Lisboa nas lojas dos Mercadores de Livros na Rua das 
Portas de Santa Cacharína i e tm Coimbra e no Porto também pelos mes- 
mos pregos. 



HISTORIA 

E 

MEMORIAS 

D A 

ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS 

DE LISBOA. 



siau Oõ 



HISTORIA 

E 

MEMORIAS 

D A 

ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 
D E L I S B O A. 

Nisi uttle est qtiod faciínus , stulta est gloria. 

TOMO V. Parte II. 




LISBOA 

NA TYPOGRAFIA DA MESMA ACADEMIA, 

I 8 I 8. 

Com licença de SUA MAGESTADE. 



ST3>1 CO 



DISCURSO 

Recitado na Sessão publica de 24 de Jutiho de 18 17 

pelo vice-secretario 
Sebastião Fiancisgo de Mendo Triqozo. 



^EKHOREs. Quando cm hum dia semelhante tive a honra 
de expor na vossa presença os progressos da Academia , e 
o summario dos seus trabalhos em o anno de 181 3, bem 
longe estava de prever , que tornaria tão depressa a ser o 
órgão , por onde se vos annuiiciasse a continuação dos nos- 
sos esforços no desempenho da difficil tarefa , a que gosto- 
samente nos sugeitámos. O triennio do meu serviço devia 
então acabar dentro de pouco , e passado elle esperava hum 
successor, que com maior lustre corresse até ao fim a mes- 
ma estrada , e satisfizesse melhor as obrigações de que en- 
tão me achava incumbido. Assim aconteceo , e a nomeação 
do Síir. Francisco de Mello Franco devia dar-vos as mais 
bem fundadas esperanças de que , ainda mesmo nos impe- 
dimentos do nosso benemérito Secretario o Snr. José Boni- 
fácio de Andrada , haveria hum fiador, digno de o substi- 
tuir, e de fazer menos sensivel a sua falta, j Quanto porém 
são illusorios os juizos do homem , até á cerca daquelles 
objectos que toca com a mão ! Não prévio a Academia , que 
as qualidades que tornavão o Snr. Francisco de Mello tão 
digno da sua escolha, havião de ser as mesmas que con* 
correrião a fazer-lho perder dentro de poucos mezes : não 
prévio que por mais modesto que seja o verdadeiít) mere- 
cimento , não he possível encobrir-se ; e que ainda mesmo 
quando o podesse conseguir o Filosofo profundo , e o Es- 
critor polido e elegante , não haveria meios de suíFocar o 
brado de milhares de victimas, arrancadas á morte, e que 
Totn. V. Part. 11 * i aben- 



II HiSToniA DA Academia Real 

abençoão o seu libertador. Este ceco festivo retumbou na 
Corte do Rio de Janeiro; e o nosso Soberano que já tinha 
repetidas provas de que ellc não era nascido de hum enthu- 
siasmo momentâneo, nomeou o Snr. Mello, juntamente com 
outro Collega nosso o Sfír. Bernardino António Gomes, pa- 
ra acompanhar desde Liorne até ao Bra/.il a amável Princeza , 
que vai fazer as delicias do Herdeiro da Monarquia e de 
seus felices Povos, e para vigiarem ambos a conservação de 
huma vida que por tantos motivos nos he preciosa. 

Privada assim a Academia de hum dos seus melhores 
esteios , tornou de novo a impor-me huma obrigação , com 
que indubitavelmente não pode nem a minha precária saú- 
de , nem os meus poucos conhecimentos. Tanto mais me 
foi isto penoso , que na mesma occasião se achava também 
precisado a ausentar-se por alguns tempos o nosso Secreta- 
rio , que vai continuar a dirigir pessoalmente os trabalhos 
do encanamento do Mondego , de cujo principio já este an- 
no tem resultado grandes ventagens aos habitantes do Cam- 
po de Coimbra. Recahindo pois em mim por esta manei- 
ra , e quando menos o pensava , as obrigações que quasi 
sempre costumão andar repartidas por dois Sócios bcne- 
iTieritos , ^ como será de esperar que os meus hombros não 
verguem com hum peso tão superior ás suas forças? Deveis 
facilmente persuadir-vos disto , e esta persuasão não será pa- 
ra mim estéril, pois me dá hum meio de alcançar a invlul- 
gencia necessária na presente occasião , em que tenho de 
traçar o esboço da Historia c Trabalhos Académicos duran- 
do o anno pretérito. 

Se hum semelhante assumpto requer ordinariamente ser 
tratado por huma penna hábil , muito mais o pediria aindo 
hoje , em que ha para recordar objectos , próprios pela sua 
grandeza a cativar a artenção de todos , e a commover a 
sensibilidade de nossos corações. Nem se pense que elles 
são alheios deste lugar : ainda que o Santuário das Lettras 
fica as mais das vezes isolado no meio das pequenas com- 
nioções das Sociedades , e he indifferentc ao espirito de par- 
ti- 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. iit 

tido , e ás pequenas lutas de paixões ; não succcdc assim 
quando os Destinos decidem da sorte dos Monarchas que 
as protegem, e fazem a felicidade dos seus Povos: então 
o patriotismo tanto mais ardente, quanto he mais illumina- 
do se apodera dos verdadeiros Sábios , e lhes fa/ estimar 
ou sentir com dobrada energia os successos prósperos ou in- 
faustos. Em ambas estas circunstancias se achou a Academia 
no decurso deste mesmo anno , em que teve de chorar hli- 
ma Soberana , a quem tudo devia ; e adquirio em o novo 
Monarcha que nos rege o penhor mais firme da sua esta- 
bilidade e perseverança. Apôz estes acontecimentos , que os 
escassos limites a que me vejo circunscripto não me dei- 
xarão tratar com a extensão devida , mostrarei o reconheci- 
mento da Academia pelo seu primeiro Instituidor; e minis- 
trar-me-hão ampla matéria á segunda parte do Discurso as 
mudanças occorridas na Sociedade , e a enumeração dos Es- 
critos que forão apresentados e lidos nas nossas Sessões or- 
dinárias. A vastidão , e diversa natureza destes assumptos 
me fez tremer a mão , quando lancei as poucas linhas que 
servem de indicallos ; mas obrigado a cumprir o preceito 
que me foi imposto , farei como aquelle que vendo despe- 
daçado o navio no grosso da tormenta , se lança ás ondas , 
incerto ainda se virá a succumbir, falto de forças, nomeio 
da carreira ; ou se conseguirá beijar a praia e escapar ao 
naufrágio , que o ameaça. 



Rinta e sete annos contava a Academia desde o seu 
primeiro estabelecimento , isto he , desde a Época em que 
Sua Magestade Fidelissima a Senhora Dona Maria I. se ti- 
nha dignado amparalla com a sua Real Protecção , appro- 
vando o Plano dos seus Estatutos , e concedendo-lhe a ines- 
timável graça de fazer nelles as alterações , que o tempo 
indicasse como mais convenientes : Trinta e sete annos ha- 

* I ii via 



jv HrsTORiA DA Academia Real 

via que acolhida á sombra do Thiono no Real Palácio di." 
Nossa Senhora das Necessidades , nas mesmas Sallas que 
servirão á Junta dos Trcs Estados , se tinha lançado a pri- 
meira pedra no alicerce do monumento litrcrario, que a 
nascente Sociedade se propunha levantar ás Scicncias , e á 
Litteratura nacional : Trinta c sete annos finalmente erão 
decorridos depois da nossa existência , sendo raro aquclle em 
que nos não achávamos penhorados de hum novo motivo 
para bemdizer huma Soberana sempre propensa a conceder- 
nos novos favores, quando a morre nc-la roubou, e foi eter- 
namente receber o premio de su;is virtudes. 

Extremamente sensível a tao grande perda , única até 
agora nos annaes da Academia , desejava ella exprimir publi- 
camente a sua magoa por hum modo , que não desmerecesse 
do objecto que a causava : não podia haver longa hesitação 
a este respeito ; parecia evidente que não erão pompas fú- 
nebres as que se podiao esperar do nosso Instituto , mas 
sim a efFusão dos nossos corações pelas incomparáveis qua- 
lidades que adornavão tão illustre Bcmfeitora. O SSr. José 
Bonifácio de Andrada devia pelo seu lugar ser o interprete 
dos sentimentos de toda a Sociedade , e por isso foi incum- 
bido de recitar em huma Sessão publica , destinada unica- 
mente para este fim , o Panegyrico da incomparável Rainha 
que perdemos. Nem a escolha do Orador podia ser mais 
acertada , nem assumpto algum oilerecer-lhc com mais pro- 
fusão idéas grandes e sublimes , em que deixando correr á 
vontade a penna , excitasse n'huni Auditório já favoravelmen- 
te prevenido lagrimas de ternura , por aquella que empunhan- 
do o Sceptro , não cessou nunca de ser a Mãi de seus Vas- 
sallos, e á qual poucos dos presentes deixavão de ter mo- 
tivos para venerar particularmente pelos beneficios que ha- 
vião íccebido. 

Huma pequena circunstancia , que em outra occasiao 
seria pouco attendivel , tornou este acto, se pode ser, ain- 
da mais august:> c pathetico. Algumas disposições que a Aca- 
demia se vio na nccesidade de fazer para melhor commodo 

do 



trair oar 



dasScienciAsdeLisboA. r 

do seu Museu e Livraria , que diariamente se augmcntão , 
obstruirão a Salla das Sessões publicas , já por si mesmo bas- 
tante pequena; de que resultou vcr-se obrigada a pedir ao 
Governo outra para semelhantes solcmnidades : a que se lhe 
destinou em consequência desta rogativa, a que hoje occu- 
pamos, c que nos sérvio pela primeira vez para aquelle fú- 
nebre acto, hc justamente a mesma Salla que, quando Suas 
Al;:gestadcs habitavão este seu Palácio , servia de Capella 
Real ; e onde aqueih que fazia o objecto da nossa sauda- 
de , Rainha de hum grande império , senhora dos corações 
de seus Vassallos , consagrando os dias á ventura e á feli- 
cidade delles , vinha tantas vezes ante o Rei dos Reis de- 
por a Coroa e o Sceptro , humilhar-se na sua presença , pe- 
dir-lhe novas luzes para o reger com justiça, e obter final- 
mente o bom despacho de suas supplicas. ^Quantas vezes, 
nestas mesmas paredes que nos cercão , não soarão os seus 
votos pela prosperidade da Nação, e os seus suspiros quan- 
do em negócios difficeis , receava nao acertar com a verda- 
deira vareda ? ^ Qiie fervorosas acções de graças neste mes- 
mo lugar não tributava ella aos Ceos , vendo a Paz , a Fe- 
licidade , e a Abundância espalharem os seus dons nos Do- 
ininios Portuguezes , durando todo o tempo do seu feliz go- 
verno ? Vós ouvirieis .... mas que digo ? perdoai ao sen- 
timento , que me obrigou a rasgar de novo huma ferida ain- 
da mal fechada ; corramos a cortina sobre quadro tão me- 
lancólico , e procuremos se he possível algum lenitivo á 
dor que nos opprime. 

^- E será clle por ventura difficil de encontrar? a Provi- 
dencia que ha tantos séculos derrama os seus favores sobre 
o Império Lusitano, deixallo-ha desta vez órfão e sem ar- 
rimo ? Não certamente ; c nós o temos já experimentado. 
A arvore robusta e viçosa , cujas raizes se extendem larga- 
mente pela terra , e cujos ramos fecundos sobem livremen- 
te aos ares , não he certamente aquella que produz fructos 
mesquinhos e enfezados; c tal he em geral a ordem da na- 
tureza não só nas plantas , mas no mesmo homem , quando 

cau- 



sm. °^ 



»"*>• 



VI Historia da Academia Real 

causas extraordinárias não a contrarião. Assim o herdeiro do 
Sceptro materno devia igualmente ser o herdeiro das virtu- 
des maternaes. Qiiantidade de annos de huma feliz Regên- 
cia tinhão posto esta verdade tão evidente , que ainda mes- 
mo que o direito de successão não chamasse o Senhor Rei 
D. João VI. a asscntar-se no throno de seus maiores , não 
deixaria hum instente a Nação de desejar aquelle , que achan- 
do-se largos rcmpos envolvido em hum laberinto de peri- 
gos e difficuldades , poude triunfar de todas e conservar se- 
gura a taboa de salvação , que o guiou e ao Reino intei- 
ro ao porto do descanço ; aquelle que acabou da maneira 
mais magnânima, c para que em yão se buscaria exemplo, 
a luta penosa e prolongada, para cujo bom êxito tão essen- 
cialmente tinha concorrido ; aquelle em lim que querendo 
só ser grande pela prosperidade dos seus Estados , acolhe 
as Sciencias e as Artes , e faz viajar os Sábios de todas as 
Nações pelo immenso território do Brazil , a fim de conhe- 
cer melhor os seus recursos, e de formar depressa hum flo- 
rescente Império , do que ainda ha pouco era huma Coló- 
nia de diminutas forças , e mal avaliada pelos mesmos na- 
turaes. Consenti , Senhores , que por hum pouco pareça af- 
fistar-me do meu principal assumpto , e tomar hum estilo 
difFcrente do que propriamente me compete •, mas quan- 
do tenho de me alegrar comvosco pela feliz Acclamação de 
Sua Magestade : quando tenho de mitigar a pena que nos 
deve causar não serem ouvidos os nossos vivas , por aquel- 
le que ao mesmo tempo jurava manter os nossos foros e 
direitos ; he impossível amoldar-me á singeleza de Histo- 
riador, e suffocar hum grito de admiração pelos extraordi- 
nários acontecimentos occorridos em Portugal , e a que deo 
motivo a resolução mais pasmosa de que ha memoria nos 
Fastos da Monarchia. 

O Regente de hum vasto Império , largando o seu Paiz 
natal , os Vassallos por quem era amado , e a quem quiz 
administrar justiça até a ultinia hora do embarque, levando 
conisigo toda a Real Famiiia , passando ás suas Possessões 

Trans- 



I 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. vir 

Transatlânticas, illudindo assim os projectos de hum inimi- 
go temerário e ardiloso, lançando os fundamentos da maior 
e mais poderosa Monarquia do Universo , pois que a sua 
posição a destina a ligar os interesses jáo ambos os Hemis- 
férios ; hum Principe que, durando o tempo da sua Regên- 
cia , poude conceber este sublime plano , e teve a nobre 
audácia de o pôr por obra, deve forçosamente electrizar as 
almas dos seus Vassallos : e por isso não he muito que os 
convertesse em outros tantos heroes , promptos a dar as vi- 
das em seu serviço e defcza. 

Estes motivos porém se por hum lado levâo ao ultimo 
ponto o nosso reconhecimento , excitão pelo outro ainda 
mais a nossa saudade á vista de huma ausência tão prolon- 
gada ; e como o desejo nem sempre segue os dictames da 
razão , supportamos talvez com diíEculdadc privações que hu- 
ma nova ordem de cousas traz necessariamente comsigo : mas 
estes embaraços devem cessar pouco a pouco , e entretanto 
as considerações particulares ceder á utilidade publica. A Ba- 
lança carregada com pesos ainda mesmo iguaes , principia 
sempre por fazer grandes oscillações , e só depois de tempo 
he que pára em perfeito equilíbrio ; assim também o mes- 
mo tempo he quem nos deve fixar a prumo o fiel , que ha 
de ser de huma maneira permanente o indicativo da nossa 
prosperidade. Podem talvez estas verdades não ser ainda ho- 
je conhecidas por todos , pt^dem mesmo algumas pequenas 
nuvens offuscar momentaneamente a claridade do Sol ; mas 
apôz huns dias scguem-se outros , e ouso appcUar com con- 
fiança para os annos futuros , sem receio algum de que a pos- 
teridade me desminta. 

Quando pois nesta posteridade se recontarem despidos 
de lisonjas e de falsas cores os incríveis acontecimentos do 
presente século ; quando se conhecer em toda a sua luz a 
brilhante porção de gloria , que coube em parte á Nação 
Portugueza : j quanto não pasmarão os homens vendo grava- 
do em laminas de ouro pelo buril da Historia o Nome do 
Monarca , que então a governava , e em cujo tempo se re- 

no- 



nrfH Or 



VIII Historia da Academia Real 

novou por hum modo tão assignalado a lembrança do Senhor 
Rei D. João I. no illiístre triunfo da liberdade Portugue- 
za ! j Qiianto não pasmarão de ver o nome do Monarca , que 
não desmentindo a grandeza de animo do Segundo João, 
seguio parte da estrada que clle lhe começaVa a abrir a tra- 
vez dos mares , até arvorar com a sua própria mão as Sa- 
gradas Quinas no novo Império, que o Senhor D.João III. 
tinha principiado a povoar com Colónias , c reduzido a Ca- 
pitanias hereditárias ! j Quanto não pasmarão de ver o No- 
me do Monarca que , não menos feliz do que o Senhor Rei 
D. João IV. , vio em seus dias Portugal restaurado do ca- 
tiveiro , cm que gemia debaixo de hum dominio estranho j 
e que finalmente herdou de seu magnânimo Bisavô os sen- 
timentos de piedade e de Religião , e a mesma munificên- 
cia que o tornarão immortal ! Nome de feliz agouro, que 
tantas venturas tem trazido á Nação , que hum Destino be- 
néfico tem feito repetir tantas vezes , praza aos Ceos que 
nós vos possamos invocar por huma longa serie de annos , 
c que os filhos dos nossos filhos entoem ainda vivas alegres 
pelo Senhor D. João VI. 

Taes são , Senhores , os ardentes votos dos Vassallos 
do Reino Unido em geral , e particularmente os da Acade- 
mia , a quem Sua Magestaue tem já tantas vezes libera- 
lizado os seus beneficies, que sobre maneira seria extensa a 
minha narração se intentasse numerallos todos. Em lugar 
porém de os referir miudamente , ,; porque me não será li- 
cito declarar com hum nobre orgulho , que esta Sociedade 
tem até agora estado na posse de obter o bom despacho das 
suas supplicas , logo qiie cilas chegâo aos pés do Throno ? 
^ e que gratidão não exige da nossa parte hum semelhan. 
te favor? ^quanto nos não seria gostoso beijar a mão be- 
néfica do novo Monarca , que tão benignamente nos tem 
sempre attendido , e tributar-lhe assim as nossas homenagens ? 
Já porém que nos he vedado cumprir este voto , rogámos 
ao nosso Vice-Presidente , que houvesse de escrever ao Síír. 
Conde da Barca , a fim de que por intervenção do Serenis- 

si' 



I 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. ix 

simo Senhor Infante D. Miguel obtenha hjma Audiência , 
em que os Sócios , que actualmente se acháo na Corte do 
Rio de Janeiro , apresentem a Sua Magestade as felicitações 
sinceras da Academia pelo fausto motivo da sua Acclama- 
ção. Por hum modo análogo a esie tinha já procedido a 
Academia, quando lhe chegou a noticia de ter subido ao 
Throno o mesmo Senhor pelo falecimento de sua Augusta 
Mãi. 

Não são porém somente os Monarchas protectores das 
Sciencias , que tem direito ao reconhecimento das Socieda- 
des Littcrarias : outros ha , que sem~~embargo de^nao terem 
subido a este summo gráo da elevação humana , merecem 
não menos a nossa gratidão já pjlos seus vastos conheci- 
mentos e ardente amor que profcssão ao Estudo , já pelo 
Patriotismo que os incita a diffundir o gosto das Letras em 
o seu Paiz , já pelo acolhimento e amparo com que abri- 
gão os homens dados ás Sciencias, e já finalmente, se he 
necessário dizello , pelo seu grande nascimento-, qualidade 
illustre quando traz de companhia em gráo proporcionado 
as outras virtudes sociaes. Todas as vezes que semelhantes 
Personagens são destinadas a figurar no mundo , bem lon- 
ge de se poder reputar lisonja a expressão dos sentimen- 
tos que em nós excitão , seria antes hum crime não os 
patentear com a maior publicidade, j E que ventura não 
he hoje para mim reunircm-se circunstancias, que me dão 
motivo a cumprir com este dever sagrado , e a fallar-vos 
do Homem grande , que pôde servir de modelo aos que se 
quizerem immortalizar seguindo a mesma estrada ? O seu 
Nome he bem conhecido , e escuzo de repctillo , para to- 
dos saberdes que tenho em vista o Fundador da Academia 
e seu primeiro Presidente , o Duque de Lafões. 

Não penseis , Senhores , que a minha ouzadia me leve 
agora a traçar o seu Elogio ; eu seria o mais incompeten- 
te de todos os Panegyristas , não só pela falta do cabedal 
necessário, mas porque não tive a honra de o conhecer, 
nem como Presidente da Academia, nem na sua vida pri- 
Tom. V. Part. II. * 2 va- 



5c HisTOKiA DA Academia Real 

vada , onde era não menos grande e admirável do que o 
foi na publica , cm quanto as forças lho permirtírao. O 
meu fim he unicamente annunciar-vos, que a Academia não 
se esquece das suas obrigações; e obrigação reputará cila 
sempre manifestar o mais vivo reconhecimento por aquelle 
que nunca deixou de olhar como Pay , e cujos disvclos e 
affigos lhe embalarão o berço desde o nascimento. Por es- 
tes motivos e para suavizar ao mesmo tempo a sua sauda- 
de incumbio o primeiro dos nossos Escultores o Senhor 
Joaquim Machado de Castro, seu digno Correspondente, 
de executar em mármore o busto do Fundador , para ornar 
com elle a sala das suas Sessões, e ter de alguma sorte 
constantemente á vista , ainda além do tumulo , aquelle 
mesmo que em vida tantas vezes a tinha animado com a 
sua presença. Esta lembrança , suscitada por hum dos Só- 
cios , foi com tanta avidez recebida pelos outros, que im- 
mediatamente se determinou fazer-se á custa dos Membros 
da Sociedade , e não do seu Cofre , toda a despesa que ex- 
igia hum semelhante projecto. Pensávamos assim tomar 
cada hum de nós huma porção mais pessoal neste pequeno 
tributo offerecido á memoria do Duque : mas esta contri- 
buição voluntária , para que todos desejavão concorrer do 
modo mais liberal , tornou-sc em extremo diminuta pela 
generosidade , com que o Sfir. Machado executou a parte 
mais essencial desta obra , isto he , tudo o que pertencia 
ao trabalho das suas mãos. Pelas minhas he que conêrao 
estas diíFcrentes transacções : e se tive o gosto de annun- 
ciar ao Corpo Académico o desinteresse do Artista insigne, 
tive também a satisfação de ver o bem merecido apreço 
que se fez daquella offerta , e o voto unanime de cila ser 
de alguma sorte compensada por este testemunho publico 
de gratidão , e pelo dom de huma Medalha d'ouro , o 
maior premio com que entre nós se costuma gratificar o 
saber e os talentos. 

Eis aqui , Senhores , toscamente recopilado quanto no 
decurso d'tste anno se passou na Academia a respeito dos 

seus 






DAS ScrBNcrAs DE Lisboa. xr 

seus primeiros Bemfcitorcs , daqiicUes cujos nomes fazem 
até agora o seu mais brilhante ornato, e que parecem des- 
tinados a viver ainda pelos Séculos vindouros na memoria 
dos homens , não só como Protectores das letras e do me- 
recimento, mas ainda mais como amantes da Virtude e bem- 
feitores da Humanidade. Se fui tão pouco extenso nos ar- 
tigos que lhes consagrei , nao procedeo isto de falta de ma- 
téria a hum mais amplo elogio , era-me mais d ifficil apanhar 
do que soltar as velas ao discurso; c gostosamente satisfa- 
ria os meus desejos , senão conhecesse que apenas tenho 
chegado ao meio da carreira , e que me resta ainda dar- vos 
conta dos trabalhos dos meus Gollegas, e das mudanças que 
tem occorrido na Sociedade. 

Principiarei a narração destas pela morte de hum dos 
nossos Sócios Honorários o Siír. Marquez de Aguiar: o qual 
como homem de Letras merccco a estimação dos Sábios 
pelas obras com que enriqueceo a Litteratura nacional , e 
como homem de Estado obteve toda a confiança do Sobe- 
rano, que o honrou com ella até aos últimos instintes di 
sua vida. Falieccrão também pelo mesmo tempo o Snr. Ri- 
cardo Luiz António Raposo, hum dos mais hábeis Enge- 
nheiros Portuguezes, e Sócio da Academia desde a sua fun- 
dação; e o Snr. Francisco José d'Horta Machado , que pre- 
encheo louvavelmente a sua carreira Diplomática, e poude 
ajuntar huma magnifica collecção de Medalhas antigas e 
mod-rnas , estudo cm que adquirira não vulgares conheci- 
mentos. Primeiro que todos estes foi-lhe ensinar o caminho 
da sepultura , e o modo por que o Filosofo Christão deve 
descer a ella, o Siir. Batholomeu Ignacio Gorge , hum dos 
mais beneméritos Littcratos do nosso Paiz, e que também 
a Academia apenas nascente soube avaliar, e attrahir para o 
seu grémio. 

A gratidão , que devo a hum homem que dirigio a 
parte mais essencial da minha educação litteraria , faz que 
me seja extremamente gostoso vingar o seu nome do es- 

* 2 ii que- 



xn Historia da Academia Real 

quecimento, a que o poderia talvez condenar na posteridade 
a rara modéstia de que era dotado : por isso exporei cm 
breve a parte mui essencial que ellc tomou na cm preza 
mais árdua e difficil , de quantas até agora se propor, a Aca- 
demia. 

Logo na primeira Sessão publica desta Sociedade ce- 
lebrada em Julho de 1780 deu o Snr. Pedro José da Fon- 
seca o Plano para hum Diccionario da Lingua Portugueza, 
que em outras Sessões particulares tinha já competentemen- 
te sido discutido e approvado. A vastidão do objecto, a 
immensidade de livros, que segundo este Plano era neces- 
sário ler e extractar, tornava impossível esta empreza a 
hum só homem , e ainda mesmo a poucos , quando não fos- 
sem soccorridos pelo maior numero de Sábios da Nação : 
forão pois estes convocados para cooperar com os seus tra- 
balhos ; e vio-se com satisfação que nenhum se recusava a 
hum projecto , que levado ao fim faria a gloria da nossa 
Litteratura. 

No primeiro momento de enthusiasmo , que fazem nas- 
cer as ideas grandes e sublimes , tudo parece fácil de ex- 
ecutar : mas á proporção que o nosso espirito se accalma , 
e que a fria reflexão torna a adquirir o seu império, prin- 
cipião se então a conhecer as difficuldades ; e as mais das 
vezes bem longe de se cumprir a carreira começada, per 
de-se o fôlego a maior ou menor distancia do ponto da par- 
tida. Assim succedeo aos novos Diccionaristas : executarão 
alguns a tarefa , de que se tinhão incumbido ; mas a maior 
parte delles acharão , e com rasão , o trabalho tão enfado- 
nho e pr.)lixo, que vendo absorver-lhe o tempo necessário 
para outras occupações , forão desanimando pouco a pou- 
co : e isto ao ponto de se acharem só por fim em campo, 
para levantar nos seus hombros este Collos^o, aqucUc mes- 
mo que primeiro o havia delineado, e os Snrs. Agostinho 
José da Costa de Macedo , e Bartholomeu Ignacio Gorge. 

Estes três Sábios ligados entre si pelos vínculos da 
amizade, pelos do Estudo, e ate pelos mesmos empregos 

(pois 



Sldlí QZ 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XIII 

( pois todos crão Professores Régios ) reputarão de algu- 
ma sorte a sua honra compromcttida , scnáo ultimassem o 
primeiro volume, e com clle a primeira letra do Alfabeto. 
Tomada esta resolução , nada os fez mudar do seu intento : 
o trabalho mais assiduo , as vigilias mais extensas , e por 
annos successivos , em que não perdião hum instante do 
tempo que lhes restava das suas obrigações , tudo se poz 
por obra, até se acabar a impressão, que onze annos de- 
pois sahio finalmente á luz com credito immortal de seus 
Auctores. 

Semelhante gloria porém foi comprada a grande cus- 
to : os Snrs. Pedro José da Fonseca, e Bartholomeu Igna- 
cio Gorgc ficarão em estado de não poderem mais ser 
uleis a si, nem ao Publico ; por isso obtiverao ajubilação 
nas suas respectivas Cadeiras , e o lugar de Veteranos na 
Academia. O primeiro fallcceo á pouco de huma dolorosa 
enfermidade , aggravada pela vida sedentária , a que tinha si- 
do obrigado ; o segundo foi atacado de huma ophtalmia que 
lhe tornava impossivcl qualquer applicação , e assim se con« 
scrvou até o fim da vida. Resta unicamente o Snr. Agosti- 
nho José da Costa de Alacedo , mas no mesmo estado de 
cegueira que o seu digno Collega. Tal he o trágico fim que 
tiverão homens tão beneméritos e desinteressados, que nem 
ao menos estamparão os seus nomes no frontespicio da Obra 
que tantas fadigas lhe custara. 

Por esta Jubilação do Snr. Gorge perdeo o Real Col- 
legio de Nobres hum dos seus mais insignes Professores : 
ao mais profundo conhecimento da arte de pensar, reunia 
elle tal dom de clareza , que na sua boca tornavão-se evi- 
dentes e palpáveis as mais intrincadas e abstractas ques- 
tões da Methafisica. O systema do grande Lock , aperfei- 
çoado e para assim dizer depurado em a cupella de huma 
critica a mais rigorosa pelo illustre Condillac , tinha levado 
a convicção á sua alma , e por isso era o adoptado em as 
suas prelecções. A minha boa fortuna levou-me a assistir a 
ellas em os últimos annos que regeo aquella Cadeira , e 

aln- 



BI3« 05 



3CIV Historiada Academia Real 

ainda agora pasmo quando me lembro do arceficio com que, 
sem se aíFastar do mcthodo mais rigoroso, entremeava hu- 
ma immcnsa variedade de idéas, e de conhecimentos , ainda, 
mesmo daquclles que podião parecer mais alheios da sua 
profissão : accrcsccntarei finalmente ( a pezar de não ser este 
já entre nós o gosto dominante do século), que a ninguetn 
ouvi fallar a lingoa Latina com maior facilidade e elegân- 
cia. De tudo isto porém já nada existe senão a memoria; 
privilegio dos homens grandes , que sepultando debaixo da 
campa o seu cadáver , fica-lhes vivendo ainda largos tem- 
pos o nome sobre a terra. 

De hum destino análogo a este se fez sem duvida 
acrcdor outro Sócio , que também expirou á pouco , o Síír. 
Manoel Joaquim Coelho Vasconcellus da Costa Maya , cé- 
lebre Geometra do nosso Paiz , e que por muitos annos 
foi Lente desta Faculdade na Universidade de Coimbra j 
alli assisti também ás suas lições , que explanava do modo 
mais distincto , não o sendo menos nas outras partes da 
Mathematica , em que deixou hum grande numero de Dis- 
cípulos , que todos elles abonaráó esta verdade. 

Para os lugares destes Sócios , de cujos soccorros se 
achava privada a Academia , e para os daquellcs , que ha- 
vendo falecido anteriormente , ainda se achavâo vagos , fo- 
rão eleitos Sócios Honorários os 111.'""' e Ex."""' Snrs. Mar- 
quez de Tancos , Arcebispo de Évora D. Fr. Joaquim cie San- 
ta Clara , Conde de Barbacena , Conde de Palmela , e D. Mi- 
guel Pereira Forjaz. Nomeárao-se Sócios Estrangeiros o Sfír. 
Barão de Vincent , Director do Jardim Botânico de Vicnna 
d' Áustria , e o Snr. Frederico Boutterwek, que já ha mui- 
to era nosso Correspondente. Passarão a Sócios Veteranos 
os Síirs. Joaquim Pedro Fragoso , e José Martins da Cunha 
Pessoa; e achando-se com estas promoções três lugares va- 
gos na Classe das Sciencias Naturaes , entrarão para dois 
dellcs o Snr. José Pinheiro de Freitas, e eu ; o outro per- 
tencia indubitavelmente ao Snr. Félix de Avcllar Brotcro , 

que 



dasSctenciasdeLisboa. XV 

que não annuio aos nossos desejos , não só pelas suas mui- 
tas occupações, mas pela grande distancia cm que he obri- 
gado a assistir, como Director do Jardim Botânico do Paço 
da Ajuda ; pelos mesmos motivos recusou também a Direc- 
ção da Classe , que igualmente se lhe conferia , e pre- 
fcrio ficar como até aqui entre os Sócios Livres. Este lugar 
de FíFcctivo conserva-se por ora sem se preencher, assitn 
como também o outro que vagou na Classe das Sciencias 
Exactas pelo fallecimento do Snr. Maya. 

Não sendo possivel ao Snr. Visconde da Lapa occupar 
por mais tempo o lugar de Thesoureiro , fazendo-o assim 
constar á Academia , e pedindo que se elegesse outrem pa- 
ra este emprego ; recahio a nomeação no Sfír. Joaquim José 
da Costa de Macedo , que actualmente o occupa. 

Subirão de Correspondentes a Sócios Livres os Snrs. 
Alexandre António Vandelli , António de Almeida , e José 
Maria Soares ; e entrarão de novo para Correspondentes os 
Snrs. Ignacio António da Fonseca Benevides , e Manoel Agos- 
tinho Madeira Torres. 

O primeiro destes fez com que se lhe patenteassem as 
portas da Academia por duas Memorias sobre as Agoas mi- 
neraes de S. Gemil. Comprehende huma delias a descripção 
topográfica do sitio das Caldas e de seus contornos ; a clas- 
sificação Linneana das producções , que alli se encontrão per- 
tencentes aos trcs Reinos da Natureza ; e remata com as 
propriedades físicas das ditas Caldas, e algumas observações 
medicas sobre o seu uso interno e externo. A segunda Me- 
moria , destinada toda ella somente á parte Chimica, versa 
sobre a analyse de indicação pelos Reagentes , que empre- 
gou de hum modo muito variado ; sobre os contentos , as- 
sim gazosos como fixos que obteve pela evaporação; e so- 
bre o methodo de compor artificialmente as agoas hepatiza- 
das de S. Gemil. Este he em geral o plano que o Snr. Be- 
nevides seguio para o seu trabalho : e não sendo possível 
descer a hum exame mais circunstanciado delle , somente ac- 
eres- 



XVI 



Historia da Academia Real 

crescentarei , que quasi sempre lhe servirão de guia os cé- 
lebres Fourcroi , e De la Porte no bem conhecido Trata-. 
do sobre as agoas mineraes de Enghien ; e c]ue OvS princi- 
pios de humas e outras destas agoas são quasi os mesmos, 
ainda que variem algum tanto na sua proporção {a) . 

Outro assunto de bem diversa natureza e não de me- 
nor interesse foi tratado pelo Snr. António de Araújo Tra« 
vassos em huma Memoria sobre a Dcstillação , lida á tem- 
pos , e depois novamente retocada , e outra vez entregue , 
quando já não podia acompanhar as outras que este anno 
se publicão. Huma historia abreviada da Destillação serve 
como de preambulo á noticia , que o Auctor dá dos seus 
apparelhos destillatorios , e á confrontação que dellcs faz 
com os de Duarte Adam e Izac Berard , bem conhecidos 
hoje em toda a Europa. Chaptal reunindo , e aprovcitan- 
do-se dos descobrimentos dos dois mencionados Auctores y 
parecia ter esgotado a matéria ; mas as experiências já co- 

nhe- 



(/») l-'ara que se conheça a semelhança das Caldas de Enghien conj 
as de S. Gemil , ajuntamos aqui a recapiculaçáo dos contehcos de humas 
e outras , segundo as Analyses já inencionadas. 



Gâz hydrogenio sulfurado. 

acido carbónico - - 

Muriato de Magnesia. - 

de Soda . - - 

Sulfato de Magnesia • • 

de Cal - . . 

Carbonato de Magnesia - 

de Cal . - . 

de Ferro - - - 



Terra siliciosa - - - - 
Alumina --.-.. 
Matéria colorante - - - 
Matéria extractiva- • • 



100 libras 
de Ag. de S. Gem. 

Polg. cubic. 610 
520 

Gráos - 70 
65 
68 

1 

"7 

71 
"5 

3 

2 

X 



100 libras 
de Ag. de Ent^hica 

P. c. 



Gr. 



700 

1S5 

52 

24 

62 

141 

118 
o 

X 

o 
o 

X 



\ 



DAS SciENClAS DE LiSBoA. XVII 

nhccidas do Snr. Travassos sobre a formação dos Fogões, 
e o modo mais vantajoso de communicar o Calórico aos 
Liquijos, devião segurar-lhe hum feliz resultado na sua a p- 
plicaçâo ás Cucurbitas dos Lambiqucs. Não se restringem 
porém somente a isto as observações do nosso Consócio : elle 
examina a configuração que devem ter as mesmas Cucurbi- 
tas , no que tanto tem variado as opiniões , sem que até 
agora se possa decidir de huma maneira incontrastavel j 
trata do modo de fazer a destillaçlo', da melhor forma do 
Refrigerante ; do methodo para condensar os vapores ; e 
separa , segundo as regras de huma critica judiciosa , aquel- 
Ics pontos que hoje parecem demonstrados , de outros que 
ainda he necessário acclarar com experiências novas e va- 
riadas. 

A leitura desta Memoria facilitará a solução do Pro- 
gramma extraordinário, que a Academia propoz o anno pas- 
sado, e que neste torna a repetir, sobre o mais económico 
modelo de hum aparelho destillatorio, que seja também 
próprio para as operações em pequeno : Programma princi- 
palmente interessante na occasião actual , em que he neces- 
sário dar sabida aos nossos Vinhos inferiores , que não se 
podendo consumir todos dentro do Paiz , em nada se po- 
dem empregar com tanta vantagem, como na fabricação da 
Agoa-ardente. 

Tempos houve já que em Portugal se fabricava este 
género em tanta abundância , que além de prover ampla- 
mente todos os nossos Mercados , se exportava em gran- 
de quantidade para fora do Reino, Em 1777 sahírão dos 
nossos portos perto de 700 pipas de Agoa-ardente , e quasi 
o mesmo com poucas diferenças nos annos seguintes : mas 
depois tudo mudou de face , não só pela carestia , a que 
causas extraordinárias fizerão subir os nossos Vinhos ; mas 
também pela perfeição e economia , a que as outras Na- 
ções , sem exceptuar a Hcspanhola , levarão os seus apare- 
lhos destillatorios, que tem sobre os nossos huma vanta- 
gem talvez de 25- por 100. Esta tão considerável perda faz- 
Tom. V. Part. II. * 3 nos 



xvm Historia da A c a n km i a Re/ l 

nos mui difficLiltoso concorrer com os Estrangeiros, agora 
mesmo que o preço dos Vinhos cem diminuído tanto; por 
isso a Memoria do Snr. Travassos não pode vir mais a pro- 
pósito, nem a solução do Progranima da Academia deijcar 
de ser acolhida como hum beneficio feito á Nação. 

Outro muito interessante escripto de que tenho de dar 
conta, hc a Viagem de pesquisas de Ouro, que fez o In^ 
spector das Minas Manoel Nunes Barbosa por parte da 
Extremadura e Beira Alta, segundo a ordem c direcção do 
Snr. José Bonifácio de Andrada , Intendente Geral das Mi- 
nas e Metaes do Reino. 

Principiarão estas pesquisas no lugar da Moita junto 
á Barquinha, onde apparecC^rão boas formações de cascalho 
com sinaes de ouro : o mesmo e ainda mais acontece na 
Ribeira do Seival defronte de Tancos; nas margens do Zê- 
zere, junto á barca da Estiveira ; e no lugar de Alqucidão , 
(3esde o sitio das Olayas , e Ladeira da Negra , até o Ça-. 
)3eço do Carvalho, Continuando a subir as margens do Zê- 
zere para Domes encontrao-se grandes lavrados , restos de 
vasta mineração de ouro , provavelmente do tempo dos Ro- 
manos ; e o mesmo acontece junto á Fabrica de ferro da. 
foz d'Alge , porém somente nas margens do Rio, achan- 
do-se ainda intactos os lugares afastados de agoas correntes , 
talvez por se quererem evitar as despesas do transporte do 
mineral : pois deve notar-se que nestes sitios já lavrados não 
ha vestígios de levadas para o desmonte do cascalho, nem 
para as lavagens e apuração do ouro ; parecendo por isso 
certo que os Antigos desmontavao á mão , escolhião e se- 
paravão os seixos grandes , e transportavão a terra e pissar- 
ra para onde havia agoa , que lhe podessc servir para a la- 
vagem ; sendo feita esta lavagem e apuração por meio da 
hatea ou pequenos holinetes ^ como ainda hoje praticao os 
Ciganos da Transylvania , e os Gandaieiros de França e 
Alemanha. Esta mineração Romana ainda se cxtcnde ao lu- 
gar do Cabaço , e suas visinhanças , hoje quasi todas cul- 
tivadas. 

Pas- 



ST3U Ot 



DAS SctENCIAS DE LiSBOA. XIX 

Passada a Serra de Alvaiázere c as Cinco villas , onde 
nada se encontra , tornao a apparecer os antigos lavrados 
junto a Pampilhosa ; próximos a esta Villa estão os trcs lu- 
gares de Piscanscco , em dois dos quaes ainda ha sinaes de 
bom ouro: também alli se descobrio Gallena de Chumbo: 
e no lugar do Sepo , em hum vieiro de Quart/o esbran- 
quiçado , que atravessa a Rocha Schistoza , varias Pyrites, 
que examinadas no Laboratório Chimico de Coimbra , mos- 
travão conter alguma prata. 

Este Schisto argiloso prolonga-sc pelos montes que 
vão desde Piscanseco até Pomares ; e os moradores se ser- 
vem das lagcs , que d'alli tirão com muita facilidade , para 
telhar as suas habitações. Pomares fica já sobre as margens 
do Alva , c perto de Avó ; daqui até Villa Cova encontrão- 
se formações , mineradas pelos Antigos , de que ainda se 
poderia tirar algum proveito : o mesmo succede até o lu- 
gar de Secarias , passando por Coja , e nas visinhanças de 
Serzedo. Esta mineração tão extensa durou talvez séculos 
inteiros, e ainda hoje poderia continuar, sendo o terreno 
lavrado por talho aberto , ou regos d'agoa ; methodo que 
dantes se não conhecia , e para que ha alli toda a commodi- 
dade. Se elle se estabelecesse , além da extracção do ouro , 
conseguir-se-hia outro fim não menos importante, qual he 
o de ganhar para a Agricultura, por meio das regas, huma 
extenção de terreno, até hoje deserto e de pouzio. 

Desde que acabão as lavias dos Romanos não torna 
mais a apparecer formação aurilcra, até huma legoa de 
Coimbra , aonde se mostrão alguns vestigios , mas que não 
são comparáveis com os que em muito mais abundância se 
descobrem em Antanhol e suas immediações. Passadas es- 
tas , no sitio de Ponte de Pedra , fronteiro ao lugar do Ce- 
gonhal começa a mudar-se o terreno, sendo alluvial, de 
b.irr!) arccnto vermelho , com área branca grossa por cima : 
m:is de Villa Pouca voltando por Taveiro, até á Ribeira da 
Nazareth que vem de Antanhol , ha todos os sinaes de hu- 
ma perfeita formação , que continua até á Venda do Cego. 



* 3 ii A 



XX Historia da Academia Real 

A antiga estrada de Coimbra , desde onde se sepnra da 
nova ató á Picada dos Corvos , he sempre acompanhnda 
de pedra calcarca : e daqui atd huma Icgoa para diante de 
Ancião, apparecc huma bcllissima formação auriícra , tor- 
nando outra vez a mostrar-se a pedra calcarea ainda huma 
Icgoa para cá de Thomar: aonde o rigor da Estação im- 
pcdio o Viajante de proseguir nas suas averiguações. 

Como esta relação não he destinada a imprimir-se, pa- 
rcceo conveniente dar hum breve extracto delia, a fim de 
que semelhantes noticias não fiquem perdidas com o andar 
dos tempos; como entre nós tem succedido a muitas ou- 
tras não menos interessantes. No resto das Memorias de 
que vou fallar não ha esta circunstancia, por isso também 
serei mais resumido no seu annuncio , já que o tempo me 
não permitte demorar-me com todas do modo conveniente. 

Não deixarei com tudo o que diz respeito á nossa Me- 
tallurgia , sem primeiro fallar em huma Memoria do Snr. João 
de Macedo Pereira da Guerra Forjaz; na qual dá huma noti- 
cia bastante circunstanciada da Mina de Chumbo do lugar 
de Monforte da Beira , que , segundo elle , tantas vantagens 
promctte , não só pela sua riqueza , mas pelas boas propor- 
ções que alli concorrem para a sua extracção. Este Destricto 
era merecedor de ser examinado por Mineralogistas de pro- 
fissão , pois não he o Chumbo o único Metal que alli se en- 
contra ; sabe-se que as margens do Rio Ouravil são abun- 
dantes em ouro, o que talvez concorresse para se lhe dar 
aquelle nome; e na serra junto a Monforte ha grande quan- 
tidade de Ferro , de que os Antigos seseiviao, como se co- 
nhece pelas muitas escorias que alli existem ainda hoje. 

He necessário confessar que estes Antigos , com me- 
nos luzes do que nós, aproveitavão melhor os dons, com 
que a Natureza enriqueceo este Paiz. O Snr. João de Ma- 
cedo falia nos poços e grandes galarias subterrâneas , que se 
encontrão nesta Serra, e que indicao evidentemente os im- 
mensos trabalhos de Mineração, que alli houve por huma 
longa serie de annos , e que depois forao de todo abando- 
na- 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. XXI 

nados. Quaes scriao porém , entre os Povos que occupavão 
a Lusitânia , aquelles que mais se derão a estas minerações ? 
A tradição Popular attribuc tudo aos Mouros, e pelo con- 
trario os Auctores que escreverão da matéria fazem quasi 
tudo obra dos Romanos ; o que talvez proceda mais de não 
terem tido os Árabes Escritores , que transmittissem noticias 
dos seus trabalhos, do que de elles senão terem exercitado 
em huma occupação, de cujos immcnsos lucros estavao ain- 
da vendo os vestígios. 

Não foi somente a Mineralogia a única parte das Scien- 
cias naturaes , em que se empregarão os estudos Académi- 
cos ; a Medicina foi também enriquecida com duas obras , 
que ha muito tempo se desejavão em Portugal : huma versa 
sobre hum Projecto de Policia Medica para o interior do 
Reino, e foi escripta pelo Siír. José Pinheiro de Freitas; 
a outra he hum Tratado de Hygicne Militar c Naval do Siir. 
Joaquim Xavier da Silva. De ambos estes escriptos se fea 
já menção o anno passado , mas estavão apenas principia- 
dos ; agora porém achão-se de todo completos , e hum del- 
les prompto para imprimir-se. Além disto forao entregues 
á Academia huma Observação do fallecido Correspondente 
José Francisco de Carvalho sobre huma dor sympatica da 
Cárdia; outra do Siír. Pedro da Silva, Cirurgião da Mari- 
nha grande e Correspondente da Instituição Vaccinica, so- 
bre huma Febre puerpcral acompanhada de circunstancias 
extraordinárias. E fez-lhe presente o Srir. Francisco de Mel- 
lo Franco de algumas Notas , e Additamcntos ao seu bello 
Tratado de Hygiene , que devem servir para a futura edi- 
ção que delle se fizer. 

A Zoologia he talvez o ramo da vasta Scicncia da Na- 
tureza , que menos se cultiva entre nós. Quasi todos osPai- 
zes da Europa tem os seus Faunos, em que se descrevem 
e classificão os animaes que nelles vivem ; em Portugal 
mui pouco se sabe ainda a este respeito : por isso foi re- 
cebida com toda a satisfação a Memoria de hum Anonymo 
á cerca de alguns Peixes do Mar c Rios do Algarve , com 

va- 



Sia-a OT 



XXII Historia da Academia Real 

varias observações sobre a sua pesca , e sua classificação se- 
gundo o systema de Linnco \ Quanro níío seria para desejar 
que este trabalho se extcndcssc ao menos aos outros Mares 
c Rios do Paiz ! 

O Silr. Constantino Botelho de Lacerda , Lente de Fi- 
7.ica na Universidade de Coimbra , e que tanto tem traba- 
lhado para a Academia , acaba de lhe rcmettcr d pouco três 
interessantes Memorias : a primeira sobre a diversa tempe- 
ratura que tem os líquidos e sólidos mergulhados na At- 
mosfera : a segunda sobre hum novo Pyrometro para deter- 
minar a dilatação comparativa dos liquidos : e a terceira 
sobre a diversa densidade da agoa em diíFcrentcs alturas. 
Estes escritos do nosso sábio CoUcga são tanto mais para 
estimar, quanto he menor o numero das pessoas que entre 
nós fazem dos estudos fizicos a sua occupação principal. 

Em lugar destes , as Sciencias Agrarias e Económicas 
são as que parecem fixar mais a attenção do Publico , sem 
duvida pelo interesse mais immediato que são susceptíveis 
de produzir. Hum grande projecto de que ainda não posso 
dar-vos conta foi este anno submettido ao exame da Acade- 
mia , que não omittio nada para facilitar o seu bom êxito, 
e para que se possão formar Escolas de Agricultura , que 
sendo, como diz Columella , a primeira e a mais variada de 
todas as artes, he justamente aquella que se não ensina. 
Lerão-se também alguns escritos, que dizem respeito a es- 
tas mesmas Faculdades : assim o Sfír. Joaquim José Varella 
foi Auctor da Memoria sobre hum mcthodo particular de 
plantação , e cultura de Vinha , conhecido nos Destrictos de 
F.vora, Monte-Mór e Arrayollos com o nome de Fiuha de 
Velho ; e que segundo parece data da maior antiguidade. 

O Síir. Visconde de Balsemão tratou do melhoramen- 
to da nossa Agricultura por meio das Companhias Agra- 
rias, e do methodo que julga mais adequado para as for- 
mar. E eu apresentei as Noras e Illustrações que tinha sido 
incumbido de fazer á Memoria do Snr. Dalla-Bella sobre a 
cultura das Oliveiras em Portugal. 



DAS SciENCIAS DE LlíBOA. XXtd 

O Snt. António de Almeida tem remettido cinco in- 
teressantes Alappas Estatísticos de Pcnaf..;! : o mesmo ex- 
ecutou o Snr. Fr. Simão de Jesus Maria Castellino B.icel- 
!ar , a respeito da Freguezia de Paço de Suusa , quç faz 
parte da dita Comarca. E finalmente o Snr, João Faustino 
entregou n' Academia huma obra inédita, de não vulgar me- 
recimento , do nosso já defunto e beficmcrito Consócio An- 
tónio Henriques da Silveira , intitulada Memorias analyticas 
da Villa de Estremoz. 

As Scienci^s Exactas pelo estado de adiantamento , em 
que se achão , não podem ser tão fçrteis todos os annos 
em cousas novas ; e no que acaba de passar tivemos ape- 
nas o tratado de Geometria Esférica do Srir. Francisco Vil- 
iela Barbosa , que serve de remate aos jjeus Elementos de. 
Geometria já impressos. 

Não succedeo o mesmo na Classe de Litteratura q 
Historia , onde a colheita foi bastante copiosa. Por motivo 
da publicação das Chronicas dos Senhores Reis D. Pedro 
I. , e D. Fernando cscrcveo o Siír. Francisco Manoel Tri-. 
gozo hum Prologo , em que se discute de hum modo lumi- 
noso a quaes dos nossos Chronistas pertencem as Chronicas 
que hoje existem dos Reis de Portugal ; matéria em que 
desde tempos antigos tem havido tão grande discrepância, 
que causa admiração as opiniões contraditórias a que tem 
dado origem. O mesmo Sócio trabalhou em outra erudita 
Memoria , que logo ouvireis ler , a qual çomprehende a 
Historia do Theatro Portuguez , desde a sua origem até á 
sua decadência, no tempo em que geralmente se perdco o 
bom gosto em todos os ramos da nossa Litteratura. 

O Snr. João Pedro Ribeiro, que tantos serviços ten» 
feito á Legislação Pátria , acaba ainda de fazer-lhe hum em, 
os novos additamentos ao seu índice Chronologico, que se 
estão imprimindo actualmente. 

Fazem parte do meio volume da Collecção Académi- 
ca , 



SUM Ol 



XXIV HiSToniA DA Academia Real 

ca , que este anno se publica , três Memorias que o Snr. 
António Ribeiro dos Santos , tinha entregado á muito tem- 
po , mas que de novo retocou e augmentou ; tendentes to- 
das a provar, que algumas partes da America erão conhe- 
cidas anteriormente ao descobrimento de Collon , e que 
este célebre Navegador com rasao foi de tempos a tempos 
perturbado por alguns Escriptores na posse , em que geral- 
mente se soppunha estar de tão assignalada primasia. Já a 
Academia de Copenhague , desejando pôr fim a esta con- 
trovérsia sobre huma das Épocas mais notáveis da Historia 
Moderna , tinha proposto hum Programma , em que convida- 
va os Sábios a ajuntarem todos os indícios, em que se fun- 
da a opinião da anterioridade d'aquelle descobrimento ; c 
isto foi o mesmo que fez o Snr. António Ribeiro , antes 
de ter apparecido aquelle projecto na .Capital da Dinamar- 
ca. 

O modo por que elle encara esta questão , faz-lhe invol- 
ver nella outros factos , que servem a elucidalla : assim a 
primeira Memoria he destinada a provar que o uso da Bús- 
sola data de século anterior ao de Flávio Gioja, que nasceo 
em Amalfi pelos annos de 1300: e que também são de mui- 
to maior antiguidade do que commumente se crê muitos dos 
outros Instrumentos marítimos , e a applicação do conheci- 
mento dos Astros , de que se servião os Fenícios , os Gre- 
gos , os índios , e os mesmos Árabes. Estes meios e Scien- 
cia Náutica fazem já desvanecer muito do maravilhoso , que 
se pode achar nas viagens pelo mar Inrgo , anteriores ás 
nossas e ás de Collon : e por isso esta Memoria serve como 
de Proemio á segunda , em que se recapitulão os testemu- 
nhos contra a prioridade attribuida ao mesmo Genovez. 

Não pára porem aqui o Snr. António Ribeiro, e de- 
pois de ter mostrado que já erão conhecidas algumas pa- 
ragens da America Septentrional , pertende provar em hu- 
ma terceira Memoria que também o erão outras da Meri- 
dional , e entre ellas o célebre Estreito de Magalhães: com 
o que ficaria vindicada a authenticidade dos decantados Map» 

pas 



.1 



DAS SciENCIAS DE L I S B O A. XX/ 

pas do Infante D. Pedro Duque de Caminha , c do Car- 
tório de Alcobaça , onde he fama que de tempos mui re- 
motos se achava aquclla demarcação. He no Auctor que se 
devem ver as razões cm que elle funda esta opinião , que 
n* hum simples extracto perderião muito da sua força. 

Se porém a Historia , admittindo estas asserções ou 
cm todo, ou em parte, tiver hum dia de recuar a época 
dos descobrimentos na America; he muito provável que te- 
nha também de fazer o mesmo no que àii respeito ás nos- 
sas Ilhas , e ás navegações Portuguezas em geral , segundo ' 
indica o Sfír. Joaquim José da Gosta de Macedo em a pri- 
meira parte de huma Memoria que leo sobre este assum- 
pto, e da qual não damos maior noticia, por não se achar 
ainda terminada. 

O Snr. Manoel José Maria da Costa e Sá recitou em 
huma das nossas Sessões o Elogio Histórico do defunto Só- 
cio Alexandre Rodrigues Ferreira , cujos vastos conhecimen- 
tos e incançaveis trabalhos se fazem patentes pela prodi- 
giosa quantidade de manuscritos que deixou por sua mor- 
te , mas que infelizmente não estão ao alcance da Acade- 
mia. O Snr. Manoel José Pires recitou também outro Elo- 
gio ao Snr. Rei D. José de Gloriosa Memoria, e que a de- 
verá ter eterna nos corações dos Portuguezes. 

O ultimo tratado de que tenho a fazer menção he o que 
mereceo ao Síir. Manoel Agostinho Madeira ser convocado 
para Correspondente da Academia , e versa sobre a Histo- 
ria da Villa e Termo de Torres Vedras , que nestes últimos 
tempos tem tornado a adquirir a sua antiga celebridade , pe- 
los notáveis succcssos de que foi theatro. Esta porção do 
seu tr.balho, já he por si de bastante interesse, e ainda o 
terá maior quando for acompanhada da parte Económica e 
Estaristica , em cujas indagações se occupa com a maior 
•actividade , e que se acha quasi de todo concluída. 

A Instituição Vaccinica tem proseguido com o maior 
zelo na sua laboriosa e útil tarefa, e logo ouvireis os seus 
progressos , que de anno em anno são mais consideráveis ; 
ToiN. r. Part. II. * 4 pó- 



XXVI Historia da Academia Real 

póiie mesmo annunciar-sc que a maior parte do Povo , tor- 
nando a si de huma injusta e barbara prcoccupação , corre 
a abraçar com gosto este especifico , que o isenta d' hum 
tão tcrrivcl flagelo. 

A Commissão de Historia continua a desenterrar os Do- 
cumentos que devem hum dia aclarar as épocas dos anti- 
gos Fastos da Monarquia : assim não só estão concluídas 
as copias do chamado Livro Preto da Sé de Coimbra; mas 
também se ultimou a distribuição chronologica destes , e 
de alguns outros Diplomas; distribuição enfadonha e diffi- 
cil por não exprimirem muitos deiles, senão por hum mo- 
do indirecto, a época prefixa em que forão escritos. 

Além destes trabalhos dos Sócios da Academia, que lhe 
forão positivamente consagrados, houve alguns outros, não 
só dos mesmos Sócios , mas de pessoas de fora da Corpo- 
ração, que não devemos passar em silencio: Assim o Snr. 
José do Nascimento Pereira da Silva de Menezes remcttcu- 
nos hum seu Manuscrito intitulado : Ensayo dos Dirciíor do 
Príncipe Primogénito de Portugal d Successao e d Regência do 
Reino ; e o Snr. José Pedro Roussado hum Elogio cm La- 
tim c Portuguez na faustissima acclamação do Senhor D, 
JoÂo VL 

O nosso Correspondente o Srír. [acobo Graberg de 
Hemso , actual Cônsul da Suécia emTangcre, tez entregar 
huma obra sua, ultimamente publicada cm Itália, sobre a 
falsidade da origem Scandinava , attribuida por alguns Es- 
critores aos Povos da Europa meridional ; o Snr. José Ma- 
ria d'Antas a sua primeira Memoria Naval-M ditar ^ impres- 
sa no Rio de Janeiro ; e o Siir. António Feliciano deCas- 
tiiho hum Epiccdio que compozera á morte de S. M. a 
Rainha Dona Maria \. ; finalmente o Srír. Anastácio Joa- 
quim Rodrigues offereceo os Planos e Perfiz das Minas de 
Ramehberg no Hartz ; e os Redactores dos dois Periódicos 
intitulados: Investigador Portiigue:^ , e Jornal de Coimbra con- 
tinuarão a remettellos , como sempre tem feito até agora. 
Também devo lembrar que o Srír. José Cypriano Redmond 

of- 






DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XXVII 

offereceo para a nossa Livraria dous Opúsculos impressos , 
relativos aos Concelhos de Guerra do Chefe de Divisão Ro- 
drigo José Ferreira Lobo , e o Snr. Adolfo Frederico Lin- 
dem berg a Memoria sobre a Litter atura Portugueza , traduzi- 
da do Inglez , com notas illustradoras do Texto , pelo Snr. 
Mullcr, agora impressa fora de Portugal, 

Não npparcceo Memoria alguma a concusso sobre os 
Programmas publicados para este anno , por isso se repe- 
tem ainda os mesmos para o seguinte. 

Esta falta não he nova , ha já tempos que se experi- 
menta , e pende de diversas causas , que a Academia não pô- 
de remover. Com mais prospero successo corrco a distri- 
buição dos prémios para o adiantamento da cultura das ba- 
tatas; pois o Snr. Francisco Joaquim Carvalhosa , que já ha 
dois annos tinha introduzido esta planta na Comarca de 
Alemquer , acaba agora de fazer o mesmo beneficio á de 
Torres Vedras , onde quasi de todo era desconhecida. Hu- 
ma das circunstancias mais interessantes da sua conta he y 
ter clle vendido nos mezes de Março e Abril deste anno 
perto de 200 alqueires desta colheita a diversos Lavrado- 
res , que com o seu exemplo se resolverão a semear bata- 
tas ; abalançando-se a este novo recurso , por verem amor- 
tecidas as esperanças das searas de trigo , que tanto sofFrê- 
rão com as seccas passadas. Assim a necessidade abre mui- 
tas vezes o caminho á abundância, e só huma Nação igno- 
rante e inerte hc que se pódc reputar realmente pobre. 

O outro Lavrador que obteve o premio foi o Snr. José 
Francisco Rosa , do Casal dos Claros , da Comarca de Lei- 
ria , onde era bem para desejar que o seu exemplo fosse 
imitado, pela excellente qualidade de terreno que alli oflfe- 
rece a natureza para semelhante cultura. 

Também este anno se apresentarão á Academia algu- 
mas Maquinas e Invenções , como se praticava outr'ora em 
tempos mais felices. Parece que a Industria nacional vai em 
fim principiando a erguer-se do penoso lethargo , em que 
esteve tão profundamente submergida ; esforço este que , a 

* 4 ii pe- 



XXVIII HiSTOFIA DA AcADEMIA ReAL 

pesar de ser aind-i diminuto, bastará haver applicaçao c per- 
severança , para fazer com que n?.() tenhamos hum dia que 
invejar ás Nações Estrangeiras , de quem agora somos tri- 
butários. Entre a;; novas invenções que este anno se apresen- 
tarão, fixou particularmente a attençao huma bella fechadu- 
ra de segredo , que não somente he impossivel ser aberta 
por qualquer pessoa , que o não tenha antecipadamente co- 
nhecido ; mas que além disso contém dentro de si huma 
campainha de dispertador, a qual indica os esforços que 
se fazem para a abrir , e até que ponto cUes são bem suc- 
ccdidos. O Auctor deste invento hc o iM^srre Sarralheiro 
Joaquim Francisco Caldas , com loja nesta Cidade. 

De outro muito maior interesse deverá ser huma espé- 
cie de Bomba aspirante , própria para esgotar os poços , e 
paúes , a qual á simplicidade da sua eonstrucção , reúne a 
vantajcm da diminução dos attritos , tão incommodos em se- 
melhantes maquinas ; o Inventor desta he o Snr. Alexandre 
António das Neves , que roub.indo alguns momentos aos im- 
portantes negócios de que se acha incumbido , quiz dar 
mais esta prova do seu amor a's Sciencias , tornando-se a 
occupar de objectos , que quasi tinha sido obrigado a pôr to- 
totalmente cie parte. O modelo desta maquina não poude 
apiontar-sc a tempo de se expor nesta Sessão ; mas pareceo- 
me assim mesmo que não devia demorar esta breve noticia. 

Rcsta-me por Em r.nnunciar-vos que as Obra'- que este 
anno sahírão dos nossos Prelos , forão o Breve Tratado do 
Geometria Esférica do Srir. Francisco Villcla Barbosa , de 
que acima fallei ; a Aícmoria para servir de índice dos Fo- 
mes das Terras do Keim de Portugal e seus Dom ;n tos , 
pelo Snr. Francisco Nunes Francklin ; a Parte primeira do 
5.° vokime da Historia e Memorias da Academia ; e o 4."*, 
volume dos hiediios de Historia Porttigiieza , que além das 
Chronicas de que fiz menção, contém os Foros e Costumes 
de Santarém, S. Martinho de Mouros, e Torres Novas. Esta 
intcrc^s.lntc CoUecçao deverá continuar , em havendo manus- 
critos sufficientes para outro volume ; e já o Sílr. Francklin 

of- 



állíl OT 



I 



DAS SoiENCIAS DE LiSBOA. XXIX 

offereceo para cUe os antigos Costumes da Cidade da Guar- 
da. Se todos os nossos Li tteratos seguissem o mesmo exem- 
plo, não estariao as nossas antiguidades ainda hoje tão igno- 
radas; saber-se-hia o que tinha sido a Nação Portugucza nos 
diversos tempos da Monarchia , e até os mesmos Estran- 
geiros repetirião com mais respeito o nosso nome. 

Eis-aqui , Senhores , expostas summariamente as tarefas 
da Academia no anno próximo passado. Tereis visto por ellas 
que cm quanto a Litteratura nos seus diíFcrcntes ramos oc- 
cupou constantemente huma porção dos nossos Sócios , a 
outra se apphcava com igual zelo á Historia Natural , á Fy- 
sica , á Chimica , e á Medicina : mas de todas as Sciencias 
aqucllas que parecerão cultivar-se com maior ardor forão a 
Agricultura e Economia; reflexão, que deve ser bem satis- 
fatória para todos os que se interessão pela prosperidade 
nacional , visto que nenhum outro estudo lhe pôde ser tão 
vantajoso como este nas circunstancias actuaes. O conheci- 
mento cabal do nosso Paiz , no estado em que agora se acha 
a respeito de Industria, Agricultura, População, e Econo- 
mia , he a base em que necessariamente devem assentar to- 
dos os cálculos , e o ponto d'onde devem partir todos os 
melhoramentos, para serem geralmente vantajosos. Mas ad- 
quirir esta Sciencia não he obra de hum dia , nem de hum 
homem ; e por isso devemos redobrar de esforços em prO- 
seguir no caminho, que com tão felices auspicies começá- 
mos. O maior premio, a que esta Academia aspira he ser útil 
aos seus Concidadãos , e conseguillo-ha mostrando-lhe os dif- 
ferentes recursos , de que podem lançar mão para a sua pros- 
peridade. Taçs são os seus votos actuaes , e os que ella pa- 
tenteou desde os primeiros dias da sua existência na Epi- 
grafe que escolheo para servir-lhe de divisa. 

Nisi utile est quod facimus , stulta est gloria. 

Disse. 

DIS- 



XXX 



Historia da Academia Real 



DISCURSO HISTÓRICO 

Sohre os trabalhos da Instituição Vaccintca , lido iia Sessão 

publica da Academia Real das Sciencias de Lisboa 

em 2j\. de Junho de 1817. 

PELO DOUTOR 
W E N C E S L a'o AnS£LMu SoARES. 



hjs 



Iísta', Senhores , finalizado o quinto anno dos trabalhos 
da Instituição Vaccinica , creada e sustentada pelos desvelos 
desta Academia desde o anno de 18 12 : e o dia de hoje, 
dia de tanto jubilo para a Nação inteira recordando-se do 
Nome do nosso Augusto Sokkpamo, he com justa ra/.ão es- 
colhido pela mesma Academia para manil^star ao Publico 
as diligencias e assiduidade, com que os seus Sócios se es- 
merão cm felicitar a Nação, já procurando por meio de seus 
escriptos augmentar os conhecimentos scicntificos , e indi- 
car ao Lavrador e ao Artista o modo de melhorar e fazer 
mais profícuos os seus trabalhos , já ofFercccndo c franquean- 
do a todo o Reino o precioso bem da Vaccina , fácil e in- 
fallivel meio de evitar hum mal , que ha mais de doze sé- 
culos tem affligido e devastado a espécie humana : e em 
qualquer destes dois ramos a Academia , como hoje fa7, ver 
ao Publico , não tem até ao presente afrouxado na briosa 
carreira, em que entrou, e se dirige unicamente a promo* 
ver a felicidade Nacional. 

Sendo porem a continuação e augmento do zelo desta 
Academia mui particularmente devido á Munificência e Pri- 
vilégios , com que Sua Maghstade a protege e honra , já 
libcralizando-lhe rendas , já franqucando-lhc a imprensa , já 
finalmente providenciando a tudo quanto esta Corporação 

lhe 



DAS SciENCIAS DE LlSBOA. XXXI 

lhe representa (i). F'm tnes circunstancias, Senhores, a glo- 
ria da Academia reflecte pela maior parte no Soberano , 
restando-lhc somente a satisfação de haver sido hum dos 
instrumentos , de que o Monarcha se serve para felicitar os 
Povos, e fazer glorioso o seu Reinado. Sendo por tanto o 
dia de hoje aquelle , em que a Academia faz públicos os 
benefícios , que por esta repartição o Soberano prodigaliza 
á Nação inteira, dobrado miuivo ha para que ella penetra- 
da de jubilo se prostre hoje respeitosamente perante o 
Throno , e oiFereçn á Regia Beneficência as mais sinceras 
c enérgicas expreosõcs de gratidão. 

Já ouvistes. Senhores, em hum eloquente e bem de- 
duzido Discurso a fiel exposição dos trabalhos da Academia 
desde a Sessão publica próxima passada ; e por isso vos não 
hc novo que cila tem continuado a propagar por todo o 
Reino o bem da Vaccina , encarregando este cuidado á Insti- 
tuição Vaccinica , Commissão formada de alguns de seus Só- 
cios. E quando outro serviço a Academia não fizesse , este 
só bastaria para que a Nação lhe dirigisse bem merecidos 
louvores , e agradecesse ao Soberano a protecção e soccor- 
ros, com que tão eíficazmentc anima hum Estabelecimento, 
que tem salvado da morte ou de horrorosas deformidades 
tantos individuos ; os quaes deste modo continuão a ser mem- 
bros úteis do Estado , alvo do amor paternal , amparo de 
suas famílias , e consolação de seus amigos. 

ij Que outro objecto mais digno do amor do Soberano, 
da vigilância dos Sábios , e do cuidado dos Médicos, do que 
evitar a grave moléstia das bexigas, fazendo propagar a Vac- 
cina seu efficaz preservativo ? A certeza e enormidade de 
hum mal he a fonte , donde naturalmente correm as mais 

cia- 



(/l) Pelas contas dos annos antecedentes constáo aj providencias do Go« 
vcfno a beneficio da Vaccinaçâo : e ultimamente por huma Portaria do 
torrente aiino acaba o mesmo Governo de conceder hum conto de réis 
para supprir as d''spesas da Instituição, em quanto Sua Macestade híq 
lixa rendas para a continuação desce Estabelecimento. 




XXXII Historia da Academia Real 

claras provas do apreço, que deve tazer-se do remédio pre- 
servativo desse mal : a extensa e continuada serio de factos 
he a prova mais convincente da virtude preservativa de hum 
remédio : quem oíFcrecc , franquea , e applica tal preserva- 
tivo he digno de elogios, e agradecimentos tanto maiores, 
quanto mais terrível he o mal , e mais eííicaz o remédio, 
Applicando por tanto estes principios ao meu objecto , so- 
bre elles traçarei este Discurso Histórico ; e só pela histo- 
ria ou exposição de factos referidos com a brevidade , que 
me he permittida, mostrarei i.° a ccrte/a com que a espé- 
cie humana deve esperar o ser accommettida das bexigas 
naturacs , e a grandeza , e enormidade desta moléstia ; 2.° 
provarei a infallibilidade da Vaccina como preservativo das 
bexigas; 3.° e finalmente referirei os progressos , que a Vac- 
cinaçáo tem feito em Portugal , particularmente neste an- 
no , do qual me compete dar conta ; e isto bastará para que 
o Publico conheça os agradecimentos e elogios , que são 
devidos aos Correspondentes c cooperadores da Institui- 
ção. 

Oxalá que no Discurso por vós ouvido ha pouco , o 
seu Auctor se tivesse encarregado de fazer a historia dos 
trabalhos vaccinicos do anno Académico , que hoje termi- 
na j ou que algum outro Membro da Instituição Vaccmica 
occupasse hoje este lugar : tintas mais finas copiariao exacta 
e expressivamente o quadro , que apresenta e immortaliza 
as vantagens da Vaccina , e o nome dos beneméritos Portu- 
guezes , que neste anno empregarão os seus cuidados em 
generalizar este bem : quiz porem a lei estabelecida nesta 
Sociedade (i) que me coubesse o arrostar tão árdua emprc- 
za , e como obediente á lei hc forçoso que me submetta 
a hum peso mui superior ás minhas débeis forças. Não te- 
reis 



(rt) A Instituição Vaccinica em huma da? suas Sessões deliberou que 
o Secretario, que servisse no trimestre de Março , Abril , e Maio, fos- 
se o que fizesse o Discurso Histórico , que deve ler-se na Sessão publica 
d\ Academia. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XXXUt 

reis por tanto hoje o prazer de ouvir, como nos annos pre- 
cedentes, hum discurso, em que a verdade e a eloquência 
marchando de mãos dadas ensinavao aos mais incrédulos a 
estrada, que os levava a huma clara e perfeita convicção 
sobre o grande preservativo das bexigas : farei todavia que 
a verdade, ainda que marchando só, nao se perca da estra- 
da , que acertadamente abrio , e pela qual felizmente cami- 
nha já com segurança a maior parte da Nação , acreditando 
e procurando aquelle cfficaz preservativo. 



N. 



Parte Primeira. 



Ão se pôde ao certo determinar a época , em que a 
Humanidade começou a pagar o pezado tributo da horro- 
rosa e quasi indefectivel enfermidade das bexigas naturaes. 
A Historia assim como deixou sepultados no esquecimento 
muitos outros factos, cuja noticia nos interessaria, também 
não confiou de nós o verdadeiro e exacto conhecimento da 
origem , Paiz , e causas que derão principio ás bexigas na- 
turaes ; e apenas podemos assegurar , que este fl.igello não 
existia no tempo dos Gregos e Romanos (a) j séculos de lu- 
zes , em que viverão grandes e sábios Médicos, e escrupu- 
losos Historiadores , aos quaes sem injustiça se não pôde 
imputar ignorância ou ommissão em descrever hum mal , 
que, ou medica ou politicamente considerado, lhes deveria 
merecer a maior attenção. A inconstância porém dos tem- 
pos , que a nada perdoa , empeceo os progressos , que na- 
quelles luminosos tempos fi/era o espirito humano , e co- 
mo invencível barreira lhes oppoz a barbaridade , que suc- 
cedeo nos séculos immediatos : séculos , em que as podero- 
sas e successivas invasões dos bárbaros do Norte , e os san- 
guinários scismas religiosos, á força de perscgu çóes , estra- 
Tom. V. Part II. * 5- gos , 

{a") Veja-se Trai^e histcnque et pratique de i inoculation par Dezo:eux 
tt F/tlcntin , pdg. 25 e 24, .inno 8. da Republica: SiJobie Diisert.itio 
de variolií pag. 5. 



XXXIV HlSTOniA DA AcADEMlA ReAL 

gos , c mortes fomentarão dissençõcs e partidos, accendê- 
râo o facho da rebellião , e mudarão a face politica dos 
Estados. No meio de tão horrorosa inquietação bem era de 
esperar, que faltasse o tempo e tranquillidade necessária pa- 
ra cultivar as Sciencias, e transmittir á posteridade exactas 
observações ainda sobre aquclles fenómenos mais extraordi- 
nários , e consternadores , como erão as epidemias variolo- 
sas. 

Seguio-se outra época ainda mais desgraçada , na qual 
grande parte dos homens , sacrificando a razão á impostura 
e despotismo de Mafoma , chegarão infelizmente a acredi- 
tar como preceito religioso , que devião fechar absolutamen- 
te os olhos i luz das Sciencias. E tendo sabido de tão es- 
curo século e Paiz as primeiras noções sobre epidemias de 
bexigas , não causão admiração as poucas e incertns idéas , 
que temos da origem e estragos das primeiras epidemias ; 
e por isso nos limitamos só a dizer , que na declinação do 
VI. Século já a Arábia era victima das bexigas naturacs (n). 

Crescendo depois em poder o Império , que Mafoma 
havia fundado, e seus successores dilatado por meio de rá- 
pidas conquistas j grande parte da Ásia , Africa , r Iviropa 
se vio sujeita ao pesado jugo dos Árabes, os quacs de en- 
volta ahi levarão a assolação da gucira, e o •^ernicn das be- 
xigas naturacs : de maneira que desde o Vllf. Século , em 
que os Sarracenos entrarão em Portuí^al , são também co- 
nhecidas neste Paiz as epidemias variolosas (b) . 

As conquistas , que os Portuguczes e Hcspanhoes fize- 
rão no Século XV., e as relações commerciaes, que poste- 
riormente se estabelecerão entre as differentes N;'çóes e Po- 
vos do Mundo , levarão o contagio varioloso áquelles mes- 
mos Paizes [c] , onde os Sarracenos não tinhão chegado ; 

e 

(<j) \'eia-3e a primeira citação da nota (a) pag. xxxiii. 
(/>■) Ve)a-se a pag. 27 da obra citada na mesma not.i, 
(í) Vejáo-se as obr;is citadas na nota (<í) pag. xxxiii. 

Não consta que na America fossem conhecidas as bexigas antes de 









DAS SciENCIAS DE LlSBOA. XXXV 

c eis como este mal terrivel estcndeo o seu império pof 
toilo o Mundo conhecido. 

Por tia^^ello grande foi sempre considerada , e por lon- 
gos annus se não perde da lembrança dos Povos qualquer 
assoladora epidemia , ainda quando á sua pestífera influencia 
tcnháo sido inaccessiveis centos de indivíduos: ^e quanto 
maior terror devem causar as bexigas naturacs, enfermida- 
de epidcmica e contagiosa, a cujo furor he raríssimo o que 
escapa ? Esta verdade , que a observação de tantos séculos 
infelizmente tem demonstrado a toda a classe de pessoas, 
n(,s auctoríza para sem hypeibole aífirmar , que a espécie 
humana fora condemnada a sofFrcr , ao menos huma vez, 
este hediondo mal. Se a Historia nos aponta hum ou ou- 
tro indivicun , que ches^and ) a longa idade morreo sem 
pagar este tributa , ^ quantas duvidiís occorrem sobre a exacti- 
dão desces raríssimos factos r ^"Será por ventura incrível , que 
alguns soflião este mal no ventre materno ? ^ Não tem sido 
observados por graves Médicos os casos de febre varíolosa 
sem erupção de pústulas, e esta anomalia não terá dado lu- 
gar á persuasão daquelles extraordinários e raríssimos factos ? 
Vivão pois toáos os homens persuadidos de que na sua cons- 
tituição não achão forças, que absolutamente, e cm todo o 
tempo , se opponhão ao contagio varioloso , para o quil 
todos ou cedo ou tarde mostrão ter disposição. A este res- 
peito sirva de aphnrísmo o que disse o grande Condimine : 
jO/í';7 «'jy a d'exempts que cenx qui tte vivent pas assez poiír 
ra/íeridre (a) . 

E se hum mal ainda pequeno amcdrenta , e sobresalta 

* j ii a 

.'hj cheg.ufiii os seus conquisradorcs : c das primeiras epidemias desta 
itiolesriii foi a que succecWo no fim de 152O no México , a qual matou 
tiiuitos Cacicos , e taiiibcm Magiscatrin irmão de Montezunia , famoso 
Imperador do México, como refere Fernando Cortez na sua segunda Car- 
ta ao Inípcndor Cr.rlos \'. p.-.^. 188. 

(a) No Tratado iia inoculação já citado se achão estes, e outros ar- 
gum.ntos para provar que tudos estamos sujeitos a soffier liuma vez as 
bexigas. 



xxxvi Historia da Academia Rbal 

a quem o espera como certo , incalculável será o susto e 
horror de que deve possuir-se aqueilc que, não tendo per- 
dido a luz da ray.ão , conhecer a grandeza e enormidade do 
mal , que o ameaça. Não he objecto do meu discurso fa- 
zer exacta dcscripçao das bexigas naturacs ; devo com tudo 
indicar , para que ninguém ignore , os grandes e terríveis 
males , que as acompanhao , e lhes succedem. 

A morte , prova a mais decisiva da gravidade da mo- 
léstia , que a produzio, he o termo fatal, ao qual as epi- 
demias vaiiolosas arrastão milhares de victimas , depois de 
exhaustas as forças com penosos tormentos. Veja-se a His- 
toria dos tempos, e ficaremos convencidos das horrorosas 
assolações, que alguns Escritores julgarão exceder ás da guer- 
ra , e ás da mesma peste. A este respeito diz Hostius : que 
por muitas vezes tem estado em perigo a Ásia , Africa , Eu- 
ropa , e também a America , por causa de febres malignas 
e pestilenciaes ; porem este Escritor se enche de espanto 
observando os estragos da epidemia variolosa de 1614, c a 
fereza , com que não poupara a sexo ou idade. Esta epide- 
mia começando pelo outomno na Alexandria , Creta , e Cida- 
des visinhas da Grccia , e com inevitável mortandade in- 
vestindo no inverno seguinte a Turquia e Calábria , e na 
primavera a Dalmácia, Veneza, Itália, França, Inglaterra, 
Alemanha , Polónia , e Rússia , successivamente dentro de 
hum anno correo , e tão enormemente despovoou a Europa 
inteira , que Hostius ao referir este facto exclama: O' annum 
perniciabilem ! O' variolas detestahiles \ (a) 

Não se formarão em todos os tempos listas, por on- 
de constasse a grande mortandade motivada pelas bexigas ; 
porem essas mesmas , que neste ultimo Século nos deixarão 
Escritores mais curiosos , são bastante testemunho para quem 
por observação própria não esteja convencido da gravidade 
desta moléstia. Em 1720 morrerão desta cruel enfermidade 

só 

(a) Veja-se a primeira obra citada na nota (rt). 



snTt_ 



01 



É 



DAS SciENCIAS DE LlSBOA. XXXVIt 

SÓ cm Paris 20(í) pessoas. Em 1744 fallecêrão de bexigas 
em Monrpcllier mais àc i^ crianças. Desde 1661 até 177a 
morrerão de bexigas cm Londres 195:432 indivíduos. No 
mesmo espaço de tempo , e por causa só desta moléstia hou- 
ve cm Genvbra 3:973 mortes. De;.de 1744 até 1763 falle- 
cêrão de bexigas em Edimbourg 2:441 pessoas; e na Haya 
desde 175' 5" até i-^ó^ forão 1:455: as victimas desta enfer- 
midade. De tão horrorosas crtastrophcs tem os observadores 
concluido : que de 6 bexigosos provavelmente morre hum: 
este calculo porem indica somente hum termo médio de- 
duzido da mortandade de divcri-as epidemias variolosas : pois 
algumas houve , em que o proporcional numero dos mortos 
foi muito maior; como nos ofFerece hum exemplo Cullen , 
quíndo dÍ7, , que cm Gl iscov/ em 1768 grassarão bexigas 
tão funestas, oue de 10 doentes apenas escapava hum. 

Em fim seria não acabar, se miudamente se descreves- 
sem os estragos , que este fl.mello tem levado a toda a par- 
te. A Historia da Medicina nos aponta epidemias variolo- 
sas tão mortíferas, que tem finado famílias, suspendido os 
trabalhos de fabricas, despovoado Vilías , arruinado Cida- 
des commerciantes , e assolado Provindas inteiras (a). 

Não he unicamente a morte (o que só bastaria) o te- 
mível perigo , com que as bexigas aterrão a humanidade : 
aquelles mesmos, que escapâo a esse fatal e decisivo gol- 
pe , j quantos outros perigos correm , quantos males sof- 
frem , e a quantos ficão condemnados por todo o resto da 
sua penosa vida .'' Ommitto pequenos incommodos , alguns 
dos quaes não são de pouca monta , pois a formosura , e as 
feições de huma bem proporcionada fysionomia , dote pre- 
cioso da Natureza , muitas e muitas vezes desapparecem 
debaixo dos disformes vestipios do veneno varioloso. Não 
posso com tudo poupar a sensibilidade de quem me ouve, 

dei- 



(rt) Na citada obra sobre a iriociilaçáo se referem estas e outras hof- 
rorosas cacastioplies causadas petas bexigas. 



XXXVIII Historia n a Academia Real 

deixando de referir os effeitos mais terríveis daquelle fla- 
gello. ^ Qiiantos desgraçados não tem pelas bexigas perdi- 
do absolutamente a vista e o ouvido ? Em alguns os olhos 
são destruídos , affectados de estaphylomas , a córnea ulce- 
rada ; coberta de cicatrizes ; as pálpebras avermelhadas , as 
lagrimas continuas por obstrucção do canal nazal e pontos 
lacrimaes : em outros os beiços inchados , as ventas inflam* 
madas , o nariz destruído ou desfigurado pelas cicatrizas : 
muitos são atormentados por abscessos sobre diversas par- 
tes, caries, descobrimentos de ossos, ulceras, fistulas, des- 
truição de capsulas articulares, vindo depois a ser vlctimas 
de espinas ventosas , de febres lentas , do morasmo , e da 
atrophia {a) . Oh terrível enfermidade , que por tantos mo- 
dos c tão cruelmente te empenhas cm annlquillar a espécie 
liumana ! 

Tremei , tremei , País de famílias , que embriagados 
com a belleza de vossos filhos , viveis como em profundo 
somno , esquecidos dos terríveis males , que os ameaçao ; e 
que hum dia converterão em desfigurados cadáveres 03 ob- 
jectos mais caros do vosso amor paternal ! Cruel e pun- 
gente aviso seria este para os Pais, que viverão no tempo, 
cm que poucas idéas havia sobre o tratamento desta msles- 
tia , e nenhum conhecimento do preservativo , que a evitas- 
se. Porem m.ais cruéis e pungentes remorsos deve este aviso 
causar hoje aos Pais , que indolentes deixão precipitar seus 
filhos no abismo de perigos , não buscando o fácil preser- 
vativo , que se lhes tem ensinado , e do qual vou fallar. 



A 



ARTE OEGUNDA. 



NATUREZA e a razão , sentlncllas vigilantes sobre a 
conservação do homem , não cançárao de procurar em todo 
o tempo os meios de remediar hum mal tão grave como 

as 

(<z) Tmiié de 1'inociilation , nota 3 pag. 1^3. 



DAS SciEíTCIAS DE LlSBOA. XXXíX 

as bexigas naturaes : e o acaso permittio, que as bcnévol.is 
intenções da Natureza íbsscm manifestadas por descobrimen- 
tos , c^ue a ra/ão converreo não só em remcdio , mas até 
em preservativo das mesmas bexigas. 

Sabe-se , que desde huma remota antiguidade nas visi- 
nhanças do mar Caspio , na Geórgia , c na Circassia havia 
meios de evitar as deformidades , que costumão produzir as 
bexigas naturaes. O vil commcrcio , a que se dão aquelles 
povos fornecendo os serralhos dos Soberanos da Ásia , foi 
hum dos incentivos, que fizerao generalizar aquelles meios. 

Admirava-se em Gonstantin jpola o como a formosura 
das Georgianas e Circassianas h.'.via resistido aos effeitos 
das bexigas ; e pelo correr do tempo conheceo-se , que a 
inoculação da matéria variolosa , produzindo bexigas arti- 
ficiaes , evitava ns naturaes, e as suas terríveis consequên- 
cias. Da Corte de Constantinopola , como mais frequentada 
pelos Europeos , foi esta ucil pratica transmittida á Huro- 
pa , não só por Milady Montagu, esposa de Wortley , Em- 
baixador de Ingluerra naquellx Corte ; mas também pelo 
celebre viajante Francez LaCondamine, quando voltou do 
Levante ; e em 1732 commjnicou á Academia Real das 
Sciencias de Paris as observações feitas na sua viagem {r.) . 

Não era porem a moculaçao hum preservativ.i das be- 
xigas , mas somente hum meio de minorar os incommodos 
e perigos, com que ellas ameação: nem tão pouco este re- 
médio era tão innocente , que algumas pessoas, ainda que 
muito raras , não fossem victimas desta pratica. Estava re- 
servada para a Inglaterra a gloria de descobrir o verdadei- 
ro preservativo , que a Natureza já de largos tempos offc- 
recèra contra as bexigas , mas que a razão do homem não 
havia podido ate ao anno de 1796 conhecer como tal. Foi 
pelas curiosas e interessantes indagações , feitas pelo cele- 
bre 



Çn) Traité de l'inoculatton , nota } , pag. ^4 e seguinces. JJictionn.iire 
bistorique , nas palavras Montagu e Condamine. 



XL Historia da Í^cademia Real 

bre Jcnncr, que o poder antivarioloso da Vaccina (do qual 
até então somente os pastores de Glauccster tinhao algu- 
mas idéas ) , foi mais perfeitamente conhecido (a) . 

Para se determinar o modo de applicar este precioso 
antidoto muitas luzes suhministrou a pratica anterior da 
inoculação : e ohscrvando-se a benignidade da nova molés- 
tia , e sua virtude preservativa , em quanto a inoculação não 
evitava as bexigas , e apenas duninuia as suas terríveis con- 
sequências , não ficou duvidosa a escolha, logo que o des- 
cobrimento dejenner foi confirmado com sufficicntes factos. 
Huma descoberta tão admirável , e feita em hum sé- 
culo de luzes não podia deixar de se divulgar immediata- 
mente por toda a Europa , e excitar a curiosidade dos Sá- 
bios , e a beneficência das almjs bem formidas, que se in- 
tcrcssão pela felicidade dos seus semelhantes. Em poucos 
annos chegou o conhecimento desta descoberta a França , 
Itália , Suissa , Hanover , Prússia , Rússia , e mesmo a Gon- 
stantinopola ; e da Hespanha e Portugal foi levada aos seus 
Domínios Ultramarinos (b) . Em toda a parte se repetem 
experiências , e multiplicão factos , que assegurando cada 
vez mais o poder antivarioloso da V:'.ccina , cxcitão os So- 
beranos não só a submcrtcr seus filhos a esra ficil , beni- 
gna , e tão útil operação, maS também a crear estabeleci- 
mentos públicos para facilitar a seus Vassallos a posse deste 
precioso bem. 

Jamais descobrimento algum deixou de experimentar 
opposiçao fomentada pela ignorância , inveja , ou por espí- 
ritos afferrados a antigas opiniões. Não escapou a esta sor- 
te a descoberta da Vaccina ; porem os seus detractores longe 
de anniquillar o merecimento e estima, em que era con i- 
derada, pelo contrario tem excitado afazer novas experiên- 
cias , chamando a artcnçao de mais observadores , c dando 



oc- 



(<2) Hiissoii Recherchcs historiíjues et medicaUs sur la Vaccine. Anno de 
1805 ; e as deninis obr.is sobre Vaccina. 
(í) Hiisson , obra citada. 



DAS SciENCrAS DE LiSBOA. XI,I 

occasião a vigorar , e propagar mais a pratica dcsrc preser- 
vativo. 

Milhares e milhares de pessoas tem sido vaccinadas 
nas quatro partes do ÍVluiido : e cm todos os climas, esta- 
ções, idades, temperamentos, e sexos a Vaccina tem sem- 
pre mostrado a par de sua benignidade o constante resul- 
tado de preservar das bexigas. Nao pareça exnggerada esta 
proposição , pois a ella me conduz a auctoridadc de tantos 
Práticos e Historiadores , que escreverão sobre esta maté- 
ria , e pcrlcitamcnre contrariarão e fizerão caiar os detracto- 
res da Vaccina. Sc algum rarissimo facto se aponta, em que 
a Vaccina excitasse incommodos , ou não evitasse as bexi- 
gas ; |j que duvidas nao occorrem subrc a authenticfdadc de 
taes factos .' ^ H que opposição não encontrão elles em tan- 
tos milhares de vaccinados, que soíFrcrão os benignos sym- 
ptomas vaccinicos , e tem depois resistido a furiosas e re- 
petidas epidemias de bexigas ? Finalmente , sem recorrer a 
observações estranhas , a Historia dos trabalhos da Institui- 
ção Vaccinica , abrangendo cinco annos já completos , c 
mostrando em resultado 62:259 individues, que por sua in- 
fluencia tem sido vaccinad.os, não ap"nta ainda hum accon- 
tccjmento funesto, que se possa attribuir a Vaccina; e ape- 
nas conta hum individuo , o qual se diz, que a Vaccina dei- 
xai a de preservir das bexigas ; porém esse mesmo facto 
não he isento de duvida, como adiante se verá. 

Seria alongar muito este Discurso , e repetir o qu2 
pela imprensa tem chegado ao conhecimento do Publico , 
já nas obras de Jeiíner , Pcarson , VVoodeville, Husson, Bry- 
ce , e muitos outrí)s Aledicos estrangeiros , já n:is .contas 
parciaes e annuas dos Membros da Instituição Vaccinica , se 
eu agora referisse a successiva serie de tãctos , que constan- 
temente tem provado a infallibilidade da Vaccina: nem fa- 
ria justiça aos conhecimentos , e boa razão de quem me ou- 
ve , se insistisse em provar huma verdade , que hoje he sa- 
bida , até por grande parte do povo menos illuminado. Isto 
posto, scr-vo.<;-ha , Senhores, muito mais grato saber os pro- 
Tom. F. Part. II. * 6 grcs- 



xui Historia da Academia Real 

gressos , que neste ultimo anno a Vaccina tem feito em 
Portugal ; c quacs torao as pessoas , que mais concorrerão 
para a propagação deste bem : c assim passarei á terceira 
parte do meu Discurso. 

Parte Terceira. 

^oava por toda a Europa o nome de Jenner ; e o empe- 
nho de verificar , e adquirir o fructo da sua importante e 
admirável descoberta , excitou os Médicos e Philanthropos não 
só a prover-se de matéria vaccinica para fazer experiências 
particulares, mas até a crcar estabelecimentos públicos, on- 
de os Povos mais fácil e francamente achassem a Vaccina , 
e Vaccinadorcs. Não ficou Portugal indiíFerente , apenas lhe 
constou o descobrimento do grande Jenner. Tinha sido pu- 
blicada em Inglaterra no anno de 1798 a primeira obra sobre 
Vaccina, e logo em 1799 (<*) idosos Facultativos Portu- 
gueses , c beneméritos Concidadãos procurarão divulgar tãa 
importante noticia ', e dentro do circulo , a que chegava a 
particular influencia de cada hum , extendco-se , quanto foi 
possivel, a pratica da vaccinação; c assim continuou entre- 
gue ao cuidado de diversos Facultativos, que vaccinavão a. 
quem podião , e quando as circunstancias o periiiittijo : erão 
por tanto incertas ao Publico as occasióes , e niei s d- ob- 
ter este beneficio. 

Tal era o estado , ein que se achava a vaccinação em 
Portugal, quando a nossa Academia, desejando fortalecer 
este ramo de beneficência publica , e aplanar os obstáculos , 
que o não deixavão exrendcr a ponto de abrigar o Reino 
todo, creou no anno de 18 ia hum estabelecimento publi- 
co , a Instituição Vaccinica , formada dos seus Sócios Mé- 
dicos , os quaes de bom grado se prestarão a tonTar a seu 

cui- 

(fl) Ànnaes Faccinkos de Portugal, pelo Siir. Amónio de Almeida, 
p\iblicados no Tom. IV. Part. II. das Memorias da Jcademia Real dos ^ 
Scieticias de Lisboa. 



Ot 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. -XLIÍÍ 

cuidado esta emprcza ; importante pela utilidade do fim , po- 
rem árdua pela difíiculdade dos meios necessários para este 
se conseguir. 

j Graças ao espirito de beneficência, que anima os nos- 
sos Concidadãos! [Graças á docilidade, que tão distincta- 
mente caracterisa o Povo Portuguez ! Os Membros da Insti- 
tuição Vaccinica , bem persuadidos do sublime gráo , em que 
seus Compatriotas possuem estas virtudes, a ellas recorrem, 
e delias somente confião a completa execução do plano de 
vaccinação geral por todo o Reino. Apenas por meio de 
annuncios se ouve cm publico a voz da Instituição, apenas 
chegão ás Provindas algumas cartas de convite , de toda a 
' parte concorrem logo a offerecer-se innumeraveis coopera- 
dores , que á porfia desejão assignalar seu nome, e sobre- 
sahir aos que mais se avantajâo em hum serviço, que sen- 
do prestado ao mesmo tempo á Natureza, Religião, e ao 
Estado , será hum fiel e publico testemunho das suas vir- 
tudes moraes e sociaes. Facultativos, Parochos , Ministros, 
c outras Auctoridades ; e até mesmo alguns particulares, que 
pela sua representação podião mais influir no Povo , tomão 
a si huns apoz outros o cuidado de fazer cultivar nos seus 
destrictos a preciosa planta , cuja semente a Instituição a 
todos liberalisa , assim como as instrucçócs necessárias para 
a fua mais proveitosa cultura : e apezar da opposiçao , que 
as poucas luzes do Povo naturalmente apresenta á novidade, 
e do affcrro, com que este sustenta seus antigos costumes, 
a docilidade do Povo Portuguez por toda a parte ofFerece 
aos novos agricultores terras férteis, terras gratas, logo que 
ciles applicãu o amarvlio accommodado á particular natureza 
de cada huma. 

Nem o cnthusiasmo dos nossos Correspondentes , e 
Cooperadores , nem o zelo e actividade dos seu.< serviços 
desappareceo , qual o relâmpago na tenebrosa noite , que 
apenas mostra ao perdido viandante a desejada vareda, em 
lium momento o deixa errante e perplexo : ao contrario a 
lirmcza de caracter, e perseverança dos fautores da Vacci- 

* 6 ii na 



XLiv Historia da Acabem iaReal 

na tem cada vez mais vencido a perplexidade , c confirma- 
do a opinião publica sobre a utilidade do incomparável pre- 
servativo. Hm prova desta verdade basta lançar os olhos so- 
bre o numero de vaccinados em cada hum dos annos an- 
tecedentes ate ao actual, para se conhecer os progressos, 
que successivameote tem ícito , e faz a vaccinaçáo. 

Forão vaccinados , c tiverao Vaccina verdadeira (como 
se acha nas contas annuas da Instituição Vaccinica ) 

Em 1813 - - - 3:323 Individuos. 

1814 - - - 8:5-27 

iSi^ - - - 12:305- 

181Ó - - - i8:iir 

1817 - - - 19:993 

Sommão - - - 62:259 

Forão por tanto i9'.993 os individues, que a Irtsti- 
tuição Vaccinica sabe que por sua influencia tiverao este 
anno Vaccina verdadeira, e ficao por consequência preser- 
vados das bexigas. Porem o numero dos vaccinados he ain- 
da muito maior; porque nem de todos chega noticia á 
Instituição; e muitos, posto que vaccinados, não forão in- 
cluidos naquelle numero por nuo terem voltado. Hsta cul- 
pável falta, sobre privar a Instituição do pra'/,er de referir 
ao certo os progressos da vaccinaçáo, deixa os mesmos vac- 
cinados na incerteza de ficarem ou não preservados das be- 
xigas , não tendo sido observada por Facultativos práticos 
a legitimidade da Vaccina. j Oxalá que as advertências, que 
a este respeito a Instituição tem muitas ve-zes repetido, 
cheguem hum dia a persuadir o Publico do quanto este er- 
ro lhe pódc ser funesto ! 

Já visres , Senhores , pelo numero dos vaccinados nos 
diffcrentes annos, que a vaccinaçáo em Portugal, longe de 
aíFrouxar, recobra successivamente novas forças; o que mos- 
tra de facto as vantagens dos recursos , c das providencias , 

que 



DAS ScitNCIAÍ nfe fjrs'B'OA. i<Lv 

que a Tnstirurçao tem supplicadô , e qUis o nosso Providt'i- 
te Governo pontiialmcnCc ha concedido. Conlvcço poivin 
que a vossa ciiriosidatíe, e gratidão 'nâo está satisfeita, scin 
que eu publique os nomes dos bcnemvritos Cooperadores 
desta útil, c louvável empreza ; nem he justo que à insti- 
tuição , nesta paite interprete dos sentimentos do Publico , 
deixe no esquecimento os nomes daqnéfles , que tão ^erte- 
rosa e efficazmente se empenharão em coadjuvá-la ; è aSsim 
lhes roube o premio da gloria e estima publica^ premio o 
mais apreciável pelas ahiias nobres , prcrtiio unicti, ao qual 
saciificárão penosos trabalhos, anhelanteís Fadigas"; 

Tendo cu occupado o lugar de Secretario nó prihieir"} 
e quarto trimestre do aiino , a que se reféré este Discurso , 
eu tive ncsbc tempo a satisfação de conhecer peia corres- 
pondência os benévolos scnfimuntos c desvelados trabalhos 
de muitos d(Ks nossos Cooperadores. Alguns destes, è ainda 
outros SC distinguirão também no segundo e terceiro trimes- 
tre , em que dignamente servirão de Secretários o Sftr Joa- 
3uim Xavier da Silva , e o Sfír. Francisco Elias Rodrigues 
a Silveira. Porem não deVo fazer especiúl menção dos Cof- 
respondentcs , que mais se avantajarão neste serviço , sem 
que primeiro expresse em nome da Instituição o muito que 
a tem coadjuvado hum dcs seus Membros o Sfír- JoSC Fe- 
liciano de Castilho ; o qual tomando a seu cargo a vacci- 
nação da Com:irca de Coimbra , tem dado sobejas provas 
de que a actividade, zelo , e perseverança vencem ainda as 
maiores difficuldades. 

He o numero dos vaccinados huma prova do préstimo 
com que muitos Correspondentes se empregarão neste ser- 
viço , e muito mais quando sem alheio auxilio chegarão a 
fazer tão abundante colheita. Este motivo , sem mencionar 
outros , será bastante para confirmar os bem merecidos elo- 
gios , que 3 In>;tituição tem dirigido aos Senhores António 
Annstasio de Souza, Medico em Pombal; Francisco Xavier 
d'Almeida Pimenta, Medico no Sardoal; Nicola) de Souza 
Callião, Cirurgião em Lanhczes j José Joaquim Mixote , Ci- 

rur- 



xLVí Historia da Academia Real 

rurgiío em Redondo ; António Baptista , Cirurgião cm Mon- 
temor o Velho ; Pedro António Teixeira de Pinho , Cirur- 
gião em Ovar; Fernando António Cardoso, Cirurgião em 
Peniche ; José Maria Pereira e Sousa , sendo Cirurgião Mór 
do Regimento de Cavallaria N. 8 em Niza ; João António 
da Silva, Cirurgião no Sobral de Montagrasso ; Manoel José 
Malheiros da Costa Lima , residente cm S. Vicente de Pen- 
so ; Diogo Pinto de Azevedo, residente cm Barqueiros; e 
alguns outros , dos quaes adiante faliarei ; pois he hum de- 
ver que eu me apresse a tributar os mais sinceros agrade- 
cimentos a todos os Correspondentes pelos efficazes serviços 
que tem prestado á Nação : sendo mui distinctos nos Annaes 
Vaccinicos os nomes das Senhoras Dona Maria Isabel Wan- 
zeller , e Dona Angela Tamagnini de Abreu, a cujo zelo 
e virtudes patrióticas deve o Porto , e Thomar o ver gran- 
de parte de seus habitantes alegres triunfar das epidemias 
variolosas. 

Se observo porem o calor, com que em algumas Pro- 
víncias huns Correspondentes grangeárão , e animarão ou- 
tros , excitando-lhes nobre enthusiasmo em tão digna cm- 
preza , seus relevantes serviços me deixão perplexo sobre 
qual mais se distinguio por este lado ; c para cu ser justo 
repetiria ao mesmo tempo , se fosse possivel , us nomes dos 
Senhores António d'Almeida , nosso Consócio , e jMedic»? 
cm Penafiel ; José dos Santos Dias, Medico em Montalegre ; 
e José Fradesso Bello , Cirurgião ein Elvas. 

Não pôde muitas vezes o engenho, actividade e z lo 
só de hum homem suggerir forças bastantes para vencer a in- 
credulidade e indolência do povo mais rude, e que de or- 
dinário não teme os perigos antes de sentir os seus eíFeitos. 
Foi esta verdade conhecida pela Instituição , a qual dese- 
jando destruir tal obstáculo , e prosperar as diligencias dos 
seus Correspondentes , propoz á Academia as providencias , 
que julgou necessárias. Apenas esta proposta foi levada pela 
Academia á presença do Sábio Governo, que tão acertada- 
mente interpreta e satisfaz nestes Reinos a Soberana Vonta- 
de , 



DAS SciENCIAS OE LlSBOA. XtVtt 

de , c Real Beneficência , forão logo expedidas insinuações 
aos Reverendíssimos Prelados; e orJcns aos C^orregeuores , 
Generaes das Armas , Capitães Mores , para (^ue a voz do 
Soberano chegasse pelos comi^^etentes órgãos aos ouvidos 
dos Vassallob , e para que em t(;da a parte os nossos Cor- 
respondentes recebessem das authoridadcs o auxilio , que as 
circunstancias exigissem. Pelas anteriores contas já são pú- 
blicos os resultados desta aceitada providencia ; e de novo 
poderia citar cm seu abono as vantagens , que neste arino 
conseguirão os Senhores José Joaquim da Silva , Medico em 
-Alvaiázere; José Igr.acio da Silva, Cirurgião em Estremoz ; 
João António Rodrigues de Oliveira , Cirurgião cm Lame- 
go •, António de Carvalho e Almeida, Medico em Celori- 
co; c José Luiz Pinto da Cunha , Cirurgião em Vianna do 
Minho ; os quaes auxiliados pelas Autoridades , empenharão 
seus ardentes desejos em beneficio do Publico , que aliào 
scrião illudidas por infructuosas esperanças. 

Pelos admiráveis esforços que nos annos precedentes 
se fizerâo em algumas terras , a ponto de não reatarem pa- 
ra vaccinar mais do que os recem-nascidos , pequenos Map- 
pas de vaccinados nos envião hoje os Correspondentes , que 
•a tão ajustada perfeição levarão os seus anteriores trabalhos. 
Mas em taes circunstancias qualquer pequeno Mappa , que 
ainda hoje recebemos dos Senhores João Gervazio de Car- 
valho , Medico no Cartaxo ; e Joaquim António de Olivei- 
r.i , Cirurtíião na (jolleííã : esse mesmo he hum novo mct-n- 
tivo para nos tra/.cr á lembrança os elogios que merecerão, 
e que ainda h()j'j lhes são devidos. 

Não he só pelo numero de vaccinados que a Institui- 
ção julga o merecimento dos seus Correspondentes; obs-r- 
vações exactas , que illucidem a natureza e marcha da Vac- 
cina , e aperíciçoem a pratica de vaccinar, representao no 
mesmo cunho a beneficência do Vaccinador , e a instrucçáo 
do 1'acultativo. He porem tão uniforme esta moléstia e mo- 
derada em seus symptomas, que mui raras anomalias sofFre , 
e essas poucas são já assaz conhecidas. Todavia não deixa- 
rei 



XLvm Historia da Academia Real 
rei em silencio , que alguns Correspondentes continuão a ob- 
servar, que as affecções chronicns de pelle diminuem de in- 
tensidade , c chegão a curar-se mais promptamentc depois 
de affectada a constituição pela Vaccina. A este respeito fa- 
rei particular menção de huma Menina , que nascendo gor- 
da começou a soffrer escoriações pelos sovacos, virilhas, e 
pescoço ; e depois erupções hcrpeticas por todo o corpo , 
especialmente na cara, a ponto de não poder abrir os ollios: 
a iiístancias do Siir. António Coelho de Magalhães eQi.iei- 
roz , Cirurgião em a Villa de Meam , Comarca de Penaíic 1 , 
foi vaccinada esta Menina ; depois do que ficou perfeita- 
mente curada de todas aqucllas aftecções. 

O Snr. José Félix Baima , Medico em Santarém , e o 
Snr. João Pedro Alexandrino Caminha , Medico em Benaven- 
te , notarão alguns indivíduos , em que a Vaccina desen- 
volvera os seus primeiros symptomas , passados muitos dias. 
O Siir. José Ignacio Pereira Derramado , Medico em Por- 
tel , entre o grande numero dos seus vaccinados , conta três 
indivíduos atacados de febres intermittentes ; e observou , 
que estas cederão mais facilmente depois da vaccinação ; c 
posto que se não atreva a deduzir de tão poucos factos hu- 
ma conclusão positiva , e genérica , todavia abre caminho a 
novas observações sobre a infiucncia da Vaccina nas febres 
de simples asthenia, c adianta juduciosas conjecturas, que 
sendo para o futuro confirmadas , podem interessar muito 
para o tratamento destas febres. 

Foi a vaccinação praticada em pessoas de difFerentes 
idades , sem que esta circunstancia influísse na regularida- 
de da sua marcha, como affirma o Sfir. Francisco Maria Rol- 
dão, Cirurgião da Villa do (^ano , o qual vaccinou três 
crianças de hum mez de idade ; a Senhora Dona Maria Isa- 
bel Wanzcller , que vaccinou pessoas de ^o annos , e o 
Sfír. António Coelho de Magalhães e Qiieiroz vaccinou hu- 
ma Senhora de 82 annos de idade. 

Alguns factos houve, que mostrão certa analogia entre 
o virus vaccinico e varioloso. Os Senhores |uitiniano de 

Mel- 



\ 



DAS SciENClAS DE LlSKOA. XLIX 

Mello Franco, Membro da Instituição; João Pedro Alexan- 
drino Caminha , Medico em Benavente , c Ignacio José dos 
Santos, Cirurgião em Viseu , vaccinárão pessoas, cm que, 
por estarem já contagiadas de bexigas , apparecêrão estas e 
a Vaccina ao mesmo tempo , e correrão os seus periodos re- 
gularmente : em todos estes casos se observou benignidade 
nas bexigas , o que já anteriormente tem sido notado por 
outros Correspondentes. Estes factos , quando não se obser- 
vão com judiciosa critica , são aquelles de que os detracto- 
res da Vaccina se tem muitas vezes servido para fazer du- 
vidar da infaliibilidade deste preservativo, mas sem razão; 
pois se não lembrão de que a Vaccina indispõe a constitui- 
ção para ser ferida pelo contagio varioloso , porem não pô- 
de empecer ao desenvolvimento e marcha das bexigas , quan- 
do o contagio varioloso tem atacado o individuo antes de 
vaccinado. Muito faz a Vaccina , se mesmo então mitiga os 
cffcitos daquellc contagio. 

São algumas constituições , segundo parece , maccessi- 
vcis ao veneno varioloso ; e por isso não admira que outras 
o tenhão sido também ao contagio vaccinico, apezar de re- 
petidas vaccinaçócs. Casos desta natureza referem alguns 
Correspondentes; e hum delles o Snr. Filippe Joaquim Hen- 
riques de Paiva , Medico em Castello-Branco , o qual con- 
firmou pelas suas experiências , que a vaccinaçáo falhava , 
quando era praticada em pessoas, que tinhão já soffrido be- 
sigas ou havião sido vaccinadas : donde se conclue, que de- 
pois de qualquer destes contágios a Constituição ordinaria- 
mente não fica susceptível de padecer de novo algum del- 
Jes. Não he com tudo esta regra absolutamente isenta de 
excepções, posto que mui raras; porque se alguns Práticos 
ncgão , que se possão ter bexigas por duas e mais vezes , 
outros ha que o affirmão ; e sendo esta opinião a mais se- 
guida , não causará espanto que também entre hum immen- 
so numero de vnccinados , que a salvo tem arrostado por 
entre enfurecidas epidemias variolosas , appareça hum in- 
Tom. V. Part. II. * 7 di- 



V Historia da Academia Real 

dividuo , que depois de vaccinado não ficasse absolutameft- 
tc indisposto para contrahir bexigas. 

Hum facto desta natureza tem a Instituição de publi- 
car hoje pela primeira vc/ ; e apezar da natural difficulda- 
dc para se acreditarem phenomenos rarissimos , a probidade 
e conhecimentos do Sfír. José Nunes Chaves , Medico em 
Villa Nova de Portimão, obrigao a julgar por verdadeiro o 
extraordinário acontecimento de hum vaccinado em Silves , 
que , segundo se informou o dito Medico , tivera vaccina 
legitima, c passados 5 mezes fora atacado de bexigas, que 
o dito Professor observou c reconhcceo. Acreditamos que 
o Snr. José Nunes Chaves empregaria todos os meios para 
conhecer, se era exacta a informação que lhe deráo sobre a 
legitimidade daquella vaccina ; todavia este phcnomcno tão 
extraordinário ficaria totalmente livre de duvida , se a Vac- 
cina tivesse sido observada por aquelle Professor. Este facto 
porem, único entre óitifp vaccinados, de que a Institui- 
ção tem dado conta nestes cinco annos , longe de afracar a 
confiança , que devemos ter na virtude preservativa da vac- 
cina , ao contrario he mais huma prova da sua força anti- 
variulosa ; porque acontecendo n'huma época , em que todos 
os variolosos morrião de bexigas malignas e confluentes , 
aquelle vaccinado teve apenas algumas bexigas discretas, e 
salvou-se para ainda assim mesmo ser hum pregoeiro da vir- 
tude vaccinica. 

Embora se tenhão citado outros factos semelhantes ; a 
Instituição não tem podido até ao presente verificar segun- 
do , apezar de ter empenhado imparciacs averiguações , pe- 
las quaes só tem conhecido , que nos casos citados ou as 
bexigas que sobrevem forao confundidas com a varicella , 
ou os vaccinados não tem go/ado da Vaccina legitima. Neste 
ultimo caso está o filho do Snr. Abr-Berens , morador cm 
Setúbal , o qual nos participou que hum de seus filhos fora 
vaccinado na Instituição, e que depois tivera bexigas natu- 
racs : porém sendo examinados os livros dos assentos achou- 

se: 



A-d-a OT 



D A S S C I E N C I A S D K L r S li o A. tt 

se: que aVaccina d.iqudlc Menino tinha sido julgada du- 
vidosa, c por isso não admira que cllc não ficasse preser- 
vado das bexigas. Outros dois factos de que o Snr. Berens 
faz menção na sua carta , ainda que não podem ser contra- 
riados com igual authcnticidade , nada convencem; por não 
haver certeza alguma de que a Vaccina tivesse sido verda- 
deira e constitucional, pois não foi observada por Faculta- 
tivo pr.itico nesta matéria. 

Cessem por tanto de huma vez capciosos argumentos- 
contra huma verdade confirmada por milhares de factos; cm- 
miKJeção os detractores da Vaccina, se ainda os ha , e sejão 
mais reservados os que por estranhos á Faculdade não de- 
vem arriscar a sua opinião em matérias , que lhes são des- 
conhecidas. Hum momento de séria reflexão bastará para an- 
tever o abismo de males cm que precipitão a humanidade; 
e a morte de hum só individuo , que seduzido por sua er- 
rada opinião venha a ser victima das bexigas, lhes excitará 
mil remorsos, que jamais aplacará nem a confissão do erro, 
nem o arrependimento da culpa. 

Tendes , Senhores , ouvido quaes forão os Correspon- 
dentes , que neste anno mais contribuirão para o avultado 
numero de vaccinados , que a Instituição hoje publica : po- 
rem o trab.ilho de alguns muito prosperou ( como já disse) 
com a eíTicaz cooperação das Auctoridades; este apoio, sem 
o qual a Instituição não poderia vencer alguns obstáculos, 
deve penhorar a nossa gratidão , pelo auxilio que prestarão 
os Corregedores das Comarcas de Viila Real , Vianna do 
Mmho, Castello Branco, Trancoso, Pinhel, e Tavira, os 
Senhores Alexandre Thomaz de Moraes Sitmenro, Joaquini 
de Magalhães Mexia de Macedo, Daniel José Ignacio Lo- 
pes, João Nogueira da Silva, António Júlio de Frias Pimen- 
tel e Abreu , c Manoel Ghristovao Mascarenhas de Figuei- 
redo ; e os Juizes de Fora de Celorico, Moura, c Monchi- 
que, Albufeira; os Senhores António Pereira da Mora Cas- 
tello Branco , Jo:iquim José Anastasio Monteiro , João de 
Dcos de Faria , e José Silvestre de Macedo. 

7 ii Cor- 



« 



til Historia DA Academia Reae 

Corrcspondeo o effcito ás esperanças, que a Instituição 
concebera de marchar mais expedita e regularmente , diri- 
gindo seus passos pelas Capitanias Mores : seu systema de 
organisaçao , a facilidade que o Povo tem contrahido de 
reunir-se á voz desta classe de Chefes , a grande influencia 
destes sobre o Povo, alistamentos já feitos, tudo afiança o 
mais completo resultado. Faltava a boa vontade , prompti- 
d;1o e diligencias dos mesmos Chefes ; mas nem isso fal- 
tou , sâo Portuguezes , exactos na observância das Ordens , 
assíduos nos interesses da Pátria , excessivos no bem de seus 
Concidadãos; e cm testemunho desta verdade rccommenda- 
rei á lembrança do Publico os nomes dos Senhores José Lou- 
renço Peres, Capitão Mór de Torres Vedras ; Francisco Per- 
feito Pereira Pinto, Capitão Mór de Lamego ; José Joaquim 
Aguas, Capitão Mór de Monxique; Fr. António de S.José 
Ah''ares , Prior do Convento d'Ancede e Capitão Mor de 
Couto d'Ancede; e Francisco Barata Feteira, Capitão Mór 
d'Alvaiazcre. 

Deste modo tem a Instituição Vaccinica levado a todas 
as Provindas o grande antídoto contra o contagio varioloso ; 
e os resultados, que suas diligencias e perseverança tem con- 
seguido , redobrão as lisonjeiras esperanças de chegar hum 
dia, em que a Vaccina não seja desconhecida na mais pe- 
quena Aldêa , nem pelo mais rude serrano. Assim o po-ie- 
mos esperar , vendo que a Instituição todos os annos adqui- 
re novos Cooperadores , e deste modo se habilita para ge- 
ncralisar cada vez mais o seu plano , e coruar a execução 
da empreza , que tem a seu cargo. Neste mesmo anno crcs- 
ceo o numero dos Membros da Instituição Vaccinica com 
a acquisição do Srir. Tgnacio António da Fonseca Benevi- 
des , de cuja assiduidade e instrucção tem já recebido effi- 
caz auxilio : e para Correspondentes nas Províncias forão 
nomeados os Senhores Joaquim Baptista , Medico em Von- 
zelia ; Pedro António da Silva, Cirurgião na Marinha Gran- 
de ; António Manoel Pedreira de Brito, Cirurgião em Villa 
Nova da Cerveira ; Carlos António Ltjpcs Pereira , Cirur- 
gião 



nAsSciENClAS deLisboAí llfl 

gião no Pezo da Regoa ; Domingos José da Fonseca , Ci- 
rurgião em Pena Macor ; José Maria de Aloracs Sarmento, 
Cirurgião na Villa da Feira j ejoão Pereira de Mello, Cirur- 
gião em Lamego; aos quaes a Instituição julgou dignos do 
Diploma de Correspondentes , como primeiro testemunho 
do apreço que fez dos seus serviços. 

Mui distincto Jugar merece na historia da Instituição 
a correspondência , que se começou com a Sociedade Me- 
dica de Marseilha. Esta sabia Corporjção desejando promo- 
ver no seu Paiz a propagjção da Vaccina , c colher obser- 
vações para mais apurar os conhecimentos scientificos sobre 
este importante objecto, pedio ser informada sobre o esta- 
do da vaccinação em Portugal , e offerecco-se a communi- 
car-nos o resultado dos seus trabalhos. A Instituição autho- 
risada peia Academia agradeceo tão lisongcira proposta , e 
remetteo áquella Sociedade todos os escriptos , que tem im- 
presso acerca da Vaccina. 

Tal hc , Senhores , o bosquejo que- pude traçar da his- 
toria da Instituição Vaccinica até ao fim de Maio do cor- 
rente anno, época, a que se referem as contas , que a mes- 
ma Instituição publica todos os annos. Talentos mais apu- 
rados e estilo mais sublime fariâo melhor sentir a impor- 
tância do objecto , e merecimento dos que para elic con- 
correrão. Estando porem indicados na primeira Parte deste 
Discurso os horrores e calamidades , que tem feito gemet 
a Espécie humana , oppressa pela gravidade das epidemias 
variolosas ; c sendo já indubitável (como notei na segunda 
Parte) que a Vaccina he o único, seguro, e forte escudo, 
que a Natureza até ao presente nos tem oíFerccido para ar- 
rostarmos a salvo aquellas terríveis epidemias , com estas 
previas idéas fácil hc conhecer o justo apreço , em que a 
Nação deve ter os trabalhos v;iccinicos deste anno , e o me- 
recimento das pessoas , que contribuirão para tão útil ser- 
viço , como pcrtcndi mostrar na terceira Parte. 

Convém pois não desanimar na briosa carreira , c do- 
brar esforços para tocar quanto antes a desejada meta : con- 
clua- 



Liv Historia da Academia Real 

clua-sc o immortal monumento , que sustentado nos séculos 
futuros pela gratidão dos Povos , perpetuará a gloria do 
presente século. Vive e ha de sempre viver na lembrança 
dos Povos o nome do hábil guerreiro , que , ainda a custo 
de penosos sacrifícios , e perda de vidas , chegou a liber- 
tar a sua Nação do flagello de invasores inimigos ; porem 
a maior gloria aspira , e terá mais justo direito ao reconhe- 
cimento dos Povos , quem por meios tão suaves , e sem 
risco de vidas , salvar huma Nação opprimida por inimigo 
interno , cujos furores e estragos tem por vezes horrorisa- 
do mais que a própria guerra. 

Eia pois , concorramos todos para tão grande empre- 
za ; em qualquer emprego, condição, sexo ou idade , rodos 
podem ter parte na gloria desta campanha. O respeito dos 
Eccicsiasticos , as ordens dos Ministros , o exemplo dos Gran- 
des , as luzes dos Sábios , a diligencia dos Facultativos , o 
preceito dos Pais, a obediência dos filhos, a docilidade dos 
súbditos, e finalmente os mútuos conselhos de todos, con- 
tribuirão para animar os progressos da Vaccina , e conseguir 
completa victoria de hum inimigo , que por tantos séculos 
tem vexado a Espécie humana. 

Não se julgue porém ser o amor da gloria o imico 
incentivo , a que a Instituição recorre para obter o auxilio 
necessário em tão útil serviço. O bem do ív^tado o exige , 
o Soberano o determina, e por tanto será escusiiJo accuniu- 
lar provas para mostrar; que promover a vaccinaçáo hc de- 
ver inherente a todas as Autoridades. Tem estas por úni- 
co fim procurar a prosperidade do Estado e a felicidade 
dos Povos : cumpre-lhes por tanto empregar os meios ne- 
cessários para augmentar , e conservar a população , da qual 
depende a segurança do Estado, o augmcnto da agricultu- 
ra , e a multiplicidade de engenhos , que cultivem e aper- 
feiçoem as artes e sciencias : cumpre-lhes afastar do Publi- 
co todas as calamidades , que possão , alem de diminuir a 
população, accrescentar o numero de indivíduos, que inuti- 
lisados por deformidades fysicas causem peso á Sociedade : 

cum- 



1) A S S e I E N. C I A S D E L I S B o A. I.V 

cumprc-lhcs finalmente assegurar a satisfação c felicidade 
indivixíunt, a que o Cid^Jão laborioso tem direito conio pre- 
mio do seu trabalho j felicidade , que em muitos objectos 
só deve esperar das pfav'li.leiKÍ-aí5 , c conselhos de quem o 
governa , e sem a qual não pôde contribuir para o bem e 
prosperidade pivblica. Nenhum destes encargos pode ser com- 
pletamente desempenhado sem evitar hum mal tao devasta- 
dor e funesta como as bexigas ; he por tanta a vaccinaçSo 
indispensável para conseguir o bem do Estado ; e de rigo- 
rosa obrigação deve ser promovida por todas as Auctorida- 

Nem mesmo aos Ministros da Igreja he estranho este 
dever : ao contrario sendo encarregados de dirigir o espiri- 
to publico pelos dictames da sã moral , devem convencer os 
Pais de que a Religião condemnará , como enorme crime o 
desprezo de hum meio fácil , que a Providencia lhes depa- 
rou para conservação da vida de seus filhos , ameaçada por 
hum mal eminente c terrivel. 

Sabei tabem , Pais de familias, que pelo descobrimen- 
to do grande Jenncr accrcscco mais huma obrigação sobre 
as muitas , ouc contrahistcs : o bem do Estado e a Religião 
exigem que vaccineis vossos filhos : não hesiteis hum mo- 
miMito cm obedecer a preceitos tão poderosos e respeitáveis ; 
c SC nem estes mesmos são assaz fortes para vencer a obsti- 
nação , que vos alkicina , outro finalmente vos lembro , ao 
qual vivente algum pôde jamais resistir : trata-se de con- 
servar a vida dos objectos que vos são mais caros ; escutai 
as vozes da Natureza ; consultai o aitiur paterna! ; e ficareis 
plenamente convencidos, de que a Instituição Vaccinica vos 
chama a cumprir hum dever , que o Estado exige , a Reli- 
gião approva , e a Natureza reclama. 



ELO- 



siiu or 



LVt Historia DA Academia Real 

"— I II . . H 

ELOGIO 

Do Doutor Alexandre Rodrigues Ferreira, 
Por Manoel José' Maria da Costa e Sa', 



A. 



.LEXANDRE Rodiigucs Ferreira , OfEcíal da Secretaria 
d' Estado dos Negócios da Marinha e Dominios Ultrama- 
rinos , Vice-Dircctor do Real Jardim Botânico , e mais Es- 
tabelecimentos annexos , Administrador das Reaes Quintas 
de (^leluz , Caxias , e Bemposta , Deputado da Rej] Jua- 
ta do Commercio , e Sócio Livre desta Academia , nasceo 
na Cidade da Baliia aos 27 de Abril de i/fó. 

Se a memoria d' hum homem de letras, benemérita por 
si , não pede mais do que as contemplações devidas ao me- 
recimento ; certo desejo nos leva a indagar o periodo em 
que manifestou a sua aptidão para o exercicio das Sciencias: 
nós pertendcmos saber, se o talento, este dote particular 
ao ser pensante appareceo logo e antes que os estudos o 
desenvolvessem; ou se amortecido necessitou, para dispcrtar 
e ganhar vigor, de completar primeiro algum curso scien- 
tifico. Ainda que nestas investigações só pareça ter parte a 
curiosidade, ellas com tudo não são esperdiçadas á conside- 
ração attenta do bom educador. 

O Srir. Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira foi hum dos 
engenhos felices , que desde logo presagião o que viráõ a 
ser na carreira das letras. Seu Pai Manoel Rodrigues Fer- 
reira, agradecido as boas disposições que mostrava, cuidou 
de aproveitá-las procurando-lhe estudos convenientes. E tão 
rápidos forão os progressos com que rcs-p ndco ás sollici- 
tudes paternas , que contando apenas doze annos , se acha- 
va apto a tomar pratica nas sciencias maiores. Seu Pai jul- 



oou-o 



! 



DAS SciENClAS DK LiSBOA. LVU 

gou-o filho de benção, e o destinou ao Sacerdócio, não só 
por lhe parecer este estado accommodado á indole que lhe 
divisava ; mas porque de certo era próprio da maior capa- 
cidade que lhe conhecia no exercício das letras : assim aos 
20 de Setembro de 1768 reccbco as primeiras Ordens Clc- 
ricaes. 

Ainda que esta determinação fosse unicamente sugge- 
rida pela piedade , nem por isso solidas ra/õcs dcixavão 
de a justificar. A influencia que os Ecclesiastlcos gozão no 
geral da Sociedade , hc a maior: directores das consciências, 
sabedores das inclinações de cada hum, elles tem de fazer 
abortar mil projectos damnosos; de remediar males commet- 
tidos; obstar á continuação dos crimes; levar allivio aos des- 
graçados , acalmando a turbulência das paixões por meio de 
conselhos salutares : em huma palavra , tem de dar vigor ás 
leis na solidão e no retiro, livre e isento da força que de- 
termina sua obediência. O desempenho destas funcções , de- 
manda tanta prudência c sabedoria , como virtude innoceu- 
te o Sagrado Ministério que o Ecclesiastico tem de exer- 
cer. Por isso da sua maior, ou menor illustração dependerá 
sempre grande parte do socego , e bem estar das Nações. 

Vendo Manoel Rodrigues Ferreira, que os talentos de 
seu filho merecião mais ampla desenvolução , assentou pro- 
movcr-lha fazendo-o seguir os estudos maiores : para o que 
teve de atravessar o Oceano a fim de na Universidade de 
Coimbra seguir o curso Académico. Não foi este porem o 
mesmo que seu Pai lhe destinara , mas outro assas diíFeren- 
te , e que ainda o devia fazer transpor o mesmo Oceano , 
a fim de que com as luzes adquiridas percorresse as vastís- 
simas Regiões de sua Pátria, colligindo espécies, e noti- 
cias, que tirassem da escuridão e nuUidade muitos de seus 
territórios. 

Foi no mez de Julho de 1770 que elle aportou em 
Lisboa; e dcmorando-se aqui pouco tempo, passou a Coim- 
bra onde em Outubro se matriculou na Cadeira de Institu- 
ía : succcdcndo porém logo no anno seguinte fechar-se a 
Tom. F. Part. II. * 8 Uni- 



Lviii Historia da Academia Real 

Universidade por causa da reforma j e havendo fixado a sua 
rcsidciicia nesta mesma Cidade , em quanto assim estiverão 
interrompidos os Estudos Académicos , deo-se o Sfír. A\c^ 
xandre Rodrigues com a maior ânsia cm satisfazer o seu es- 
pirito que SC achava cheio da nobre ambição de obter o 
conhecimento daquellas scicncias , que pela sua magnitude 
e sublimidade mais o encantarão ; e que erão bem outras 
das de sua vocação primeira. 

Com eíFeito' a formosura, e mocidade com que a Na- 
tureza falia nas terras do novo Mundo ; o encanto e ma- 
gcstadc dos Ceos ; a vasta extensão dos mares , que vinha 
de admirar na longa derrota que tez ao nosso hemisfério , 
mui próprio era a trazer seu espirito enthusiasmado com o 
amor das letras , e com o alvoroço , e desassocego de al- 
cançar as thcorias sublimes que nos põe em estado de me- 
ditar as Leis que regulão o Universo. Portugal , como que 
acabava então de sahir , digamnlo assim , de huma espécie 
de interdito que vedava a noticia dos progressos que os co- 
nhecimentos humanos levavao n.is outras Nações. A Nature- 
za havia já mimoseado os trabalhos dos Filósofos da Euro- 
pa com muitos e grandes descobrimentos. Os livros destes 
erão lidos e meditados , e a novidade de suas doutrinas ti- 
nh;> mil attractivos. O Snr. Dr. Alexandre não podia ser 
indiffcrente ao garbo e riqueza das Sciencias naturaes , em 
cujo louvor exclusivamente tudo fallava; mormente quando 
hum génio elevado , nascido também no Brazil , tanto in- 
fluía no restabelecimento daquella Faculdade. Achava-se 
impcllido pois a seguir o curso das Scicncias Naturaes co- 
mo por huma espécie de necessidade do seu espirito ; que , 
fazcndo-o divergir do seu destino primeiro, de mais a mais 
o aventurava a divngar, falto de estabelecimento , que pro- 
mettessc hum proporcionado emprego , e paga á sua appli- 
cação , de que, por descuido, ainda hoje sem remédio, in- 
felizmente carece a Faculdade do Naturalista. 

Os progressos com que o Snr. Dr. Alexandre se dis- 
tinguio cm seus estudos , em quanto frequentou a Uliiver- 

si- 



í; 






DAS SciENCIAS UE LlSIiOA. LIX 

sidadc , em ludo forão correspondentes á melhor attcnção 
que lhes dava. E se o descanço com que alguns indivíduos , 
certos na superioridade de seus talentos, dcixao avançar ou- 
tros na carreira que seguem , o privou de ser rido constan- 
temente como o primeiro na Faculdade , elle não deixou 
de obter semelhante vantagem no ultimo anno do curso Fi- 
losófico , quando se despertou para a acquisição do premio 
destinado a servir de laurel á verdadeira a]iplicação. Já nes- 
te tempo o seu mérito decisivamente conhecido , lhe ha- 
via obtido o emprego de Demonstrador de Historia Natural 
na Universidade; lugar que excrcco nos dois últimos anãos 
que alli teve de frequência , com zelo c louvável desempe- 
nho , e não menos desinteresse ; não requerendo , nem acei- 
tando a gratificação ordinária que se costuma pagar por se- 
melhante incumbência. Mas este desinteresse, e o amor ao 
serviço do Estado , depressa o fará antepor ao Despacho 
certo para huma das Cadeiras de Filosofia , que lhe estava 
destinada , apczar das commodidades do descanço próprio , 
outra Commissão fértil em trabalhos, que se alguma espe- 
rança promcttia para o futuro , apresentava desde logo 
grandes privações , e até riscos de vida , que teria de cor- 
rer. 

O impulso , que communicou á Nação Portugueza a 
actividade dos vinte e seis annos , em que reinou o Senhor 
D. Jo.sé I. de feliz recordação , devia progredir durante o 
Reinado de sua Augusta Filha; o Commercio , a Agricul- 
tura , e Industria , reputados germens das riquezas , e base 
da prosperidade das Nações , nã.) podião deixar de rece- 
ber animo , e conforto de huma Soberana , 'que tantas qua- 
lidades rcunio para nossa melhor ventura ; cuja perda tris- 
temente hoje temos de lamentar ; a qual seria para nós a 
maior calamidade , se não encontrássemos em seu Augusto 
Filho, nosso clementíssimo Soberano, hum verdadeiro Pai 
de seus Vass.illos , que tanto se desvela pela felicidade de 
todos os Doniinios de sua vasta Monarquia. Porém ^ como 
SC aproveitarão aqucUes mananciaes da riqueza publica dos 

• 8 ii Eb- 



Lx Historia da Academia Real 

Estados , ignomiulo-sc a natureza , c disposição do terreno 
que os deve produzir, e alimentar? Convencidos geralmen- 
te desta necessidade, já os Governos mais esclarecidos da Eu- 
ropa promoviao a este tempo as viagens de sujeitos sá- 
bios , e intelligentes , que divagando pelas Províncias de 
seus Impérios, e ainda dos estranhos, dessem conta de quan- 
to era relativo aos importantes fins de os tornar prósperos, 
e florescentes (a). Esta pratica, de que nos dá exemplos a 
antiguidade , exemplos de que o nosso Portugal no tempo 
de seu vigor sem duvida foi o primeiro que tirou parti- 
do , chegava então a constituir-sc moda, e gosto dominan- 
tre na Europa ; mas independente disto , outro motivo muito 
mais ponderoso accrcscia a respeito do nosso Brazil. Este, 
permitta-sc-mc dizê-lo, fora como nova herdade que augmen- 
tára os bens a hum rico proprietário , que pouco ambi- 
cioso , e satisfeito dos haveres espontâneos que recebia , não 
olhava pelos outros maiores que ahi se continhao : mas co- 
mo aquelles já faltassem , a mantcnça do prédio começava 
a ser pesada , e onerosa , requerendo despczas avultadas. 

Os 



(rt) São loiíhccid.is as soUicituues dos Governos da Rússia , Succia , 
e Dinamarca a este rcspciío ; e as excellentes obras a cjue deráo lugar. 
Tolos conlicciín os sábios escritos dos dois Gmclins , de Sreller , de 
GuiJenstad , de Georgi , dos Fabricios , e assim de muitos outros. Os 
trabalhos de Arthur Young , seja nas suas duas vias^ens de Inglaterra e 
Irlanda , seja na ijue fez pela França , são geralmente conhecidos e es- 
timados : a França alem dessa, tem a viagem aos seus Departamentos, 
que hc estimável , e se publicava aos cadernos , de que vi alguns. A Hes- 
panha possue a este respeito obras de tanto merecimento como dignas 
de imitação. Portugal não deixa também de ter excellentes viagens ul- 
timamente executadas nos seus diversos Dominios por sujeitos mui sá- 
bios e advertidos ; e até pnssue excellentes excursões feitas nas Provin- 
das da Europa : os trabalhos a este respeito do Sfir. José Bonifácio de 
Andrada e Silv.i , c do Siir, Manoel Ferreira Bctancoutt , são de tanto 
preço , como dignos de virem á luz : porém com pequenas excejsões , 
tildo o que respeita a Portugal e seus Domínios está ainda manuscripto. 
Sobre a utilidade das viagens pela Pátria , he de excellente aviso a inte- 
ressante Dissertação d- Linneo : De Pcregiiiiatioiíuin in Patna nuessita' 
te : do que nos havia elle mesmo já dado o exemplo nas suas viagens 
pela Laponia , Gothlandia , e outras Provindas da Suécia. 






DAS SciENClAS DE LiSEOA. LXI 

Os vizinhos alteravão as balisas de suas raias : os Colonos , 
pedião luz, e direcção que os fizesse não abandonar o ter- 
reno , e que tirando-os da apathia , lhes trouxesse maior acti- 
vidade e scguiança. 

Cumpria pois , que as extensas Comarcas da America 
Portugucza fossem cuidadosamente viajadas , e observadas 
por quem aos precisos conhecimentos unisse probidade e 
confiança de caracter. O Ex.'"° Snr. Martinho de Mello e 
Castro , a quem sempre se deverá lembrança de respeito , 
era então Ministro e Secretario de Estado dos Negócios da 
Alarinha e Domínios Ultramarinos , e vendo bem a neces- 
sidade de reaii/ar hum tão importante expediente , com- 
mcttco a escolha de sujeito apto para semelhante empe- 
nho ao Síir. Domingos Vandelli , primeiro Cathedratico da 
Faculdade Filosófica da Universidade , que não hesitou , as- 
sim como a Congregação , na escolha do Snr. Dr. Alexan- 
dre , não obstante achnr-sc em quinto lugar na ordem da 
Matricula. Aceitou ellc esta empreza tão digna como dif- 
ficil, e partio logo para a Corte aos 15 de Julho de T778, 
onde ficou esperando as ordens , que a semelhante respeito 
deveria receber do sobredito Ministro de Estado. 

Se por circunstancias, que absolutamente me são escon- 
didas, e nas quacs influiria muito a guerra, que então abra- 
z:iva a Europa, c as Colónias suas dependentes, o Snr. Dr, 
Alexandre não foi logo immediataniente para o seu destino, 
nem por isso ficou ocioso em qu-into se demorou em Por- 
tugal. Porque logo no mez de Novembro daquellc anno de 
1778 lhe ordenou o Ex.""" Srir. Martinho de Mello e Castro , 
que fossi: , junto com o Snr. João da Silva Feijó, ao exame 
da Mina de Carvão de pedra de Buarcos: o que fez a muito 
contento e satisfação do dito Ministro d' Estado , por quem 
então corria a inspecção da referida Mina, novamente ad- 
ministrada pela Coroa. Foi nessa occasião que aprovei tnn- 
do-se dos estudos , e despezas que havia adiantado , voltou 
a Cdimbra a tomar o grão de Doutor, na conformidade da 
Mercc que Sua Magestade fizera á Faculdade Filosófica , que 

era 






LXii Historia da Academia R.kal 

era a mesma que tambcm concedera ciiráo á de Mathe- 
niatica (<z) . 

Isto concluído , os sinco annos que ainda teve de resi- 
dir em Lisboa , forao inteiramente empregados no serviço 
do Estado ; ora examinando , reduzindo , c descrevendo os 
productos naturacs do Real Museu d' Ajuda, ora occupando- 
sc em fazer todas as experiências Physicas e Chymicas que 
lhe crão ordenadas , e designadas pelo Ex.'"" Srir. Martinho 
de Alello e Castro ; o que tudo cumprio /elosamcntc , c com 
o desinteresse mais louvável (h) : dando assim nisto , como 
cm outros encargos que tomara , testemunhos seguros da 
melhor applicaçao c estudo (c) . 

Foi por elles que esta Real Academia das Sciencias , 
que acabava então de nascer pela cfficaz Protecção com que 
a Rainha Nossa Senhora , que em DEOS descança , vivifi- 
cou as patrióticas e illuminadas sollicitudes do nosso nunca 
esquecido Fundador o Ex.'"° Síír. Duque de Lafões , chamou 
a seu grémio o Srír. Dr. Alexandre, noraeando-o seu Cor- 
respondente em 2 2 de Maio de 1780. Nem clle se descui- 
dou , 

(ii) O Sfir. Dr. Alexandre tomou o Gráo Je Duucor em lO de Ja- 
neiro de 1779, ijue na conformidade da Mercê de iua Magcstíide lhe 
foi d.xdo sratis. \'ejáo-se 3% Conchaoes Ma^nai , que iniprimio , dedicadas 
íios Si-rciiissimos Senhores D. António , e D. '^csè. 

{b) Em quanto esteve assim occup.ido no .Serviço , não pcrcebeo or- 
denado algum ; mas tão somente liuma quantia q.ie lhe arbitrarão a ti- 
tulo de comedorias , como diz o Sfir. Domingos Vandelli em hum At- 
testado datado de 7 de Fevereiro de 175)3 ; cuja quantia, segundo rclC' 
re o Sfir. Dr. Alexandre no caderno que deixou com o titulo de /We- 
t)ioria< particulares , era de 200^)000 reis por anno. Veja-se adiante a no- 
ra que contém a copia do Diploma por que Su.i JVIagestade Houve por 
bem conceder o Habito de Chnsto ao Sar. Ur. Alexandre, o qual dá 
testemunho desta circunstancia. 

(i) Aproveitava o descanço que neste tempo lhe permittiáo os seus 
trabalhos públicos , em diversas composições litterarias ; como foráo : hu- 
iTia Orarão Latina dedicada aos annos do Screnissimo S.iihor D. Joio Prin- 
cipe do Krazil ; huma Memoria ou Parecer sobre a Plantarão dos Olivaes 
nas terras que na Filia de Coru.he tinha Joaijuim Rodrigues Botelho ; 
c assim outras muitas de que perdera a copia. Mtnioitns particulares de 
«.jue acima iaço tnençáu. 



DAS SfilENCIAS DE LiSBOA. LXni 

dou , durante o tempo da sua residência cm Lisboa , Sc of- 
ferecer á Academia provas positivas de quanto apreciava tão 
illustre Associação ; lendo diversas Memorias sobre objectos 
não pouco interessantes , como forão : huma sobre as Matas 
de Portugal , dividida em três partes; outra sobre o abuso da 
Conchyologia em Lisboa , para servir de introdiicçao d sua Theo- 
Jogia dos Vermes-^ e outra que intitulou: Exame da Planta 
Medicinal , que como nova applica , e vende o Licenciado Antó- 
nio Francisco da Costa , Cirurgião Mor do Regimento de Cavai' 
Jaria de Alcântara. 

Deste modo empregado no Real Serviço , e entretido 
com suas applicações litttrarias , continuou o Síir. Dr. Ale- 
xandre a residir em Lisboa até Agosto de 1783 ; havendo- 
sc-lhe , nos principios deste anno , passado Nomeação para 
na qualidade de Naturalista fazer a viagem filosófica dos 
Estados do Pará, c vastos certões do Rio Negro, Mato- 
Grosso , e Cuyabá , districtos que privativamente se lhe as- 
signa'rão («) . 

Bem poucos , por não dizer nullos , erão os conheci- 
mentos que até então tínhamos das terras centraes do Bra- 
7il ; pois além desses Diários de mero transito , que nos ti- 
nháo dado o Brigadeiro José Custodio de Sá e Faria , c ou- 
tros ; além das plantas que por motivo das demarcações le- 
vantarão dos rios e terras que atravessarão ; da viagem ain- 
da mais rápida de hum Condamine pelo Amazonas ; e do 
que , fiado em narrações alheias , disse com menos certeza 

hum 

(/») Nesta occasiáo pirtiráo outros Naiuralisras para diversas parres 
dos nossos Dominios Ulcraniatinos , tacs forão , para Cabo verde o Sfir. 
João da Silva Feijó , de c)uem ha muitos c bons tratados sobre as Ilhas 
daquclle nome, c cousas do continente Africano (]ue lhe he fronteiro; 
para Angola o Itali.íno Angelo Donati , que tinha sido empregado no 
Real ],:rdim Botânico; para Moçambique Manoel Gr.lváo da Silva, que 
levou por seu Riscador António Gomes , e para lhe ícrvir de Prepara- 
dor José da Costa ; delie existem alguns escritos , como a Afemoria cn 
Jl>laçao tias ri/tgens filosóficas , que por Ordem de Sua Mageundc fez. nas 
terras da jurisdici^ão da Filia de léte , t em algumas dos Maravcs no 
anno de 1788 ò-c. 



1.XIV Historia da Academia Real 

hum sábio Charlcvoix : tudo o mais se limitava a noticias 
breves c seccas , restringidas ás Capitanias e terras da beira- 
mar, e quando muito a descripçõcs particulares, pela maior 
parte de Missionários e Mineiros , que limitadissimas ao to- 
do , dcixavão justas desconfianças pelo pouco que adianta- 
vao os nossos conhecimentos , e pela ignorância com que 
assombraváo as suas narrativas. Os estabelecimentos que tí- 
nhamos no interior, cabeceiras, e encruzilhadas desses rios 
famosos, que regão as Províncias daquella Região (ou fi- 
l^ios de Certanejos homisiados, ou da audácia do Paulista 
sempre incançavel em percorrer os territórios mais distan- 
tes e remotos ) quasi todos tiverao por objecto as lavras 
de ouro , achando-se assim na primeira infância ; se não he 
que muitos , exhauridas as riquezas que convidarão os pri- 
meiros faisqueiros a assentar suas rancharias , se achavão 
abandonados : sendo as leis por que taes Estabelecimentos 
e Comarcas se região , como peças que ainda que bem ima- 
ginadas no Gabinete , todavia tah^ez se ignorava se ajusta- 
rão e erão conformes ao rodo a que tinhao sido destina- 
das. Numerosas tribus de Nações diversas de índios enchiâo 
as densas florestas que cntrecortao as nossas povoações ; e 
não só o interesse geral do Estado pedia que o génio , cos- 
tumes , e disposições daquelles índios fossem examinados ; 
mas a curiosidade do Filosofo , e Lictcrato , também se pro- 
metiia colher daqui grandes vantagens para a sua medita- 
ção e estudo. 

Deste esboço, ainda que resumido e breve, se mani- 
festa não só a magnitude , e necessidade de huma seme- 
lhante emprcza , mas os embaraços a sua pontual, e melhor 
execução. Accrescendo que o Síír. Dr. Alexandre deveria 
alem disso recolher , c apromptar todos os productos dos 
três Reinos da Natureza que encontrasse nos paizes da sua 
viagem , para serem remcttidos ao Real Museu de Lisboa ; 
assim como também se lhe incumbio a espinhosa tarefa de 
fazer particulares observações filosóficas e politicas acerca 
dtí todos os objectos desta mesma viagem. 

A 



11 



DAS SciENCIAS HE LiSBOAé LXV 

A Cidade de Belcm do Pará, (situada na foz do rio 
deste nome e próxima ao golfo, que cUc com Ourros jun- 
tos ao grande Amazonas , o maior do Globo , formão na sua 
entrada no Oceano , constifuindo-se por isso da maior im- 
portância ) foi por onde o Snr. Dr. Alexandre deo princi- 
pio a suas excursões. E para ahi se fez á vela em Setem- 
bro de 1783, levando comsigo dois Riscadores, e hum Jar- 
dineiro Botânico de que se devia ajudar na execução de sua 
empreza {a) . 

Em Outubro seguinte he que elle aportou na Cida- 
de de Belém ; e immediatamcnte em cumprimento da sua 
commissão passou á grande Ilha de Marajó , ou de Joan- 
nes que jaz ao abocar o Amazonas. A grandeza desta 
Ilha , fértil em muitas curiosidades para os Gabinetes de 
Historia Natural , deo-lhe occasião de recolher bastantes 
que apromptou para enviar ao Real de Lisboa : e havendo 
alli feito mui interessantes observações , recolhendo tudo o 
que mais importava a seu objecto, passou ás Vi lias de Ca-' 
mela, Bayão, Pcdreneiras , e Alcobaça, onde se empregou 
com zelo e esmero , e nao menos desempenho por todo 
resto daquelle anno , e parte do seguinte de 1784. Nos 
fins deste, deixando as visinhanças da Cidade do Pará, em- 
brenhou-se em companhia do Governador e Capitão Gene- 
ral daquelle Estado Martinho de Sousa e Albuquerque , que 
também hia visitar algumas das povoações do Certáo {b) . 
Discorreo o Srir. Dr. Alexandre por todd elle , resarcindo 
os grandes incommodos que padecia com os valiosos fru- 
tos que alcançava de suas investigações. Dahi foi demandar 
o extenso Certão da Capitania do Rio Negro , cujo rio 
Tom. V. Pait. II. * 9 mon- 

(.i) Joaquim ]osc do Cabo , e José Joaquim Freire eráo os Riscado- 
res , ou Desenhadores: o nome do Jardmeiro Bocanico era Agostinho Joa- 
quim do Cabo. 

(/») Desta viagem feita pelo Oovernador escreveo hum bom Roteiro 
ChofOgrafico João Vasco Manoel de Braun , de quem ha outras diver- 
sas obras manuscritas , concernentes a cousas do firazil , e onde se en- 
contra exacçáo e bom discernimenio. 



Lxvi Historia da Academia Real 

montou até os nossos últimos Estabelecimentos : c descen- 
do-o depois , veio subir o grande Rio Branco , que naquel- 
le une o poder de suas agoas. E remontando este ultimo 
até ás suas vertentes nos elevados picos da serra Cuaunaru 
ou a Nevada , ahi teve occasião de observar o numeroso e 
singular gentilismo que a povoa , bem como a toda esta 
extensa Região , que partindo com as Guianns Hespanho- 
la , Hollandeza , c Franceza , tem os seus limites ao N. E. 
ainda incertos , c não demarcados. E descendo aquelle rio , 
tornou á Villa de Barcellos , Capital do Rio Negro , onde 
se demorou para fazer apromptar c encaixotar os productos 
c raridades naturaes que deveriiío ser mandados a Lisboa , 
bem como em fazer desenhar as plantas , aves , animaes , 
índios , e suas povoações mais singulares , em que tanto 
abundão os largos Certóes que divagara. 

Não se limitou porém a esta , ainda que só per si , ta- 
refa assas trabalhosa ; porque o amor aos interesses do So- 
berano lhe fez coUigir , e debater as solidas razões , que 
fazião de inquestionável direito á sua Coroa , a importan- 
te possesão do Rio Branco , que agora aIJi se controver- 
tia (a) . A descida que prcsenccou da brava e numerosa Na- 
ção 

(a) Desde o meio do século de seiscentos <^ue navegamos o Rio Bran- 
co , havendo estabelecimentos próprios ao commercio que abi faziamos ; 
chegando a delinear pelos annos de 1750 Fort.ileza , que amparasse nos- 
sas explorações e escabelecimentos ; a posse de todo este território sem- 
pre pois , sem 3 menor hesitação , nos foi reconhecida. EUe foi com- 
prehendido debaixo da cor branca , e dentro da linha de pontinhos em 
que se assigna o que he de Portugal , 110 Mappa que se publuou em 
Hespanha no anno de 1740 , debaixo do timlo : Aííippn <iV lus confines 
dei Brasil con las tkrras de la Corona de H^ipana eii ta yímerica Meri- 
dional : Lo que estd de color blanco es lo qtic íc baila occtipado per los 
Portugiiezes : Lo que estd de color de roía es lo que tienen ocaipado Ics 
Hespanoles. Aqui se designáo os cumes chí cristas da grande serra poc 
divisão limitrofe. Isto assim , no anno de 1774 o Governador da Guia- 
na Hcsfianhola e novas povoai^ôis do alto c baixo Orinoco Alanotl Caitu- 
turião Guerreiro de las Torres , tentando ir atraz de descobrir o encantac^o 
Parima , de que tanto fallaváo os seus Hespanhoes , e o qual juigaváo 
estar no Certáo para cá da grande serra , que lhes era inteiramente des- 
conhecido , mandou a este sitio huma Expedição , que atravessando os 



títdu 01 



DAS SflkNCIAS DE LiSKOA. LXVII 

ção Mura , que deixando os covis das brenhns veio aldear- 
se nas marjTcns do Rio Negro, e receber trato da nossa po- 
licia c civilidade, o instigou a escrever huma historia cir- 
cunstanciada de todo este successo , e do caracter , e mais 
cousas respectivas áquellas gentes. E deste modo n' huma 
lide contínua se dispoz a prosegtiir sua derrota , que tanto 
lhe acenava , promcttendo á sua curiosidade mil novidades 
em paga das explorações que fizesse. Deixando pois a Villa 
de Barcellos aos 27 de Agosto de 1788 deo começo á sua 
nova viagem , descendo o Rio Negro a encontrar a cor- 
rente do grande Amazonas , que navegou a ir abocar o cau- 
deloso Madeira seu confluente , se não he que o devemos 
considerar vertente principal , donde aquelle bebe origem. 
Subio depois o Rio Madeira a entrar no Mamorc , donde 
navegando ao Guaporé ou Ytenes , chegou em fim á Capi- 
tal de Mato-Grosso , trazendo mais de treze mczes de via- 
gem. 

Se a riqueza mineral desta Capital de Mato-Grosso , 
se a robustez e multiplicidade de vegetacs que nella se en- 
contrão , crao de geito a satisfazer huma boa parte da sua 

* 9 ii com- 

desfiladeiros daquclla serra , c.ihio nas vertentes do Rio Branco , onde 
tentou formar aig'.ins estnbclecimentos ; e tendo noticia das fotças Por- 
tugiiezas que alii se achaváo já estabelecidas , parte da gente que com- 
punha 3 tal Expíd'çáo fugio, parte desertou , e outra veio a nosso po- 
der. A correspondência que o dlro Governador abrio com os Comman- 
dantcs Purtuguezes destas paragens , por causa de todo o referido suc- 
cesso , e da teima com que elle p^-rsistia na sua primeira tentativa , 
durou por mu.to tempo : quando o Snr. Dr. Alexandre chegou a Barcel- 
los no Rio Negro , ainda se agitava ; por isso náo só escreveo o Tra- 
tildo histórico do Rio Branco , que vai mencionado na Noticia que dou 
de suas Obras, mas ainda pissou a tir.ir com o Governador ]oáo Perci- 
ia Caldas huma Inquirição Jc testemunhas relativas á nossa posse pri- 
mordial , sobte o que ja existia outra que se havia tomado muito tem- 
po antes. O Ouvidor da Capitania de S. )o5é do Rio Negro, Francis- 
co Xavier Ribeiro de Sampaio, já no anno de 1778 escrevera a apolo- 
gia do nosso dominio nestas terras, riA Relação Geogr,ifico-Historica do Rio 
Branco , que compoz : Relação que ainda que manuscrita he vulgar. Ou- 
tf IS pessoas m.iis , de huma maneira mui digna , e decisiva tem escti- 
10 sobre tão importante objecto. 



Lxvm Historia da Academia Real 
commissão ; o ar doentio que offcrece seu terreno encharca- 
do nas fontes que escorrem os dois maiores rios da terra , 
c com que prostra aos que penetrao c vivem em seu ter- 
reno ; chamava principahnentc sua at tenção ao estudo dos 
males endémicos que alli apouquentao o homem : estudo 
este para que vinha mui prevenido pelo particular que fo- 
ra obrigado de fazer nas Scicncias Medicas , durante sua via- 
gem , a fim de remediar as doenças que accommcttiao os 
individues da numerosa companha da expedição , que to- 
tahnente fora carecendo de pessoa destinada a acudir por 
isso. Compilou o Sfír. Dr. Alexandre o resultado de suas 
observações , escrevendo huma larga descripçao de todas as 
moléstias próprias daquella Cnpitania (a); trabalho tão ne- 
cessário á humanidade , como útil ao Estado ; e que tanto 
cumpria melhor delucidar e trazer avante. 

A magnitude de tudo o que o Srir. Dr. Alexandre ti- 
vera de considerar na dilatada derrota que fizera, havia co- 
mo acendido seu espirito com o nobre enthusiasmo , que 
só se deixa satisfeito pelo progresso e conclusão daquillo 
mesmo que o despertara : o que lhe era de duplicado gos- 
to ; pois assim melhor cumpria e executava as Ordens da 
Soberana. 

Por isso logo que ajuntou o necessário a seus estu- 
dos, e ante as Autoridades de Mato-Grosso deo conta do 
bom, inteiro, e zeloso comportamento que guardara no que 
dissera respeito á sua viagem , ainda mal convalescido de 
humas sezões perigosas que o havião atacado na força do 
inverno , metteo-se a caminho , continuando sua digressão, 
E deixando examinadas as lavras de ouro daquella Capita- 
nia , de que recolheo preciosas amostras e outros mineracs 
para enviar ao Aluseu Régio , dirigio-se á Villa de Cuyabi 
aos 27 de Junho de 1790. Foi aqui que se resolveo a exami- 
nar pessoalmente huma extensa e bem curiosa gruta perto 

do 

(a) Veja-se a noticia de suas Obras no fim deste Elogio. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. LXIX 

do arraial das Lavrinhas {a): mas o seu estado debilitadís- 
simo de saúde, e a fadiga de vencer o caminho que vai á 
gruta , o qual t"jz a pé , não sofrendo a sua aspereza outro 
modo de o transitar, csriverao a ponto de lhe fazer rermi- 
nar seus dias n'huma diligencia cm quc o mcttcra o maior 
escrúpulo no fiel cumprimento de sua commissão. E sem 
duvida seria victima de scmcliiantc excesso, se não fossem 
os promptos soccorros que liie procurou a actividade de 
hum Amigo , que felizmente eu posso chamar também meu , 
Joaquim José Cisvalcanti d'Albuqucrque Lins , que sendo Se- 
cretario do Governo de Mato-Grosso {0) , mal recebeo as 

no- 



(í/) Esta gruta ch.iir.a.ii das OíK/ts pelas imiitas que delia f.iziáo co- 
vil onJe vinhio rctuuçar , ttca por baixo da grande serra do Parecis : 
não só he admirável pel.is curiosidades naturaes , mas ainda parece que 
pelas paredes c colurr.nellos quie lobcm á abobeda , se vêm certas figuras 
esculpidas que picJosJmL-nrc se jul^áo obra de alguns individues alumia- 
dos no conhecimcnio da Religião Christi. Huma gruta porém visitou o 
Siir. Dr. Alexandre perto do presidio da Nova-Coimbra , a qual mina , 
e torna como oco o assento Jo leito do Paraguay , onde se observáo as 
esral.'.tistes mais liadas e primorosas: delia manáo vários regatos, filhos 
sem duvida da filtração do Paraguay. Depois que o Siir. Dr. Alexandre 
examinou esta ultima gruta, alguns curiosos que a penetrarão, descobri- 
rão que ella p.ismosjmente hia por diante em grandes salões por baixo 
do Paraguay , continuando os cstalatistes com a mesma formosura. Mar- 
tim Francisco d'Aiu)rada Machado nas suas ExainÕes Mineralógicas pela 
Capitania de S. Vaiilo nus aunos de 1805 a 1805, dá conta de algumas 
grutas deste gencto que ahi se encontrão , como a chamada de Santo 
António junto ao arraial do Ribeirão de Tporan^n. 

(/') Hoje hc Otficial M.iior aposentado da Secretaria d' Estado dos Ne- 
gócios da Marinha e Domínios Ultramarinos , de quem recebi algumas 
noticias para este Elogio , pois tivera particular convivência com o Snr. 
Dr. Ale.icandre dcsJc o tempo de Coimbra ; e certo entre os mais be- 
nefícios que devo a este meu verdadeiro Amigo , conto os úteis escla- 
recimentos , c mui singulares noticias que me tem dado acerca do Bra- 
zil ; noticias que debalde procuraria por outros meios alcançar. A larga 
residência que o meu Amigo fez cm Mato-Grosso, onde dezoito annos 
foi Secretario do Governo ; as delicadas e importantes commissóes que 
cxeciítou , como objectos de demarcação, coníetencias e entrevistas com 
as Autoridades He^panholas a respeito da fronteira; viagens dilatadas e 
coiuinuas por aquella extensa Capitania , onde foi hum dos Governado- 
les de succcssáo ; a viagem que para alli fez navegando o Amazonas » 
M.deira, Maniorc , e Guapoté i a viagem da sua retirada vindo por tef 



.-11M nr 



Lxx Historia da Academia Real 

novas da moléstia que o accommcttcra , prestos lhe fez acu- 
dir com o que se carecia em lugar tao hermo , e desam- 
parado , fazendo com que o Governador alli enviasse o 
próprio Cirurgião de sua Camera. 

Restabelecido o Siir. Dr. Alexandre, continuou a sua 
digressão para Villa de Cuyabá , e descendo pelo rio deste 
nome ao de S. Lourenço e Paraguay , visitou o Presidio da 
Nova-Coimbra sobre a margem deste. Aqui teve occasião 
de conversar o índio Yuaicuru , o Árabe das cainpin..s de 
Paraguay , que pela alliança que travámos com elle , forma 
hum seguro antemural á fronteira de nossos estabelecimen- 
tos nestas partes : do singular puritanismo destes índios , 
seus modos , feições particulares , tomou o Snr. Dr. Ale- 
xandre conta distincta em suas observações.- E havendo pos- 
to hum anno nesta ultima viagem , tão aproveitada em ob- 
servações importantes, como na btia colheita que lhe dera 
de productos naturaes , tornou a Mato-Grosso para d.illi vol- 
tar ao Pará , e se recolher ao Reino, concluída a sua com- 
missão ; na qual despendeo nove annos completos , e suc- 
. cessivamcnte empregados em discorrer por tão largos e ain- 
inda não visitados certões. 

j Qiie de scenas de interesse c gosto não logrou o Síír. 
Dr. Alexandre em tão dilatada viagem ! j Qiie riquezas igno- 
radas e desconhecidas não descobrio ! A Natureza vinha co- 
mo de largar-lhe hum regaço de mil cousas preciosas. O 
registo do conhecimento que os homens tem alcançado de 
seus haveres hia ser copiosamente engrandecido. Terras não 
vistas do Filosofo , terras na robustez primittiva , asscgura- 
vão descobrimentos novos e muitíssimos : e com cífcsto fo- 
rão grandes : os três Reinos Animal , Vegetal , e Mincnil 
receberão desconhecidas espécies , c géneros , que augmen- 

tá- 

ra de Mato Grosso ao Rio de Janeiro , também empregada em diligen- 
cia do serviço , despendendo seis niezes na travessia de táo largo ctr- 
táo , o constituem acerca das cousas do Brazil sobre maneira conhecedor 
c sabido. 



DAS SciENCIAS DE LlS;SOA. LXXI 

tárão sua amplitude. A historia do homem tomava úteis co- 
nhecimentos nessa pagina nova , que lhe offerecêrão as cu- 
riosas observações , que o Srir. Dr. Alexandre fizera do ges- 
to , Índole , virtudes , e usos daquelles Fovos ( que por se- 
rem difFerentes dos nossos chamamos bárbaros , se não he 
que os caracterisamos como vicios) c que distinguem em 
Nações as numerosas tribus de índios , que povoao a nossa 
America. 

Privado como sou dos Diários do Síir. Alexandre Ro- 
drigues Ferreira , e de todos os papeis concernentes á sua 
viagem, não posso ajuntar outrjs particularidades acerca do 
desempenho da sua commissão ; não podendo também dar 
conta , nem formar jui/o do methodo que nella guardou. 
Mas se isto me priva de noticias mais largas , das que al- 
cancei ; os honrosos Attesiados que vi afiançando o melhor 
desempenho com que dera conta do que lhe fòra encomen- 
dado ; a benigna e attenciosa consideração que mereceo á 
Soberana {a) , consideração que por vezes lhe expressou o 

Ex."'" 

(<j) Eis-aaui como a Soberana se «dignou expressw a respeico da cora- 
missáo do Snr. Dr, Alexandre , quando em attcnçáo a seu bom serviço 
lhe concedeo o Habito da Ordem de Christo : «A Rainha Nossa Senho- 
í ra attendendo aos serviços do Doutor Alexandre Rodris,ues Ferreira , 
D Ofiicial da Secretaria d' Estado dos Negócios da Marinha e Domínios 
í Ultramarinos , obrados nas commissóes extraordinárias de ijuc foi cn- 
j) carregado de examinar, e descrever os productos naturaes do Real Mu- 
i seu d'Ajuda , e fazer as experiências cnymicas que lhe foráo ordena- 
ji das , em que se occupou por espaço de cinco annos , sem perceber 
i pol isso ordenado algum; c pass.indo ao Estado do Pará com a labo- 
t riosa commissão de ser alli o primeiro Vassallo Portuguez , que exer- 
v citasse o eroprego de Naturalista , se empregou por espaço de nove 
» annos successivos em continuas e perigosas viagens pelas dilatadas C.x- 
j> pitanias do Pará , Rio Negro , Mato-Grosso , e Cuyabá •, aonde além 
í de ser encarregado de obsen-ar, acondicionar, c remeter os productos 
i naturaes dos trcs Reinos Anim.;! , Vegetal , e Mineral , foi igualmen- 
D te incumbido de rodo o género de observações Filosóficas e Politicas 
s sobre as dilíerentes repartições e dependências da população , Agricul- 
» tura , Navegação, Conimetcio , Manufacturas, de que deo toda a sa- 
» tisfaçáo que devia esperar-se da sua honra , talentos , e applicaçóes : 
ji Ha por bem f.izei-lhe Mercê em remuneração , do Habito da Ordein 
» de Christo , com sessenta mil íeis de tença ; de que se lhe passarió 



»iaa Cl-, 



Lxxir Historia da Academia Real 

Ex.'"" Srír. Martinho de Mello c Castro ; cujo testemunliO 
hc exhubcrantissimo pela parcimonia , se não absoluta ne- 
gação que aquelle Ministro d' Estado tinha cm approvar o 
que decisivamente o não merecesse: a noticia que ajunto no 
fim deste Elogio, dos Escritos do Sfír. Dr. Alexandre res- 
pectivos a estes mesmos objectos, são argumentos tão con- 
vincentes , que não hei duvida de affirmar , que satisfez ta- 
refa tão árdua com distincto , e o mais benemérito desem- 
penho, e mesmo superior ao que se poderia esperar, quan- 
do cila fosse entregue não a hum , senão a muitos indiví- 
duos de merecimento. 

Chegando o Sfír. Dr. Alexandre á Cidade do Pará em 
Janeiro de 1792, ainda ahi teve nove mezes de demora es- 
perando embarcação que o conduzisse para Lisboa com os 
iramensos objectos que trazia para o Museu e Gabinete Ré- 
gio , e com os pertencentes ao trabalho da sua viagem. Não 
ficou porém ocioso neste meio tempo, porque o Governa- 
dor e Gapitão General , aproveitando-se da capacidade que 
lhe reconhecia , o nomeou logo Vogal para assistir ás Jun- 
tas de Justiça e Fazenda, o que cumprio com acerto, e a 
mais fiel integridade , assistindo a quantas então houve. 
Foi então mesmo que mudou de estado , casando-se com 
Dona Germana Pereira de Queiroz , filha do Capitão Luiz 
Pereira da Cunha, seu Correspondente que fora, para a re- 
messa dos productos que mandara á Corte ; o qual pelo 
trabalho, e crescida despcza que nisto pòz, não houve re- 
compensa do Estado , nem colheo outro premio que não 
fosse a alliança do Snr. Dr. Alexandre (a) . 

Na 

j os competentes Padrões , que se assentarão nos Almoxarifados do Rei- 
« no, em que couberem , sem prejuízo de terceiro, e não houver prohi- 
» bicão , com o vencimento na forma das Reaes Ordens. E logrará do- 
» ze mil reis da referida tença a titulo do Habito da sobredita Otdem , 
» que lhe tem Mandado lançar. Palácio de Queluz cm 3 de Julho de 
» 1794. — ]oseph de Seabra da Silva. — Registado a foi. 158, n 

{a) Chegando o Sin, Dr. Alexandre ao Par.-í , na volta da sua viagem, 
ponderou-lhe o Capitão Luiz Pereira da Cunha, que assim era que ti- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. LXXIU 

Na sua chegada a Lisboa , cm Janeiro de 1793 > scguio* 
se ser nomeado O/ficial da Secretaria d' Estado dos Negó- 
cios da Marinha e Dominios Ultramarinos. Porem logo no 
anuo seguinte foi dispensado do exercicio deste emprego , 
por ter sido encarregado da administração e direcção inte- 
rina do Real Gabinete de Historia Natural , e Jardim Bo- 
tânico, c suas anncxas (a), incumbindo-se-lhe também m- 
ventariar todos os productos , instrumentos, livros, e uten- 
sílios alli existentes. Foi tão boa a ordem , e economia a 
que o Sfír, Dr. Alexandre trouxe este estabelecimento, re- 
duzindo consideravelmente suas despezas , que mercceo que 
Sua Magcstade , por seu Real Decreto de 11 de Setembro 
de 1795" , o nomeasse Vice-Director do mesmo Estabelecimen- 
to ; removendo a bem do seu honrado Vassallo o que havia 
desgostado a sua extrema delicadeza nos outros Decretos 
de 29 de Junho , ej de Julho do mesmo anno , cm que» 
dando huma nova forma a todo aquelle Estabelecimento , 
o nomea'ra para seu Administrador. 

Esperava o Publico que o Snr. Dr. Alexandre reco- 
lhido das suas peregrinações, procurasse logo coordinar, e 
publicar a sua tão interessante viagem, mas não podia ser 
assim , porque quando elle voltou das terras da nossa Ame- 
rica, as Sciencias na Europa yá não se achavão em o mes- 
mo ponto em que as deixara. O espirito humano , tomndo 
desse fogo que de épocas a épocas o incendea , avançara pro- 
Tom. V. Part. II. * 10 di- 



nha remettido todos os productos , tjue lhe enviara para mandar á Cor- 
te i mas que por isso se achava no desembolso de tão considerável des- 
peza , com a ijual poderia dotar huma filha : ao que o Snr. Dr. Ale.vaii- 
dre respondeo : liso n.io sei virá de emiarnçp a sen casamento, eu serei q:iem 
receba essa sua filha por muíker-, e assim o fez, celebrando o seu mairi* 
monio aos 26 de Setembro de 1792. 

(rt) Conío são , Gabinete da Bibliotheca , dito Jo Desenho , Casa 
do Laboratório , dita das Preparações , Armazéns da Reserva 3cc. Foi 
no dia 7 de Setembro de 1794, havendo f.illccido o Administrador Jtj- 
lio Mattiazzi , <jue o Snr. Martinho de Mello c Castro , por Ordem da 
Sobenna , commettco este inventario ao Snr. Dr. Alexandre, que aos 8 
de Novembro imraediaco o tinha ja concluído. 



Lxxiv Historia da Academia Real 

digiosamcnte ; a Natureza cedendo aos convites e trabalhos 
que buscavão seus tesouros , e indagarão ap causas dos seus 
fenómenos , íôra ultimamente mui dadivosa c liberal aos que 
lhe offerecêrão estudos e desvelos. Os Buffbns e Linneos ti- 
nhão herdeiros , se não emulos do seu espirito. A Chymi- 
ca na revolução nova que fizera, apparecia com outro tailhe, 
rica em descobertas decisivas e grandes : os três Reinos da 
Natureza achavão-sc consideravelmente augmentydos. Os re- 
sultados da terceira c infeliz expedição do Capitão Co^k, 
os fragmentos da outra do não menos desgraçado La Pey- 
rouse , as pesquizas curiosas e sabias de hum Dr. Palias nos 
vastíssimos territórios do Império Russiano ; as Viagens de 
Sparman , Paterson , Tumberg , e Vaillant na extremidade 
meridional d'Africa ; as de hum Bertrand ao Septentriáo da 
America ; as que os Hespanhoes fizcrão nas suas duas Amé- 
ricas ; os trabalhos scientificos das Sociedades Litterarias, e 
de todos os Sábios da Europa ; e tantas outras obras haviâo 
apparccido, que o vasto dominio das Sciencias naturaes se 
tinha extraordinariamente dilatado , e tomado hum aspecto 
mais vivo , novo , e desconhecido. Por isso quem fora pri- 
vado de acompanhar os progressos aue havião feito as lu- 
zes na Europa , e pertendia tirar a lume observações pró- 
prias , havia mister ratificá-las com o que se :tchava publi- 
cado acerca de outras vizinhas , e idênticas Regiões : era 
necessário mesmo confrontar doutrinas passadas c recentes , 
meditar os descobrimentos que existião , apurar e extrahir 
da combinação com as investigações que fizera , outros re- 
sultados que talvez lhe trouxessem outros descobrimentos f 
e idéas igualmente novas e não advertidas. 

A acquisiçâo dos subsídios para hum semelhante estu- 
do não cabia na alçada de hum simples particular inteira- 
mente entregue a si (tí) , e o Síír. Dr. Alexandre estava vcr- 

da- 

(") Quatrocentos mil reis de crticnado anniial , c mil e duzentos rci8 
diários a titulo de comcilorip.s fcr.i quanto o Stir. Dr. Alexandre perce- 
bera duiatiie a viagem i o i]ue mal podendo suppri-lo, foi obrigado a f»- 



813» Ol 



DAS SciENCIAS DE LiSKOA. LXXV 

dadeiramente no caso , como advcrtio hum Escritor nosso (a), 
de não dever reclamar semelhantes subsídios , senão de quem 
lhe encomendara tão árdua empreza. Assim o fez, mas não 
haverei receio em declarar , que intructuosamentc : porque 
nada veio a alcançar de suas tão justas reclamações (b) ; pro- 
curando-lhc , segundo ouço , não pequenos estorvos a que 
fosse atteiidido, esses génios escuros, que fazendo mui pou- 
co , não querem que os outros exercitem a sua applicaçâo. 
Todavia se taes embaraços existirão , e se além delles o3 
da guerra , e das transacções politicas que então mesmo oc- 
corrcrão , e forão causa de se avultarem ainda mais; gran- 
de he o louvor devido ao Srir. Dr. Alexandre pelos consi* 
deraveis frutos que apresenta de seu trabalho solitário , e 
interrompido por diversas occupações; pois além de outros, 
nos offcrece muitos e extensos escritos acabados , e mui- 
tas vezes retocados sobre diversos pontos da sua viagem ; 
hindo-os assim cuidadosamente afinando ao toque necessá- 
rio para se publicarem : de sorte que se pódc dizer de sua 
não interrompida applicaçâo : Nulla dies sine liitea. 

A estes motivos, já por si bastante ponderosos, de- 
vemos accrescentar a melancolia que , nos últimos tempos 
da sua vida , se apoderou da alma do Snr. Dr. Alexandre , 
e que originada por algumas causas que não são para refe- 
rir aqui , o fez cahir em hum certo desgosto e abandono , 
que progressivamente se foi augmentando. O homem , que 
restrictamcnte occupado no estudo , passa grande parte de 
seus annos como em solidão e retiro , adquire outra na- 

* IO ii tu- 



zer consideráveis despezas do seu património , a fim também de lograr 
melhor fortuna no desempenho de suas investigações : logo porém que se 
recolheo a Lisboa , deixou de perceber acjuelle ordenado. 

(/») Diogo de Paiva d'Andrada a foi. ii^ do Exame (f Antiguidades. 

(/>) Apenas por Decreto de . . . lhe foi nomeado para abrir as estam- 
pas pertencentes á sua viagem , Manoel Marques d'Aguillar , que acaba- 
va de recolher-se d' Inglaterra onde fora aperfeiçoar-se na arte da gra- 
vura ; e com effeito algumas das ditns estampas vi abertas com o pn- 
nor que catactetisa as obras desce Artista. 



ixxvi Historia da Academia Real 
turcza , que pelo commum não he flicil de accommodar-se 
aos baldoes da Sociedade. Sua alma criada com os bons 
exemplos da antiguidade , nutrida com as idéas da virtude ; 
encantada , por assim dizer , com as imagens de hum Só- 
crates , de hum Phocion , de hum Catão , e de hum Sé- 
neca y nao aguarda pelos avisos com que Aloralistas expe- 
rimentados lhe pintáo a convivência debaixo das cores de 
carregada misanthropia : estas são leves sombras , que ce- 
dem á belleza dos grandes rasgos de virtude e integrida- 
de que o transportão. Elle não vê as Leis dirigidas pelos 
homens , sim os homens governados pelas Leis. Considera 
a Pátria como Divindade , que até ao centro do (Jabinete 
toma contas pelo emprego do tempo , que examina as con- 
sciências , c que deve guiar os passos : finalmente não po- 
de combinar como o nome de homem honrado servira para 
a coberto se commetterem crimes , ultrajando hum titulo 
tão augusto. Mas quando este homem ,• entrando no gran- 
de mundo , tem de ficar ao encontro de suas sem-razõcs ; 
quando a sinceridade própria da innocencia se vê enleada e 
ferida nas tramas da intriga ; quando suas acções envenena- 
das pela inveja, perdem o fito de inteireza que as dirigia; 
quando , sendo homem de bem , não ha com quem tratar 
verdade , nem de quem fiar ; então as graciosas imagens que 
se conceberão , desvanecidas ao clarão da realidade , deixão 
a alma deslumbrada , e esmorecida ; a vida como falta do 
alimento que lhe pertence , perde o preço ; avalia-se e de- 
seJ3-se o fim da existência; e ganhando-sc hum génio abor- 
rido e melancólico, cahe-se na misanthropia, que chega a 
ser absoluta. Então he que , segundo as disposições pró- 
prias, ou apparecem os Democritos que escarnecem as ton- 
tices humanas , ou os Heraclitos que as chorão , he então 
que os Rousseaus , destinados a ser ornamento das Socieda- 
des , se constituem ásperos declamadores da prcversidadc 
que as apodrenta. 

Desculpe-se-me hum tão longo, se não importuno, des- 
vio; porque ^como fallar do estado doloroso que contristou 

o 



I 



8,1 a a oi 



DAS SciENCIAS DF. LiSBOA. LXXVU 

O animo do Srir. Ur. Alexandre, sem estas prévias conside- 
rações ? 

Dotado de hum caracter igual e sincero , não podia 
elle acostumar-se á lisonja que saborêa , ainda mesmo sen- 
do conhecido o prcjuizo de seu veneno. A força que com- 
munica o Stoicismo já exhaltado , o fazia declarar a sua 
opinião com franquc/a tao desembaraçada e decisiva , que 
não deixaria por vezes de tomar parecenças de grosseira e 
áspera censura ; como succedeo quando huma Pessoa tão 
respeitável pela ordem da Nobreza , e alto emprego , co- 
mo pela encyclopedia de seus conhecimentos, fallando lhe 
na tentativa de climatizar o chá em nossjs terras, seccamen- 
tc respondeo : j blão temos pão , e tratamos de chã ! Ainda 
que varias reflexões tragao a este dito naquellas conjunctu- 
ras algum pêsí) de reparo e consideração , com tudo elle não 
deve ser avaliado senão procrio da independência e firme- 
za , que pelo excesso com que já caprichava de o osten- 
tar , era hum modo com que procurava dcsforrar-se , e co- 
mo ccnstituir-se campeão contra a geral immoralidade. E se- 
gundo este espirito he que fallão os últimos escritos que 
vi do Sfír. Dr. Alexandre , guardando por isso hum estylo 
conciso e claro , com a deducçao que acompanha o conven- 
cimento e ordem da verdade. 

O caracter do Sfír. Dr. Alexandre , como dizia , sisu- 
do e inteiro , que gastara o melhor dos annos no estudo , 
ou nos desertos da America , não podia deixar de sentir 
effeitos desabridos e oppostos , quando tendo de passar á 
vida de Corte , se achou n' hum mundo diflferente das idéas 
que por elle tivera. Então foi mudando pouco a pouco a 
sua seriedade n' hum desgosto absoluto para os prazeres da 
convivência. 

Debalde as repetidas Graças da Soberana , já conce* 
dendo-lhe a condecoração do Habito da Ordem de Chris- 
^° C'') j j^ nomcando-o Administrador de Suas Reaes Quin- 
tas 

(..j) Tor Decreto de 1$ de Julho de 17^4' 



si3)i or 






Lxxviii Historia da Academia Reax, 

tas (a) , já dando-lhe o lugar de Deputado da Real Junta 
do Commercio {b) , tossem outros tantos estímulos , que lhe 
devessem despertar ambição e desejo de querer lograr se- 
melhantes distincçocs e cargos , pois o seu dissabor hla sem- 
pre em crescimento , are que as funestas alternativas da 
guerra, por que vimos de passar, o trouxerao e precipi- 
tarão na mais acerba melancolia. Nsta situação (sem duvi- 
da a mais desgraçada por que pôde passar o homem , a 
quem todos os males se dão a sentir no peso da immensi- 
dade ; quando a razão offuscada apparece de espaço a es- 
paço para dar melhor a conhecer o horror da desordem 
que a involve ) nesta situação em que atacada a alma , so- 
fre os transtornos do delirio , mas sem o respiro de sua in- 
sensibilidade , e em que alterando-se para logo o physico, 
se completa e ultima a desordem das faculdades intellectuaes; 
o individuo fica como submergido na dor e na miséria, e 
só na morte vê termo a suas angustias e penalidades, che- 
gando , por assim dizer , a adquirir huma necessidade de 
morrer. Inúteis se tornão então quaesquer concelhos ; a 
desordem que se apoderou do espirito he absoluta ; não pô- 
de ser acalmada nem pelos avisos da amizade, nem pelos 
soccorros da piedade mais sublime : existe huma espécie de 
turpor , c insensibilidade para tudo o que he consolação : 
o fogo d,e huma mania taciturna e silenciosa , e por isso mais 
afflictiva , vai lavrando , priva c embarga todo o allivio ; 
c só acha termo na consumpção da victima de que se apo- 
derara. 

Tal , pouco mais ou menos , foi o desgraçadíssimo 
estado por que passou o Snr. Dr. Alexandre Rodrigues Fer- 
reira, e que o fez perder á sua familia no dia 23 de Abril 

de 

C^) Por Decreto de 25 de Dezembro de 17515. 

(b) Por Decreto de 24 de Junho de 1807 Sua Magestade havia ou- 
tro sim feiro Mercê ao Snr. Dt. Alexandre da propriedade ii« hum Oífi- 
cio na Alfandega do Maranhão. 



I 



\ 



DAS SciENCtAS DE LrSBOA* tXÍClK 

de 1815" ; assim como alguns tempos antes já o havia rou* 
bado á Pátria e á Academia. Porém se esta misanthropia o 
punha como em desterro do género humano, a integridade 
do seu caracter trouxe-o constantemente em quanto viro 
ao desempenho de seus deveres , como homem , e cmpre* 
gado publico: pois ainda quando o seu estado physico, ce- 
dendo á impressão da melancolia que o devorava, lhe não 
permittio mais sahir de casa , então mesmo não deixou nun- 
ca de dar ás suas obrigações o cumprimento que este esta- 
do lhe permittia: constantemente examinou e revio as folhas 
pertencentes ds Repartições que dirigia e governava , e hum 
momento antes de fallecer assignou a conta do anno de 
1814: acabando esta assignatura elle já não existia, e as- 
sim deo ao serviço do Estado o ultimo instante em que a 
vida o animou. 

Bom Cidadão , e zeloso Vassallo , sentia nas desventu- 
ras da Pátria a dor própria do verdadeiro patriotismo : o 
seu cspifito adquirio novamente todo o seu primitivo vigor 
quando pelas transacções da Paz de Madrid celebrada com 
a França , lhe tinhamos de ceder terras na America , e elle 
defendeo com energia conveniente a propriedade destas ter- 
ras á Coroa de Portugal. O cargo de Vice-Director do Real 
Jardim Botânico lhe fez ainda no anno de 1801 , a pezar 
das suas moléstias , descrever o celebre Macaco Simia Mor' 
moH , espécie que poucas vezes se tem visto na Europa , e 
da qual tinha chegado hum individuo para o Real Museu , 
que ainda se conservou vivo bastantes mezes. Sabendo que 
o merecimento dos seus antigos companheiros de estudo era 
obscurecido, c posto em dcsattento esquecimento, elle não 
os vê homens com quem geralmente se achava divorciado , 
julga-os como precisados de sua Voz , e elle a levanta em 
sua apologia ; assim entrado na região do desgosto e agas- 
tamento , paga as delicias que seus antigos collegas lhe pro- 
curarão na idade das illusões e esperança, e dalli os saúda, 
defendendo a sua reputação ; e o amor da justiça e verda- 
de , que o retiraváo da Sociedade , o chamáo outra vez a 

el- 



siíta 01 



Lxxx Historia da Academia Real 
ella , quando cumpre advogar causa tão sagrada. O Snr. 
Dr. Alexandre era para o Universo , quando o Universo já 
não existia para elle ; por isso as distinctas qualidades que 
possuia , tornando sua memoria saudosa , a fazem digna de 
outro tributo maior , que este meu fraco Elogio. 

Por fallecimcnto do Sfir, Dr. Alexandre Rodrigues Fer- 
reira ficarão duas filhas , e hum filho , por nome Germano 
Alexandre de Queirós Ferreira , a quem Sua Magestade hou- 
ve por bem de nomear Official Supra-numerario da Secreta- 
ria d' Estado dos Negócios da Marinha e Dominios Ultra- 
marinos. 



NO- fl 



LXXXI 

NOTICIA 

DOSESCRITOS 

DO 

SENHOR DOUTOR 

ALEXANDRE RODRIGUES FERREIRA. 



E. 



/Sta Noticia he fielmente extraliida do Inventario dos Papeis do 
Siir. Dr. Alexandre, que como pertencentes á sua viagem , forao por 
ordem do Snr. Visconde de Santarém entregues ao Snr. Félix de 
Avellar Brotero aos ^ de Julho de 1815:; sendo no dito Inventario 
que me foi confiado, nao só comprehendidos todos os seus escritos, 
mas ainda outros muitos Papeis não pertencentes á dita viagem. As 
composições do Siir. Dr. Alexandre vem ahi designadas com as ini- 
ciaes do seu nome. 



Obras pertencentes á viagem filosófica do Grão Pará , Rio Negro, 
Mato-Grosso , e Cuyabá. 

Prospecto da Cidade de Sanita Maria de Belém do Grão Pará , 
52 pag. de foi. Deixou outras copias desta Obra. 

Misrellariia histórica para servir de explicação ao Prospecto da 
Cidade do Pard , 171^4, yj pag. de foi. Deixou outras duas co- 
pias desta Obra. 

Estado prese»te da Agricultura do Pard em 1784, 25: pag. de foi. 
Esta Obra de que deixou outra copia , foi depois consideravelmen- 
te accrescentada , ampliando-se a 75^ pag. de foi. 

Noticia histórica da Ilha de ^oannes ou Marajó , 34 pag. de foi. 
Deixou outras duas copias. 
Tom. V. Part. II * 11 Me- 



Lxxxn Historia da Academia ReAl 

Memoria sobre a Marinha interior do Estado do Grão-Pard , 1787 , 
170 pag. de foi. 

Extrato do Diário da 'viagem filosófica pelo Estado do Grão Pard , 
1787 , ^4 pag. de foi. Deixou mais duas copias desta Obra. 

Memoria sobre os engenhos de branquear o arroz no Estado do 
Pard, 10 pag. de 4.° 

Miscellania de observações filosóficas no Estado do Pard no anno 
de I7b'4, 19 pag. de 8.° 

Diário da viagem filosófica pela Capitania de S. 'José do Rio Ne- 

fro , com a informação do esta lo presente dos Estiielecimen'os 
ortuguezes na sobredita Capitania, 140 pag. de foi. Esta Obra 
de que deixou outra copia , foi depois consideravelmente augmen- 
tada formando assim outro M. S. de 5'44 pag. de foi. 

Participação geral do Rio Nfgro , e seu território ; Extracto do 
Diário da viagem filoscfica pela dita Capitania 1785', e 1786, 
226 pag. de foi. Deixou outra copis. 

Tratado histórico do Rio Branco , 5 8 pag. de 4.* 

Diário do Rio Branco, 27 pag. de 4.° 

Relação circunstanciada do Rio da Madeira, e seu território, 
desde a sua foz até d sua primara cachoeira chamada de San- 
to António , feita nos annns de 1788, e 1789 j loi pag. de foL 
Deixou outra copia incompleta. 

Supplemento ao Diário do Rio da Madeira, 16 pag. de foi. 

Supplemento d Memoria dos Rios de Mato-Grosso , 14 pag. de 4." 

Prospecto Filosófico e Politico da Serra de S. Vicente , e seus Esta- 
hekcimentís , 1790, 44 pag. de foi. 

Enfermidades endémicas da Capitania de Mato-Grosso y iio pag. 
de foi. 



llagem d gruta das Onças em 1790,. 16 pag. de foi. 



Ca- 



ãiatt 01 



DAS SciEncías de Lisboa. lxxxiií 

Catalogo da verdadeira posição dos lugares abaixo declarados per* 
tementes ás Capitanias do Pará e Mato-Grosss , .i 2 pag. de foi. 

Noticia da voluntária reduccao de paz e amizade da feroz Na-^ 
. ção do Gentio Mura ^ nos annos de 1784., 1785', e 1786 , 105^ 
pag. de foi. Deixou duas copias desta Obra. 

Memoria sobre o mesmo Gentio Mura , 12 pag. de foi., de que tam- 
bém deixou duas copias. 

Memoria sobre os Gentios Uerequenas que babitão nos rios Yçana 
e l.xié, 1787, II pag. de foi. Deixou outra copia desta Memoria. 

Metnoria sobre os Gentios Caripunas que habituo na margem oc* 
cidental do Rio Yatapu , 17Í7 , 4 pag. de foi. Deixou mais três 
copias. 

Memoria sobre os Gentios Cambebas que habitao as margens e 
ilhas da parte superior do Rio SelimÕes , 1787, 14 pag. de foi. 
Deixou duas outras copias. 

Memoria sobre os Gentios Yurupixunas , 17Z7 , 3. pag. de foi. 

Memoria sobre os Gentios Mauhas , habitantes do Rio Cumiary 
e seus confluentes , 1787, 3 pag. de foi. 

Memoria sobre os Gentios da Nação Miranha , huma das mait 
populosas do Rio Solimões , 1788 , 2 pag. de foi. 

Memoria sobre os índios Hespanhoes desertados da Provinda de 
Santa Cruz de la Sierra , 1787 , 6 pag. de foi. 

Memoria sobre os Gentios íuaicurus ^ i/pi > li P^g. de foi. 

Memoria sobre huma das Gentias da Nação Catauixi , habitante 
no rio dos Punis, 1788, 4 pag. de foi. 

Memoria sobre os instrumentos de que usa o Gentio pára tomar o 
\[. tabaco Paricd, 1786, 3 pag. de foL 

Memoria sobre a louça que fazem as índias do Estado do Grão 
Pará, 1786, 2 pag. de foi. 

* II ii Me- 



i.ltxxvt\' Historia DA AcADFMrA Real 

Memoria sobre ijs cuias que fazeiu as índias de Monte-altgre , e 
Santarém, 1786, 7 pag. de foi. 

Memoria soh-e as mascaras , e fardas que fazem para os seus. 
bailes os Centior Yurti-pixunas , 1787, ly pag. de foi. Pesta 
Memoria deixou quatro copias talvez com mudanças , &c. 

Memoria sohre as salvas de palinha pintada que fazem as Indiat. 
da Vi lia de Santarém, 1706, 2 pag. de foi. 

Memoria sobre as Malocas dos Gentios Curtttús , situados »o Ri». 
Mpaporis , 17ÍÍ7 , 4 pag. de foi. 

Relação das cinco remessas dos ptoductos naturaes do Rara , que 
remetteo a Lisboa , 5 pag. de foi. 

Mcppa geral de todos os productos naturaes e industriaes que rc" 
metteo do Rio Negro, cm foi. 

Relação das oito remessas dos productos naturaes do Rio Negro , 
que remetteo a Lisboa, 160 pag. de foi. Deixou ou:ra copia tal- 
vez com mudanças , em 208 pag. também de foi. 

Relação circunstanciada das amostras de ouro, que remetteo para 
o Real Gabinete de Historia Natural, ;o pag. de foi. 

Observações geraes e particulares sobre a classe dos Mammaei. 
observados nos territórios dos três Rios das Amazonas , Negro , 
c da Aladeira : escritas em 387 pag. de foi. no anno de 1790. 
Desta Obra deixou li uma outra copia em 466 pag. de foi. 

Relação dos animaes silvestres que habitão nos matos de todo o 
Certão do Estado do Grã Pard. 

N. B. Desta Obra me deo noticia o Siír. José Bonifácio da 
Andrada c Silva , o qual possue huma copia Incompleta em 4.° 

Memoria sobre as Tartarugas, 11 pag. de foi. 

Memoria sobre as Tartarugas Yurard-rete , 1786, $>. pag. de fol- 

Memoria sobre a Tartaruga Matamata , 3 pag. de 4.° 

Des' 



«13» 01 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. tXXH 

Descrip(âo da mesma Tartaruga, 1784, 6 pag. de 4.° 

Memoria sobre o uso que dãò ao Peixe Èoi no Estado do Grão 
Pard , e sobre outros objectos j 39 pag. em foi. 

Memoria sobre o Peixe Pirarucu, 1787 , 8 pag. de foi. Deixou ou^ 
trás duas copias desta Memoria. 

Descripção do Peixe Arananãa , 1 787 , 2 pag. de foi* 

Relação dás amostras de algumas qualidades de madeiras dai 
margens do Rio Negro, 17883 30 pag. de foL 

Diário sobre as observações feitas nas plantas que se recolherão 
na Capitania do Rio Negro, 1786, 118 pag. de foi. 

Diário sobre as observações das plantas que se recolherão no Rio 
Branco, 12 pag. de foi. 

Diário das observações das plantas que se recolherão no Rio dà 
Madeira , 36 pag. de foi. 

Memoria sobre as palmeiras, 11 pag. de foi. 

Collecção das experiências de Tinturatia que se fizerao em a via' 
gem da Expedição filosófica pelo Rio Negro, com 12 amostras 
tintas em lã. 

Relação dos pfeparos necessários d Expedição filosófica que execU' 
teu, os quaes pedio em 1786, 36 pag. de foi. 

Papeis avulsos de Memorias e escritos pertencentes d viagem ire. : 
laziâo 1840 pag. de foh , e 428 pag; de 4.° 

Obfaá sobre diversos assumptos não pertencentes á viagem. 

Oração Latina por occasião dos annos do Serenissimo Siír. Zi ^osé , 
Príncipe do Brazil , feita no anno de 1779, cm 4.° 

Falia que fez para recitar no dia da posst dos Ex,"" Sfir." Ge- 






lxxxvi Historia da Academia Real 

ncral do Pará Martinho de Sousa e Albuquerque , e Bispo D. 
Fr. Caetano Brandão; 2 pag. de foi. 

Fal/a que fez na noite deiQ de Setetnbro de 1784 ao despedir-se do 
III.'" e Ex."" Súr. Martinho de Sousa e Albuquerque , 3 pag. de foi. 

Falia que fez na tarde de 1 de Março de 1785" ao III.'"' e Ex/"* 
Siír. foto Pereira Caldas , quando entrou a visitá-lo na Villã- 
de Barcellos, 4 pag. de foi. 

Falia que fez ao mesmo no dia 4 de Agosto de 1785' , dia em que 
fazia annos , 4 pag. de foi. 

Proprieda/le e posse das terras do Cabo do Norte pela Coroa de 
Portugal t 17^2, 47 pag. de foi. 

Propriedade e posse Poríugueza das terras cedidas aos France» 
zes , 1802, 9 pag. de foi. 

Memoria ou parecer sobre a plantação dos olivaes nas terras que 
na Villa de Coruche tinha foaquim Rodrigues Botelho. Desta 
Obra achei noticia no caderno das Memoiias particulares do Snr. 
Dr. Alexandre, do anno de 1783. 

Memoria sabre as matas de Portugal , dividida em três partes , e lida 
na jdcademia Real das Sciencias no anno de 1780, 82 pag. de 4.° 

Abuso da Conchyologia em Lisboa , para servir de introducção d 
sua Thcologia dos Vermes^ 178 1 , 26 pag. de 4.° Foi também 
lida na Academia Real das Sciencias. 

Descripção de huma planta desconhecida pelo Cirurgião Mor do 
Regimento d'' Alcântara , 14 pag. de 4.° Creio que esta Obra que 
assim vem annunciada no Inventario dos papeis do Síír. Dr. Ale- 
xandre , que tenho citado , he a mesma que passamos a annun- 
ciar segundo a ir.dicaçao do seu caderno de Memorias particu' 
lares ^ onde se diz que também fora lida na Academia. 

Exame da planta medicinal^ que como nova applica e vende o Li' 
cenciado António Francisco da Costa , Cirurgião Mor do Regimen' 
to de Cavallaria d^ Alcântara (a) . Re- 

(<i) Julgo que também seria composição do Sflr. Dr. Alexandre a Memoria , quí com 



DAS SciEKCIAS DE LiSBOA. LXXXVU 

Relação dos animaes qundnípedes , aves , peixes , vermes , amphr 
bios , e frutos &c. que se comem : ép pag. de foi. He incom- 
pleto. 

Descripçdo do Racouete , cm 1795", 4 pag. de foi. 

Descri pfão do Macaco Simia Mórmon, 1801, 6 pag. de 4.' 

Memorias para a Historia particular da Marinha Portugufza, 
apanhadas da Historia geral do Reino e Conquistas : 26 pag. 
de foi. He incompleto. 

Noticia , em forma de carta , dos tríihalhos que a Ciasse Filosófi- 
ca da Universidade de Coimbra tinha executado &c. : 20 pag. 
de 4.° 

III. 

N. B. Ainda que as composições que ficao mencionadas , fos- 
sem só as que no inventai io dos papeis do Sfir. Dr. Alexandre vem 
com a indicação das iniciaes de seu nome , com tudo sempre pas- 
sarei a referir como suas as seguintes, que vindo ai!i faltas de se- 
melhante indicação, também não trazem a de nenhum outro Autor; 
sendo que pela sua natureza , e outros argumentos se devem reputar 
do Síir. Dr. Alexandre. 

Roteiro das v''agens da Cidade do Pard até ás ultimas Colónias 
das Dominios Porti^guezes em os Rios Amazonas e Negro : i í i 
pag. de foi. 

Memoria de alguns successos do Pará , 20 pag. de foi. 

Noticia da fundação do Convento de Nossa Senhora das Mercês da 
Cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pard, extrahida do 
Ârchivo do dito Conv.nto no anno de 1784: 43 pag. de foi. 

Noticia dos mais terríveis contágios de bexigas que tem havido 
no Estado do Fará , do anno de 1720 em diante : 4 pag. de foi. 

Ins- 



o titulo de Observações (tos effeitos que tem obrado as pirolas dcsencrassanUs , de que 
era Autnr este inesmo Cirurgião Mór do Regimento de Cavallatia d'Alcantara , vem an- 
nunciada sem nome 110 Inventario dos seus papeis. 



«raw OT 



Lxxxvm Historia da Academia Real 

Instrucçoes que re guião o methodo por que os Directores das po- 
voares de Índios do Estado do Grão Pard se devem conduzir 
no modo de fazer as sementeiras : 7 pag. de foi. 

Memoria sobre a lavoura do MacapA , 3 pag. de foi. 

Lembrança das fazendas de gado vacum que se achao estabeleci' 
das na costa do Amazonas : 5 pag. de foi. 

Individual noticia do Rio Branco, 6 pag. de foi. 

Diário da viagem feita no Rio Bimiti no anno de 1785' , 4 pag. de 4.° 

Noticia da Nação fuioana , a que chamao hoje lacdca : 2 pag. de foi. 

Roteiro da viagem de Mato Grosso, 3 pag. de foi. 

Refexôes abbrexiadas dos principaes motivos que obstarão ao maior 
e desejado progresso da lavoura e commercio do listado do Grã» 
Pard, 14 pag. de foi. 

Breve Instrucção sobre o methodo de recolher e transportar algu- 
mas Jroducções , que se achao nos CtriÕcs e costas do mar: 2I 
pag. de 4.° 

Supplemento sobre a gwrra ordenada contra as Nações de índios 
que inf estão a Capitania do liauhy: 19 pag. de foi. 

Relação dos mmes dar madeiras próprias para a construcção de 
embarcações , moveis de casa , e outros destinos, que se tem des- 
coberto no Estado do Pard : 6 pag. de foi. 

Memoria sobre huma porção de cabo formado de casca do Guarn- 
bc-cima , 10 pag. de foi. 

Observações sobre a cultura e fabrica do Vrucú, ^ pag. de foi. 

Instrucção para extrahir o anil , 3. pag. de foi. 

Relação de todos os pássaros e bichos do Estado do Grão Pari^ 
que .<e revirttérão ds Quintas Reaes pelo Ex.'"'' Síir. João Pe- 
reira Laldiis , 1773 até 1779: 19 pag. de foi. 

Re- 



P 



UAS SciENCIAS DE LiSBOA. 



LXXXIX 



Relação elas mnehiras do Estado do Par.i , de que forao amostras 
á Secretaria d' Estado da A farinha, remettidas pelo Governador 
e Capitão General João Pereira Caldas. 

Memoria sobre o anil do Pará e Rio Negro , 1 1 pag. de fbl. 

Ilrtudes , preparação e uso da raiz de caninana nas enfermida- 
des venéreas , tanto recentes como ckronicas : 4 pag. de foi. 

Memoria sobre o Alicorne do mar, 10 pag. de 4.° 

Memoria a respeito dos Muharas , e algumas cousas mais a ou- 
tro fim , 24 pag. de foi. 

Nota sobre a linha recta mandada tirar desde a foz do Rio fau- 
ríi até o de Sarare , segundo o Artigo 10. do Tratado de limi- 
tes : 4 pag. de foi. 

Memoria sobre o lenho de Oiiasiia , extrahida das Dissertações 
de Linneo : 23 pag. de 4.° 

Descri peão sohre a cultura do cânhamo, sua colheita, maceração 
tfagoa até se pôr no estado para ser gramado , ripado , e asse- 
dado: JJ pag. de foi. 

Nomes vulgares de algumas plantas do Rio de Janeiro, reduzi- 
das aos triviaas do systema de Linneo , e da Flora Fluminense : 
26 pag. de foi. He incompleto. 

Directório que Sua Magestade manda observar no seu Real Jar- 
dim Botânico , Museu , Laboratório Chimico , e Casa do Dese- 
nho 0"c. : 10 pag. de foi. 



Tom. F. Part. II. 



I£ 



r.'- 



v.^-.i o ~ 



xc Historia da Academia Real 



RELATÓRIO 

D A 

COMMISSÃO 

NOMEADA PELA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS 
DE LISBOA 

Para lhe dar conta da nova Edição dos Lusíadas impressa 
em Paris no atino de 1817. 



A 



Academia Real das Sciencias nomeou aos Senhores 
António Caetano do Amaral , Mattheus Valente do Couto , 
e a mim para lhe darmos conta da Edição dos Lusiadas 
de Luiz de Camões , ultimamente publicada em Paríz pe- 
lo Snr. D. José Maria de Sousa , e de que o mesmo Snr. 
lhe offereceo hum exemplar. 

Não he necessário hum profundo exame desta Obra 
para se conhecer que toda a perfeição e luxo , moderna- 
mente introduzido na Typografia ; tudo quanto as artes do 
Desenho e da Gravura podem produzir com mais giaça e 
elegância ; tudo em fim quanto se deve esperar da exacti- 
dão e perspicácia de hum Editor sábio e zeloso pela glo- 
ria nacional : tudo se pôz em uso para levantar hum Mo- 
numento digno de Camões , digno da Pátria que este il- 
lustre Poeta tanto engrandeceo , e digno daquelle que to- 
mou a seu cargo esta nobre em preza. 

Estas qualidades , que saltão aos olhos , tornão-se ain- 
da mais sensiveis á proporção que o trabalho do Snr. D. 
José Maria se examina com mais miudeza ; vê-se então que 
se os melhores artistas se esmerarão em preencher os seus 
desejos , a tarefa que ellç reservou para si he a mais im- 
por- 



DAS SciENCrAS DE LiSBOA. XCI 

portante , e a que mais merece o nosso reconhecimento , 
por nos dar em fim os LuSiadas taes como seu Autor os 
escreveo , limpos dos erros , e alterações com que a igno- 
rância e a malicia os tinhão até aqui manchado , quasi to- 
das as vezes que de novo se davão ao prélo. 

Tendo pois de dar conta á Academia dos dotes (se 
nos he licito explicar assim ) externos, e internos desta Edi- 
ção , nós faremos isto mui levemente em quanto aos pri- 
meiros ; não só porque já cUes estão examinados , e devi- 
damente elogiados por pcnnas mais hábeis do que a nossa , 
mas porque a Academia teve logo occasiao de lhe dar o 
merecido louvor na mesma Sessão em que a- Obra lhe foi 
apresentada : st.rcmos porem mais extensos no que respeita 
aos segundos , por isso mesmo que requerem hum exame 
mais prolixo , e circunstanciado. 

O Poema dos Lusiadas impresso em Paris no anno pró- 
ximo passado na Officina de Firmin Didot , he em 4.° atlân- 
tico , e occupa com as notas 413 pag. além da Dedicatória 
a S. Magcstade , que não he numerada , e de huma Adver- 
tência , que juntamente com a vida do Poeta enchem 130. 
O papel he o velino mais bello , .e mais igual , os typos 
fundidos de propósito são os mais nítidos e perfeitos que 
se podem ver, c mostrao que neste ponto, e género de 
impressão tem a arte chegado ao maior auge a que podia 
aspirar : a tinta he de huma óptima cor : a tiragem tanto 
das tolhas , como das estampas he a mais limpa possível : 
n' huma palavra esta Edição iguala nestes differentes arti- 
gos ás que se tem feito de maior luxo , e ainda mesmo ex- 
cede a maior parte delias. 

As estampas que a acompanhâo , posto que não tenhâo 
todas o mesmo grão de perfeição , são executadas em ge- 
ral sobre hum desenho , e por hum buril que faz honra 
aos Mestres que as desempenharão , e ao grande Pintor Mr. 
Girard , que as dírigio. O busto de Camões , que se pôde 
olhar como huma obra prima deste celebre e íUustre Ar- 
tista , he cheio de expressão e de vida , e dá bem a co- 

* 12 ií nhe- 



xcii Historia da Academia Real 

iihecer a grande alma do Poeta •, iiao he só no semblante 
que elle está vivo, he também no resto do corpo, e o seu 
braço direito sobre tudo chega a illudir os sentidos, e pa- 
rece animado. Os ornatos desta estampa , de huma extraor- 
dinária riqueza , c que contrastao com a nobre simplicida- 
de das outras , são como hum tributo pago ao gosto do 
século; e ainda que variados, e optimamente desempenha- 
dos, não distrahcm a attenção do objecto principal. A este 
retrato segue-se outro de vulto inteiro , em que o mesmo 
Camões apparece na gruta de Macáo em hum momento de 
extasi e de contemplação, animado pelo Estro, e trasbor- 
dai;do-lhe no semblante o divino fogo da Poesia. As ou- 
tras estampas em numero de dez correspondem aos dez 
Cantos da Epopéa , e apresentão os passos mais notáveis de 
cada hum dclles. O Conselho dosDeoses; a visita do Rei 
de Mclinde ao Gama ; o assassinio de Dona Ignez de Cas- 
tro ; o sonho de ElRei D. Manoel , em que lhe fallão os 
Rios Indo , e Ganges ; a appariçáo do Gigante Adamastor 
na passagem do Cabo de Boa-Esperança ; a imagem de Vé- 
nus, e das Nereidas, quando no Canto 6." aplacao os ven- 
tos ; o desembarque do Gama em Calecut ; a sua segunda 
entrevista com o Samorim ; Thctis coroando o Heroe na 
Ilha de Vénus ;. e finalmente a audiência que lhe dá o Mo- 
narca Portuguez na volta da sua expedição: taes são os as- 
sumptos que nestas gravuras se reprcscntâo , e nos quaes 
tanto a escolha como a execução são dignas de todo o elo- 
gio : he pois com sentimento , que deixamos o seu exame , 
para chegarmos mais depressa ao artigo, que releva prin- 
cipalmente o merecimento litterario do Srir. Morgado de 
Mattcus, e que he talvez o mais próprio a grangear-lhe o 
reconhecimento da Academia , e do Publico illustrado. 

Muitos Escritores nacionaes , e estrangeiros tem es- 
crito a vida de Luiz de Camões : Manoel de Faria e Sousa 
fê-lo duas vezes, emendando na segunda os erros em que ti- 
nha cabido na primeira ; mas assim mesmo deixou passar 
asserções pouco exactas, e algumas delias até offensivas da 

di- 






DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XCIII 

dignidade do Poeta , ou isto fosse procedido da pouca cri- 
tica , ou do seu caracter adulador : o Snr. D. José Maria 
tem cuidado de rectificar , e destruir estas accusações arbi- 
trarias , e de pintar os inimigos de Camões com as cores 
que elles meteceiíi : na falta de outros documentos elle com- 
prova a maior parte dos f^ictos que refere com passos das 
obras do Poeta ; mas o que sobre tudo torna esta peça re- 
comendável he a sensibilidade com que he escrita : assim 
os malogrados amores de Camões com Dona Catharina de 
Attaide ; o seu desterro , e partida para a índia , deixando 
na Pátria tudo quanto llie era caro ; a grandeza d'alma com 
que soíFreo as vexações do Governador Francisco Barreto , a 
baldada protecção , que encontrou no seu successor D. Cons- 
tantino de Bragança.; o sórdido interesse de outro Burreto, 
de que foi victima por <ilguns tempos j em fim a sua che- 
gada a Lisboa , e o resto de huma vida combatida pelo 
desamparo , e miséria ; todos esrcs acontecimentos são re- 
feridos com hum estilo tão natural , e enérgico , que he 
impossível a quem os lê não se commover , sobre tudo 
comparando as circimstancias lamentáveis do Poeta em quan- 
to vivo , com o seu lUustre merecimento , e a magnificên- 
cia com que agora he honrado pela primeira vez depois da 
sua morte. 

Não se podendo conhecer bem a vida de hum homem 
de lettras , sem também se conhecerem as Obras que elle 
cscreveo , julgou o Snr. D, JotcMaria de Sousa dever ajun- 
tar á biografia de Camões huma noticia de todas as que 
nos rcstão da sua pcnna. Principiando pois pelos Lusiadas 
analysa este Poema segundo as regras geracs da Arte , que 
são sempre as mesmas , e as particulares , que varião com 
o tempo , e modo de pensar dos homens. Não he este o 
lugar para discutir o merecimento de Camões , nem para 
tecer o seu elogio ; e por isso não seguiremos o nosso Con- 
sócio no judicioso exame que faz daquella Epopéa , já ex- 
pondo o plano com que foi delineada , já dando a razão 
do maravilhoso allegorico que lhe serve de ornato, já mos- 

tran- 






é. 






xciv Historia da Academia Real 

trando a injustiça com que fcm sido ás vezes censurada , 
já fazendo huma enumeração rápida , mas exacta das suas 
bellczas , bellezas que só huma depravação total de gosto 
poderá desconhecer. 

O exame das outras Poesias não he tão circunstancia- 
do : sendo impressas posthumas , não soffrêrão ellas menos 
do que os Lusíadas pela ignorância dos Editores ; e necessi- 
tão talvez mais de huma mão hábil , que as expurgue dos 
erros , e separe as que são de Camões de outras que o não 
são , e que em differcntes épocas gratuitamente se lhe tem 
attribuido. j Quanto seria para desejar que quem tão digna- 
mente executou este trabalho , lhe quizesse dar o ultima 
complemento , pondo assim o remate na Coroa litteraria , 
com que ha de ser distinguido na posteridade ! 

Na advertência preliminar, e nas notas que lhe dizem 
respeito , e vem no fim dos Lusíadas , mostra e caracteriza 
o Snr. D. José Maria de Sousa o texto que seguio na sua 
Edição, e dá os motivos que teve para assim o fazer: es- 
tes motivos ainda que da maior ponderação , não forao até 
agora attendidos de nenhum outro Editor , e por isso mes- 
mo devem ser patenteados á Academia , para ella poder ava- 
liar devidamente o seu merecimento. 

He fora de duvida, que obtendo Camões em Setem- 
bro de I5'7i o Privilegio para elle só imprimir o seu Poe- 
ma , sahio á luz em o anno seguinte , no qual foi impres- 
so duas vezes ; como porem no fiontespicio , nem em parte 
alguma se declarasse nada a este respeito, não somente se 
ficou ignorando qual era a Edição mais antiga , mas até gran- 
de parte dos nossos Bibliografos persistirão na intelhgencii» 
de que realmente não tinha havido senão huma naquelle an- 
no. Desde então até 1579 ^'^' ^^^ o Poeta falleceo , não 
tornou, que se saiba, a imprimir-se este Poema, nem nun- 
ca constou onde tinha ido parar o seu Autografo. 

Em circunstancias taes he evidente serem estas as úni- 
cas Edições autorizadas : por huma pirte forao ellas feiras 
cm vida do Autor , assistindo clle em Lisboa , e com o seu 

con- 



<i. 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XCV 

consentiniento , visto o Privilegio que se lhe tinha dado, 
e isto basta para nos provar a sua authenticidadc ; por ou- 
tra parte os Editores que depois vierâo , nao tendo outros 
originaes em que se fundassem para as suas emendas , fize- 
rão-as arbitrariamente ; e por conseguinte devem ser des- 
prezadas por quem se propuzer a dar huma Edição genuína. 

Formais natural que seja este raciocinio, foi elle des- 
prezado por todos os que precederão ( como já dissemos ) 
ao Snr. Morgado de Matteus na mesma cmprcza. Logo em 
15:84 se principiou a corromper, e alterar por hum modo 
de que ha poucos exemplos, o texto de Camões. Os Edi- 
tores que depois vierão , pela maior parte ou ignorantes , 
ou supersticiosos , seguirão esta mesma estrada 5 o Cantor 
dos Luziadas cessou de fallar a sua divina linguagem, e to- 
mou outra menos enérgica , servil , e totalmente imprópria. 
Manoel de Faria e Sousa atalhou em parte esta desor- 
dem ; procurou, e nao lhe foi difficil encontrar, huma das 
Edições originaes (a mesma de que agora se sérvio o Snr. 
D.José Maria de Sousa); e não sabendo ainda naquelle 
tempo que houvesse outra do mesmo anno , contentou-se 
com seguir a primeira: ^- mas como a seguio elle? alteran- 
do-a , e emendando a cm todos os lugares, que o seu pou- 
co discernimento lhe fez parecer viciados : assim tirou gran- 
de parte dos erros que havia , para substituir-lhes em me- 
nor numero outros novos , e privativamente seus : os gran- 
des créditos de que este Escritor gozou por muito tempo, 
forão causa de que os que vierão depois jurassem todos 
nas suas palavras. 

Partindo o nosso Consócio de princípios totalmente 
diíFerentes , sabendo que cxistiao duas Edições ambas datadas 
de 1572 , apezar de assistir em Paris, aonde estes soccor- 
ros são muito mais difficultosos de alcançar do que o teriâo 
sido em Lisboa , procurou elle obtê-las ambas para as com- 
parar, e ver se entre huma e outra havia alguma diversidade 
não lhe foi porem possível conseguir o seu intento , pois 
que dois exemplares que obteve forão achados idênticos. 

Des- 



XCVt HlSTOUlA DA AcADEMIA ReAL 

Destes mesmos tirou todo o partido possível. Caracte- 
risou a Edição que lhe devia servir de original; cmendou-a 
de muitos erros Typogrnficos com que estava manchada ; 
fez tirar hum fac símile do Frontispicio , e copias de alguns 
passos^ que rcmctteo aos seus amigos em Lisboa, a fim de 
serem comparados com a Edição da Real Bibliothcca Pu- 
blica , para se notarem as dificrenças , se acaso algumas se 
encontrassem. 

Satiteitos em parte os seus desejos , conheceo que as 
duas Edições , ainda que parecidas, se podiao facilmente dis- 
tinguir, pois só nas primeiras 24 ouravas do i.° Canto se 
notarão huma quantidade grande de variantes; mas excepto 
huma insignificante, todas as outras versavao sobre a ortho- 
grafia ; e como havia probabilidade que no resto da Obra 
succedesse o mesmo , e elle não podesse alcançar huma con- 
frontação mais extensa , apezar das suas repetidas instancias , 
deliberou-se a não demorar mais a impressão, certo de que 
o texto , que elle publicava era o mesmo que o grande Ca- 
mões tinha escrito , limpo das alterações e emendas , que 
depois se lhe introduzirão. 

Ainda que aquellc argumento pareça convincente, de- 
vemos confessar, que contra a expectação do Siir. Morgado 
de Matteus , e até mesmo contra a nossa , adiámos bastan- 
tes mudanças nesta outra Edição de 15-72 ; he certo que a 
inaior parte delias podem desprezar-se pelo pouco que in- 
fluem no sentido , ou na cadencia dos versos ; e que ou- 
tras sendo emendas a erros manifestos de impressão , forao 
já adoptadas e com toda a razão pelo novo Editor ; mr.s 
ainda assim restâo a nosso ver alguns lugares , em que es- 
ta Edição ( que se pôde reputar segunda ) deveria ser pre- 
ferida á primeira , e tanto mais , que nao havendo motivo 
solido para pensar que Camões não assistio áquella com o 
mesmo esmero , com que assistio a esta , alguns versos se 
achão visivelmente melhorados , mais cadentes , e com me- 
lhor sentido. 

Por este motivo, e por pensarmos que estas variantes 



sao 



SI3>l oõ í-* 



„>«<!, 



DAS SciENClAS DE L[SBOA< XCVIl 

são da mesma penna do Poeta , sendo muiro vulgar n' hu- 
ma reimpressão , que se faz em vida do Autor , retocar 
este alguns kii^ares que mais lhe dcsagradão , julgámos con- 
veniente ajuntar no fim deste Relatório as variantes que 
parecerão mais essenciaes : assim complctamr.s o trabalho 
que tanto desejou concluir o Sfír. D.José Maria de Sousa, 
e que não poderá deixar de ser agradável tanto a ellc , co- 
mo a esta Academia. 

Em quanto ao mais , a Edição que temos analysado , 
e que como vimos he impressa sobre o que se reputa pri- 
meiro original de 1^72, he bastantemente correcta, e ex- 
purgada dos multiplicados erros que nelle a de^figuravão : 
só quem tem publicado obras pelo prelo conhece quanto 
isto he difficil de conseguir , e muito principalmente quan- 
do a lingua em que se escreve he estrangeira para os com- 
positores , e impressores ; assim os insignificantes descuidos 
que se encontrão nesta , não serão taxados por aquellcs lei- 
tores, que conhecerem que hc moralmente impossível fazer 
melhor cm circunstancias semelhantes. 

A única cousa em que não concordamos com o Snr. 
D. José ALiria he em ter quasi sempre deixado a antiga 
orthogr fia ; nao falíamos no que diz respeito á escusada 
multiplicação das letras, mas sim naquelia que influe sensi- 
velmente na pronuncia dos vocábulos, c que varia segundo 
os tempos. Como Camões he o que escreve , e elle escre- 
veo ha mais de dois séculos , parece-nos huma espécie de 
anachronismo não se exprimir agora segundo o costume da 
sua idade ; gostaríamos mais de lhe ouvir dizer masto , avor- 
recido f apouzento ^ polo ^ pêra ^ does 8cc. do que mastro ^ abor- 
recido , apozento , pelo ^ para , dons &c. : preferiríamos mes- 
mo escrever Calecu , pr eminência ^ e sujugado , posto que não 
scjão tão correntes, ou não conservem huma etymologia tão 
exacta como Calecut , preeminência , subjugado &c. , parecen- 
do evidente que o Poeta quiz principalmente attender a eu- 
phonia de huma semelhante pronuncia. 

Por mais leve que seja este reparo , julgamos não o 
Tom.F, Par t. II. * jj de- 



xcviii Historia da Academia Real 
dever passar em silencio , para mostrar a imparcialidade cont 
que examinámos esta magnifica Obra , destinada a fazer o 
mais precioso ornamento das Bihliothccas Portuguesas , e 
que lava de alguma sorte a mancha de ingratidão de que 
éramos geralmente accusados para com o maior Poeta , que 
até agora produzio o nosso Paiz ; com cffeito o trabalho do 
Srir. Morgado de Matteus deverá ser mais agradável aos 
Manes de Luiz de Camões , que quantas Estatuas , ou outros 
monumentos se lhe tivessem erigido. 

Nas Casas da Academia Real das Sciencias aos 12 de 
Abril de 18 18. 



(Assignados) António Caetano do Amaral. 

Mattheus Valente do Couto. 
Sebastião Francisco de Mendo Trigozo. 



PRI.N4 



I 



SI3U or 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. XCIX 

PRINCIPAES VARIANTES DAS DUAS EDIQOES DE i;72. 

Primeira Ediçiío ijue sérvio tie original á Segunda Edição, 

do Siir. D.Joíc Maria de Sousa. 

C A N T O I. 

Est. 29. Começarão a seguir sim loiis;a fota. Tornarão a seguir sua longa rota. • 
64. Respondeo o valeroso Capitão. Responde o valeroso Capitão. 

CANTO II. 

1. Quando as fingidas gentes se chegarão. Quando as infidas gentes <:? chegar.ío. 
100. Os ânimos alegres ressonando. Os ânimos alegres ressoando. 

CANTO III. 

ii- Mas neila o sensual era o maior. M.\s nella o sensual era maior. 

52. Tornando carmezi de branco e verde. Tornado carmezi de branco e verde. 

1 17. E depois de Jezu certifiodo. E depois por Je7U certiticado. 

ijo. feros vos mostraes, e Cavaileiros? Feros vos amostraes, e Cavalleiíos? 

^ CANTO IV. 

24. Como ja o forte Huno o foi primeiro. Como já o fero Huno o foi primeiro. 
71. Por elle os largos passos inclinando. Parelle os largos passos inclinando. 

C A N T O VI. 

82. Doutro Scylla , e Carybdes ja passados. Doutra Scylla e Carybdes ja passados. 

CANTO VIII. 

6;. Não cauzarSo que o vato de inequicia. Náo cauzaráo que o vazo de nequicia. 
90. Uie andar armada , que por em ventura. Lhe andar armando , que por cm rentura. 

CANTO IX. 

50. Para a Ilha a que Vénus os guiava. Para a Ilha a que Vénus as guiava. 

C A N T O X. 

10. Cantando a bella Deosa que viria. Cantava a bella Deosa que viria. 

40. Armas com que o Albuquerque liirá a- Arm:is com que Albuquerque hira amatf- 

mancando. cando. 

71. Com restante da gente Lusitana. Co restante da gente Lusitana. 

97. Povoações que parte Africa tem. Povoati'ies que a parte Africa tem. 

J S í. 0$ fllouros de Marrocos e Trudante. Os muros de Marrocos e Trudante 



13 ii LIS» 



Historia da Academia Rkal 

LISTA DOS SÓCIOS 
Da Jcademia Real das Sciencias em Junho de 1818» 



PROTECTOR 
ELREI NOSSO SENHOR. 

PRESIDENTE 
O Sereníssimo Senhor Infante D. Miguel, 

Vice-Presídente 

Fernando Maria José de Sousa Coutinho Casrello-Branca 
e Menezes , Marquez de Borba. 



Sócios Honorários. 



S. A. R. o Príncipe de Galles , Regente do 
Reino unido da Grã-Bretanha. 

S. A. R. o Duque de Sussex. 

Arthur Wcllesley , Marquez de Wellington , Du- 
que da Victoria , -------- e/« França. 

D. Caetano de Noronha , Conde de Peniche , em Lisboa. 

Carlos Stuard ___.----_- em Paris, 

D. Domingos de Sousa Coutinho , Conde do 

Funchal , ----------- f»/ Roma, 

D. Duarte Manoel , Marquez de Tancos , - em Lisboa» 

Fernando Maria José de Sousa Coutinho Cas- 

tel- 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. ci 

tello-Branco c Menezes, Marquez de Borba, 

Vice-Presidente ,--------•- em Lisboa. 

Fernando Telles da Silva e Menezes , Marquez 

de Penalva ,---------- í;« Lisboa. 

Francisco de Mello da Cunha de Mcndoça e 

Menezes , Marquez de Olhão , - - - - em Lisboa. 

Luiz António Furtado de Castro do Rio c Men- 

doça , Conde de Barbacena , - -ííí— '- - em Lisboa, 

D. Marcos de Noronha , Conde dos Arcos , no Rio de Jtmeiro. 

D. Miguel Pereira Forjaz ------ em Lisboa, 

D. Pedro José Joaquim Vito de Menezes , Mar- 
quez de Marialva ,-------- em Par/s. 

D. Pedro de Sousa Holstein , Conde de Palmella , em Londres* 

Thomaz António de Villanova Portugal , no Rio de Janeiro. 



Sócios Estrangeiros. 

António Lourenço de Jussieu ----- em Par/s. 

Frederico Bouterwek ---.---- em Gottitiga. 

Jaime Edward Smith --------em Londres. 

José Banks ,.--------- ewí Londres. 

José Francisco de Jacquim (Barão de Jacquim) em Fieuna 

ã" Áustria, 
D. Manoel Abella . . . . ~ ~ ~ . - em Madrid. 

Renato Justo de Hauy ------- em Parts. 

Ricardo António de Salisbury -----«/; Londres. 



Sócios Veteranos. 

Adrião dos Santos --------- em Lisboa. 

Agostinho José da Costa de Macedo - - - em Lisboa, 

Joaquim Pedro Fragoso ------- f»; Lisboa, 



áll\I OT-, 



cir PTisToRiA DA Academia Real 

José Martins da Cunha Pessoa - - - - - ein Lisboa. 
Manoel Luiz .Alvares de Carvalho - - no Rio de Janeiro. 



Sócios Effectivos. 
Na Classe de Scicncias Naturaes. 



em Lisboa. 

em viagem. 

em Coimbra. 



Alexandre António das Neves , Guarda Mór dos 
Estabelecimentos da Academia , 

Bernardino António Gomes -___.- 

Constantino Botelho de Lacerda Lobo - - - 

José Bonifácio de Andrada e Silva , Secretario 

da Academia , --------- ew IJsboa. 

José Corrêa da Serra ------- em Filadélfia. 

José Pinheiro de Freitas Soares - - - - - em Lisboa. 

Sebastião Francisco de Mendo Trigozo , Di- 
rector da Classe , e Vice-Secrctrctario da Aca- 
demia ,- - -.- - - - -- - - -em Lisboa. 

Na Classe deSciencias Exactas. 

Francisco de Borja Garção Stockler - - no Rio de 'Janeiro. 
Francisco de Paula Travassos - - - - - em Lisboa. 
João Faustino , da Congregação do Oratório , em Lisboa. 
José Maria Dantas Pereira - - - - no Rio de Janeiro. 
José Monteiro da Rocha ~ - ~ - a S. José de Ribamar. 
Mattheus Valente do Couto , Director da Classe , em Lisboa. 

Na Classe de Litteratura Portugueza. 

António Caetano do Amaral , Director da Classe , em Lisboa. 

Francisco Manoel Trigozo de Aragão Morato em Coimbra. 

João Pedro Ribeiro -------- í»/ Lisboa. 

Joa- 



UAS SciENCIAS DE LlSUOA. CHI 

Joaquim de Santo Agostinho de Brito França 

Galvão .------....f;;; Lustosa. 

Joaquim [osé da Costa de Macedo , Thesou- 

reiro da Academia , ------- ^w Lisboa. 

Manoel de Almeida e Vasconcellos , Visconde 

da Lapa ^---~-.-.~~-em Lisboa. 



Sucias Livres. 

Alexandre António Vandclli ------ et» Lisboa. 

António de Almeida -------- ew Penafiel. 

António de Araújo Travassos ----- em Lisboa, 

Cvpriano Ribeiro Freire ------- em Lisboa. 

Fclix de Avellar Brotcro -,----- »a Ajuda. 

Francisco José de Almeida ----- -' evi Lisboa. 

Fr. Francisco de S. Luiz ------- em Cjimbra, 

Francisco de Mello Franco - - - - no Rio de 'Janeiro. 

Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque - em Lisboa. 

Francisco Ribeiro Dosguimaraes , Substituto de 

EfFectivo ^- --.-..---- em Lisboa. 

Francisco Simões Mnrgiochi ------ em Lisboa. 

Frjncisco Soares Frunco ------- em Coimbra. 

Francisco Villela Barbosa , Substituto de Ef- 

fectivo , -------_--- f«j Lisboa. 

João António Saltcr de Mcnd«ça - - - - em Lisboa. 

João Evangelista Torriani ------- em Lisboa. 

D. João de Magalhães e Avellar , Bispo do 

Porto ,--1--------- »o Porto. 

João Silvério de Lima ------- em Santarém, 

Joaquim José Ferreira Gordo ( Monsenhor Fer- 
reira ) Substituto de EfFectivo, - - - - em Lisboa. 

Joaquim Pedro Gomes de Oliveira em Filia Franca de Xira. 

Jo- 






civ Historia da Academia Real 

José António de Sá ---'----em Lisboa. 

José Corrêa Picanço ------ 710 Rio de Janeiro. 

D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Couti- 
nho , Bispo de Elvas , Eleito de Beja , - em Lisboa, 

José Maria Soares --------- f/» Lisboa. 

D. José Maria de Sousa Botelho - - - - em Paris. 

Justiniano de Mello Franco - - - - no Rio de Jafieiro. 

Luiz Máximo Alfredo Pinto de Sousa , Viscon- 
de de Balsemão , --------em Lisboa. 

Manoel Ferreira da Camera Betancourt - tio Rio de Janeiro. 

Manoel Pedro de Mello -------em Coimbra. 

Marino Miguel Franzini , Substituto de EíFecti- 

vo, ------------- fw Lisboa. 

Pedro José de Figueiredo - ~ - - . - em Lisboa. 

Pedro de Mello Breyner ----- «o Rio de Janeiro. 

Ricardo Raymundo Nogueira - - - - - em Lisboa. 

Timotheo Lecussan Verdier ------ em Par^s, 



Correspondentes. 

D. Fr. Alexandre da Sagrada Familia, Bispo de 

Angra , ...........em Atgi-a. 

Balthasar da Silva Lisboa - - em a Filia dos Ilheos no Brasil, 
Bento Affonso Cabral Godinho - - - - - em Évora. 

Fr. Bento de Santa Gertrudes Magna , no Mosteiro de S. Bento da 

Saúde , no Porto. 
Diogo de Toledo Lara Ordoííes - - no Rio de Janeiro. 
Egydio Patrício do Couto ..-.--- em Lisboa. 
Fclix José Marques ....-..- em Lisboa. 

Francisco Alexandre Lobo ..-..- em Coimbra. 
Francisco Elias Rodrigues da Silveira - - - em Lisboa. 
Francisco Nunes Francklim -. - - - - em Lisboa. 

Francisco de Oliveira Barbosa - - - - - em S. Paulo. 

Francisco Vieira Goulart ----- wo Rio de Janeiro. 

Fran- 



DAsSciENCrASnELtSBOA. CV 

Francisco Xavier de Almeida Pimenta - - - ho Sardoal. 
D. Francisco Xavier Cabanes - - - - - em Madrid. 

Francisco Xavier do Rego Aranha - - ^ -no Alemtéjo. 
Guilherme Eschwege , Barão de Echwege , - em J^llla Rica. 
Guilherme MuUcr --------- ^^ Londres. 

Jacobo Graberg de Hemso - - - - ^ - em Tangei^è, 

Ignacio António da Fonseca Benevides - - em Lisboa. 
João António Monteiro ----.* ém Freyberg, 

João Bell ----.-_-__. f,„ Lisboa. 

João Croft ---^ - • em Londres. 

João Laureano Nunes Loger - nn Lisboa. 

João de Macedo Pereira da Guerra Forjaz em Castello Branco. 
João Manoel de Campos e Mesquita - - - em Aveirú. 
João da Silva Feijó -----. no Rio dt 'janeiro. 

João Theodoro Koster -----_-- emLondrei. 

Joaquim de Amorim e Castro • ' - no Rio de Janeiro. 
Joaquim de Santa Anna Carvalho - ~ - - em Setúbal. 
D. Joaquim José António Lobo da Silveira ' - - em Berlim. 
Joaquim José Varella - - - - i'-' etti Aíonte mor o novo, 

Joaquim Machado de Castro - ->-■-- - em Lisboa. 
Fr. Joaquim Rodrigues ----___ em Lisboa. 

Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo ,• no Convento da Fraga , 

em Viseu. 
Joaquim Xavier da Silva - - . ~ - -' . em Lisboa. 
José Accursio das Neves ------- em^ Lisboa. 

Fr. José de Almeida Drak ------ eni Lisboa. 

Fr. José de Santo António Moura - - - - em Lisboa. 

José Avelino de Castro ------- no Porto. 

José Calheiros de Magalhães e Andrade - - em Braga. 
Fr. José da Costa e Azevedo - • - no Rio de Janeiro. 
José Egidio Alvares de Almeida - - no Rio de Janeiro. 
José Feliciano de Castilho ------ em Coimbra. 

José Jacinto de Sousa -------- no Porto. 

José Ignacio da Costa ------- em Lisboa. 

José Ignacio Paes Pinto de Sousa e Vasconcellos no Porto. 
José do Loreto -------- --ew Londres. 

Tom, F. Part. IL * 14 Jo- 



cvi Historia da Academia Real 

José Manoel Ribeiro Vieira de Castro - - - iw Porto, 

Jos(í Manoel de Sequeira. __--_. j;^ Cuiabá. 

D.José Maria da Piedade Lencastre e Silveira, 

Marquez de Abrantes ,------- í»» Lisboa. 

José Portel li > ___._-_--. ^wí Lisboa. 

José Romer Luiz de KcrckhofF ----- fw/ Anvers. 

José de Sá J3ctancourt -------- tia Bahia. 

José Thcresio Michelotti ------- íw Lisboa. 

D. José Valério , Bispo de Portalegre , - - evi Portalegre. 

Fr. Lourenço do Desterro Coutinho - - -em Coimbra. 

Lucas Tavares -------- ..-em Lisboa. 

Luiz António de Oliveira Mendes - - - - na Bahia. 

Luiz Dias Pereira --------- cm Lisboa. 

Luiz Henriques , Barão de Block , - - - - em Dresda. 

Luiz Leonardo de Vasconccllos Almeida e Se- 
queira ( Monsenhor Sequeira ) - - - ' em Bemfica. 

Manoel Agostinho Madeira - - - - em Torres Vedras. 

Manoel Jacinto Nogueira da Gama - - no Rio de Janeiro. 

Manoel José Maria da Costa e Sá - - - - em Lisboa. 

Manoel José Mourão de Carvalho Monteiro na Mealhada. 

Manoel José Pires --------- m/ Lisboa. 

Manoel Pereira da Graça - - - - na Ilha da Madeira. 

D. Miguel António de Mello ----- ew Lidoa. 

Fr. Patricio da Silva -.-.-.--gm Coimbra, 

Paulo José Maria Ciera .------- pw Lisboa. 

Pedro Celestino Soares '-.------ em Lisboa. 

Pedro Gianinni ---------- wí Bolonha. 

Rodrigo Ferreira da Costa - - - - • - em Lisboa. 

D. Thaddeo Manoel Delgado - - - - em Hespanha. 

Thomé Rodrigues Sobral - - - - - . - -em Coimbra. 

Vicente Gomes de Oliveira - - - - no Rio de Janeiro. 

Vicente José Ferreira Cardoso - - na Ilha de S. Miguel. 

Wencesláo Anselmo Soares ------ em Lisboa. 



RE- 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. 



CVII 



RELAÇÃO 

Dos Membros , e Correspondentes da Instituição Vaccinica 
da Academia Real das Sciencias. 



Membros da Instituição Vaccinica. 

Bernardino António Gomes ...... em viagem. 

Francisco Elias Rodrigues da Silveira . . . em Lisboa. 

Francisco de Mello Franco m Rio de Jatieiro. 

■ Francisco Soares Franco em Coimbra. 

Ignacio António da Fonseca Benevides . . em Lisboa. 

Joaquim Xavier da Silva em Lisboa. 

José Feliciano de Castilho em Coimbra. 

José Maria Soares em Lisboa: 

José Pinheiro de Freitas Soares em Lisboa. 

Justiniano de Mello Franco .... no Rio de Janeiro. 
Wencesláo Anselmo Soares em Lisboa. 



Correspondentes da Instituição Vaccinica. 

D. Angela Tamagnini de Abreu em Lisboa. 

António de Almeida , Medico em Penafiel. 

António Anastasio de Sousa , Medico . . . em Pombal. 
António Joaquim de Carvalha, Medico em Ponte de Lima. 
António José de Almeida , Medico . ... em Mafra. 
António José Giraldo de Oliveira, Cirurgião em Tavira, 
António Manoel Pedreira de Brito , Cirurgião em Filia nova 

da Cerveira. 



14 u 



An- 



cviii HisTOBiA DA Academia Real 

António Pereira Xavier , MeJico no Craío. 

Carlos António Lopes Pereira , Cirurgião no Peso da Regoa, 
Carlos Frederico Lccor , Tenente General , em Monte Video. 
Domingos José da Fonseca , Cirurgião Mor do 

Batalhão de Caçadores N. 4 . . . . em Penamacor. 
Fernando António Cardoso, Cirurgião . . . em Peniche. 
Francisco Ignacio Pereira Rubião , Medico . em Filia Real, 
Francisco Manoel de Albuquerque , Medico . em Pinhel. 
Francisco Maria Roldão , Cirurgião • . . tio Cano. 
Francisco Xavier de Almeida Pimenta , Medico fw Sardoal. 
Francisco Zefyrino Mendes , Cirurgião . . em Estremoz. 
João António de Carvalho Cliaves , Medico . no Redondo. 
João António Rodrigues de Oliveira , Cirurgião em Lamego. 
João António dos Santos Cordeiro, Cirurgião em Monforte. 
João Gervásio de Carvalho, Medico . . . no Cartaxo. 
Joaquim António Novaes, Medico .... na Certa. 
Joaquim António de Oliveira, Cirurgião . . naGollegu. 

Joaquim Baptista , Medico em Fotizella. 

Joaquim Gomes Barroso , Cirurgião em Santa Leocadia de Pe- 
dra furada. 
José António Barbosa da Silva , Cirurgiáo . em Santo Tyrso. 
José Duarte Salustiano Arnaud , Medico . . no Porto. 

José Fradesso Bello , Cirurgião em Elvas. 

José Gomes Cabral , Cirurgião na Guarda. 

José Guerreiro da Silva , Juiz Ordinário em Filia nova de mil 

fontes. 
José Ignacio Pereira Derramado , Medico . . em Portel. 
José Ignacio da Silva , Cirurgião .... em Estremoz. 

José Joaquim Mixote , Cirurgião tio Redondo. 

José Luiz Pinto da Cunha , Cirurgião em Fiana do Minho. 
José Maria Bustamante , Medico .... em Alvito, 
José Maria Pereira de Sousa, Cirurgião Mor do 

Regimento de Cavallaria N. 8 .... em Niza. 
José Nunes Chaves , Medico . . em Filia nova de Portimão. 
José Pinto Rebello de Carvalho, . . na Filia de Barcos. 
José Pinto da Cunha, Cirurgião . . em Coutto de Travanca, 

Jo- 



S13U 01 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. Cljt 

José dos Santos Dias , Medico . . . .em Montalegre. 
Luiz Cypriano Coelho de Magalhães , Medico . em Aveiro. 
Luiz Gonzaga da Silva , Medico .... em Santarém. 

Luiz Mendes Fortio , Cirurgião em Âviz. 

Luiz Soares Barbosa , Medico em Leiria. 

Manoel Coelho do Nascimento, Cirurgião . . emCollarcs. 
Manoel Lopes de Carvalho , Cirurgião . . em Bellas, 
Manoel José Malheiro da Costa Lima em S. Vicente de Penso. 
Manoel José Mourão de Carvalho Azevedo Mon- 
teiro , Medico na Mealhada. 

Manoel Vicente , Cirurgião fia Guarda. 

D. Maria Isabel WanzcUer no Porto. 

Nicolão de Sousa Galliao , Cirurgião . . em Lanhezes. 
Pedro António da Silva , Cirurgião . na Marinha Grande. 
Pedro António Teixeira de Pinho , Cirurgião , em Ovar. 



ME^ 



li-HH OI 



MEMORIAS 

DOS 

SÓCIOS. 



SI3.VÍ OI 



k 



MEiMORIA SOBRE A DISTILLAÇÀO. 

Por António ue Araújo Travassos. 



D. 



Os pioductos deste Reino lie o vinho o que princi- 
palmente alenta o nosso commercio com os paizes estran- 
geiros ; outro tanto se pódc dizer a respeito do commer- 
cio de muitas Ilhas pertencentes á Coroa de Portugal : bem 
se vê disto quão considerável he o consumo de boa aguar- 
dente , para o preparo daquelle artigo , e quanto para lamen- 
tar que grandissima porção venha de fora ! No Brasil a dis- 
tillação dos melaços , e exportação de aguardente de cana 
he similhantcmcnte hum grande ramo de commercio. A ne- 
nhuma Nação pois compete mais do que á Portugueza o co- 
nhecer e praticar os methodos de obter licores espirituosos 
com a maior perfeição e economia : e creio que he bem 
conforme com os principios de instrucção e utilidade publi- 
ca , que professa a Académica Real das Scicncias, o apresen- 
tar a esta respeitável Corporação hum resumo dos princi- 
pacs aparelhos distillatorios , de que se servirão os anti- 
gos , dos que se tem posto em pratica nos tempos moder- 
nos , e finalmente de alguns , sobre que já ha mais de onze 
annos o Principc Regente Nosso Senhor me concedco Pri- 
vilegio , os quacs agora acho que são pouco differentes, ou 
pelo menos abrangem as vantagens dos que com grande 

I aplauso se tem depois publicado já em Escócia , já em Fran- 
ça como inventos de outros homens , particularmente de 
Duarte Adam , e de Isaac B crard, 
Mr. (^haptal extrahio de hum escripto de outro Bcrard 
( Estevão Bcrard^) a historia dos principaes alambiques anti- 
, Tom. F. Paru II. A gos 



2 Memorias iiA Academia Real 

gos e modernos , e achou próprio inserir tão importantes 
noticias em humas observações que lêo sobre esta matéria 
no Instituto nacional de França em 1809. Creio que longe 
de me ser cxtranhado , me lie honroso querer seguir tão 
respeitável exemplo , traduzindo resumidamente as ditas ob- 
servações daqucUc Sábio ( o que dará matéria á primeira 
parte desta Memoria); para que se comparem os meus pró- 
prios aparelhos distillatorios ( cuja descripção encherá a se- 
gunda parte) com alguns a que elle faz grande elogio. 



PRIMEIRA PARTE. 



N> 



Em os Gregos, nem ainda os Romanos usarão de alam- 
biques , e posto que se servissem da palavra distillatio , não 
tinha então este vocábulo a significação de que agora se tra- 
ta. Plinio que viveo no primeiro século da era Christa , 
escreveo hum livro sobre as vinhas e vinhos, c quanto lhes 
he concernente , sem dizer huma só palavra a respeito de 
aguardente. 

A arte da distillaçao parece ter nascido entre os Ára- 
bes , donde succcssivamente passou para Itália , Hespanha , 
e Sul da França. A palavra alambique he Arábica , c já era 
usada antes do Século X , porque Avicena nesta época usou 
delia, comparando o catarro com huma distillaçao, em que 
o estômago he a cucurbita , a cabeça o capitel , c o naiiz 
o bico por onde escorre o humor. Rases e Albucase des- 
creverão processos particulares para extrahir os princípios 
aromáticos das plantas ; os capiteis em que se recebião os 
vapores erão refrescados com panos molhados. 

Ray mundo Lullo no Século XIII teve conhecimento 
não só da aguardente , mas também do espirito de vinho 
ou álcool ; na sua obra Testamentum jiovissimum diz que se 
fazem sete rectificações , mas que bastão três , para que o 
álcool seja inteiramente inflammavel sem deixar residuo aquo- 
so. Arnaldo de ViUa-nova , que viveo no mesmo Século , faU 

la 



sia^ OT. 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. J 

la muito da aguardente , e dá algumas novas applica^ões 
deste producto da distillaçao; mas segundo se vê do já re- 
ferido , não foi o primeiro inventor de alambiques , e mui 
injustamente lhe tem sido attribuida esta gloria. 

Miguel Savonarole que no principio do Século XV es- 
creveo hum tratado sobre o modo de fazer a aguardente , diz 
que antes delle o processo da distillaçao consistia em pôr 
o vinho em huma caldeira de metal , recebendo cm hum 
tubo banhado por agua fria o vapor , o qual alli conden- 
sado corria para hum recipiente. Observa que os distillado- 
res formavão sempre os seus estabelecimentos junto a hu- 
ma corrente de agua , para a poderem ter const.mtemente 
fria. Ajunta que no seu tempo se introJuzio o uso de cu- 
curbitas de vidro para se obter a aguardente mais perfei- 
ta , e que se esfriavão com panos molhados os capiteis , os 
quaes aconselha que sejao mui grandes para multiplicar as 
superfícies : entre outras cousas curiosas também diz que 
alguns fazião o collo , que une a cucurbira ao capitel , o 
mais comprido que lhes era praticável , para obterem assim 
logo de huma vez a aguardente perfeita : hum amigo delle 
chegou a pôr a caldeira no nivel da rua , e o capitel no 
cume da casa. 

João Baptista Porta no fim do Século XVI em o seu 
tratado de ítistillatmibus encara a distillaçao por todos os 
ladoS , applicando esta operação a todas as matérias que são 
susceptiveis delia, e descreve alguns aparelhos para obter 
logo de hum2 vez o álcool daquelle gráo que se queira : 
hum destes he hum tubo formado em espiral , unido em ci- 
ma da caldeira; outro consiste cm diversos capiteis postos 
huns em cima dos outros , cada hum com sua abertura ao 
lado , á qual se a(;lapta hum bico que ajusta no recipiente. 
Segundo as indagações de Rubêo sobre a distillaçao os an- 
tigos tinhão usado de processos pouco diíFerentes destes. 

Nicolao Lcfebvre em 165-1 publicou a descripçao de 
hum aparelho para obter em huma única operação álcool 
o mais livre de fleuma j he hum longo tubo formado de 

A ii mui- 



4 Memo«iasdaAcap,emiaRkal 

muitas peças , que encaixão humas nas outras em forma de 
zigzag , estando unida huma extrciTiidade á caldeira, e aca- 
bando a outra no capitel , em cujo bico ajusta outro tubo 
que atravessa luima tina cheia de agua fria para alli se con- 
densarem os vapores. 

O Doutor Arnaldo de Lyon na sua Introduction a la 
Cbimie ou à la vraie physiqtte ^ impressa em 1655 , dá muito 
bons princípios sobre a composição dos fogões e modo de 
dirigir o fogo ; aconselha que as caldeiras sejao baixas pa- 
ra facilitar a evaporação , e falia da conversão da aguar- 
dente em espirito de vinho , por meio de repetidas distilla- 
ções , ou de huma só cm banho-maria. 

João Rodolpho Glauber na sua obra Descriptio artis 
distíl/ntoriae novae f impressa, em 1658, descreve alguns apa- 
relho* , em que se reconhece o germe de vários processos 
que se tem aperfeiçoado nos nossos tempos. Consiste hum 
em transmittir os vapores da distillação para hum vaso ro- 
deado de agua fria , passando os que nelle não se conden- 
são para outro vaso similhantemente banhado, o qual cora-» 
munica com o primeiro por hum tubo arqueado , e assim 
por diante, de vaso em vaso, até ser perfeita a condensação. 
Outro aparelho de Glauber consiste em adaptar a hum to- 
nel , em que está o vinho que se quer distillar, o bico de 
huma retorta de cobre , posto sobre hum fornilho , tendo 
unido á parte superior do mesmo tonel hum tubo que con- 
duz o vapor a huma serpentina mettida dentro de agua fria. 

No ultimo capitulo de huma obra de Felippe Jacqucs 
Sachs, impressa em Leipsick em 1661 com o titulo de Fi- 
tis viuiferae ejurque partium cmisideratio ^ vê-se que os antigos 
usarão de vários modos de extrahir do vinho os espiritos; 
ellcs empregavão hum calor muito suave , ou separavão a 
fleuma do vinho por meio de pedra-hume calcinada , ou 
punhão pedaços de gelo sobre o capacete do alambique , 
para que passassem somente os vapores mais subtis , ou fa- 
zião o collo da cucurbita muito comprido. 

Moise Chavos em a sua Pharmacopéa impressa em 

1676 



Évr.r Cl 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. ^ 

lóyó descreve o aparelho de Nicoláo Lctobvre , additandu- 
Hic alguns aperfeiçoamentos , e adaptando hum refrigeran- 
te ao capitel. 

Nos Elementos de Chimica de Barchusen impressos em 
17 i8, e nos de Boerhaave que se virão em Paris em 1733 , 
achâosc vários modos de obter o álcool muito puro logo 
com huma única applicação de calor: consistem todos em 
fazer passar o vapor por tubos muito extensos , a fim de se 
condensar a parte aquosa , e receber a final o espirito mais 
puro e ligeiro. 

Desde aqueila época até o meio do ultimo Século o 
aparelho usado nas fabricas de distillação era huma caldei- 
ra redonda tão larga como profunda , reduzida na boca i 
terça parte do diâmetro , com seu capitel bastantemente al- 
to , em cujo bico ajustava huma serpentina de seis ou se- 
te voltas em espiral. Com este aparelho , de que ainda 
hoje geralmente se faz uso entre nós, extrahia-se do vinho 
a aguardente commum , e desta com segunda distillação 
o álcool em banho-maria , ou a fogo muito brando , conti- 
nuando a operação por mais ou por menos tempo , confoi^ 
me o gra'o c qualidade que se desejava. 

Depois do meio do Século passado até aos últimos tem- 
pos o principio fundamental , que tinha dirigido os aucto- 
res que tratarão de distillação , foi facilitar a ascensão dos 
vapores fazendo maior a largura e a abertura da caldeira , 
e menor sua profundidade ; c operar huma pronta e com- 
pleta condensação por meio não só da serpentina , mas de 
hum refrigerante que banhava o capitel. 

Com esta ultima forma de alambiques, e com meios 
mais económicos de applicar o fogo , conseguio-sc efflcti- 
vamente muito grande vantagem sobre as formas de que pre- 
cedentemente se tinha feito uso ; mas desprczou-sc de to- 
do este mui importante principio: Que os vapores espirituo' 
SOS do vinho , quando ferve , sempre sobem acompanhados de huma 
mator ou menor porção de vapores aquosos , dos quaes he neces- 
sário separallos para que o álcool seja puro. Esta separação pô- 
de 



ÍI2U 01 



6 Memorias DA Academia Real 

de effcctuar-se por dois modos , ou fazendo passar os vapo- 
res por tubos compridos e tortuosos , que apresentem gran- 
de superfície , a fim que só cheguem á parte mais distante 
os vapores puramente espirituosos, cahindo na caldeira con- 
densados os aquosos , se não se lhes dá sahida para reci- 
pientes separados ; ou conservando o vaso que recebe os va- 
pores banhado por hum Hquldo , cuja temperatura esteja cons- 
tantemente entre 6<; e 70 grdos de Reaumur , a fim de alli 
se condensar o vapor aquoso , passando a condensar-sc o es- 
pirito em outros vasos mais frescos. 

He em conformidade com estes princípios , diz Mr. 
Chaptal , que no sul da França se tem ultimamente construí- 
do aparelhos distillatorios , sem comparação mais perfeitos 
do que os anteriormente conhecidos. O primeiro he o gran- 
de aparelho de Duarte Adam. Consiste em duas caldeiras 
chatas , postas sobre dous fogões , com huma chaminé com- 
mum : as tampas são muito bem seguras com parafusos , e 
do meio de cada huma eleva-se hum tubo que arquêa a al- 
guns pés de altura , e mergulha em o vinho que está em 
hum grande vaso oval ; da parte superior deste , a qual se 
conserva vasia , sahe segundo tubo , que similhantemente mer- 
gulha em outro vaso também oval mais pequeno que o pri- 
meiro ; do segundo sahe outro tubo que mergulha em ter- 
ceiro vaso, e deste outro que igualmente mergulha em quar- 
to ; de sorte que em seguimento das duas caldeiras estão 
postos quatro grandes vasos , communicando entre si por tu- 
bos arqueados, e contendo muito grande porção de vmho. 
( Esta primeira parte do aparelho de Duarte Adam represen- 
ta bem fielmente toda a parte mecânica do muito conhecido 
aparelho de Wolfio. ) Hum tubo que sahe da parte vasia do 
quarto vaso oval conduz os vapores do vinho que ferve nas 
duas caldeiras, e nos quatro vasos ovaes , para hum recipien- 
te de forma redonda , com a metade inferior mergulhada em 
huma tina de cobre com agua , n^ qual está também outro 
recipiente para os vapores que não se condensão no primei- 
ro; depois desta tina ha duas mais, cada huma com dois re- 

ci- 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 7 

cipientes de maneira que chega a seis o numero dos reci- 
pientes, por- onde succcssivamcnte passa o vapor, e o que 
nelles não se condensa enfia hum longo tubo até chegar a 
huma serpentina elevada e reírescada em huma tina , pelo 
vinho que djlii já vai quente para a caldeira ; desta serpen- 
tina passa para outra refrescada por agua fria , e corre a 
final cm o vaso destinado a receber o ultimo producto da 
distillação. Tal he a idca que se pode formar deste sober- 
bo e immenso aparelho , no qual se distillão de cada vez 
seis a oito mil pintes de vinho, isto he , 330 a 440 almu- 
des , passando os vapores espirituosos por conductos de 100 
metros de comprido , isto he mais de 9 1 varas Portugue- 
zas , antes de se completar sua condensação. 

Eu não fallo , diz Mr. Chaptal , do modo de montar 
o aparelho , nem dos meios de recolher os productos , ou 
de novamente os lançar na caldeira á medida que se conden- 
são na serie de refrigerantes ; basta observar que o serviço 
deste bello aparelho se faz mui commodamente ; de bons 
depósitos se eleva o vinho por huma bomba á altura con- 
veniente para correr para a tina em que está a serpentina 
superior, e passar depois de quente para dentro da caldeira 
por competentes tubos 5 torneiras no fundo dos vasos ovaes 
dão sabida ao resíduo por outros tubos que similhantemen- 
te o conduzem á caldeira , a fim de alli se acabar a distil- 
lação com hum calor mais forte. 

Para claramente se entender o todo deste apparelho se- 
rá bom considerallo debaixo de dois pontos de vista , ou di- 
vidido em duas partes, huma distillatoria ^ a outra cmidensato- 
ria. A primeira hc formada de duas caldeiras , e quatro va- 
sos ovaes que contem o vinho , e conduzem os vapores de 
huns para os outros por tubos arqueados , á maneira do apa- 
relho de Wolfio , consistindo a operação em aquecer e fa- 
zer evaporar o liquido pelo vapor que nelle entra muito 
quente ; processo dcscripto pelo Conde de Rumford nos 
seus Ensaios Políticos , Económicos , e FiJosoficos. 

He incontestável , diz Mr. Chaptal, que esta parte do 

pro- 



SI3U or 



8 Memorias da Academia Real 

processo de Adam dà o meio de aquecer buiiia grande porção 
de vinho com hum só fogão , e 'que por consequência, ha jd nis- 
to grande economia em braços ^ tempo ^ e combustivcl. Em quan- 
to á economia de combustível , não estou do mesmo acor- 
do : no primeiro capitulo da segunda parte desta Memoria 
se verá que segundo as exptíricncias do Conde de Rumford , 
não he mais económico aquecer de huma vez porções de 
agua e::traordinariamenrc grandes , do que porções mais mo- 
deradas. Diz também : Tem ao mesmo tempo a vantítgem inapre- 
ciavel de extrabir maior quantidade de aguardente de huma da- 
da quantidade de vinho ; esta ultima vantagem provem certamen- 
te do maior grão de pressão y e di^ calor , porque se faz passar 
este liquido , principalmente na caldeira e nos primeiros vasos 
ovaes. Muito attcndivel hc esta proposição de Mr. Chaptal , 
e também na segunda parte desta Memoria farei algumas 
considerações sobre este ponto. 

A segunda parte do aparelho de Duarte Adam hc for- 
mada dos seis recipientes dois em cada tina , banhados etn 
agua pela sua metade inferior; communicando de huns pa- 
ra os outros , e passando do ultimo o vapor que nelle não 
acaba de se condensar para a serpentina mais elevada ba- 
nhada com o vinho , da qual corre finalmente para outra ser- 
pentina mettida em agua fria. 

Ve-se que este aparelho condensatorio tem a vantagem 
de produzir logo de huma vez aguardente de todos os grãos 
que se deseje ; a segunda vantagem he aquecer no primei- 
ro banho da serpentina huma grande massa de vinho suffi- 
ciente para fornecer a caldeira : outra vantagem he , bastar 
pouca agua para o serviço do aparelho , visto que o álcool 
se condensa em grande parte na serpentina bainhada pelo 
vinho , e recebe pouco calor a agua que banha a segunda 
serpentina. 

Pode dizer-se contra este aparelho , que não sendo pra- 
ticável por pequenos fabricantes , tende a pôr o commercio 
dos vinhos e aguasardentes nas mãos de hum pequeno nu- 
mero de especuladores ricos. Também se pôde ajuntar que 

a 



DAS SciENCrAS DE L I S B O A. ^ 

a resistência que oppócm á passagem dos vapores as quatro 
columnas de vinho nos quatro vasos ovacs faz huma pres- 
são tal contra as paredes da caldeira , que a nao haver pru- 
dentissimas precauções, muito seria de recear alguma explo- 
são. Em fim os vasos condcnsatorios , só meio banhados na 
agua , não refrescão quanto convém , e por isto se fazem ne- 
cessários em maior numero do que podia bastar, resultando 
disto gasto supérfluo no estabelecimento, sem accrcscimo 
de vantagem ou melhoramento no aparelho. 

Estes principaes inconvenientes forao bem notados por 
Mr. Estevão Berard, e o próprio Duarte Adam os tinha já 
reconhecido, tendo feito construir outros apaielhos mais pe- 
quenos , em que ha apenas dois vasos distillatorios , inclui- 
da a caldeira , e dois vasos condcnsatorios , de que o se- 
gundo hc repartido em três vãos, por onde os vapores pas- 
são successivamente até chegar ás duas serpentinas , a pri- 
meira banhada pelo vinho , e a segunda por agua fria. 

Mr. Solimani de Nimes construio aparelhos segundo 
os mesmos principios , e pouco mais ou menos no mesmo 
tempo que Dunrte Adam , elle até pertende a gloria da 
prioridade do invento. 

O Aparelho de Isaac Berard só he relativo á parte con- 
densatoria , e segundo a opinião de Mr. Chaptal , he o twn 
phis ultra da perfeição j estas são as suas próprias palavras, 
e desculpe-sc-me dizer que me são muito liyongciras ; pois 
o condensador de Berard diíFere tão pouco do que eu ado- 
ptei entre os mais aparelhos distillatorios , cuja descripção 
apresentei á Real Junta do Commercio em 1803 (e que já 
alguns annos antes tinha mostrado a alguns amigos), que 
não seria mui estranho presumir-se , que já antes disto me ti- 
nha constado o invento de Berard , se agora não se sou- 
besí^c que naquelle tempo ainda elle o não tinha publicado, 
c que em 1805 hc que obteve privilegio; ou que alguém o 
informou do meu invento , e elle o publicou como cousa 
sua, feitas ligeiras alterações: o que muito longe estou de 
pensar , não só porq.ue acabamos de ver que já vários au- 
Tom. V. Part. II. B to- 



to Memorias DA Academia Reai, 

torcs antigos construirão aparelhos análogos a estes de que 
SC trata ; mas também porque todos sabemos que não he ra- 
ro encontrarem-se idéas similhantcs em pessoas difFcrcntcs , 
quando com a mesma espécie de talento , e partindo dos 
mesmos principios se dedicao seriamente a investigar o mes- 
mo objecto ; alem disto não se pódc dizer que he huma 
copia fiel do outro. 

O condensador de Berard he hum cilindro de decime- 
tro e meio de diâmetro, e metro e meio de comprido, ba- 
nhado com agua na temperatura de 6o a 70 gráos de Rcau- 
mur , e dividido interiormente por paredes ou diafragmas 
perpendiculares aos lados , cm diversos rcpartimcntos que 
tem communicação huns com os outros por duas aberturas , 
huma na parte superior de cada diafragma para dar passa- 
gem ao vapor , e outra na inferior para escorrer e entrar 
novamente na caldeira a aguardente fraca c fleuma ; tendo- 
se por esta razão collocado o dito cilindro com a inclina- 
ção necessária. Por meio de competentes torneiras pôde obri- 
gar-se o vapor do vinho ou a não entrar no condensador, 
indo directamente a huma serpentina ; ou a passar só por al- 
gumas ou por todas as divisões delle, segundo se queira 
aguardente commum , de prova, ou espirito puro. 

Os dois aparelhos de Duarte Adam , e Isaac Berard , 
posto que difFerem hum do outro, preenchem sem duvida o 
mesmo fim , isto he , o de fazer-se a separação entre os va- 
pores aquosos e alcoólicos por meio da condensação ; mas 
os meios empregados são muito dilFercntos , e se nestes se 
quizer achar similhança , será preciso concordar em que to- 
das as maquinas successivamente inventadas para produzir o 
mesmo effeito são similhantes entre si. 

Ajuntando, diz Mr. Chaptal , o que nos ditos dois apa- 
relhos he mais perfeito, poderia construir-se hum , que pou- 
co deixasse a desejar. Pensa que se póJe adoptar do soberbo 
aparelho de Duarte Adam o modo de aquentar o vinho pelo 
vapor, diminuindo com tudo o numero dos vasos ovaes , os 
quaes bastão ser dois , hum para o vinho , e o outro para 

as 



dasScienciasdeLisboa. II 

as aguasardentcs fracas e aquosas ; desta sorte se minorai ia 
a enorme pressão que soffrcm os vapores para vencer a re- 
sistência que lhes oppocm as quatro columnas do liquido 
nos quatro vasos ovaes , com o que ficaria evitado o perigo 
de explosão ; seria desnecessário empregar tanto metal na 
grossura dos ditos vasos e caldeira , nem tanto cuidado e 
trabalho em argamassar as juntas ; nem haveria o risco de 
tomarem as aguasardentcs gosto empyreumatico , o que prin- 
cipalmente acontece no fim da distillaçao , ou quando o li- 
cor a ella submettido não he vinho, mas sim cerveja, ci- 
dra , ou outros algum tanto viscosos : e neste caso melhor 
hc lançar na caldeira exposta ao fogo agua , e não os ditos 
licores , para que seja o vapor aquoso e não o fogo o que 
immcdiatamente lhes communique o calor, ficando por'est<; 
modo inteiramente livre de empyreuma a aguardente que 
dalli resultar. 

A este primeiro aparelho distillatorio seria bom adaptar 
o condensador de Isaac Bcrard , ao qual se seguiriâo final- 
mente as duas serpentinas de que usa Duarte Adam. E con- 
clue Mr. Chaptal as suas observações com o seguinte pa- 
ragrafo. 

it As vantagens deste processo de distillação são incal- 
culáveis, as suas aplicações são sem numero; mas nem pa- 
ra fazer gozar a Nação deste importante ramo de industria 
he permittido privar os homens hábeis que o creárão , de 
huma propriedade que adquirirão por seus inventos , e pelas 
Cartas de privilegio que lhes forâo concedidas. O Governo 
pois deveria tratai com Duarte Adam , e com Isaac Berard 
para o fim de que esta sua propriedade fosse commum : por 
maior que fosse a compensação que se lhes concedesse, se- 
ria mui pequena relativamente ao beneficio que disto havia 
de resultar para a industria e commeicio da França. >» 



B ii SE- 



12 MEMOftiAâ DA Academia Real 

SEGUNDA ^ARtE. 

Endo dado conta de vários aparelhos distillatotios an^ 
tigos e modernos pela mesma ordem com que o fez Mr. 
Chaptal nas suas Observações, seguc-se agora descrever al- 
guns dos meus próprios : e para que se veja o que ncUcs 
he novo e melhor, ou peior, ou idêntico com os que pas- 
são por mais celebres , será bom considerallos divididos em 
três partes principaes , a saber: i." o fogão, e modo de a- 
piicar o calor ao liquido que se quer distillar: j." a forma 
da caldeira, e modo de se fazer a distillaçao: 3." o refri- 
gerante , e modo de condensar os vapores : e estes scrao os 
objectos dos três seguintes Capítulos. 



A 



Capitulo I. 



Construcção de fogões , que tem merecido maior ap- 
plauso , he a do Conde de Rumford : consiste em fazer gi- 
rar o fogo e chamma em canos horisontaes, em contacto 
com o fundo, e ainda com os lados da caldeira , permlttin- 
do a entrada do ar somente pela parte inferior das grelhas. 
Chegou a conseguir aquelle Physico que huma grande por- 
ção de agua fria, no gra'o de congelação, fervesse, e che- 
gasse a 80 gráos de Reaumur, com a combustão de hu- 
ma vigessima parte em peso de lenha de pinho seco , is- 
to he , que hum arrátel de lenha de pinho fizesse ferver vin- 
te arráteis de agua : o que excede a quanto se tinha con- 
seguido nas operações vulgares da cozinha , e das Artes : e 
esta construcção tem sido adoptada pelos principaes distii- 
ladores. 

A construcção do-; meus fogões he muito differente , 
he fácil , e não depende da habilidade do pedreiro : eiles 
estão unidos á caldeira , ou a huma bacia , que lhe serve de 
banho. Consistem em hum tubo de metal collocado vertical- 

men- 






DAS SciKNCIAS DE LlSBOA. IJ 

mente ou com alguma obliquidade por exemplo de 8o a 
70 gráos ; do comprimento de sete, dez, ou mais vezes o 
seu diâmetro , segundo a qualidade de combustível , e quan- 
tidade do liquido ; com humas grelhas enconchadas junto 
á extremidade inferior, tendo ahi mais largura para conter 
sufficiente porção de lenha ou carvão, estreitando logo abai- 
xo das referidas grelhas , e acabando como em funil ; isto 
he , sendo pela metade ou terça parte do diâmetro das mes- 
mas grelhas a abertura inferior por onde cahcm as cinzas 
e entra o ar. Concêntrico a este tubo está outro exterior- 
mente, na distancia de huma oitava ou decima parte do diâ- 
metro , e he cheio o intervallo com algum liquido , cuja 
fervura somente seja possível naquelle gráo de calor, ou 
pouco acima do que for próprio para a matéria que se quer 
distillar ; a qual se lança dentro de hum vaso ou caldeira 
que encaixa , e he banhada em a espécie de bacia que tem 
communicaçáo com o intervallo dos dois tubos pela parte 
superior destes , e que deve conter huma porção do mesmo 
liquido de que está cheio o dito intervallo. Cobre-se o tu- 
bo externo e toda a superficie da bacia com algum estofo 
ou acolchoado de lã , ou com outra qualquer matéria pou- 
co conductora de calor , para que não haja grande perda , 
e se communique quasi todo ao liquido que se quer dis- 
tillar em puro beneficio da evaporação. Tão superiores são 
estes fogões aos até agora praticados , que feita a compa- 
ração dclles com os melhores de Rumford , lhe excedem 
muito consideravelmente na economia de combustível. Com 
os meus consegue-se que forvão e adqulrão 80 gráos de ca- 
lor , segundo o thcrmomctro de Reaumur , vinte e tantos, 
trinta, c mais arráteis de agua no gráo de congelação, cora 
o calor desenvolvido na combustão de hum só arrátel de le- 
nha ; o que melhor se nóde ver no meu Ensaio sobre a eco- 
nomia dos combustíveis , no qual se relatao as experiências 
que se fizcrão a este respeito no Real Laboratório Chlmlco 
da Casa da Moeda , e no Arsenal Real do Exercito. 

E grande conveniência he obter-se com pouca dlfFcren- 



ái::J OT 




14 Memorias da Academia Real 

ça a mesma economia de combustível quando se opera em 
pequenas , como cm grandes porções ; o que não acontece 
fazendo uso dos fogões de Rumford, pois quando a quan- 
tidade de agua , nas mais celebres experiências deste sábio 
Philathropo , foi somente cousa de oito arráteis , não obte- 
ve mais economia do que ser o peso do combustível con- 
sumido a respeito do peso da agua , que do gráo da conge- 
lação passou ao da fervura , como hum para menos de se- 
te ; quando a quantidade de agua foi 43 libras esteve pa- 
ra ella o combustível na razão de hum para doze j somente 
chegou a ser na razão de hum para vinte quando a quan- 
tidade da agua foi 187 libras; quando foi de $o2 libras 
foi a economia quasi a mesma ou pouco menor ; e quando 
foi a quantidade de agua 11:368 libras esteve o peso do 
combustível consumido a respeito da agua , que adquirio 80 
gráos ou ferveo , como hum para 14^. 

Suppondo agora que os fogões de Duarte Adam não 
são mais perfeitos do que os de Rumford , no que certa- 
mente parece-me que não lhe faço injuria ; operando elle 
em porções tão consideráveis como já vimos, isto he 400 
e tantos almudes ( o que ainda excede a quantidade de agua 
da mais avultada experiência de Rumford ) não ss. pode es- 
perar que o consumo da lenha esteja para a porção do li- 
quido , que eleva a 80 gráos na primeira caldeira a que im- 
mediatamente he applicado o fogo , em huma razão mais 
favorável que a de hum para quatorze e meio : daqui pa- 
rece-me que se pode deduzir que haverá huma vantagem 
de 40 a 50 por cento no consumo do combustível em sub- 
stituir os meus fogões aos do aparelho de Duarte Adam , 
e dos outros grandes actuaes distiliadores. 

Nem se julgue que esta comparação não pôde ser jus- 
ta , pelo motivo de ser o vapor o que naquelles aparelhos 
communíca o calor da caldeira que está sobre o fogo aos 
outros vasos cm que se evapora o liquido; esta circumstan- 
cia he independente das vantagens que resultão da construc- 
ção do fogão ; alem disto este expediente póàe ser utíl pe- 
la 



DAS SciCNCIAS DE LiSnoA. 1 5- 

la boa qualidade dos productos , sendo estes livres de em- 
pyrcuma , e pela cominodidadc de quem faz a distillação ; 
mas não he mais económico cm o gasto do combustível , 
nem o Conde de Rumford o propoz com esse intuito, mas 
sim para ser mais commodo o serviço, podendo estar o fo- 
gão consideravelmente distante de muitas tinas ou outros 
vasos, em que ao mesmo tempo seja preciso operar, e ha- 
ver certo gráo de calor , sem que para cada vaso ou cal- 
deira haja hum fogão , como geralmente acontece , e não 
com pequeno incommodo , nas fabricas de tinturaria, onde 
sem duvida he preferível o referido methodo de aquentar 
com o vapor. 

Certamente em quanto ao aceio e perfeição deste mo- 
do de aquentar os líquidos, pouco ou nada resta a desejar, 
todavia usando de imparcialidade, e não nos deixando fas- 
cinar pelo esplendor da novidade , he fácil de reconhecer 
que este methodo , exigindo tubos reguladores ou válvulas 
bem calculadas para evitar explosão , ou que se forme vá- 
cuo na caldeira e retroceda o liquido, exige huma construc- 
ção superior ao talento e habilidade dos vulgares constructo- 
rcs de alambiques , nem muito adequada á rudeza das pes- 
soas a que geralmente se encarrega a distíllação. Nem me 
persuado de que seja mais utíl communicar o calor por 
meio de huma corrente de vapor, a qual não he muito fá- 
cil conseguír-se constante e com a regularidade convenien- 
te , do que por meio de huma considerável porção de maté- 
ria liquida , na qual em volume igual se acumula em mui- 
to maior quantidade , sem que o gráo sensível exceda o 
que se deseja e he próprio , em contacto com o furtdo e 
l^dos da caldeira ou vaso a que deve communicar-se 

Vem a ser isto huma espécie de banho-inaria naquel- 
la temperatura ou gráo de calor que se deseje , este he 
exactamente o meu methodo , o qual supponho ser novo 
em qu.mto á forma do fogão , segundo já o descrevi ; e pou- 
co ou nada vulgar cm quanto a formar o banho com as 
m.terías liquidas próprias a receberem e demittirem o ca- 
lor 



i6 Memorias da Academia Real 

lor no gráo desejado. Pode fazer-se uso de agua commum , 
quando se quizcr cxrrahir álcool da agoardente ; de agua 
saturada mais ou menos , de sal marinho ou de outros ma- 
teriaes dissoluveis, quando for vinho o liquido que haja de 
distillar-se ; e quando seja necessário maior gra'o de calor 
que o que se pode conseguir usando de sacs ou outras ma- 
térias dissolvidas na agua , pôde emprcgar-se azeite ou ou- 
tros líquidos próprios para o intento. Nem se faz precisa 
grande porção destas matérias , porque o espaço entre os 
deus tubos , e entre a bacia e o vaso ou caldeira a que 
serve de banho , está perfeitamente fechado , tendo apenas 
hum orifício na parte superior, sem que chegue a exceder 
a duas pollegadas a grossura do referido espaço, b;'.stando 
até cm muitos casos que esta seja apenas de meia poUe- 
gada. 



APITULO II. 



A 



Forma de caldeiras recommendada pelos autores mais 
acreditados era, já havia mais de meio século, muito cha- 
ta e pouco profunda , e a abertura para a sahida do vapor 
muito grande, a fim de que a operação se fizesse pelo mo- 
do mais expedito. Segui de boamente , e levei quasi ao infinito 
estes principias^ com tanta mais razão quanto o meu princi- 
pal designio era purificar ou refinar aguasardentes fracas 
ou defeituosas ; e com este liquido ou com agua he que 
fiz experiências com os aparelhos de minha invenção , nas 
quaes o êxito excedeo quanto sobre o objecto anteriormen- 
te eu tinha concebido e esperado de mais lisongeiro. 

Desta minha expressão levei quasi ao infinito estes prin- 
cipias , bem se entende que reduzi por extremo a altura da 
caldeira , e augmentci seu diâmetro , fazendo o fundo in- 
teiramente plano para poder ser coberto pela pequena por- 
ção de liquido, que lhe lançava de cada vez, só com a in- 
clinação indispensável para dar sahida ao resíduo. Cheguei 

a 



DAS SciEKctAs DE Lisboa» 17 

a não lançar na caldeira para cada distillação mais do que 
huma pollegada de altura do liquido , c ainda muito me- 
nos; e quanto menor era a quantidade deste, tanto crescia 
a brevidade da distillação , alem do que proporcionalmente 
era de esperar. 

Por este auge a que levei a largura da caldeira e a 
abertura para sahir o vapor, e também pelo expediente de 
fazer cobrir a sua parte superior ou tampa, que fa.7. as ve- 
zes de capacete , com estofos ou acolchoados de la , ou 
com outras matérias más conductoras, bem em contrario da 
pratica que era e he ainda hoje seguida de lhe applicar 
hum refrigerante , ou de o conservar de,^cobe^to e exposto 
ao ar ; particularidades que não me consta alguém publi- 
casse njm praticasse , até ao tempo cm que eu pratiquei es- 
tas idéas em 1799 e 1800, nem ainda até o anno de 1803 
em que dei a discripção disto á Real Junta do Commer- 
cio , ou ao de 1804 em que me foi concedido privilegio; 
julgo que não devo ter escrúpulo em chamar invento meu 
esta fóima de alambiques. 

Nas observações de Mr. Chaptal , e em todas as des- 
cri pções dos aparelhos antigos ou dos novamente usados 
cm França , jamais vi ter-se alli adoptado com tanto extre- 
mo nem a forma das caldeiras , nem os expedientes que te- 
nho referido. De algumas noticias porem muito succintas 
que tenho podido alcançar sobre os alambiques , usados ul- 
timamente em Escócia , com os quaes se tem chegado a 
fazer vinte distillaçõcs cm huma hora , parece-me que pôde 
coUigir-se, que a forma ou principios com que são construí- 
dos, devem ser os mesmos, ou muito similhantes a estes 
meus, de que acabo de fallar; e allusivamente a este obje- 
cto he que no principio desta Memoria disse, que naquelle 
paiz se fazia uso de aparelhos distillatorios pouco differen- 
tes dos meus. E no seguinte Capitulo se verá que não com 
menos justiça , mas allusivamente a outras circunstancias , 
proferi a mesma proposição a respeito dos mais famosos 
de que hoje se está fazendo uso em França. 

Tom. r. Purt, II. G De. 



l8 Memorias da Academia Reai, 

Depois de ter feito experiências em alambiques da 
construcção já declarada ; 'parecco-me que seria convenien- 
te fiizer o fundo da caldeira ou vaso distillatorio , em vez 
de liso e plano, antes enrugado; occupando toda a sua su- 
perfície , e fazendo as voltas para isto necessárias , hum 
único rego , no qual vá entrando por hum orifício o liqui- 
do que deve distillar-se , e depois de fazer sua longa pas- 
sagem , ( bem como a agua em as regas dos campos que 
estão com alfobres para isso amanhados , ) e de ter evapora- 
do toda a parte alcoólica , e ainda alguma aquosa inevitá- 
vel , saia o residuo por outro orifício na parte mais baixa 
do dito fundo ; praticados ambos com o facil e necessário 
artificio para que nío possa por elles entrar ou sahir nem 
o ar da atmosfera , nem o vapor do liquido. Não tive oc- 
casião de experimentar esta lembrança , mas estou persua- 
dido por outras experiências algum tanto análogas , que 
deste meio deve resultar maior evaporação , que esta se fa- 
rá sem ser necessário empregar tanto calor, e que o vapor 
alcoólico passará para o condensador com menos mistura 
do aquoso , e livre de empyreuma e gosto metálico , que 
mais ou menos, segundo me parece , sempre resulta da gran- 
de demora do residuo na caldeira. 

Tenho projectado outras formas de vasos distillatorios, 
e novos meios de distillaçao , como porém não os tenha ain- 
da posto em pratica , reservo para outra occasião o ser mais 
extenso á cerca destas matérias , caso que o agora exposto 
não seja mal aceito. Mas não devo passar a outro Capitulo 
sem fa/er as promettidas considerações sobre a já indicada 
proposição de Mr. Chaptal : — que pelo processo de Adam 
se extrahe maior porção de aguardente ou álcool de huma 
determinada quantidade de vinho, por causa do maior gráo 
de pressão e de calor que alli experimenta este liquido. 

Longe de contrariar esta opinião , depois exporei al- 
gumas circunstancias que ma fazem olhar como muito pro- 
vável , todavia não deixa de haver alguma razão para se 
duvidar delia. A pressão que experimenta hum liquido que 

se 



!>'^i\ d» 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 19 

se quer fazer ferver, hc sempre em detrimento da fervura, 
e precisa ser vencida por maior gráo de calor ; nisto con- 
cordáo todos <>s Fysicos , e supérfluo seria expor aqui as ex- 
periências com que se estabcleceo este principio. Se a fer- 
vura pois he o meio de extrahir do vinho o álcool , ^ de 
que serve para este fim hum maior gráo de calor , que fica 
inutilisado por aquclle accrescimo de pressão ? 

Pódc-se responder que a distillaçao dos licores alcoó- 
licos não consiste simplesmente em recolher os vapores , 
mas sim na separação que se faz entre elles , para a qual 
pôde convir a grande pressão , retendo e condensando os 
aquosos, e deixando passar os alcoólicos. E alem disto ain- 
da quando a porção de calor , para assim dizer inutilizado 
ou contrapczado pela maior pressão , não concorresse para 
a evaporação , nem para a referida separação das duas qua- 
lidades de vapor alcoólico , e aquoso , nem servisse para ex- 
trahir o álcool que já existe formado no vinho , pôde aca- 
bar de formar nelle alguma porção, para a qual apenas exis- 
tião os princípios antes da distillaçao. Esta opinião deriva 
das idéas de Fabroni , o qual não julga o álcool producto , 
immediato da fermentação vinhosa , mas sim também do fo- 
go e da distillaçao, o que não deixa de ser apoiado por 
Fourcroi e outros Chimicos modernos , e creio que pelo 
mesmo Chaptal ; e parece-me que principalmente debaixo 
deste ponto de vista se deve entender a referida proposição. 

Como todavia não esteja cabalmente decidido , nem se 
saiba ainda ao certo qual he o gráo de pressão , e de calor 
que deve experimentar o vinho para ser mais proveitosa a 
distillaçao ; e aconselhando o mesmo Chaptal que se di- 
minua a enorme pressão que soffre nos aparelhos de Adam, 
acho prudente não admittir sem maior exame aquclla já 
mencionada proposição ; sendo para isto bom averiguar pri- 
meiro , quanto devem áquella causa ou a outras os felicis- 
siinos resultados dos ditos aparelhos de Adam. E tanto mais 
acautelados devemos ser a este respeito , quanto ainda ha pou- 
cos annos todos os alambiques modernos, e notavelmente 

C ii os 



ao Memorias da Academia Real 

os dé CFiaptal erao construídos com espaçosa abertura , e 
cm tudo adequados para ser mui diminuta a pressão sobre 
o liciuido e v.ipor nellcs contido ; e go/;írao por isto mes- 
mo de grande reputação c decidida preferencia sobre os 
dos antigos. 

E'.i nunca tinha encarado a distillação debaixo deste 
ponto de vista , por isso nunca fiz experiências que des- 
sem luz sobre este objecto : e lic notável que tendo-se es- 
crtpto tanto acerca de alambiqnes , e gloriando-se o nosso 
século de tao brilhantes aperfeiçoamentos ha construcção 
delles , não se tenhão Keito (peio menos não me consta que 
se tenhão publicado) experiências exactas que deixem deci- 
dida a questão , isto he , que mostrem ao certo qual hc a 
pressão e o grão de calor em que se deve effectuar a fer- 
vura do vinho e sua evaporação , para produ/ir maior quan- 
tidade de álcool, j E quanto será para admirar se a referi- 
da proposição eíFectivamcntc for comprovada por taes ex- 
periências ! Pois em tal caso parece necessário conceder que 
ós- reprovados e antiquíssimos alambiques profundos , com al- 
tos collos c estreitos orifícios para a sabida do vapor, são 
preferíveis aos modernos • quero dizer aos que se usarão an- 
tes dâs novíssimas construcções , que nesta parte tornão a 
assimilhar-se aos dos antigos. 

Em apoio da referida proposição scra próprio referir o 
que ha mais de vinte annos me communicoú , como segredo 
de grande preço , hum Irlandez chamado Pedro O Neill , 
então empregado ou sócio em huma cta de Commercio , 
que preparava muito vinlio para a Grã-Brctanha , e fazia 
grandes disrillações: assegurou-me que lançando juntamente 
com o vinho dentro da caldeira huma grande porção de 
cinza e sal marinho (pratica que já depois vi aconselhada 
póf alguns autores) obtinha de huma dada quantidade de 
vinho , espirito mais grato ao paladar , e em muito maior 
porção. Fazendo bom conceito do caracter daquelle homem , 
o qaal alias nenhum interesse tinha em me enganar, acre- 
ditei a asserção, e pertcndi explicar o fenómeno, pelo que 

to- 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. 21 

loca á cinza e melhor gosto da aguardente , com a com- 
binação que se faz com a potassa , do acido malico e ou- 
tros existentes no vinho ; e pelo que toca ao sal marinho 
fui obrigado a fazer conjecturas talvez demasiadamente atre- 
vidas para aqui as referir. Agora porem acho mui justo pen- 
sar que o cffeito mais attendivel da cinza e do sai seria 
difficLílcar a fervura , obrigando o vinho a receber maior gráo 
de calor antes de chegar a ferver, e se eflfectuar a cvnpora- 
çíó. E se com effeito se conseguisse maior porção de ál- 
cool , pelo artificio de que acabo de fallar , fica com isto 
nâo pouco corroborada a nova opinião de Mr. Chaptal , is- 
to he , a proposição de que estamos tratando. 

Que a porção de álcool , obtida de huma dada quanti- 
dade de vinho, seja maior porefiFeito de maior calor e de 
nuiior press.^o , hc hum facto, que posto tenha necessidade 
de maior confirmação, não he todavia inexplicável, attri- 
bu ndo-o como acabo de fazer a hum complemento de fer- 
mentação , ou a certa nova combinação dos elementos do 
vinho lançado na caldeira , e exposto ao fogo. Porem que 
a aguardente obtida da distillação, feita em caldeira mais 
proíunda que larga , apresentando menor superficie á eva- 
poração , seja de melhor sabor , segundo Mr. Curaudau o 
affirma cm huma Memoria escripta em i{io8, he hum facto 
ainda mais extraordinário. Estou todavia mui distante de o 
contradizer, nem ouso affirmar que pela construcção que já 
reicri das minhas caldeiras , nem pelas de que antigamente 
usava Mr. Chaptal , ou por outras em que a superficie eva- 
porante he muito maior do que propõe Mr. Curaudau , se 
consiga aguardente de melhor, nem talvez de tão bom sa- 
bor ^ Quem sabe se o vinho exposto por mais tempo ao 
calor, ou a maior calor, com tanto que não seja violento, 
nem faça deposito que se pegue e queime na caldeira , ad- 
quirirá por isto mesmo a qualidade de produzir huma aguar- 
dente mais agradável e suave ? 

Se porém se verifica esta circumstancia , assim como 
a de que precedentemente falíamos , he indispensável con- 

fes- 



21 AÍemorias da Academia Real 

fessar que pelos mcrliodos e fórmas de alambiques de que 
usarão os antigos hc possivcl conseguir de huma dada quan- 
tidade de vinho , nao só maior porção de aguardente , po- 
rém até de gosto mais suave , do que pelos meus próprios 
aparelhos ou pelos de Mr. Chaptal , em quanto erão de 
forma achatada , e mui espaçosa a abertura por onde sahia 
o vapor. E lançando os olhos para os de Duarte Adam , 
para os de Isaac Bcrard , ou ainda para os que depois des- 
tes novamente propoz Mr. Chaptal , vê-se eíFectivamente 
que se assemclháo aos dos antigos, nos collos estreitos c al- 
tos , e por consequência pelo maior calor e pressão que 
nelles experimenta o vapor , e o liquido que se distilla. 

Tal lie a sorte das cousas humanas , não só os talhos 
dos vestidos e as modas, sujeitas a mero capricho, tornão 
a vir como já foráo ; mas até cessão, e dão o lugar a ou- 
tras mais antigas , algumas praticas das artes, que huma fal- 
sa e orgulhosa scicncia sehtencea por mais perfeitas , e que 
parecem immudaveis ! 



A 



Capitulo III. 



Parte condensatoria dos meus alambiques he o que se 
acha mais análogo entre ellcs, e os mais modernos de que 
se está fa/.endo uso em França , como se verá da seguin- 
te descripção. Na parte superior de hum lado da caldeua 
ou vaso distillatorio já dcscripto no antecedente Capitulo, 
ajusta hum tubo do diâmetro, nesta união, de huma quar- 
ta parte do diâmetro da caldeira , e do comprimento de vin- 
te , trinta , ou mais vezes o seu próprio diâmetro. He col- 
locado em huma posição quasi horisontal , e dividido no 
seu interior por huma espécie de anneis ou diafragmas per- 
pendiculares aos lados , rotos no seu centro , ou acima dclle , 
para que possa passar de huns reparti mentos para os outros 
o vapor, mas não o liquido que nelles se condensa, o qual 
alli reprezado , ou como empoçado , á medida que recebe 
mais calor, vai evaporando a parte mais espirituosa; c es- 
ta 



dasScienciasdeLisboa. aj 

ta passa a condensar-se nos seguintes rcpartimentos que acha 
mais frescos ; tendo sabida por hum pequeno orifício com o 
seu estreito tubo e competente torneira para recipientes se- 
parados , ou novamente para a caldeira , a parte pouco es- 
pirituosa ou fleuma que se deposita em cada repartimento. 
De maneira que em huma só di^tillaçao se obtém do ulti- 
mo repartimento álcool o mais dcflcumado , e aguas-arJen- 
tes do gráo que se desejao dos diffcrentcs rcpartimentos 
menos distantes da caldeira , segundo a temperatura em que 
se conserva o liqui.lo que os banha ; pois este tubo , de que 
logo torniremos a ter occasião de tratar , está mergulhado 
na parte mais baixa de hum profundo canal cheio com agua 
ou com o vinho , de que se ha de encher a caldeira na se- 
guinte distillação. 

Recordando- nos da descripção do condensndor de Be- 
rard , que já vimos na primeira parte desta Memoria , he 
indubitável que entre elle e o meu ha grande semelhança ; 
das differenças porém que se observão entre hum e outro 
creio que não resulta desvantagem para o meu. O banho 
do condensador de Berard não tem divisão alguma , nelle 
está a agua , toda cm o mesmo gráo de temperatura , que 
se conserva cuidadosamente entre 6o e 70 gráos do ther- 
mómetro de Reaumur ; de maneira que o vapor alcoólico 
puro ou misturado com algum aquoso , não podendo con- 
densar-se nos rcpartimentos do referido condensador , passa 
para huma serpentina segundo geralmente se pratica nos 
alambiques ordinários. O banho ou profundo canal , que 
refresca o meu condensador , não está todo como o de Be- 
rard em huma só temperatura , pelo contrario he dividido 
por outros tantos diafragmas como o respectivo condensa- 
dor ; de sorte que a cada repartimento do condensador cor- 
responde huma divisão do banho. 

O modo de encher estas divisões com agua ou com 
o vinho, que ha de passar para a caldeira na immediara 
distillação , he o seguinte. Lança-se , seja agua , seja o vi- 
nho f na lUtima divisião por hum tubo estreito que o con- 
duz 



ot 



14 Memorias da Academia Real 

duz ao fundo ; estando cheia a dita divisão , e lançando- 
se-lhe mais quantidade de liquido , sahc huma igual porção 
por hum orifício na parte superior , e por outro tubo he 
conduzida semelhantemente ao fundo da divisão immedia- 
ta ; e assim de cada huma para a antecedente ; ora como o 
liquido está sempre mais fresco na parte inferior do que na 
superior, acontece que na ultima divisão se conserva frioj 
e com este simples artificio indo crescendo gradualmente e 
acumulando-se todo o calor de divisão em divisão, toma a 
primeira próxima á caldeira o grão da fervura ou pouco 
menos. 

Se as diversas divisões do banho se enchem com vi- 
nho , o vapor que aellc se exhala vai distillando por meio 
de tubos , que lhe dão passagem para alguns dos reparti- 
mcntos do condensador ; ou o condensão elles próprios , 
estando refrescados em algumas das ultimas divisões do 
mesmo banho , ou em outro refrigerante : e o resto do vi- 
nho entra depois na caldeira para a seguinte distillação. E 
se he agua o liquido com que se enchem as ditas divisões, 
serve a primeira de banho-maria a hum vaso , no qual aque- 
ce e distilla huma p;)rç.'io de vinho , passando também o 
restante á caldeira , segundo fica dito. 

Todas estas divisões do canal que serve de banho são 
perfeitamente tapadas peia parte de cima , e toda a super- 
fície externa , assim como já se disse no primeiro Capitulo 
a respeito da caldeira e fogão , está coberta com matérias 
más conductoras. Deste modo o calor que se desenvolve 
da combustão , com mui pouca perda se emprega na cal- 
deira por via do seu respectivo banho ; e todo o que o va- 
por do vinho demittc nos diversos repartimentos do con- 
densador , communicando-se ao liquido que está nas varias 
divisões do seu competente banho, com o artificio já des- 
cripto retrograda , para assim dizer , de humas para as ou- 
tras até chegar á primeira , onde serve para outra simultâ- 
nea distillação, segundo também já está referido. 

Observando que , segundo as experiências de Wat , a 

quan- 



dasScienciasdeLisboa. If 

quantidade de calórico que dcmirtc o vapor aquoso na sua 
condensação he pouco mais ou menos 5- j vezes tanto, co- 
mo o que demittc a agua na mudança do gráo da fervura 
para o da congelação , c suppondo que a quantidade de li- 
quido que se obtém dadisiillação rambem seja para a quan- 
tidade de vinho que se submetcc a esta operação como 
hum para 5- j; supposiçao assas verdadeira, quando o vi- 
nho que se distilla não he muito forre, ou quando se per» 
tende aguardente muito espirituosa : scgue-ye que em tem- 
po de inverno , mostrando o o thermómctro , pôde con- 
dcnsar-sc todo o producto em huma distiilr.ção com a frial- 
dade do vinho que ha de distillar-se na .seguinte, e basta- 
rá pequena porção de agua , somente a que for necessária 
para esfriar o diro producto depois de condensado, e para 
que não saia ainda quente , antes sim muito frio. 

Para isto se verificar na pratica e com aproveitamen- 
to de todo o calórico , seria preciso que as matérias que 
envolvem o aparelho fossem perfeitamente inconductoras j 
que as divisões do banho fossem tantas, que na ultima ja- 
mais o liquido podesse adquirir nem hum só gráo de ca- 
lor ; e que o calórico latente do vapor aquoso fosse igual 
ao do alcoólico : parece todavia que póJe affirmar-se que 
em o meu aparelho distiilatorio a quantidade de agua fria 
empregada , e de calórico perdido , he a menor que per- 
mitte a nature/a da cousa. Deve-se poréiYi ter em vista 
que imporia muito menos algum desperdício de agua ou 
de calor , do que de vapor alcoólico , do qual geralmente 
se perde alguma porção na atmosfera , se o liquido que 
distilla não sahe muito frio : por esta causa he necessário 
que a ultima divisão do banho , em a qual está mergulha- 
do o ultimo repartimcnto do condensador , se conserve no 
maior gráo de frialdade possível ; e até para este fim será 
acertado fazer uso de neve ou de outros meios arrificiaes. 

A vantagem de se aproveitar o calor demittido na 
condensação do vapor não se encontra no condensador de 
Bcrard : mais se assemelha nisto com o meu aparelho dis- 
Tm. F. Part. II. D til- 



i6 Memorias DA Academia Real 

tillatorio o de Duarte Adam , no qual huma das serpentinas 
he banhada com o vinho de que ha de encher-se a cal- 
deira na seguinte distillaçao ; com tudo ha ainda perda de 
calor em todos os outros vasos , huns banhados cm agua , 
outros inteiramente expostos ao ar sem as próprias cober- 
turas. 

Pode dizer-se em summa , que os repartimentos que 
se seguem ao primeiro em o meu condensador fazem o of- 
ficio do condensador de Berard , com o qual muito se as- 
semeihão , c os últimos o da sua serpentina ; com diíFeren- 
ça que todo o calórico que demittem os vapores no meu 
condensador , segundo já referi , aproveita-se em fazer dis- 
tiliar nova porção de vinho, e no de Berard he inteiramen- 
te perdido. Também diffcre cm ser muito mais comprido 
o meu condensador, c em diminuir o diâmetro principal- 
mente no ultimo repartimento , que acaba em huma poile- 
gada ou ainda em menos. 

Comparado com o aparelho de Duarte Adam , posto 
que mui differentc na figura , he mais semelhante nos ef- 
feitos, fazendo as vezes dos seus vasos ovaes a primeira di- 
visão do banho , c dos seus recipientes ou vasos condensa- 
torios os diversos repartimentos do meu condensador , com 
a vantagem , além das já referidas , de muito considerável 
diminuição no custo ou despeza da construcção. 

A differcnça mais essencial que ha entre a construcçaa 
dos meus aparelhos distillatorios, e a dos de Berard, ou de 
Adam , he que a abertura da minha caldeira , ou a sua com- 
municação com o condensador, he muito larga; o que jul- 
guei acertado não só porque tinha principalmente em vista 
a refinação de aguas-ardentcs , mas também declarando-o in- 
genuamente , porque estava possuido das idcas dos melho- 
res Autores modernos, e com bem justo titulo das de Mr. 
Chaptal ; sendo pelo contrario muito estreitos os tubos que 
dão passagem ao vapor da caldeira para os vários recipientes 
ou para o condensador , nos aparelhos de Adam , de Berard , 
c nos ultimamente recommendados por Mr. Chaptal. 

Ve- 



DAS SciBNCIAS DE LiSBOA. 2/ 

Verificado porém que seja mais conveniente a estreiteza 
de tubos que já vimos ter sido mui criticada aos antigos , 
e com tudo novamente seguida pelos mais celebres actuaes 
distilladores , fácil hc imitallos nesta parte. 

Por causa desta incerteza he que principalmente acho 
mais acertado não ajuntar a esta Memoria os desenhos das 
formas de alambiques que proponho , á vista dos quaes pa- 
receria querer eu decidir a questão , o que certamente não 
ouso fazer. Por outro lado considero que para os intelligen- 
tes, capazes de especular, que quizerem fazer grandes dis- 
tillações , e a quem pódc ser útil esta Memoria , bem su- 
pérfluas serião as estampas ; as quaes para os destituídos dos 
princípios necessários , poderiâo servir de prejuízo , fazen- 
do-os entender por cousas essenciaes , as que effectivamente 
não são, isto he , a figura e exterioridade, que sem incon- 
veniente nem alteração nos resultados podem variar-se por 
modos innumeraveis. 



D ii ME- 



28 Memorias da Academia Real 



MEMORIA 

Sobre a diversa temperatura que tem os líquidos , e solidas 
mergulbados na utmosfera. 

Por Constantino Botelho dh Lacerda. 



O 



§. I. 



Muito saber , e experiências do respeitável Musschen- 
brocck era;) para mim motivos bastantes para eu não duvi- 
dar do seguinte principio : Os corpos mettidos na atnwsfe' 
ra , OH sejão solidas , ou líquidos tem huma igual temperatue- 
ra. (a) 

§. 2. 

Esta doutrina , que aprendi do meu sábio Mestre , e te- 
nho ensinado ha muitos annos , e até fazendo as experiências 
do mesmo modo que Musschenbrocck, parece confirmar aquel- 
Je principio. 

§. 3- 

Fez pois Musschenbrocck as experiências com o Ther- 
mometro de Drebbel , julgando que este era o mais sen- 

si- 



( /3 ) Qjiamohrem ignif se qttaqna versmn diptinlendo ex corporibus cxit , 
doiicc aequali copia in omnibus ctirporibm ambientibus et viciíiis haeret. Ideo 
si in loco nuod/im et spatioso plurima fiierint corpora finm et fluida , veluti 
Jerruiii , plumbum , marmor , villits , lana , plumae , cotoiHtíin , ligiwm luber , 
vinnm , ,;(jua , vitrioltis , oicmii , niercurins et alia qnaaumque , atque haec 
aliqiiot horis sibi cominiss.t sim ; locuf tiwcm itec ab hoimnibiis calescat , ap- 
parcbuiit niimia corpora ope mobiliísimi Thernwmetri atque ignita sive aequc 
cálida. Lleiíiciiia [-"liysicac conscripta in Uios AcaJcniicos a Peiro ^ an 
Musschenbrocck, Tom. primus §. 79J. Kditio 4. 



DAS SciENCiAs DE Lisboa. 25^ 

sivel de que se podia fazer uso, e com cffeito mnitas ve« 
zes appliquei sobre dilFcrentes corpos o que ha no Gabine- 
te de Fysica-Experimcntal da Universidade de Coimbra ^ e 
nunca observei o mais minimo movimento no liquido, que 
continha o dito instrumento. 

§• 4- 

Observando eu que o Thermometro de Drebbel pe- 
la rua consrrucçiío não podia mostrar pequenas diíFerenças 
de temperatura nos corpos , que estão mettidos na atmos- 
fera , c tendo outro de Farenhcit ( mandado pelo nos- 
so João Jacinto de Magalhães de Londres ) que era mais 
sensivcl , lembrci-mc fazer experiências com elle , o que na 
verdade assim executei. 

§. 5-. 

Fiz as minhas experiências primeiramente á sombra 
em difFerentes líquidos mergulhados na atmosfera , e nas 
circunstancias , que recommenda Musschenbroeck ; o resul- 
tado foi observar que huns tinhao huma temperatura maior, 
outros menor , e alguns igual. 

§.6. 

A temperatura que mostrão os líquidos mergulhados na 
atmosphera postos á sombra se conhece em hum golpe de 
vista olhando para o Mappa competente , no qual a primei- 
ra columna comprehende as series das experiências, que se 
fizerão ; a segunda o ar , e líquidos mettidos dentro daquel- 
le fluido por tempo de dous minutos ; e a terceira a diffe- 
rente temperatura indicada pelo Thermometro de Farenheit. 

§. 7- 

. Não me satisfiz em observar somente a temperatura dos 

li- 



3© Memorias da Academia Real 

líquidos á sombra , quiz também saber qual seria a que po- 
derião adquirir sendo postos ao Sol , em hum dado , e igual 
tempo para todos ; o que também se mostra no seguinte 
Mappa , aonde se vêm as series das experiências ; os liquidos 
que estiverâo ao Sol por tempo de huma hora , e a sua tem- 
peratura , seguindo a mesma ordem das experiências feitas 
d sombra. 

§. 8. 

A respeito dos sólidos mergulhados na atmosphcra , pos- 
tos á sombra , e ao Sol , hc também difforcnte o seu caló- 
rico Thermometrico. O plano das experiências he o mesmo , 
e o resultado consta dos competentes Mappas. 



Jc 




« 



5' 



6.' 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA 
Àr, c llijiiidoí mergulhados neste fiuiio. 



Ar - - - 

Acido Miiriatico ordinário 
Uito Muriatico oxigenado 
Diro Nitrico ------ 

Oito Nitroso ------ 

Ar 

Acido Sulforoso . - - . 
Dito SuHiirico - - - - - 

Dito Fo^liiroso ----- 

Oito A>;cioso . - - - - 

Vinagre ------- 

Etlier .---.--. 
Agoa corumiim - - - - - 

Dita salgada ------ 

Álcool -------- 

Ar 

Mercúrio ------- 

Azeite ------- 

Óleo de Linhaça - - - - 

Ar -------- - 

Acido Fosfórico - - . - - 

Ar 

Dissolução de Sulfato de ferro 
Dita de Carbonato de Soda - 
Lita de Nitrato de Chumbo - 
Dita de Nitrato Mercurial 
Dita de Nitrato Baritico - - 
Dita de Nitrato de Cobre - - ■ 
Dita de Carbonato de Potassa 
Ammonia ------- 

Ar 

Dissolução de Nitrato de Potassa 
Dita de Sal Ammoniaro - - • 
Dita de Sulfato de Ma!;nesia - ■ 
Dita de Sulfato de Soda - - 
Agoa de Cal ------- 

Dissolução de Nitrato de Soda ■ 
Vinho --------- 



Temijuratura á , 
sombra indicada 
pelo T/iermoineira i 
de haienhàt. | 



66 f;r. 
66, s 
64, S 
64, i 

6J, S 



6í, 

66, 

«S 

64, 

63 

<5i, 
62, 

65 



6{ 
6j, 6 

65 , S 
6), 5 

6;, 5 
64, $ 

64, 8 

65, 6 
6J 

64, I 
6i, 5 
6í , 4 

66, i 
6}, 2 
62, 4 



7i, 
7' , 
71 , 
75, 
7' , 
70 
7> , 
71 , 



2) 



3^ 

K ScrUí l/c íi-- 
/< pertencias. 



Memorias da Academia Rkal 

Temperatura ao 

Ar, í liqttiJos mcr^alheiltt neste fiiiijo, _,", '" '' "í"" 

' ' " ■' i htnnometro i/e jl 

h\irc:it/ít'it. tf 









Ar ... - 

Dissolução de Nitrato de Cobre 
Dita de Nitrato Mercurial - - 
Dita de Nitrato de Soda - - 
Dita de Nitrato de Potassa 
Dita de Sulfato de Ferro - - 
Dita de Sultato de Magnesia - 
Dita de Sulfato de Soda - - 
Dita de Nitrato de Chumbo - 
Dita de Nitrato Baritico - - 
Dita de Sal Aramoniaco - - 
Etlier ...--.-_ 
Álcool -----.-. 



Agoa de Cal 



Ar 

Acido Sulfiirico . - - 
Acido Sulfofoso - - - 
Vinagre ------ 

Acido Fosfórico . - - 
Acido Fosforoso - - - 
Acido Nitrico - - - - 

Acido Nitroso - - - - 

Acido Muriatico ordinário 
Acido Muriatico oxigenado 
Vinlio .-.._. 
Azeite ------ 

Óleo de Linhaça - - - 
Ammonia - - - - - 



Ar - . 

Mercúrio -------- 

Agoa salgada ------- 

Agoa cominum -.---- 

Dissolução de Carbonato de Soda - 



g>.=^b?^:í==í:^>^5:J==ií^:í=4í'=%^ 



82, s 
113. 8 

102 , 2 

94. 9 
loy, 8 

94. 5 
8V, 3 

98, 4 
94. 3 
96, 8 

88, X 
86 
93 

7Í, 3 
113, 8 

83, 7 
«8, 2 

84, í 
89 

87, I 

99. 7 

89, 7 
99, T- 

88, 3 
103, 8 
loi, 5- 

87, 9 

86, 3 
11,2 

99. ^ 
9f , 4 
9Í. 3 






DAS SciENCIAS DE LiSBOA. 



«,í^:^^:^^:í='>~í^=i!^a^=^:^^:í^í=%{=Í5Í^iP^íS=!s«;í^aí^^:ÍÍKÍN^ 



(jj Series de f a.- 
perienclai. 



Ar, c loliJos mergulhados neste fluido. 



Ar - - - - 
Ferro - - _ 
Chumbo - - - 
Zinco _ - - 
Estanho - - - 
Cobre - - - 
Lata - - - - 
Oiro - - - - 
Prata - - - - 
Vidro - - - 
Mármore preto - 
Veludo caimesim 
Veludo azul 
Baeta vermelha 
Baeta parda 
Baeta preta - - 
Setini amarello - 
Algodão - - - 
Linho - - - 



Madeira do Brasil chamada Pe- 
tihá -------- 

Dita chamada Marcanahibá - - 
Dita chamada Maceirana - - - 
Dita do Brasil de cor branca cha- 
mada Angélica - - - - - 

Dita amarela chamada Amargoso 
Dita preta chamada Cabiuna - 

Tom. V. Part. II. E 



33 

■5 

TemyeraUtra à )>) 

sombra indicada Ua 

pelo Thermometro \, 

de Viirenheit. iv 



63 » 9 

63 j 5 

64 , I 
64 , 4 
á4, 8 
64, 7 
64, 8 
64, t 
64, 8 
64, 
64, 
64, 
64 , 

6f , 

óf, 
(>5. 
65, 
às. 



(>l •> 9 



78,4 l 

79 r 



34 Memorias ua Academia Real 

Temperatura á Jj) 
Ar , ( s»lid»s mergulhaéoi neste fluiio. 



K Striei áe ex- 
fi pertcaeiíil. 

\ 



Madciía vermelha chamada Goií- 
dorú >------. 

Dita verde chamada Arco-Tala- 
jupoca -_-.___ 

Dita roxa chamada Violcte - - 

Dita variada chamada Gatiado fi- 
no --------- 

Dita descorada chamada Canclla 
Capitão mór _ _ - . - 



Ar - - - - - 

Carvão « - . - 
Gomma elástica 
Limagem de Ferro 

Enxofre - - - - 

Magnete - - - - 

Marfim - - - - 



Ar 

Aliimina tirada do Sulfato alumi- 
noso -------- 

Carbonato calcário - - _ - 
Carbonato de Magnesia - - - 
Cal viva -------- 

Barro vermelho - - - - - 

Barro misturado com área - - 
Barro branco ------ 

Terra preta solta - - - - - 

Área do Rio ------ 



sombra indicada 
pelo Thermonietro'^ 
de Fareiíheit. ff 



79 

79 
79, 8 

79 > 5" 

79 > ^ 

77, 8 
8o 

77 , 7 
77 , 1 
77, 8 
77, S 
77, 9 



79 



&^^»=«''!=?=!«"-=5c^-^;?^^^i:?=-ií=5:5=^^?'='i^=í::?'=^" 



78, 

79 , 
79, 
So 

79 , 

79 

79 

78, 

78, 






% 



f 



DAS Í5CIENCIAS DE 



I S B O A. 



©:^:í^^=^lí=5=:^=5:á^:í=^^=!i:^í=4s 



(? Strles de ex- 
S pcrienciai. 

(í 



i 

I 



I 



I 






I 



Ar y e Sólidos mergulhados neste fiaido^ e postos 
ao Sol por tempo de huma hora. 



Ar - - - - 
Cobre - - _ 
Estanho - - - 
Chumbo - - 
Zmco - - - 
Prata - - - 
Oiro - - - 
Lata - - - - 
Vidro - - - 
Latão - - _ 
Ferro - - - - 
Mármore preto 
VeUido carmesim 
Veludo azul 
Baeta vermelha 
Baeta parda - - 
Baeta preta - - 
Sctim amarello - 
Algodão - - - 
Linho - - - 



Ar - 

Madeira do Brasil chamada Pe- 

tihá - - - 

Dita chamada Marcanahibá - - 
Dita chamada Maccirana - - - 
Dita do Brasil de cor branca cha- 
mada Angélica - - - - - 
Dita de cor amarella chamada A- 
margoso ------- 



3f 

Temperatura ao Jj 

boi Indicada peto C\ 

Thenuomeíro de í' 

Farcnheit. }) 



8y, 

99 j 
90, 

ICO , 

103 , 

86, 

88 

92 

99 

107 , 

112 , 

82 
82 , 
84, 
84, 

8y, 

84, 

85, 

91 
94, 

97 , 



88 , 8 



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3^ 



' Striei it <x- 
ftritnddí. 



Memorias da Academia RtAi 

Temperatura ao ?) 

SoUniiicaiapeh ^ 

T hermumetro dt «. 

Farenheit. vf 



Ar , ( $i>Uáoí HiergulhaJvs atitt fiulja , t portal 
úo Sol for tempo de huma hora. 



Madeira preta chamada Cabiuna 
Dita vermelha chamada Gondorú 
Dita verde chamada Arco Tala- 
jupoca ---,--_ 
Dita roxa chamada Violete - - 
Dita variada chamada Gatiado fi- 



no 



Dita descorada chamada Canclla 
Capitão mór . _ _ _ - 



Ar 

Carvão - - - - 
Gomma elástica 
Limagem de Ferro 
Enxofre - - - - 
Magnete - - - 
Marfim - - - - 



Ar 

Alumina tirada do Sulfato alumi- 
noso -----..-- 

Carbonato calcário - - - - 

Carbonato de Magnesia - - . 
Cal viva -_--,_- 
Barro vermelho - - - - _ 

Barro misturado com área - - 
Barro branco ------ 

Terra preta solta - - - - - 

Área do Rio ------ 



92, 8 

94, 8 
9S ) 5" 

98, 5 
96, 4 



8f, 
88, 

104, 

108 , 

88 

98, 

89, 

90, 

106 , 
87 
93, 
99 
96 j 
98, 

109, 

1 10 , 



JS»^5^^í^^^^»;sáf:%i?^í«^r?=^í=N>3;^:^^á»^s?^^^^^;^í=^: 



I 

Ob- 



PAS SciENCIAS D£ L I S B O A. 37 

Observações sobre as experiências dos liquiãos á sombra. 



Em cada huma das series das experiências se faz a 
comparação da temperatura do ar com a dos líquidos mer- 
gulhados dentro delle. 

2." 

Na primeira serie somente o Acido muriatico ordinário 
tem huma temperatura maior que o ar ; he porém menor 
nos outros Ácidos , a saber : no Acido muriatico oxigena- 
do , e Ácidos nítrico , e nitroso. 

3.' 

Na segunda , terceira , e quarta serie os Ácidos fos- 
fórico , acético , Vinagre , Ether , Agua commum , dita sal- 
gada, Álcool , e Azeite tem huma temperatura menor que o 
ar, he porém maior no Acido sulfúrico, sulfuroso, e Olep 
dç linhaça. 

Na quinta c sexta serie he maior a temperatura nas 
dissoluções de Sulfato de Ferro , de Carbonato de Soda , e 
de Cobre , c de Sulfato de Magnesia ; menor nas dissolu- 
ções dos Nitratos de Chumbo , mercurial , e baritico ; de 
Carbonato e Nitrato de Fotassa , de Muriato ammoniacal , 
de Sulfato e Nitrato de Soda ; Agua de Cal , e Vinho. 



Em todos os líquidos em que observei o seu calórico 
thermometnco , somente no Mercúrio vi que elle era igual 
ao do ar , nos mais cm huns he maior , em outros menor. 

Ob 



jS Memorias da Academia Real 

Observações sobre as experiências dos liquidas ao Sol. 



Em cada huma das três series de experiências se com- 
para também a temperatura do ar ao Sol com a dos diíFe- 
rentes liquidos, que não só he diversa em todos elles, po- 
rém maior que a do ar atmosférico. 

Na primeira , segunda, e terceira serie adquirirão hu- 
ma maior temperatura a dissolução do Nitrato de Cobro , e 
Acido sulfúrico , e Mercúrio j e menor o Acido sulforoso , 
e Vinagre. 

3-' 

O differente calórico thermometrico que observei nos 
liquidos do Mappa antecedente , não he nem na razão di- 
recta, nem inversa das densidades ; porque no primeiro ca- 
so seria a do Mercúrio mais subida , e no segundo a do 
Ether j porém a experiência mostra o contrario. 

4 a 
• 

O Mercúrio com O calórico da Agoa át i6i; gr. (a) di- 
lata-se pouco , ^ e por que posto ao Sol adquire tamanha 
temperatura ? Em quarenta liquidos em que observei a sua 
dilatação comparativa , o Acido nitroso he o que mais se 
dilata j i mas por que mectido na atmosfera ao Sol não re- 
cebe elle hum maior calórico thermometrico ? 



Ob- 



(d) Do Thermometro de Farenheit. 



f 



■ '-■% 



DAS SciENCIAS D£ LiSBOA. 39 

Observações sobre as experiências dos solidas d sombra. 

Em cada huma das series faço a comparação da tem- 
peratura do ar á sombra , com a de alguns sólidos mettidos 
dos neste fluido , que não hc igual em todos como aífirma 
Musschenbroeck, mas diffcrcnte. 

2." 

Na primeira serie tem hum calórico thcrmometrico 
maior que o ar, i.°os metaes seguintes, a saber, o Chum- 
bo , Zinco , Estanho , 'Cobre , Lata , Oiro , Prata , 2." o 
Vidro, e o Mármore preto, 3.° algumas Baetas, e Velu- 
dos , o Setim amarello , Algodão , e Linho. 

Na segunda serie as Madeiras do Brasil , em que fiz 
as minhas observações, mostrarão ter hum calórico thcrmo- 
metrico maior que o do Ar , e ao de todas ellas excedeo 
o da Madeira chamada Canella Capitão mór. 



Na terceira serie houve no Carvão , e Marim huma 
maior temperatura do que no Ar , foi igual no Enxofre , e 
menor na Gomma elástica , Limagem de Ferro , e Magnete. 



Na quarta serie o maior calórico thcrmometrico que 
se observou foi na Cal viva ; igual no Barro branco , e 
vermelho misturado com área , e menor nas outras terras. 

Ob- 



40 ■ Memorias da Academia Real 
Observações sobre as experiências dos sólidos postos ao Sol, 



Em cada huma das series de experiências se faz a 
comparção da temperatura , que o Ar tem ao Sol com a 
dos diffcrcnses sólidos mcttidos dentro dellc : mostra o com- 
petente Mappa que de todos ellcs , o que adquirio hum maior 
calórico thermometrico , foi o Mármore preto , e menor a 
Alumina pura tirada do Sulfato aUiminoso. 



De todos os metaes em que fiz as minhas experiên- 
cias , o Zinco , e o Ferro forao aquelles , que adquirirão hu- 
ma temperatura mais subida , e muito maior que o Oiro , 
e a Prata. Observei hum calórico thermometrico maior na- 
quelles metaes , que tem huma maior affinidade com o Oxi- 
génio , sendo postos ao Sol em hum igual tempo. 



Das madeiras do Brasil que sugeitei á experiência , 
aquella que adquirio huma maior temperatura he a chama- 
da Gatiado , que tem huma cor variada. O Linho posto ao 
Sol aquece menos, do que o Algodão, e este lantu .orno 
o Sctim amarello ; a Baeta preta , e a parda mais do que a 
de outra qualquer cor. 

4.' 

Entre as terras postas ao Sol , aquella que adquirio 
hum maior calórico tliermometrico foi a área do Rio , de- 
pois a terra solta preta , e ultimamente a Cal carbonatada. 
A Argila tirada do Sulfato aluminoso he aquella que me- 
nos se aquenta ao Sol em hum igual tempo. 

5-' 



DAS SciENClAS DE LlSEOA. 



41 



5-' 

Destas experiências julgo que se pôde concluir, que o 
chão onde predomina a Alumina, com huma igual tempe- 
ratura da Atmosfera se aquenta menos , c conserva a humi- 
dade por mais tempo , do que aquelle em que existe em 
maior quantidade a Área , e Carbonato calcário ; por isso 
não havendo rega, definhão muito primeiro aqui as plantas, 
do que alli. 

O chão que os nossos Lavradores chamão frio, póde- 
se aquentar misturando-ihe Arca , c Carbonato calcário , mui- 
to principalmente quando assim mesmo não he azado para 
alguns vegetaes , que alli possao viver bem , e que sejão 
proveitosos ao Lavradoí*. 



Tom. V. Pnrt. II. 



ME 



41 Memorias DA ACADEMIA Rbal 



MEMORIA 

Sobre o Theatro Portugttez. Lida na Assembléa publica dt 
14 de Junho de 1817 



Por Francisco Manoel Trigozo d'AragXo Morato. 



H. 



.E escusado hir procurar a origem do Theatro Portu- 
guez nos primeiros qujtro séculos da Monarchia: a igno- 
rância e barbaridade dos dous primeiros ; a falta de conhe- 
cimento que então havia dos antigos Escritores Gregos, e 
Romanos , e da lingua em que elles escreverão ; o peque» 
no e mui vagaroso polimento que a Poesia e Linguagem 
pátria adquirirão , depois que forão honradas por ElRei D. 
Diniz («) ; as guerras finalmente , e perturbações domesticas , 
erão causas bastantes para nossos maiores desconhecerem 
inteiramente hum género de Litteratura , de que seus ante- 
passados não havião deixado exemplos nem regras ; e que 
os outros povos da Europi seus contemporâneos , hum pou- 
co menos bárbaros , apenas conhecião e praticarão. 

Não he que os Portuguezes fossem insensíveis ás pu- 
blicas e honestas recreações ; até os povos de todo bárba- 
ros tem suas festas : porém entre os nossos maiores erão 
estas conformes ao género de vida a que as circunstancias 

dos 

(/i) He visível a poliJez <^ue foi adquirindo a nossa lingua , desde o 
tempo d' ElRei D. Diniz; para o que concorreo muito o maior uso, que 
delia então se começou a fazer nos documentos públicos. Vcj. Disseit. 
Chronolog. e Crit. Tom, i. p,ig. 184. O mesmo Rei, segundo diz Ferrei- 
ra n'hum Epigramma , 

Honrou as A/hs/is , poeto» , e leo: 

e a elle se attribuem varias obras escritas em poesia vulgar. Vej. os Au- 
tores allegados na £ihlioth. Lusit. no ait. D. Diniz. 



1ÍI3U 01 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 43 

dos tempos os impellião : a caça offcrccia-lhcs a vcntagem 
de poderem destruir os ursos , e outros animacs ferozes , 
que mfestavão algumas Províncias de Portugal (rt) , e a de 
fortalecerem o corpo para que melhor podesse soportar as 
fadigas da guerra; as justas e os torneios crao huns arreme- 
dos da mesma guerra. 

Estes erão os passatempos dos nossos Monarchns , e os 
povos apenas conhcciao outros , porque como dizia hum dos 
nossos antigos versejadores {l>) : 



Hos jogos , nojos , plazeres , 
costumes , trajos , e leys , 
virtudes , manhas , saberes y 
e hos e mãos paresceres , 
m segundo qttere reys. 



sam 

Ainda mesmo o uso dasjustas e torneios , ou pelo me- 
nos o seu maior esplendor , parece introduzido por ElRei 
D. Fernando , talvez no casamento da Infanta Dona Beatriz 
sua Irmã com D.Sancho Irmão d' ElRei D. Henrique de 
Castella (r) ; e seguido depois por ElRei D. João I. tan- 
to no seu casamento com. a Rainha Dona Filippa , como 
no casamento de seu Filho D. AíFonso com a Filha dç» Con- 
destabre {d) . 

Nestes tempos de que vou fallando , a musica e a dan- 
ça tinhão tambcm parte nos divertimentos dos Portiiguezes ; 
mas he preci.^^o confessar, que ambas estas artes estavão mui- 
to na sua infância , e que ellas se estimavuo mais pelo que 
tinhão de forte e clamoroso , do que de pathetico e deli- 
cado. He assim que ElRei D. Pedro I. nas danças publicas 
que fazia muitas vezes de dia e de noite nas ruas de Lis- 

F ii boa , 

(/j) Vi-j. Fernão Lopes , o mais antigo dos nosso; Chronist-is , na 
Chrun. d' El Rei D. h\dro I. cap. i. e na Chron. d' £lJlei D. Fumando, 
110 piinc. e no cap. ç>(j. 

(b) Gírcia de Resende , na Aíisccllunia. 

(f) Fernão Lopes , Cbruii. d' ElRei D. Fintando , cap. 84. 

(</) O mesmo , na Chron. d' ElRci D, yoSo I. Part. 2. cap. ç6. JG4. 



44 Memokias da Academia Real 

boa, não consentia que lhe tocassem outros instrumentos que 
não fossem trombas (a) ; e em quanto durou o banquete no 
casamento d' ElRei D. João I. diz o seu Chronista , que se 
fazião muitos jogos, assim como trepar em cordas , e tornos 
de mesas , e salto Real , c outras cousas de sabor (b) . 

Não se pode negar que forão mais meigos e civis os 
tempos em que reinarão D. Affonso V. e D. João II. c 
que esta maior civilidade fosse introduzida em Portugal pe- 
los illustres Filhos do grande Rei D. João I. Desde então 
toma a nossa litteratura , c a nossa policia hum grande e 
ainda não conhecido resplendor ; e se não apparecem com- 
posições e representações dramáticas , que de huma e outra 
necessariamente participão , apparecem todos os elementos 
de que em breve tempo se formou quasi repentinamente o 
Theatro nacional. 

E na verdade a lingua Portugueza , que na penna dos 
nossos primeiros poetas e prosadores era despida de toda 
a graça e harmonia , começou então a apparecer mais cor- 
recta e elegante (f) : instrumentos variados acompanhando 
a dança e o canto , faziao o divertimento principal dos se- 
rões públicos que davão os nossos Reis , c ^m que elles 
tomarão parte : acrescião os momos , os entremezes , e as 
touras , e guínolas, e galantarias dos Mouros e Judeos {d). 

Nos 

(rt) O mesmo , na Chron. d' ElRei D. Pedro I. cap. 14. 
(/>) O mesmo, na Chron. d' ElRei D, João I. Pnrt. 2. cap. 96. 
(f) Nesse tempo florecèiáo Feiíiáo Lopes , e Gomes Eanes de Zura- 
ra ; e muitos Poetas, cujas obras se. coUigirão no Cancioneiro de Resen- 
de, impresso em içi6, 
(d) Finos grandes judari/is 

Judeos , guínolas t louras , 

tambe mouras , nwurarias , 

seus bailos , galantarias 

de muitas fermosas mouras : 

sempre nas festas reaes 

seram os dias princtpaes 

festa de mouros avia; 

também festa se fazia 

que non podia ser mais. 

Vimos costHtiie bem cbam 



iirryt CfT 



DAS SciENCiAS DE Lisboa. 4f 

Nos Momos que se fizerao em Lisboa pelo casamen- 
to da Infanta Dona Leonor, Irma d'ElRci D. AfFonso V", 
com o Imperador Frederico , figurarão o mesmo Rei e os 
Infantes seus Tios (a) ; e nos Momos de Évora pelo casa- 
mento do desgraçado Frincipc D. Affonso , figurou ElRei 
D. João II. seu Pai {b) . Estas ultimas festas forao as de 
maior grandiosidade , que até então se tinhao visto em Por- 
ruiral : poiém sendo tantas as invenções de prazeres , que 
shi se praticarão, c que largamente se achão referidas por 
Garcia de Resende , não me parece que delias fizessem par- 
te as composições dramáticas. He provável que as touras 
e guínolas fossem rebuços ou mascaras com que os Mouros 
c Judcos se disfarçavão , para fazerem as suas danças e fo- 
lias, e para arremedarem o espectáculo dos touros. Os mo- 
mos não passivão ordinariamente de representações mimicas 
acompanhadas de dança , que precedião quasi sempre as jus- 
tas e torneios , e lhes servião de desafio. Finalmente os que 
Resende chama entremezes e representações , erao figuras , 
ou maquinas , que encravao e sahião , e que ou pela novi- 
dade dos trajos , ou pela semelhança que tinhao com as cou- 
sas figuradas , enchião ora de admiração , ora de assombro 
aos e.spcctadores (c) . 

He 

■ ■ ■ _ I II ■ — •^•~ 

nos reys ter esta m.mcira 
corpo de Deos , Stim Joam 
avc^ c^nas , procissam , 
aos domingos carreira , 
cavalf^Mr pclla cidade 
com muytr, solonúdade , 
ver correr , saltar , Iwtar , 
dançar , ca{ar , montear 
em seus tempos e hidade. 

Garcia de Resende , ns JMiiceUama. 

(a) Chron. d' EUlei D. Afonso V. (ap. i^i, 

(t) Fida d"" ElRei D. João 11. por Garcia de Resende , cap. ii6. 

(c) Tal foi a r5prcscntação do par.iiio na porta de Avis cm Évora, 
ouando os Rcaes Noivos fizerão a íua entrada pi.blica naquelia Cidade 
(^Carcii de Rcs. cap. mi): Tal a representação cio Rei de Guiné, que 
entrou na Sala da Cêa , seguido de três gigantes espantosos de mais de 
quarenta palmo» cada huni , c d'huma rica Mourisca retorta, em que liiâo 



4^ Memorias da Acade»viia Real 

He verdade que estes momos e entremezes nem sem- 
pre crão mudos : muitos dellcs diziiío palavras apre pricdas 
ao caracter das pessoas que reprcscntavao : as Fadas espeiá- 
ráo a Princeza na entrada da Cidade, e a fadarão cada hu- 
ma de sua cousa ; mas estas falias , talvez extemporâneas , 
ou fossem cm prosa ou em verso , estavão bem longe das 
representações dramáticas ; e só mui remotamente se podem 
referir á historia littcraria do Theatro Portugucz. 

A maior prova do que digo he , que Ga'cia de Resen- 
de não falia expressamente cm comedia feita e representa- 
da , senão quando descreve as festas que se fizerao pelo ca- 
samento da Infanta Dona Beatriz com o Duque de Saboya , 
o que pertence já ao anno de ijió. e reinado de D. Ma- 
noel (a) : e por outra parte nos consta que esta comedia 
fora feita por Gil Vicente , a quem ambos os Resendes (b) 
attribuem sem hesitação alguma a primitiva origem do nos- 
so Theatro. 

Mas a lição das Obras de Gil Vicente convencendo-nos 
de todo desta verdade, ainda nos ensina muito mais particula- 
ridades ; pois nellas se nota que a primeira cousa que o Au- 
tor compozera , e em Portugal se representara , fora a visita- 
ção que elle fez ao parto da Rainha Dona Maria e nascimen- 
to de ElRei D. João III. estando presente a Senhora Dona 

Bea- 

duzentos homens mui grandes baiUdores {]d. cap, 125): TjI o entremez 
muito grande que appareceo na mesma Sala , em que vinhào muitos mo- 
mos mettidos em huma fortaleza ( Id. cap. iiíí). 

(a) Vej. Ida da Infanta Dona Breatriz para Saboya : no fim da Fi- 
da rf' ElRei D. João II. 

Qf) André de Resende , in Cenethl, Princ. Joann. Garcia de Resende , 
na Áíiscdlania : 

£ vimos singularmente 

fazer representações 

destilo mtiy eloquente 

de mui novas invenções 

e fcitã' por Gil Ficinte: 

elle foi o que invemoit 

isto c4 1 e o moH 

cS mais graça , < mais dotrina ; 

posto que Joam dei Enzina 

o pastoril começou. 



DAS SciSNCiAS DE Lisboa. 47 

Beatriz sua Mâi , e a Duque/a de Bragança bua Filhi , na se- 
gunda noite do nascimento do dito Rei , isto lie , a 7 de 
Junho de lyoi : que esta representação (que he hum Mo- 
nologo Pastoril de doze estancias) agradara tanto á Rainha 
velha , por ser cousa nova em Portugal , que pcdio ao Au- 
tor lhe representasse isto mesmo ás Matinas do Natal , ap- 
plicado ao nascimento do Redcmpt:)r ; o que elle pozera em 
execução , compondo hum novo Auto em que cntravão seis 
Pastores; e que adquirindo maior fama com esta nova obra, 
fora successivamente compondo outras peças dramáticas , 
que quasi todas se representarão nos Thcatrus da Corte dos 
Reis D. Manoel , e D. João 111. e isto por espaço de trin- 
ta e quatro annos , isto he , até ao anno de ijbó , em que 
compoz a Comedia intitulada Floresta (fengatios, que he a 
derradeira que fez em seus dias. 

Não virão estas Obras a luz publica em vida de seu 
Autor; mas elle deixou escritas por sua mão, e juntas em 
hum livro a maior parte delias ; e seu filho Luis Vicente 
acrescentando-lhe as que ainda restavão , fez imprimir to- 
das em Coimbra , e Lisboa por João Alvares nos annos de 
15-61. e 1562. em hum grosso volume de folha, primeira e 
única edição correcta das obras d'aquelle insigne Cómico. He 
este volume dividido em cinco livros : o primeiro contém 
as Obras de devação , que constão de dezesetc Autos , gran- 
de parte delles representados nas Matinas do Natal : o se- 
gundo contem quatro Comedias : o terceiro dez Tragico- 
medias : o quarto onze Farças : o quinto varias trovas e cou- 
sas miúdas : grande parte das peças dramáticas tem a data 
do lugar e anno em que forão representadas. 

Estas datas cuidadosamente conservadas naquella Edi" 
ção, não só dcmonstrão a origem e progressos da Arte Dra- 
mática em Portugal por quasi toda a primeira metade do 
Século XVI. mas habilitão-nos para compararmos o esta- 
belecimento do nosso Theatro com o das outras Nações Eu- 
ropeas , c conhecermos assim se Gil Vicente teve Mestres 
a quem seguisse , ou se elle mesmo foi o guia dos que de- 
pois lhe succederão. Já 



48 Memorias da Academia Real 

Já tem sido tratada por muitos Escritores a historia 
do Tiíeatio das Nações cultas da Europa; nem eu preten- 
do repetir neste lugar o que clles já tem dito , ou segun- 
do o rigor da verdade histórica , ou segundo a affeição que 
cada hum mostrou pela gloria da sua l\itria. He certo que 
os Italianos deixarão mais depressa a representação dos mis- 
térios da Religião, para se applicarem á traducção e imi- 
tação do Theatro dos antigos , que appareceo renovado com 
grande Fasto nas Cortes dos Frincipes d'a(|uclla região: 
mas Angelo Policiano , e Ariosto , que no fim do século 
anterior a Gil Vicente renovarão a antiga Tragedia e Co- 
media , não erão certamente mais conhecidos do Poeta Por- 
tuguez, do que os Dramáticos Gregos e Latinos que clles 
imitarão; e Machiavello , c Aretino forão seus contemporâ- 
neos. 

Mais possivel he que os Francezes dessem a Gil Vi- 
cente a primeira idca de composições dramáticas , segundo 
o ponto de vista em que elle as tomou : pois he certo que 
depois de passada a primeira metade do Século XV. tinha 
adquirido em França grande celebridade a representação da 
historia da Vida de Christo por João Michel , e a da far- 
ça do Advogado Pathelin. Gil Vicente podia ou ter segui- 
do os Autores destes Dramas , ou encontrar-se casualmente 
com elles na escolha dos assumptos, e no caracter que deo 
ás suas composições: quem preferir a primeira opinião, po- 
derá talvez achar alguma semelhança entre a vida de Jesu 
Christo representada pelo Autor Francez , e o Breve Siim- 
mario da Historia de Deos desde o principio do Mundo até d 
Reswreição de Christo representado pelo Portuguez ; e re- 
flectir que as trovas e enselladas de França , cantadas no fim 
d'algum3s peças de Gil Vicente , mostrão o conhecimento 
que este tinha da Poesia Franceza , e o apreço que fazia 
delia. 

Bem sei que ha fortes pretensões sobre a prioridade 
do Theatro Hespanhol ; que a Corte Aragoneza vid repre- 
sentar huma Comedia allegorica composta pelo Aían-juez 

Flen- 



DAS SciKNClAS DE LiSBOA. 49 

Henrique de Vilhena no anno de 1412, por occa«ião das 
festas do casamento d'ElRci Fernando I : que os Castelha- 
nos , posto que concebessem mais tarde a idéa do estabcle- 
.cimeiíto de hum Thcatro , possuião já nos fins do Século XV. 
as composições dramáticas de João de la Enzina , que me- 
recerão ser muitas vezes representadas no Thcatro dos Reis 
Catholicos Fernando e Isabel : e que finalmente em parte 
nenhuma das Hcspanhas erão desconhecidas por este mes- 
mo tempo as representações dos Mystcrios da Religião. 

Gomtudo não me atrevendo eu a ncçar nenhuma des- 
tas cousas , espero que ninguém também me negue , que 
huma só Comedia allcgonca de Vilhena não mostra a exis- 
tência , e muito menos a permanência de hum Theatro na- 
cional : que as peças de la Enzina muito conhecidas cm 
Portugal no tempo de Gil Vicente, pois que delias faz men- 
ção o seu contemporâneo Garcia de Resende , erão dramas 
puramente pastoris , e até nomeados limitadamente com o ti- 
tulo de Eglogas : e que os Autos sagrados não passavão de 
meras representações burlescas das ceremonias da Religião , 
nas quaes nenhum Poeta de consideração tomava parte. 

Só os Hespanhoes coevos a Gil Vicente merecerão al- 
gum nome na Poesia Dramática : mas desses mesmos os dous 
que mais se assemelharão ao gosto e estilo do Cómico Por- 
tuguez (rt) , cahirão bem depressa em esquecimento, e dei- 
xarão o Theatro de Hespanha na rude simpleza , em que con- 
fessa te-lo achado o illustre Miguel de Cervantes , quando 
já decahia o século sexto decimo {b) . 

Assim longe de ambicionarmos vãmente a gloria de 
sermos os primeiros creadores do Theatro moderno , conce- 
deremos aos Estrangeiros a prioridade do estabelecimento 
Tom. F. Part. II. G dos 



(rt) Butholomcii Torres N varro , c Lope de Rucd:.. 

ip) O que acjui se diz acerca do Theatro Hespanhol , lie tirado de 
Nicoláo António, Bihliotb. Hi^p. N^/v. da Historia da Litteratura H(spa- 
nholíi , escrita em Alleniáo pelo nosso Consócio o Sfir. Fridenro Bou- 
tcr>xek, e traduzid. em Trincezi e de Simonde de Sismondi , De la Lit- 
tcrathre du Midi de l' Eiirope. 



go Memorias da Academia Real 

dos seus Thcatros nacionaes ; comtanto que nos concedáo , 
que os primeiros que entre elles promoverão este ramo de 
Litteratura , não tiverão huma influencia duradoura nos Au- 
tores dramáticos das suas ou das estranhas nações : em quan- 
to Gil Vicente , primeiro autor e actor do Theatro Portu- 
guez , sem imitar , e talvez sem conhecer os trabalhos d'a- 
quelles que em outros Paizes o tinhao precedido , teve a 
ventura , não digo já de fazer as delicias de duas Cortes 
tão polidas coino torao as dos Reis D, Manoel , c D.João 111. 
nem de ser admirado e applaudido de seus contemporâneos 
e vindouros; mas a de fixar o gosto e interesse publico pe- 
las representações dramáticas ; a de mostrar á Europa intei- 
ra , que não era possível cativar a attcnção dos espectado- 
res com puras traducções , e imitações servis dos antigos 
Gregos e Romanos ; a de estabelecer hum género de Thea- 
tro nacional , que sobreviveo a todas as revoluções que nos 
séculos seguintes se fizerão para someter a hum jugo estra- 
nho o mesmo Theatro ; e a de ser o mestre de cuja esco- 
la sahio o fénix da Hespanha Lope de Vega, que pelo seu 
espirito cómico , e pela admirável e quasi prodigiosa abun- 
dância das suas composições dramáticas , conseguio exerci- 
tar por si mesmo huma influencia immediata , não digo já 
nos Theatros de toda a Hespanha , mas nos de ítalia , In- 
glaterra , e sobre tudo nos de França. 

Eu bem sei , que quem considerar hoje os Dramas de 
Gil Vicente ou segundo as regras que os antigos estabele- 
cerão para estas composições , e que os modernos tem pou- 
co a pouco conformemente admittido ; ou segundo os nos- 
sos actuaes costumes , principios e opiniões ; achará sem du- 
vida exagerados os elogios que se tem feito a este Cómico 
insigne : tão enganoso he julgar cada hum aos Escritores 
segundo o seu próprio capricho, e decidir dos tempos pas- 
sados unicamente pelos presentes ! assim nos parece hoje a 
litteratura dos antigos irregular e gigantéa ; assim , se elles 
hoje resurgissem, lhes pareceria a nossa mesquinha e uni- 
forme. 

Em 



i 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. JI 

Em quanto ás regras que os antigos dcrâo e pratica- 
rão sobre a poesia dramática , achão-se ellas inteiramente 
desprezadas nas Obras de Gil Vicente, e pódc-sc dizer com 
bastante certeza que este inteiramente as ignorou. A Biblia, 
em cujo estudo era assas versado , formava todo o funda- 
mento da sua erudição ; dos Cómicos Gregos e I,atinos não 
se acha rasto algum em todas as suas Obras. D*aqui vem 
que os Dramas não são divididos cm Actos (a) ; que os bai- 
les e chançonetas se introduzem segundo o capricho do Poe- 
ta , ou pelo meio dos mesmos dramas , ou no fim delles ; e 
que o Autor dcsconhecco inteiramente as unidades dramáti- 
cas. O Auto de que já fallei , intitulado Breve Stinutiario da 
Historia de Deos , basta só para provar a falta destas unidades : 
os seus interlocutores , tendo vivido em tempos tão diver- 
sos , apparecem successivamente na mesma sccna j Adão e Eva , 
Abel , Job, Abrahão , iVloisés , David , S.João Baptista , e 
Jesu Christo. A Comedia de Rttbena não he mais do que 
hum romance representado, assim como aquelle Auto he hu- 
ma historia também representada. A vida de Cismena nasci- 
da em terra de Campos em Castella , faz o primeiro ob- 
jecto deste Drama ; ella apparece primeiro recemnascida , 
depois pastorando gado , levada antes dos quinze annos a 
Creta, ahi perfilhada por huma nobre dama, e ultimamente 
casada com hum Príncipe de Syria , que fora ver desconhe- 
cido aquella Cidade. 

De qualquer modo que se considere a regularidade de 
hum drama , debalde se procurará ella nos de Gil Vicente. 
O que se chama enredo da fabula , he quasi desconhecido : 
os interlocutores apparecem no Theatro , fallão , e re tirão se , 
quando o Poeta quer que facão estas diversas cousas ; os 
episódios não tem as mais das vezes relação com o objecto 

G ii prin- 

(a) A Comedia de Riibcna he a única que se i\ch;i dividida cm três 
Actos, a qpe o Autor chamou Scenas : porque ainda que.tenháo a mes- 
ma divisão as £tnhí!rca^ues áo Inferno , An Purgatonu , e da Gloria , ná» 
he por serem representadas estas peças consecutivamente n'hum só tem- 
po e lugar , mas por serem fundadas todas ellas n' huma mesma oUe- 
goria. 



j2 Memorias da Academia Real 

principal da fabula : emfim os dramas são escritos simulta- 
neamente cm Portugucz e Castelhano ; em redcndilhas de 
estancias desiguacs ^ e em versos de arte maior ou hendeca- 
syllabos. 

Mas se passarmos a considerar a contradicção em que 
se achão os costumes e opiniões do nosso tempo com os 
do tempo de Gil Vicente, por certo muito acharemos que 
notar nas suas Obras: pois que parece assas desconforme 
com a delicadeza dos nossos actuaes costumes , tcr-se re- 
presentado o Auto da Viagem do Inferno na própria cama- 
rá da Rainha Dona Maria , estando ella enferma do mal de 
que falleceo; e também não se dedignar o Príncipe D. João 
depois Rei III. do nome , de figurar como interlocutor de 
huma Comedia , ainda que fosse só para decidir qual das 
duas filhas d' hum mercador de Burgos devia casar com hum 
Príncipe Estrangeiro, que apaixonado de ambas não sabia 
a qual delias desse a preferencia. 

Se por hum lado a singeleza d'aquèlles tempos afastava 
da idéa dos nossos Príncipes certas apprehensõcs , que o des- 
dém dos séculos posteriores fez transcendentes a classes muito 
menos privilegiadas ; por outro a decadência e corrupção dos 
costumes daquelles mesmos , que por seus ofHcios devião ser 
o exemplo dos Povos , tornavao tolerável a critica muitas ve- 
zes pungente e assas descoberta deste novo Aristophanes : 
pois que removido com a própria presença dos Soberanos o 
perigo de demasia contra a verdade e contra a decência , em 
que costumão muitas vezes degenerar arjuellas invectivas ; 
e recatadas estas das vistas c dos ouvidos do povo , que 
não sendo espectador dos dramas que as mais das vezes se 
representavão no interior do Paço, não podia estender ao 
caracter de certos empregados públicos o desprezo que só os 
vícios delles merecião; não podia aquelle arbítrio deixar de 
produzir huma saudável , ainda que lenta reforma nos públi- 
cos costumes. Assim o entendia o esclarecido Rei D. Ma- 
noel , do qual conta o Chronísta Gocs {a) , que consentia 

na 
(«) Chron. <!' ElRci D. Manoel , Part. 4. cap. P4. 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. JJ 

na sua Corte chocarreiros Castelhanos , e que folgava d.is 
dissimuladas rcprehensôes , que elles com geitos e palavras 
trocadas davão aos moradores de sua Casa , fa/endo-lhes co- 
nhecer os defeitos de que se elles emendavao. 

Eu não faliarei de outro género de imagens , e ainda 
mais do uso de certas frases e vocábulos , que o melindre 
do nosso tempo tem excluido de toda a conversação que não 
seja inteiramente baxa e plcbéa , e que então erão ouvidas 
sem desagrado pelas castas Princezas e Damas Portuguezas : 
pois todos sabem que semelhantes cousas se encontrão nos 
escritores de qualquer outro paiz ; e que he tão extraordi- 
nária a revolução , que se tem experimentado pela successâo 
dos tempos nas idéas e na linguagem , que não he hoje 
permittido sem excitar a mofa ou a indignação publica , ex- 
por litteralmcnte certos modos de fallar , que se achão nos 
autores mais pios e mais polidos dos séculos passados, 

iVlas o que não he possivel deixar em silencio , quando 
se considera a conformidade que devião ter os dramas de 
Gil Vicente com os costumes c opiniões do seu tempo, he 
a desassisada mistura que nelles a cada passo se encontra 
do sagrado com o profano. Humas vezes as diversas ordens 
de Anjos , as quatro Estações do anno , e o fabuloso Júpi- 
ter vem adorar o menino Deos ; e logo entra David repe* 
tindo alguns passos dos Salmos , dando-sc fim á representa- 
ção com o Te Demn Inudannis : outras vezes vem hum Clé- 
rigo ao Theatro desposar dois noivos : outras representa-se 
o dialogo de Jesu Christo com Satanás sobre as tentações , com 
menos gravidade do que o assumpto o pedia : outras final- 
mente torcem-se para sentidos profanos as palavras da Es- 
critura Sagrada , e as preces publicas da Igreja ; como quan- 
do hum Erade que vem do Inferno , repere huma espécie 
de Inviratorio amoroso que resava no mundo, e prega de- 
pois hum sermão com o thema : ^»/or viticic omnia. 

Comtudo por mais reprehcnsivcl que pi.icça (ena ver- 
dade o hc) hum tão estranho abuso das cousas sagradas; não 
SC pode duvidar , que até certo ponto era ellc de tal manei- 
ra 



54 Memorias ok Academia Real 

ra autorizado pelo modo de pensar, e até pela devoção dos 
povos , que longe de produzir nelles hum effeito danoso , 
promovia a sua piedade, c fortificava a sua crença. 

Huma boa prova disto he , que muitos dos Autos de 
Gil Vicente forão representados nas Matinas do Natal , já no 
Mosteiro d' Enxobrcgas , já na Capella de S. Miguel dos 
Paços d'Alcaccva , já na outra Capella Regia do Hospital 
de todos os Santos ; que na Igreja publica das Caldas e 
na Procissão do Corpo de Dcos foi representado á Rainha 
Dona Leonor o Auto de S. Martinho ; e que outro Auto , 
em que são interlocutores os quatro Doutores da Igreja , a 
mesma Igreja, a Alma , o Anjo da guarda, e dous diabos, 
foi feito á referida Rainha, e representado a ElRei fJ. Ma- 
noel seu Irmão nos Paços da Ribeira , em huma noite de 
endoenças , isto he , de Sexta feira de Paixão. 

Assim parece que as peças dramáticas deste tempo ser- 
vião muitas vezes de continuação do serviço divino \ e que 
os Povos depois de assistirem aos Officios da Igreja , nos 
quaes a sua imaginação podia ter pouca parte , concornão 
á Comedia onde esperavão não só santificar com as imagens 
sagradas aquelle profano divertimento , mas ver com os seus 
olhos , e quasi apalpar , os successos dos antigos séculos , 
e da historia da Religião, e até os mesmos Mistérios que 
só devem ser o objecto da nossa fé , e que não podem ca- 
ber na alçada dos nossos sentidos. 

He verdade que este modo de considerar as cousas da 
Religião he huma consequência da ignorância e da baxeza 
das idéas daquelles séculos : nós hoje mais aclarados pelas 
sciencias, pensamos com mais elevação sobre objectos tão 
elevados, e sabemos adorar com respeito as cousas que são 
superiores ás nossas idéas , e á nossa razão : mas aquclles 
séculos devotamente ignorantes e grosseiros não crão pró- 
prios para taes abstracções ; e não se contentavâo com a ce- 
lebração das festas e acções Religiosas, sem que ella fosse 
acompanhada da representação. Nem os costumes de Portu- 
gal erão a este respeito dessemelhantes aos das outras na- 
ções : 



DAS SciENCIAS DE L I S B O A. 55 

ç6es : em todas ellas havia peças de Theatro em que se re- 
presentava a Paixão de Christo , e os outros Mystcrios ; e 
ainda se compararmos com a maior parte destas as que 
nos deixou Gil Vicente , sem duvida não será este reputa- 
do nem o majs grosseiro , nem o mais atrevido. Os Caste- 
lhanos antes c depois dt-stc tempo , e os mesmos Francezes 
derão ainda maior extensão áquella liberdade , c tinhão em 
geral idéas mais corpóreas á cerca da nossa Religião: em 
Portugal juravão-se os Trautos públicos na presença do Cor- 
po de Deos consagrado , tangcndo-o com suas mãos cada 
huma das testemunhas : em França erão estes Trautos firma- 
dos com pcnnas molhadas no próprio Sangue de Jcsu Christo ! 
Assim nada he tão natural , como terem sido bem rece- 
bidas das pessoas mais discretas e assisadas do principio do 
Scculo XVI. as Obras dramáticas de Gil Vicente , nas quaeg 
a perspicácia do nosso scculo tem achado os defeitos que 
ficão apontados. Elles viviâo inteiramente no seu tempo , e 
no seu paiz, ignoravao as regras da arte dos antigos, e os 
costumes dos povos dos tempos passados ; nós mesmos , a 
pezar das lições dos sábios e do fruto da experiência de mui- 
tas idades , não somos talvez de todo isentos de prevenções : 
conhecemos mais a inverosimilhança dos antigos dramas que 
• erão destituidos das três unidades, do que conhecemos a que 
quasi sempre se segue da escrupulosa observação das mes- 
mas unidades j e sabemos melhor vestir os nossos actores 
com os trajos próprios do seu paiz e do seu século, do que 
representallos com os seus verdadeiros costumes e com a 
sua própria maneira de vida. Mas sobre isto a posteridade 
nos julgará. 

Entretanto he certo que o merecimento de Gil Vi-^ 
cente , posto que seja em parte dependente das circunstan- 
cias e relações que ficão ponderadas , ficará assas sensível 
ainda quando estas se apartarem da nossa consideração. A ri- 
queza prodigiosa da sua invenção , a viveza e verdade do 
dialogo, a suavidade e harmonia poética da linguagem, 
a bellcza das allegorias , o uso dos adágios c rifões Por- 

tu- 



$6 Memorias da Academia Real 

tuguezes , que os scculos seguintes tem cuidadosamente 
conservado , e de hum certo modo consagrado ; finalmente 
a graça c a delicadeza cómica que se encontra na maior par- 
te dos seus dramas, especialmente nos Autos e nas Farças ; 
suo as cousas que constituem o merecimento absoluto d'a- 
quellc Autor, as quaes hem justificao o enthusiasmo que 
elle Causou, não só aos Nacionaes, mas ainda aos Estran> 
geiros {a) . E 

Qà) Não permittem os curtos limites d'huma Memoria Académica f.U- 
lar com mais extensão das Obras d' hum Autor hoje tão iioípco conheci- 
do , e que tanto o merece ser, como Gil \'icente. Simonde de Sismou- 
di tirou de Boutervek vários extractos do Auto da Fiira , representado 
a ElRei D. João III. em Lisboa, nas Matinas do Natal do anno de 1527. 
e os imprimio no Tom. 4. da Obra já citada , pag. 451. 

O outro Auto conhecido depois com o nome de Mofina Mtndes , e 
representado a ElRei D. João 111. nas Matinas do Natal do anno de 
1534. tem mui relevante merecimento. Entra primeiro hum Frade , que 
por modo de pregação recita o argumento do Auto , no qual acarreta 
muitos nomes de Autores sagrados e profanos , que parecem trazidos ali 
de propósito para se escarnecer o vicioso estilo de que usaváo os pre- 
gadores do tempo. O Frade explica o fim por que apparcce na scena: 

M^itàarãme aqui subir 

neste sancto anflithcatro 

fera aqtn introduzir 

as figuras que hã de vir 

com todo seu aparato : 

he de notar que haveis de considerar 

isto ser contemplaçam 

jóra da historia geral 

mas fundada em devai^am. 

No príncipe do Auto entra a Virgem Maria acompanhada das suas 
damas, que sáo a Pobreza, a Fe , a Prudência, c a Humildade. Vem 
depois o Anjo Gabriel , e faz-se a Annunciação. Então cerra-sc a corti- 
n.i , e ajuntáo-sc os Pastores para o tempo do Nascimento; os quaes de- 
pois de repetirem hum comprido dialogo , deitáo-sc a dormir. Neste mo- 
mento apparece de novo a Santa Virgem , S. José, e a Fé com as mais 
Virtudes, que de joelhos resáo hum Salmo a versos. Esta scena rem mui- 
to sal cómico: mandando a Virgem acender a veia da Esperança, res- 
ponde S. José seguindo a mesma allcgoria : 

Senhora , nam monta mais 
semear milho nos rios , 
que querermos por sinaes 
meter cousas divinaes 
nas cabeias dos bugios. 



DAS SciENClAS DE LtSBOA. $y 

E com effcito bem se pôde acreditar que estes dramas 

representados na Corte d' ElRci D. Manoel , concorressem 

principalmente para serem tão fallados no mundo os serões 

de Portugal , como depois escrevia o nosso Sá de Miran- 

Tom. V. Part. 11. U da 

Míindai-lhe acender candcai 
que chamem ouro e fazenda , 
e vereis bailar baleas , 
forque irão tirar das veas 
O lume com que s' acenda. 

E a gente religiosa 
manda-lhes velas hispaes , 
a cera de renda grossa , 
os pavios de casaes , 
e logo não porão grosa. 

Acabada esta Sccna , chora o Menino posto em hum berço ; as Vir- 
tudes cantando o embaláo, o Anjo o annuncia aos Paitoies. No fim do 
Auco os Anjos tocáo seus instrumentos ; e as Virtudes cantando , e os 
Pastores bailando , se vão. 

Da applicaçáo burlesca das cousas e costumes modernos ás dos sé- 
culos antigos , ha muitos exemplos em Gil Vicente , assim como cm to- 
dos os Cómicos do seu tempo. No dialogo sobre as tentações de que 
já fallei , os Reinos do mundo que Satanás ofFerece a ]esu Chtisto , são 
a terra de Kio frio, Aldegalega, Coruche, o que vai desde Çamora até 
Salvaterra, e desde Almeirim até a Erra , que tudo diz ser terra sua; 

E a terra que tenho de cardos e de pedras 
que vai desde Cintra até Torres pedras. 

Sismondi tem razão para dizer que as Comedias de Gil Vicente sáo 
as mais insignificantes das suas peças dramáticas : e que as Tragicome- 
dias não passão d' hum grosseiro esboço do que vieráo a ser as Come- 
dias heioicas dos Hespanhoes , mas que a pczar disso tem scenas mui'o 
patheticas. Com efteito a primeira Tragicomedia sobre os amores de D. 
Duardos Frincipe d' Inglaterra , com FÍorida filha do Imperador Palmei- 
rim de Constantinopla, abona o sentimento de Sismondi. As Tragicome- 
dias intituladas Náo d' amores , Fragoa d' amor , e principalmente a que 
toi feita á partida da Infanta Dona Keatriz Duqueza de Saboya , exce- 
dem a iodas na graça cómica , na delicadeza das allegoiias , c no estilo 
faceto com que André de Resende caracterisa o Autor, 

dicax , atqtie inter vera facetus : 

Gillo jocis levibtis doctus pr^stringere mores. 

Entre as Farças , a de Inez Pereira , representada a ElRei D. João III; 



;8 Memorias da Academia Real 

da (a) ; ao menos conra-se tle Desiderio Erasmo , que se re- 
solvera a aprender a lingua Portugiieza para ler Gil Vicen- 
te , e que não julgara perdido o seu trabalho : e he certo 
que hum homem tão versado cm toda a antiga litteratura 
como André de Resende , e outro tão grave c judicioso co- 
mo João de Barros, antcpunhão Gil Vicente não só aos ou- 
tros Cómicos do seu tempo, mas aos antigos Gregos c Ro- 
manos (/') ; e que quando já a arte dramática tinha feito 
entre nós maiores progressos , ainda a Corte d' El Rei D. 
Sebastião se deleitava em ouvir representar as peças d'aquel- 
le antigo Cómico (c) , 

Pouco tempo depois de ter sido criado por Gil Vicen- 
te o nosso Theatro, tomou este huma direcção mui diver- 
sa, e como huma nova face nas mãos d' hum Poeta insigne, 
que será eternamente chorado pelas Musas Portuguezas , qual 
foi Francisco de Sá de Miranda. Rccolhendo-se á Pátria já 
no reinado de D. João III. depois de ter viajado pelos mais 
celebres lugares da Hespanha e da Itália , foi elle o primei- 
ro 

no seu Convento de Thorn.ir , foi composta por occasiáo de duvidarem 
cercos homens de bom saber, se o Autor fazia de si mesmo estas Obras, 
ou se as furtava de outros , e por isso lhe deráo este thema sobre que 
fizesse huma : mais quero asno que me leve , que cavallo que me dernilx. 
Da lição de Gil Vicente póde-se também tirar algum conhecimento 
acerca do que era no seu tempo o appar.ito scenico: he certo que os 
Actores representaváo em anfitheatto , ÍMohe, em lugar mais elevado re- 
lativamente aos Espectadores ; que havia nnuaçóeb òe scenas , que se fa- 
ziáo por meio de bastidores , ou de cortinas , que náo faltava todo o gé- 
nero de maquinas de Theatro , as quaes eráo )a usadas em Portugal mui- 
tos annos antes de existirem composições dramáticas ; c que finalmente 
os dramas se representaváo náo só nas Igrejas , e nos Palácios dos nos- 
sos Soberanos, mas também em outros differcntes lugares. 

(4) Os momos , os serões de Portugal , 

Tão fatiados no mundo , onde são idos , 
£ as gradas temperadas de seu sal ? 

Sá de Miranda , Cart. 6. 

(J>) Resende , no Poema já citado ; e Barros , no Dialogo em louvor 
da nossa linguagem. 

(f) Luís Vicente , no Prologo da primeira Edição das Obras de Gil 
Vicente. 



íiua 01 



DAS SciENClAS DE LiSBOA. ^J> 

ro que lançou os fundamentos ao Theatro clássico , que os 
Italianos já ha mais annos havião restaurado , e que os Cas- 
telhanos do seu tempo apenas conheciáo por imperfeitas 
traducçoes ou imitações de poucos Poemas Dramáticos assim 
Gregos como Romanos. 

Escreveo Sá de Miranda duas Comedias , Os Estrangei- 
ros , c Os Filhalpandos : na primeira he a pessoa da Come- 
dia a que faz o Prologo, c que conta brevissimamente a sua 
mesma historia ; isto he , " como cm Grécia nascera e lá lhe 
>» fora posto o nome , como depois passara a Roma , onde 
» chegara a tanto , que lhe não fallecera hum nada de ser 
>» Deosa , como se perdera com muitas das boas artes en- 
j> trc as ruínas d'aquclle império , onde jouvera longo tem- 
>» po como enterrada , té que os visinhos a tornarão á vi- 
" da , posto que maltratada e pouco para ver ; e como pos- 
>» ta outra vez por terra pela guerra sua inimiga , a tempo 
» que já hia ganhando pés , viera fugindo para Portugal , 
»> onde achara paz , e não sabe se acharia assossego. Emfim 
» pede ella que não a obriguem a fazer no cabo dos seus 
j> dias o que até então não fizera , que he trocar o nome 
>í de Comedia pelo de Auto ; que lhe deixem aquelle por 
>í amor da sua natureza , e que ella deixaria também os ver- 
>> SOS torçados dos seus consoantes j>. Eis-aqui a primeira 
origem e ensaio , assim como o verdadeiro caracter da Co- 
media clássica Portugueza. 

Assim não se pôde duvidar , que as Comedias de Sá 
de Miranda fossem moldadas ás dos Latinos, e Italianos, e 
principalmente ás de Terêncio e Ariosto ; o que o mesmo 
Autor claramente confessa {a) , e se conhece até pela allu- 

H ii são 

(<j) Na Carta ao Infante D. Henrique , remettendo-lhe Os Estrangei' 
TOS , cjue elle lhe mandara pedir: Esta só lembrada lhe fiz ã partida , 
que se não desculpasse de querer ds vezes arremedar a Plauto e Terêncio , 
porque em outras partes lhe fora grande louvor , e se mais também lhe acoi- 
massem a pessoa de kum Doctor , como tomada de Ludovico jiriosto , que lhes 
pozcsse diante os três avogados de Terêncio , dos quaes hum nega , outra 
affirma , o terceiro duvida , como inda cada dia acontece ; assi que dts aqucl* 
l« tempo vem jd o furto. 



éo Memorias raAcademia Real 
são expressa aos Davos e Syrios das Comedias Terencianas , 
e pela imitnção d* algumas Scenas d' ambos os referidos Có- 
micos , e dos caracteres das pessoas que nelias figurão. 

Mas o Cómico Portuguez longe de se encostar servil- 
mente aos seus modelos , cuidou muito em os ennobrecer , e fe- 
lizmente o conscguio : por certo quanto todos confessão que 
lhe deve a Língua , e a Poesia Portugucza, outro tanto lhe 
deve segundo eu entendo a arte dramática : não contente <ie 
a reduzir entre nós á regularidade e elegância a que a havia 
levado Terêncio , deo-lhe de novo aquclla graça, belleza, e 
atticismo , que o grande critico QLiintili.ino debalde procu- 
rava nos Cómicos Latinos (a) ; e nisto que lhe deo de no- 
vo , não sei que ninguém entre nós o excedesse , nem ain- 
da o igualasse : fallo da pureza da lingua , e da proprie- 
dade e elegância do estilo, da viveza e animação do dia- 
logo , da nobreza com que representa as cousas mais or- 
dinárias da vida commum , finalmente do prudente uso e 
applicação das regras que dieta huma boa filosofia , desem- 
baraçada de alheias e impertinentes erudições. 

Se nas cousas pertencentes á invenção e disposição do 
drama tivesse Sá de Miranda a ousadia de caminhar hum 
pouco sobre si , e sem ter continuamente á vista os seus 
modelos, seria elle sem duvida não só o primeiro e o mais 
illustre dos nossos Cómicos clássicos , mas ainda o desco- 
bridor <i' hum novo género de Comedia , ou hum Cómico 
original: mas esta gloria, nem elle, nem nenhum dos seus 
contemporâneos então conscguio. Por isso só i vista dos 
dramas regulares das Nações modernas he que se podem 
notar os defeitos das suas Comedias , os quaes das mais acre- 
ditadas Comedias dos antigos Poetas receberão a sua origem 
ou a sua occasião : fallo agora da pouca acção que se ob- 

scr- 

(a) Instit. Orator. Libr. lo. cap. i. In Comoedla maxime dattdicamus .... 
Vix levem conseanimitr umhr/ini , adeo tu mihi scrmo ipse Romanus noit re» 
tiperc videatur illam solis conctssam Jtticis venerem , quando eam ne Gríci 
quidem in alio genere lingtu obtinuerint. Lih. 12 c/ip. 10. Neque cnim si 
tenuiora bicc ac pressiora Gr<cci melius , in toque vincimtir solo , ■&• ideo in 
Comotdiis non contendimHS , &c. 



5ia« Oi 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. ^t 

serva nestes dramas , no desatado de muitas Sccnas , nos 
longos apartes^ na introducçáo pouco decorosa de rufiães e 
cantoneiras {a) , e no pouco interesse y e por isso no pouco 
effeiro que dcviáo produzir huns dramas, em que as piinci- 
pacs pessoas apenas appareccm na Scena , em c]ue o nó da fa- 
bula he contado aos espectadores, e não visto p(;r ellcs , e em 
que a concussão , que causao os milagrosos reconhecim.ntoi 
dos Actores , fazem todo o merecimento da peça [b) . 

Eis-aqui as virtudes próprias e oiiginacs de Sá de Mi* 
randa , e os defeitos que nelle unicamente produzio a lição 
c imitação dos que antigamente tinhão dado a lei a hunl 
Thcatro regular. Assim não admira que entre os Lettrados 
do seu tempo, assiís entendidos para apreçarem aquellas , * 
demasiadamente affcrrados ás erudições do seu século para 
conhecerem estes , alcançasse aquelle il lustre Cómico os maio- 
res applausos : por isso o Cardeal Infante D. Henrique foi» 
gava com assistir á representação das Comedias de Sá dá 
Miranda ; e dous homens tão sábios e judiciosos como fo* 
râo António Ferreira , e Manoel Scverim de Faria (f) , o ac- 

cla- 

(<j) Posto que esta introducçáo de rufiães e rantoneiras se achasse 
conforme aos costumes do tcnipo di Si de Miranda, e por isso não de- 
vesse ser mais estranhada pelos espectadores , do que era em Gil Vicen- 
te apparccer na Scena hunia Briiida Vás, e pessoas do mesmo, e airv 
da mais infame otficio , comcudo pode se crer, que não foi por esta con- 
formidade com os costumes do tempo que cila teve lugar nas Comedias 
clássicas de Sá de Miranda, e Ferreira, mas antes pela conformidade 
que tinha com a introducçáo das Glycerios , das Thais , e dos Sannios 
de Terêncio. 

(i") Nos Estrangeiros Lucrécia , a cujo consorcio muitos aspiraváo em 
Palermo , e que a todos preferia o Valenciano Amente , nunca appire- 
ce no Theatro ; e quando a fortuna lhe depara n aquella Cidade o pii 
do seu amante , então se acaba a Comedia , e o Representador vem di- 
zer aos Especradores , que o filho se lançou por terra aos pés do pa' , 
que aoí mais pretendentes de Lucrécia não faltarão outros amores , e 
que as festas da boda se forão fazer a Valença de Aragão. Nos Filh.il. 
fundos os amores de Ccsarião e dos Vilhalp.indos com Aurélia são con- 
tados no Theatro , c esta não apparece em scena com os seus amantes : 
no fim d.i peça vem também dizer hum dos Actores , qne os dcsposo- 
rios se hão de fazer lá dentro, e que não ha mais que esperar no 
Thtatro. 

CO ferreira , na Dedicatória da Comedia de Bristo ao Frincipe D. Joio j 



siaa OT 



6z Memokias da Academia Real 

clamão como o primeiro que na nossa lingua descobrio o 
estilo cómico , com geral admiração de todos , e com tin- 
ta honra e louvor , que ás Obras mais celebres que os anti- 
gos escreverão neste género ou levou , ou não deo ventagem. 

Assim abrirão caminho Gil Vicente, e Sá de Miranda 
não só em Portugal , mas em toda a Hespanha a dous gé- 
neros de poesia cómica , bem diversos entre si , cada hum 
dos quaes em todo o Século XVI. achou grande numero 
de parciaes e imitadores : mas o maior numero destes , os 
que por mais tempo merecerão o maior applauso da Corte , 
e fixarão para assim dizer o gosto publico em matéria de 
Theatro, seguirão exclusivamente o primeiro d'aquellcs Có- 
micos. Taes forão o Infante D. Luis Filho d' ElRei D. Ma- 
noel , Gil Vicente , e Paula Vicente , filhos de Gil Vicen- 
te (a) , Fr. Braz de Resende , Henrique Lopes , Jorge Pin- 
to , António Prestes , Sebastião Pires , António de Azeve- 
do , António Ribeiro Chiado , e Jeronymo Ribeiro ; cujas 
Obras coUigio em grande parte Affonso Lopes da Costa , na 
Primeira Parte dos Jtitos e Comedias Portuguezas , impressa 
em Lisboa no anno de 1587 : Livro de grande estimação 
€ raridade. 

Com menos favor do publico , mas com igual reputa- 
ção e dignidade caminhava entre tanto o Theatro clássico 
Portuguez j e dos seus parciaes , huns pretenderão fazer co- 
nhecidos ou por traducçóes ou por commentarios os pre- 
ceitos e os exemplos dos antigos , outros abalançárão-se a 

imi- 

e no Prologo da mesma Comedia : Severim de Faria , Discursos Viirios ; 
Discurso da Língua Port. 

(íi) Ao Infante D. Luis attribue-se o Auto de D. Duardos , que sahio 
impresso com o nome de GiJ Vicente seu Mestre. De Gil Vicente o 
moço conta-se que compozera alguns Autos , dos quaes se publicou o dos 
cativos , chamado de D. Luis e dos Turcos ; e qus tanta inveia excitara 
em seu Pai o seu extraordinário talento para a Poesia Dramática , que 
se resolvera a mandallo para a índia , para não ter presente hum tão for- 
te competidor. Fin.ilmente de Paula Virente diz-se que sendo Cuvilhei- 
ra da Infanta Dona Maria , Filha d' ElRei D. Manoel, não só (ompoze- 
ra alguns dramas, e ajudara a seu pai já cego na composição de outros , 
inas que dera a esces hum novo lustre com as graças da lepreseniaçáo. 



DAS SciENciAs DE Lisboa. 63 

imitallos, e se possível fosse, a excedellos: os maiores Eru- 
ditos do Século XVI. tomarão ou hum , ou outro empenho. 
Entre os primeiros merecem hum lugar distlncto Achilles 
Estaco, discípulo de André de Resende, que escreveo os 
Commentarios ás Poéticas de Horácio , c Aristóteles ; Antó- 
nio de Gouvèa , que deixou feitos por sua morte muitos 
trabalhos importantes sobre Terêncio j João Affonso de Be- 
ja , que traduzio em Portuguez as Obras deste Cómico La- 
tino , ao mesmo tempo que Pedro Simão d'Abril as tradu- 
zia cm Castelhano , mas que não logrou como este a glo- 
ria de ser lida a sua Obra pela posteridade ; Lopo de Sousa 
Coutinho, tão bom Capitão, como Historiador, e Poeta, 
que traduzio em Portuguez as Tragedias de Séneca ; e ul- 
timamente já próximo ao fim do século , o illustre Leonel 
da Costa , que traduzio litteralmente em verso solto as qua- 
tro primeiras Comedias de Terêncio , que só em nossos dias 
gozarão o beneficio da impressão. 

Entre os Cómicos clássicos , se exceptuarmos Sá de Mi- 
randa , nenhum levou vcntagem a Ferreira. A sua Comedia 
de Bristo escrita antes do meio do Século XVL e por elle 
dedicada ao Príncipe D.João, Filho d' ElRei D.João IIL 
sendo , como o Autor confessa , a primeira cousa de homem 
tão mancebo , feita por só seu desenfadamento em certos 
dias de ferias , assim mesmo foi na Universidade de Coim- 
bra recebida e publicada com aceitação e louvor: depois da 
Comedia de Bristo appareceo a do Cioso. Ferreira seguio o 
caminho de Sá de Miranda , a quem chamava seu Alestre ; 
mas a natureza juntamente com o estudo e applicação, ten- 
do-o feito tão judicioso e erudito, negou-lhe quasi absolu- 
tamente a graça e aquella virtude cómica , de que tinha en- 
riquecido tão liberalmente o seu modelo : d'aqui vem que 
nestas Comedias , posto que se ache guardado o decoro , e 
multo bem desempenhados os caracteres das pessoas , o dia- 
logo he abafado em sentenças , e na importuna allegação 
de Autores ; e ambas estas cousas fazem os monólogos ni- 
miamente extensos e desagradáveis. Ferreira participou de 

qua- 



íiza 01 



64 Memorias da Academia Real 

quasi todos os defeitos de Sá de Miranda , e não tinha a 
sua principal virtude. 

Com muita mais graça e elegância escreveo Camões a 
Comedia a que chamou Os AmphitriÕes : he feita á imitação 
do yíniphitrm de Plauto , e do meio do segundo Acto por 
diante, he fácil de notar huma perfeita conformidade na 
disposição das Sccnas , e nas falias dos Interlocutores em am- 
bas as Comedias. Comtudo o catástrofe da peça Portugue- 
sa hc mais elegantemente desenvolvido : Júpiter não deven- 
do já apparecer no Thcatro depois de ter despido a mas- 
cara d'Ámphitrião , faz ouvir de dentro a sua voz, fallando 
em espirito profético a'ccrca do nascimento de Hercules , e 
da fama que conseguiria este heróe por seus longos traba- 
lhos j quando no fim da Comedia de Plauto ainda Júpiter 
vem ao Theatro fallar com Amphitrião , e ainda ouve o com- 
primento de despedida que este lhe faz. As outras Come- 
dias attribuidas a Camões são sem contradicção inferiores 
a esta : a d' ElRei Seleuco he huma farça de personagens he- 
róicas , de simplicíssimo enredo , e de mui pouca graça có- 
mica : a de Filodemo escrita em verso e prosa, he hum dra- 
ma metade pastoril, metade heróico, inteiramente destituí- 
do de verosimilhança. Nenhuma delias he digna da repu- 
tação do immortal Autor dos liusiadas. 

Ainda a invenção da Comedia clássica era nova em Por- 
tugal , quando Jorge Ferreira de Vasconcellos escreveo a sua 
Eufrosina y e a dedicou ao Príncipe D. João, de quem ha 
pouco fallei : satisfeito naturalmente com este ensaio , escre-r 
veo depois a Vlyssipo, e a Aulegrafia\ e póde-se dizer que 
ao menos no século seguinte forão ridas estas Camedias em 
estimação, e principalmente a primeira , que sahio traduzida 
na lingua Castelhana por D. Fernando de Ballesteros e Sa- 
vedra , e reimpressa com algumas correcções por Francis- 
co Rodrigues Lobo , a quem o Abbade Barbosa reputou ul- 
timamente com manifesta equivocação por verdadeiro autor 
delia. 

Se a Comedia nova fosse unicamente , como diz Mer- 

cu- 



DAS SciENCIAS DE LiSBOA. \ 6f. 

curió no Prologo do Ulyssipo , hunia imitação de vida , espe- 
lho de costumes , e imagem do que nos negócios passa , por es- 
tilo humilde e chegado d proui , as Comedias de Jorge Fer- 
reira conscguirião completamente o seu fim , c serião dignas 
da admiração da posteridade ; mas a Comedia nova he mais 
alguma cousa, e todo cs3C mais que cila he, debalde se pro- 
curará nas deste Autor. ^ Que importa que ellas encerrem 
em si hum precioso deposito da lingua e fraseologia Por- 
tugueza , accommodadas ao verdadeiro estilo cómico, se nao 
he possivel que haja pessoa dotada de tanta pacicncia e 
constância , que sofra sem fadiga a sua não interrompida re- 
prescntaç^io , ou leitura ? 

l Pois quem abundou jamais de tanto ócio , que possa 
ouvir ou ler três Comedias , cada huma das quacs forma 
por si hum grosso volume ? onde quasi tudo hc estranho 
ao simplicissimo enredo do drama ; e a verosimilhança he 
tão pouco observada , que dous Interlocutores sem se mo- 
verem do Theatro , vão conversando e andando seu cami- 
nho desde Lisboa , ate chegarem a huma Quinta que fica na 
estrada da Luz ? ^ Quem poderá ouvir ou ler scenas intei- 
ras sobrecarregadas de immensa erudição sagrada e profana , 
mais própria da Cadeira Evangélica , e das Aulas da Univer- 
sidade do que de hum Thcatio ; onde só depois de muita 
fadiga , se pode rastejar o que os Interlocutores forão la- 
zer á Scena? ^ Quem poderá íoportar hum tal amontoamen- 
to de sentenças e de adágios, postos indistinctamente na bo- 
ca de velhos experimentados, e na de moços indiscretos, 
de homens polidos , e de criados grosseiros e ignorantes ? 
Por certo se taes fossem as Comedias que nos deixarão 03 
antigos, de nada aproveitaria a restauração do seu Theatro. 
Mas o maior triunfo do Theatro clássico em Portugal 
estava reservado para Ferreira , o qual foi o primeiro que 
entre nós introduzio a Tragedia dos Gregos, assim como 
Sá de Miranda fora o primeiro que introduzira a Comedia 
dos Romanos. A Tragedia Castro he tão conhecida, no nos- 
so tempo , e tem sido tantas vezes ou traduzida , ou imi- 
Tom. V. Part. II. I ta- 



66 Memorias da Academia Real 

tada , ou analysada por Estrangeiros e Nacionaes , que eu 
me dispensarei de repetir o que os outros disserao tanto 
acerca das bellezas próprias e originacs de que o Autor a 
cnriqueceo j como dos defeitos a que a imitação escrupulo- 
sa dos Gregos , ou antes a falta de conhecimento do que 
era hum Theatro Trágico , o devia necessariamente condu- 
zir: pois sabido he que Ferreira não tinha ainda outros mo- 
delos que não fossem os da antiguidade ; e que os Italianos , 
que desde Trissino começaVão no principio du Scciílo XVI. 
a restaurar a Tragedia Grega , longe de excederem , ficao 
muito inferiores, segundo ojuizo de criticos imparciaes, ao 
Trágico Portuguez. 

Huma das mais manifestas ventagcns que este lhes le- 
va , he a escolha do argumento. Os primeiros Trágicos Ita- 
lianos , e ainda o grande Tasso , e o Francez Jodelle , que 
ambos forâo coevos a Ferreira , mas escreverão posteriormen- 
te a elle , julgarão erradamente que os feitos modernos e 
nacionaes não interessarião tanto o auditório, como a alhèa 
historia da antiga Grécia e Roma , ou os trágicos aconteci- 
mentos que a sua mesma imaginação inventava. Ferreira per- 
suadio-se melhor que o mesmo interesse , que os Gregos ou- 
trora achavão cm ver representados na Scena os successos 
antigos da sua pátria , acharião tambcm os Portuguezcs , sen- 
do espectadores do successo mais trágico , que a Historia 
moderna do seu paiz lhes offerecia {a) . E o caso he qu3 
este assumpto primeiramente por elle tratado, alcançou de- 
pois tão grande aceitação , que dos Castelhanos o piimei- 
ro que compoz huma Tr^igedia regular, sendo já morto Fer- 
reira , não fez mais que imitar fielmente a Castro Portugue- 
za (b)j e em Portugal jazendo a Musa Trágica n' hum se- 

pul- 

(i3) Do mesmo se persuadirão os Poetas Romanos , o qiie Horaci» 
lhes attribue a grande louvor : 

Nec niinimum mermre duus , vesti^^ia Gríca 
Ami deserere , et cclehrare domestica fact/l. 

Dt Arte Poet. f. zSCj. 

(h") Foi este António da Silva , nome com o qual , segundo a opinião do 






DAS SciENCIAS DE LiSBOA. éj 

pulchral silencio por espaço de dous séculos inteiros , quan- 
do tornou a rcsurgir ornada do seu antigo esplendor , foi 
ainda a infeliz Castro o trágico assumpto em que se exer- 
citou a penna do suave Qi^iita. 

O mesmo destino que teve entre nòs a Tragedia , te- 
ve tambcm a comedia clássica : o Século XVI. que a vio 
nascer, a vio também acabar; e Sá de Miranda, Ferreira, 
e Camões não deixarão perpetuada a sua escola. O gosto 
dasFarças, e das Comedias sagradas e Autos Sacramentaes , 
prevalcceo em Portugal ; c então mesmo quando os homens 
mais eruditos da Nação procuravão introduzir outro género 
de Comedia mais regular , c quando o espirito do século 
fazia necessária a reforma de muitas das opiniões e institui- 
ções publicas , que a ignorância dos séculos bárbaros se ti- 
nha apropri.ido. 

Quanto ás Comedias sagradas , já Sá de Miranda se las- 
timara {a) de que os Livros divinos fossem tratados com 

I ii tal 



Snr. Boiíterwek , se cjuiz encobrir o Dominicano de Galliza Jeronymo Ber- 
ínudes. He o primeiro Trágico regular da Hesp.inha : publicou em 1577 a 
Nise lastimosa t e Niii laureada. A primeira destas Tragedias he huma imi- 
tação fiel scena por scena áíCastfo de Ferreira ; a segunda he original, 
porem liça muito inferior á primeira ; e o seu assumpto que he a co- 
roação de Dona Ignez de Castro depois de morta , e o processo e execu- 
ção dos seus matadores , não parece próprio para ser representado no 
Theatro. O Abbade Barbosa diz que António da Silva fora Portuguez , 
c natural de Evota ; e depois de lazer menção das suas duas Tragedias , 
e do louvor que a cilas dá o Padre António dos Reis , no Entbmiaim. 
Poet. diz que este estranha a Nicoláo António ter feito ao Autor na- 
tural de Galliza , quando certamente era de Portugal, 

(«) Qiit troca , ver lã Pasquinos 
Desta terra cento a cento , 
Qiiem o vee sem sentimento 
Tratar os livros divinos 
Com tal desacatamento ! 

O que se não deve ousar 
A kr , se em giolhos não , 
C Qf^' g'''tÇ^i f^r^ chorar ! ) 
Torcem , fazendo fallar 
alo som de sua paixão. 



6? Memorias DA Academia Real 

tal desacatamento , que se torcessem suas autoridades , fazen* 
tl(vos fallar ao som da paixão de cada hum. A autoridade pu- 
blica k"Z também ouvir sua voz com assas energia , e o Car- 
deal D. Henrique no Rol dos Livros defesos nestes Reinos 
e Senhorios de Portugal , que na qualidade de Inquisidor 
Geral mandou publicar no anno de ijói. prohibe expressa- 
mente além de muitas Comedias Estrangeiras , que corriao 
neste Reino , todas as « Obras em Romance de burlas , onde 
» se trata cousa de Religião , ou da Sagrada Escritura , ou 
»» onde se applicão palavras sagradas a propósitos profanos >». 
Tão pouco parecia conforme ds luzes do século , que 
as Igrejas se convertessem em Thcatros de chocarrices e pro- 
fanidades : por isso se acautelou em todas as Constituições 
Synodaes de Portugal , publicadas no Scculo XVI. que nas 
Igrejas se não fizessem representações , ainda que fossem da 
Paixão, Resurreição c Nascimento de Christo , sem especial 
licença do Ordinário (a) . Nas Constituições de Coimbra pu- 
blicadas pelo Bispo D. Affonso de Casteibranco em xypr. 
he esta prohibição absoluta , e não deixa esperanças de mo- 
dificação ou dispensa. 

Mas o costume inveterado dos povos frustrou a execu- 
ção de tão sabias leis. Em todo aquelle século , e no século 

se- 

Esquecidos do conselho , 
Poderá dizer mandado , 
Sendo-o , porque foi vedíido 
No santissimo Evangelho , 
Aos cães não deis o sagmdo, 

Sá de Miranda , Cart. 2. 

(á) Assim o detertnináo todas as Constituições Synodaes d'aquelle sé- 
culo , que tenho á vista; a saber, as de Lisboa do Cardeal Inlante D. 
Arfbnso, publicadas em Synodo de (556 : as de Braga do Cardeal infan- 
te D. Heiirit)ue, em Syno^Io de tçjy: as de Angra do Bispo D. Jorge 
de Santia_:;o, cm Synodo de 1559: as de Lamego do Bispo D. Manoel 
de Noronha, em Synodo de 156I : as de Miranda do Bispo D. Julião 
d Alva , em Synodo de 1565 : as do Funchal do Bispo D. Jcronymo Bar- 
reto , em Svnodo de 1578: as do Porto do Bispo U. Fr. Marcos He Lis- 
boa, cm Synodo de 158?." e ultimamente o Concilio Provincial de Évo- 
ra, celebrado no anno de 1567. no Tir. 4. 



álA-x OS 

- ; 9-''. ■-- 



DAS SciEKCiAs DE Lisboa. 6p 

seguinte foi frequentíssimo o uso dos Autos e Comedias sa- 
gradas ; e basta ler o ultimo índice do;; Livros prohibidos em 
Portugal, publicado em 16:4 pelo Bispo Inquisidor Gerai 
D. Fernando JMartins Mascarenhas , para se conhecer o gran- 
de numero dos Autos publicados só até esse tempo , e a sua 
particular indolc c natureza ; pois que nos de Santa Barba- 
ra , e Santa Gathariíia não du\Mdárão seus Autores represen- 
tar no Thcatro a administração do Sacramento do Baptis- 
mo; e no Auto da Paixão , composto por Fr. Francisco Va's 
de Guimarães , mandao-sc pôr todos de joelhos , cm quanto 
Jcsu Christo consagra o pão na Scena. 

Tão difficeis são de arrancar os prejuízos dos Povos , e 
as idéas que formarão acerca da Religião , e que o habito e a 
educação nclles radicou ! Os Autos Sacramentacs representa- 
dos em todas fls Cidades de Portugal na Procissão do Corpo 
de Deos , e acompanhados de jogos , bailes , e entremezes 
profanos , durarão no Século XVI. e seguinte , contra os es- 
forços reunidos dos dous poderes Eccleslastico e Civil. Só na 
Cidade do Porto acharão clles tão decidida aceitação, que pa- 
ra evitar maior mal , foi necessário que no anno de isi^ fizesse 
o Bispo com a Camará hum acordo, que depois foi confir- 
mado por ElRei D.João III., segundo o qual ficou permit- 
tido, que quando a Procissão passasse pela rua nova, se fi- 
zesse hum Auto d'alguma historia devota e breve , estando 
todos entretanto em pé sem barretes diante do Sacramen- 
to ; e que na véspera do dito dia , podessem os jogos entrar 
na Sí , com tanto que não fizessem torvação ás vésperas, e 
á procissão que então andava com o Sacramento pelas naves 
do templo (ã) . As profanações prohibidas por ElRei D. Se- 
bastião na procissão da mesma Cidade em i j6o , e outra vez 
até certo ponto toleradas no anno seguinte , pertencem mais 
ás representações mímicas do que ás dramáticas (b) . 

Os 

(íj) Cjrti Rcgi.i de D. João III. ao Concelho do Porto , dada em 
Lisboi a 8 de Junho daquelle anno : no Cartório da Camará do Porto , 
Livr. I. das Propr. Prov. da Cam. foi. jjo. 

(/i) Pela Carta Regia dirigida ao Concelho do Porto , e dada em Lis- 




70 Memorias da Academia Real 

Os últimos aiiiios do Secuío XVI. virão ainda nascer 
deus novos c monstruosos gcncros de composições de Thea- 
tro , que forao as Tragicomedias sagradas, e as Comedias 
Magicas. Aqucllas devem a sua origem aos Jesuítas : entre 
estes o Padre Iaiís da Cruz foi talvez o primeiro que com- 
poz quatro Tragicomedias escritas em verso Latino , das 
quaes a intitulada Scdecias ., ou destruição de Jerusalém por 
Nabucodonosor , foi representada a ElRei D. Sebastião , quan- 
do acompanhado do Cardeal D. Henrique visitou a Univer- 
sidade de Coimbra no anno de i5'70. Durou este gosto de 
representações nos Claustros Jesuíticos , especialmente nos 
três Collcgios de Lisboa, Évora, c Coimbra, por todo o 
Século XVn. e até á extincção delles pelo meio do Sécu- 
lo XVIII (a) . Erão as Tragicomedias tiradas pela maior 
parte das vidas dos Santos , especialmente dos Jesuítas , al- 

gu- 

boa a 50 de Maio Je 1560. (Cart. da Cam. do Porto, Livr. 2. d.a ['lúpr. 
Prov. joi. 187.) prohibio ElRei D. Sebastião as profanidndes que se pra- 
cicaváo na procissão de Corpus Christi d'acjuella Cidade : c delia consta 
que se tomaváo cada anno para 3 dita procissão cinco ou seis moças as 
mais fermosas , filhas de Ofliciacs mecânicos , huma que hia por Santa 
Maria, outta por Santa Catharina , outra pela Magdalena , ourta por da- 
jna iio Drago, outra por Santa Clara, com duas Freiras , e muitos Mou- 
ros com ellas , que ifies hiâo f.illando multas deshonestidades : rambetn 
consti , que na procissão que á véspera se tazia dentro na Sé, hiáo mui- 
tos Imperadores , e danças, e folias, de que se seguia grande perturba- 
ção. Porem da Carta Regia expedida pelo mesmo Rei á Camará do Por- 
to , e dada cm Lisboa a 1 5 de Maio de 1561. (no mesmo Livr. 2. foi. 
IJIJ.) conhece-se que o Concelho fizera tantas representações contra o dis- 
posto na Carta antecedente , que o Soberano julgou conveniente modifi- 
car a disposição delia , permittindo que só lossem na procissão ss moças 
que repre>entavão Santas , e também as representações de Reis e Im- 
peradores , e os mais jogos honestos , de que se não seguisse torvação , 
nem escândalo , como se praticava cm Lisboa. 

(jí) Não quero com isto dizer, que as Tragicomedias fossem só usa- 
das em Portugal , ou tivessem unicamente por Autores os Jesuítas. Dio- 
go de Paiva d'Andradr , o Sobrinho, que florecia nos últimos annos do 
Século XVI. e cm grande parte do seguinte , compoz três Tragedi.is La- 
tinas intituladas: yíntonius Ma^nns , "Joannes Baptista, c Eilnardus. O ce- 
lebre Pr. Francisco Je Santo Agostinho Macedo compoz : Urpheiís Trajai- 
contidia , in Aula Rc)^ia Palatii Parisieiísis coram He^e Christianissimo Lu- 
duvico XiF. acta : Impressa em Paris em 1647. Destes e de outros Au- 
:ores de Tragicomedias faz menção a Bibliothcca Lusitana. 



dAsScibnciasdeLiseoâ. 71 

gamas da antiga historia do Testamento Velho , e outras de 
íactos recentes e nacionacs. Dos seus programmas , e das re- 
ijções que existem impressas , conhecc-se o custoso appara- 
to com que íorão representadas ; pois só na do descobri- 
mento e conquista do Oriente por ElR.ci D. Manoel, re- 
presentada cm Agosto de 1Ó19 na presença de Filippe II. 
cntravâo 3 5^0 figuras. Eráo além disso acompanhadas de gran- 
de orchestra , de coros, de canto , c baile , c de todo o gé- 
nero de maquinas ; e nestas cousas consistia provavelmen- 
te o maior merecimento de huns dramas , em que se vião 
violadas quasi todas as regras do antigo Thcatro , e todas 
as da verosimilhança; cm que os Anjos, e os Diabos, os Vir 
cios, e as Virtudes, o Amor divino c do mundo, c a mes? 
ma Companhia de Jesus com o seu Anjo da guarda appar 
recém frequentemente em Scena com as pessoas ainda viva^ 
na terra, e com os bemaventurados no ceo ; e em que as 
acções religiosas são pouco decorosam.ente representadas eni- 
trc as sombras da fabula, c da allcgoria. j Com que nobres- 
za e simplicidade se não vião por esse mesmo tempo accom- 
modadas a hum Theatro profano as historias trágicas de E&- 
ther e de Athalia , na delicada penna de Racine ! 

As Comedias Magicas parece terem sido inventada^ 
por hum Cómico celebre , que se transformou a si mesmç 
de Simão Machado em Boaventura Machado , de Secular enji 
Religioso Franciscano, e de Purtuguez em Catalão. As duais 
partes das Comedias da Pastora Alféa , escritas era verso 
Castelhano , e representadas na Cidade do Porto , são as 
primeiras que conheço d'aquelle género: o Autor censuran- 
do asperamente aos Portuguezes de gabarem muito as cou- 
sas estranhas , e terem as suas em pouca monta , pareoc 
dar a entender' que quizera introduzir este novo género de 
Comedias , para se vingar da pouca aceitação que prova- 
velmente tivcrão as suas Comedias de Dio («) : e se con- 

si- 



Ça) Ftndo qitam mal aceitais 
Ai obrai dos naturaes , 



i\3M- 



O» 



y i Memorias da Academia Real 

siderarmos a acção dramática relativamente ao interesse , e 
divertimento dos Espectadores , prescindindo dos meios por 
que aqucUe se deve conseguir , não se pôde duvidar que 
Wachado fosse mais feliz na invenção das fabulas deAlféa, 
do que na representação do primeiro Cerco de Dio. Huma 
historia chronologicamcntc escrita em verso rimado não pô- 
de produzir hum bom Poema Épico , nem huma boa Co- 
media ; e bastava que Francisco de Andrade (a) e Simão 
Machado tivessem dado o nome de historia áquelles diver- 
sos Poemas , para não deverem esperar o applauso do pu- 
blico entendido: ao contrario as Comedias d'Alféa , com os 
repetidos prodigios e transformações , que fazem todo o seu 
fundamento, intercssao e divertem o publico; e tello-hiãu 
sempre attento até o fim do espectáculo , se não fosse mui- 
tas vezes importunamente distrahido ou com as rústicas fal- 
ias dos Pastores , ou com os discursos conceituosos c alam- 
bicados dos amantes , ou com os diálogos puramente intan- 
tís de alguns Interlocutores com o seu Eco. 

Mas estas cousas já pertencem ao estado d' huma gran- 
de degeneração do Theatro Cómico em Portugal : quando 
as esperanças da Monarchia estavão sepultadas nos areaes 
de Afrjea , quando tínhamos perdido a Pátria , e com ella 
o espirito nacional , e a gloria dos anrigos Portuguczcs , per- 
deo-se também a nossa Litteratura , c com cila o nosso Thea- 
tro. Comtudo esta perda não podia deixar de ser lenta e 
successiva , porque a hum scculo quisi inteiro de esforços 
bem combinados , e dirigidos para o adiantamento das Scien- 
cias , e dos bons estudos , não se podia seguir rapidamen- 
te 

Fiz esta em lingita estrangeira , 
Por ver se desta maneira 
Como a elles nos tratais. 

Fio-me no Castelhano ; 
Fio-me em ser novidade; Scc. 

(^d^ Francisco de Andrade conipoz lium Poema Heróico , ou antes hu- 
mi Historia escrita em oitava rima , com o titulo ; O primeiro cerco que 
os Turcos pozerão d Fortaleza de Dio: impressa cm Coimbra no anno de 



DAS SciENCiASDE Lisboa. 73 

te hum século inteiramente bárbaro. Todos sabem que hum 
numero não pequeno dos nossos bons pjosadorcs e poetas 
do Scciílo XVII. se preservarão mais ou menos do conta- 
gio do máo saber, e máo estilo que então grassava nas Hcs- 
panhas ; e eu já disse que nos primeiros vinte e quatro an- 
ros deste século , posto que já se tivesse inteiramente per- 
dido o Theatro clássico , conscrvava-se ainda o uso dos an- 
tigos Autos Religiosos , e Farças Portuguezas , de que díío 
bom testemunho as Obras de AíFonso Alvares , de Vr, An- 
tónio de Lisboa , de Baltazar Dias, de Francisco Rodrigues 
Lobo , e de outros. 

Depois deste tempo observa-se maior decadência na 
Poesia Dramática , do que em todos os outros ramos da Lit- 
teratura ; e muitas causas concorrèrcío para este fenómeno. 
O Theatro Hespanhol tinha entáo chegado ao maior auge 
da sua gloria: Lope de Vega, e Pedro Calderon de la Bar- 
ca estiverão successivamente á resta deste Theatro , e tive- 
rão hum grande numero de discipulos , que em invenção e 
fecundidade pretenderão igualar aquelles dous famosos Mes- 
tres. Tal era então a inundação de dramas Hespanhoes, que 
La Huerta calculando só os impressos , os faz subir ao nu- 
ro de 38J2 , e ainda estes pela maior parte são do tempo 
de Ccldcron : o numero dos não impressos não podia dei- 
xar de ser muito maior, pois que Lope de Vega só á sua 
parte compoz 2200 , dos quaes apenas se imprimirão 300. 

Os Hespanhoes podiao assim bastecer de Comedias e 
Tragedias a todos os Theatros da Europa; e as circunstan- 
cias do tempo fazião com que os de Portugal se aprovei- 
tassem facilmente de tão prodigiosa abundância, e se sujei- 
tassem ainda nisto á fatal influencia Castelhana. Não haven- 
do já Corte em Lisboa , concorrião aqui os Comediantes Hes- 
panhoes attrahidos pelos Vice-Reis , e representavão os dra- 
mas do seu paiz. Dos Portugue/.es , huns na sua mesma Pá- 
tria , outros na Corte de Madrid , pretenderão ou imitar ou 
exceder aquelles modelos ; mas quasi rodos escreverão em 
t>:^s'.elliano , e nenhum se atreveo a afastar-se do caminho 
Tom. V. Part. II. K cn- 



74 AÍkmorias DA Academia Real 

entáo seguido , c a formar huma nova escola. Entre os mal» 
iJlustres , D. iMancisco Manoel de Mello compoz; Comedias 
Castelhanas; e Manoel dcGalhegos, e Rodrigo Ferreira pa« 
recèrâo contenn.r-sc com os applausos que alcançarão do pu- 
blico de Madrid , e ainda mais com os elogios que merecò- 
rão o primeiro a Lope de Vega , e o segundo a João Pe- 
res de Montalvã") , que era o principal discípulo d'aquelle 
grande Cómico Hespanhol. Assim no meio de tão grande 
abund.incia de Dramáticos Portuguczcs, póde-se dizer com 
verdade que não existia jd hiun Thcatro nacional. 

A maior prova do longo tempo que durou entre nós 
o gosto do Thcatro Castelhano póde-se tirar dos escritos do 
Conde da Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes. Este 
sábio que des le a sua mocidade merecera os elogios de Boi- 
Icau, que traduzira a Arte Poética deste celebre critico Fran- 
cez , e que nos deixou na Henriqiieida hum Poema Épico , 
em que escrupulosamente observara todas as regras da ar- 
te , seguio na Poesia Cómica a torrente dos outros Poetas , 
e houve quem o applaudisse por ter escrito em vinte ho- 
ras huma Comedia de quatro mil versos. Alguns dos seus 
collegas na Academia de Historia o mais que fizerao nesta 
matéria , foi conservar o uso nunca inteiramente extincto 
dos Autos Religiosos : taes forao José do Couto Pestana , 
José da Cunha Broxado , e Fr. Lucas de Santa Carhnrina. 
Todos sabem a nenhuma influencia que teve aquella Socie- 
dade no bom gosto da Eloquência c Poesia Portugueza. 

A Musa entrtteuída de vários Entremeses foi talvez a úni- 
ca cousa nova que o Século XVII. produzio em Portugal 
relativamente ao Thcatro. Manoel Coelho Rebello he o au- 
tor desta Obra, que consta de vinte e quatro Entremezes , 
huns em Portuguez , outros em Castelhano, os quaes forao 
primeiro representados, e depois coUigidos e impressos em 
Coimbra no anno de i6j3, e em Lisboa no de léçf. Não 
conheço entre nós outros Entremezes mais antigos , toman- 
do esta palavra no seu moderno e vulgar entendimento ; e 
o Autor da Musa jocosa de vários Entremezes Portaguezes e 

Cos- 



DAS SciENCIAS DE LlSBOA. 7^ 

Castelhanos^ impressa em Lisboa no anno de 1709, confes- 
sa que imprimira esta nova coilccção , por ver que haven- 
do hum só livrinho intitulado Musa entretenida ^ este se ti- 
nha impresso segunda vez , pela falta que havia de Entre- 
mezes Portuguczes. 

Entre tanto a Opera Italiana transplantada para Lisboa, 
e aqui sustentada pela magnificência d' ElRei D. João V. 
fez nascer ainda hum novo género monstruoso de espectá- 
culo : fallo das Operas Fortuguezas , representadas nos Thea- 
tros públicos do Bairro alto c Mouraria desde o anno de 
1733 até o de 1741. Estas peças que alias não são estimá- 
veis nem pela invenção, nem pelo enredo, nem pelo estilo 
e linguagem , tem muita graça cómica , e (se me he lici- 
to assim dizello) huma certa originalidade que debalde se 
procura cm todos os nossos Dramáticos do século antece- 
dente. Não se sabe o verdadeiro autor de todas aquellas 
Operas: cilas se attribuem em grande parte a António José 
da Silva, Poeta menos conhecido pelas acções da sua vida, 
do que pelo seu trágico fim. 

A' Sociedade da Arcádia estabelecida no anno de 175'^, 
se deve privativamente a restauração do Theatro Portuguez. 
Já oito annos antes hum de seus membros , Francisco José 
Freire , havia pretendido rcsuscitar o Theatro clássico em Por- 
tugal , com o mesmo zelo com que o seu contemporâneo 
Ignacio de Lusan pretendera renovallo em Hcspanha {a) . Es- 
tes dous Escritores jurando nas palavras de Aristóteles, su- 
jeitárão-sc inteiramente á sua theoria poética; e o Filosofo 
Grego , que desde então cessava de ser o oráculo das Scien- 
cias da razão , em que eminentemente se distinguira , to- 
mou hum novo e assas absoluto império sobre a Poesia Dra- 
mática. Comtudo por mais judiciosa que aquclla thecria pa- 
recesse a Freire e a Lusan , estava ella muito em contra- 

K ii dic- 

{a) A pr.meira Ldiç.To da Arte lo.-tlca Je Fraiuisco Josú Freire he 
fjiia cm 1748. Lusan tinha publicado a sua l-'octica cm 1737; e niorreo 
fin 1754. 



y6 Memorias DA Academia Real 

dicção com a opinião publica , para ser repentinamente se- 
guida pelos nossos Dramáticos", era preciso fazer conhecida."? 
as Escolas Franccza e Italiana , que tomando já ha mais tem- 
po por modelo o mesmo Aristóteles, tinhao accommodado 
as regras por cllc dictadas ás novas e mui diversas cir- 
cunstancias dos tempos e lugares; e era também necessário 
que Poetas de bom engenho se exercitassem em composi- 
ções novas, c que cativassem a attcnção publica, não se 
contentando unicamente com libertar o Theatro Portuguez 
do jugo dos Hespanhoes, para o hircm novamente sujeitar 
ao dos Francezcs , ou Italianos. Eis-aqui o que tez a Arcá- 
dia : Freire traduzio a Merope de MaíFei , c a yíthalia de 
Racine; Garção, Diniz, e Quita exercitárão-se em todos os 
géneros de Poesia Dramática. 

Custão a arrancar , como já disse , do espirito publico 
hábitos inveterados ! O Theatro Portuguez caminhou então 
por muito tempo sem direcção alguma , e com inteira incer- 
teza. Comedias Castelhanas , ou feitas segundo o gosto Cas- 
telhano , recheadas com os costumados epithctos de Novas 
c Famosas ; Dramas Francezcs c Italianos de Voltaire , Mo- 
lierc , Metastasio , e Goldoni , accommodados com melho- 
res intenções do que feliz eíFcito ao chamado gosto do pu- 
blico Portuguez , inundarão simultaneamente o nosso Thea- 
tro. Accrescco a decidida aceitação da Opera Italiana, que 
foi levada nos dous últimos Reinados ao maior auge de es- 
plendor ; e também a pouca attenção , que os nossos bons 
Poetas modernos derão ao